De um modo geral, podemos dizer que o acolhimento evita ou previne eventuais dificuldades que os estudantes possam passar durante o período da graduação. Como vimos anteriormente, a chegada à universidade é um momento crucial para os estudantes, que é agravado no caso de estrangeiros com poucos recursos financeiros, o que exige um acolhimento focado em determinados aspectos que podem influir em toda vida acadêmica destes estudantes35. E para entender quais aspectos do acolhimento estão recebendo atenção, ou não, conhecer a diferença dos perfis dos acolhidos e entender melhor essas situações, e
35 Julgo importante esclