A boa “execução” da recepção que permite gerar essa sensação de acolhimento depende das atitudes dos atores que terão contato com o estudante. Na UnB, os estudantes universitários em geral podem ser acolhidos por professores, outros estudantes e servidores da universidade, no caso dos estrangeiros ou estudantes de outras cidades, esse acolhimento pode ocorrer também por pessoas de origem próxima ou da mesma origem, além de vizinhos,
75 pessoas que vem a conhecer durante a estadia ou organizações que desempenham este serviço, já os estudantes do Programa PEC-G, além de todos esses citados, também podem ser acolhidos pela coordenação do Programa na instituição e pelos estudantes do próprio programa, pois acabam criando uma certa rede de apoio, facilitada por essa centralidade criada através da coordenação do programa.
Para identificar quem está proporcionando ou não aos estudantes PEC-G essa sensação de acolhimento, quais deles recebem ou não esse tipo de acolhimento além de características mais específicas deste acolhimento ou falta dele, foi perguntado aos estudantes, por quem eles se sentiram acolhidos no período em estiveram no Brasil.
A coordenação do PEC-G na INT recebeu a maior porcentagem de marcações (67%), resultado que pode ser justificado pelas ações desenvolvidas pela INT em relação ao acolhimento destes estudantes nos últimos anos, como foi citado acima. Outra motivação que pode explicar esse resultado é o fato de muitos estudantes terem contato com a INT antes da chegada ao Brasil, pois muitos recebem informações sobre a cidade e a universidade e acabam mantendo um contato com a coordenação do programa e o mesmo ocorre com os estudantes transferidos que mantém contato com a coordenação durante todo o processo de transferência.
Isso faz com que cheguem à UnB com um certo vínculo com este servidor e muitas vezes o tendo como única referência de apoio, além disso, na maioria das vezes, esse servidor é o primeiro representante da IES que o estudante tem contato e por ser representante do programa, pode ser visto como a fonte mais confiável de informações para esse processo de adaptação. O que pode mudar rapidamente a partir do momento que o estudante tem contato com outros atores. Esses aspectos reforçam a importância do papel da coordenação do PEC-G nas IES, preferencialmente tendo um servidor específico como referência e possa transmitir essa confiança ao estudante.
Outros atores deste processo que muitas vezes estão entre os primeiros a ter contato com os estudantes PEC-G, são seus compatriotas, em muitos casos são parentes ou amigos que indicaram o programa, a cidade, a universidade ou até o curso, e esse contato permite um apoio mutuo tanto financeiro quanto psicológico e social, transmitindo confiança e segurança na chegada à cidade. Neste sentido a coordenação do PEC-G incentiva o contato entre o estudante que está chegando e seu compatriota veterano na UnB, e em alguns casos essa iniciativa é tomada pelo próprio estudante veterano que reuni seus compatriotas para dividir aluguel de moradia e que após o contato na universidade acaba incluindo estudantes de outros
76 países de acordo com a conveniência. Em certos casos, esse contato entre os compatriotas também ocorre através das embaixadas, associações de estudantes dos países ou contatos de formas variadas. Considerando a condição em que esses estudantes chegam à IES, esse contato com outra pessoal do seu país de origem pode ser fundamental para uma boa adaptação à cidade ou a Universidade, visto que podem trocar informações sobre as diferenças culturais a partir de uma mesma perspectiva, também manter vivas algumas tradições ou costumes que acabam por minimizar a dificuldade de adaptação ou a falta que muitas vezes sentem do país, e quando podem agir, opinar e até mesmo falar sua língua diminui essa sensação.
Gráfico 12 - Atores que proporcionaram acolhimento
Fonte: Questionário aplicado aos estudantes PEC-G da UnB, 2018.
No questionário, 56% dos estudantes responderam se sentir acolhido por compatriotas, o segundo grupo com maior porcentagem, isso mostra a importância desta relação no processo de adaptação às vivências como estudante no exterior. Esta pergunta também gerou alguns dados interessantes, um deles, esta diferença na sensação de acolhimento entre os continentes, pois entre os africanos 64% se sentiram acolhidos por compatriotas, já entre os latino-americanos e Caribenhos foi apenas de 22%; com todos os demais “acolhedores” as mulheres informaram se sentir mais bem acolhidas que os homens, com exceção dos compatriotas, onde 66% dos homens se sentiram acolhidos e apenas 31% das mulheres; dos estudantes de Benim, 78% se sentiram acolhidos por compatriotas, já os angolanos, apenas
0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% Coordenação do PEC-G na UnB:
Compatriotas: Estudantes PEC-G: Professores: Estudantes da UnB: Vizinhos: Servidores da Universidade: Outros: 67% 56% 52% 38% 35% 23% 18% 10%
No período que esteve no Brasil, você se
sentiu acolhido(a), por:
77 33%. O que pode identificar uma diferença cultural no tratamento entre seus pares em ambientes fora de suas culturas e a diferença desse tratamento entre os gêneros. Para um entendimento destes resultados, é importante considerar que cada cultura tem uma forma de agir com o acolhimento, por isso, ações que possam gerar essa sensação de acolhimento em uns estudantes podem não gerar em outros.
Nesse processo, os professores estão na posição mais importante, pois são responsáveis pela prestação do serviço fim da universidade que é o ensino, e nessa função mantém uma relação com os dramas e incapacidades que possam ser vividas por esses estudantes para conseguirem o objetivo de concluir o curso, isso faz com que suas atitudes nesta relação possam ser, de muito benéficas a muito danosas no processo de enfrentamento das dificuldades vividas no processo de aprendizagem. E o papel de “autoridade” e o respeito que os estudantes, principalmente africanos e latino-americanos, tem pelo professor, reforça a importância deste personagem no processo de acolhimento. No exercício de suas funções em sala de aula, o professor tem uma visão que permite identificar estudantes com os mais variados tipos de dificuldades, podendo assim, encaminha-lo para algum tipo de apoio ou apenas informando a coordenação do PEC-G na universidade no caso desses estudantes. Como foi visto, é cobrado da participação do professor um engajamento para além das aulas de conteúdo das disciplinas ministradas, mas uma atenção e sensibilidade pelo bem-estar do estudante. Apontando para que um conjunto mais amplo de agentes e instituições estejam conectadas para esse fim.
Outro aspecto que pode ser aproveitado pelos professores no caso de estudantes estrangeiros, é a troca cultural em sala de aula, aproveitando a presença destes estudantes na sala para entender como determinado assunto é tratado em seu país ou continente, além de estar em uma posição que permite combater o racismo e xenofobia entre os estudantes. Na pesquisa, apenas 38% dos estudantes se sentiram acolhidos pelos professores, em alguns cursos como as Engenharias (18%) e Ciências Econômicas (20%) essa porcentagem foi ainda menor. Outros dados curiosos: 63% dos estudantes de países com o inglês como língua oficial se sentiram acolhidos pelos professores, já dos estudantes de países com o português como língua oficial, apenas 20%, destes, nenhum dos angolanos se sentiu acolhido por professores; e entre às mulheres 54% e 31% dos homens. Esses dados mostram uma complexidade desta relação entre professor e estudante PEC-G (em geral latino-americanos e africanos) e que existem vários fatores que a influenciam a qualidade do acolhimento. Também observasse a falta de preparo e treinamento dos professores com o acolhimento destes estudantes.
78 Os colegas de turma também podem desempenhar um papel muito importante no acolhimento, por terem um convívio diário, são eles que podem gerar o sentimento do estudante PEC-G se sentir “aceito pelo grupo” e assim manter uma vida social que vai além dos muros da universidade, podendo gerar amizades, além de auxílios nas demandas da sala de aula, alguns estudantes relatam que após iniciar aproximação com outros estudantes da turma, melhoraram o desempenho acadêmico, pois compartilharam informações sobre às matérias e até sobre características dos professores. Esse contato pode ser a melhor forma de troca cultural entre esses estudantes. Assim como ocorreu com os professores, o sentimento de acolhimento oferecido pelos estudantes da UnB foi baixa, apenas 35%, esta sensação foi maior entre os latino-americanos e caribenhos (56%) do que com os africanos (32%), dentre eles, os de PALOPs foi de apenas 20%; as mulheres (54%) também se sentiram melhor acolhidas pelos estudantes da UnB do que os homens (29%); e dos estudantes de países com IDH alto ou médio 47% e dos países com IDH baixo 30%. Neste caso também observasse uma certa complexidade nesta relação, além da grande quantidade de fatores que influenciam e permitem esse acolhimento. Mostrando que existe uma demanda por políticas da universidade para motivar esse acolhimento e também pode identificar a falta da interferência do professor para promover esse acolhimento.
Já o acolhimento oferecido pelos estudantes veteranos do PEC-G foi percebido por 52% dos estudantes, essa maior porcentagem pode ser justificada pelo contato motivado pela coordenação do PEC-G na UnB e mostra a importância do estímulo desse contato. Os servidores da universidade, como os secretários de curso, foram acolhedores com 18% destes estudantes. Os vizinhos, que estão entre os diversos contatos que estes estudantes tem fora da universidade no período da graduação (ou também dentro da UnB no caso de estudantes que vivem na Casa do Estudante), foram acolhedores com 23% dos estudantes PEC-G. Além disso 10% disseram terem sido acolhidos por pessoas que não estão nesses perfis apresentados como opção na pesquisa.
Me senti muito acolhido também pelos estudantes (veteranos) do PEC-G foram abrindo os meus olhos de como é o Brasil e como devo andar e com quem conviver e mi ajudaram muito no entendimento de algumas coisas que eu não sabia (Comentário de estudante).
Outros dados curiosos, e neste caso considerando o percentual médio total das questões, em relação a língua oficial do país de origem, os estudantes anglófonos (48%)
79 foram os que se sentiram melhor acolhidos, já os lusófonos (27%) foram os que se sentiram menos acolhidos. Entre os gêneros, as mulheres (46%) se sentiram melhor acolhidas que os homens (34%). Como exemplo da diferença entre os cursos, entre os estudantes de Relações Internacionais o percentual foi de 47%, já entre os estudantes dos cursos de engenharia, foi de 26%. Além do mais, nos comentários da questão houve relatos de acolhimento por pessoas com quem dividiram moradia, assim como com “irmãos” de igreja, ou mesmo por algum tipo de ajuda da INT.
Pode-se observar que a participação das pessoas que oferecem o acolhimento tem um papel muito importante nos obstáculos enfrentados durante a graduação e no sucesso ou fracasso pessoal para os estudantes do Programa, pois interfere diretamente no desempenho acadêmico, no intercâmbio cultural, na saúde mental destes estudantes e até mesmo nas possibilidades de intercâmbio comercial ou acadêmico que possam surgir após o retorno do estudante para seu país. Outro aspecto que se mostra evidente é a importância da iniciativa e atitude das pessoas envolvidas neste acolhimento, pois muitos aspectos deste acolhimento não são “obrigações” para esses agentes públicos e demais pessoas, assim depende de uma certa “boa vontade”. E no perfil dos acolhidos, a pesquisa mostra que o acolhimento foi menor para homens negros lusófonos.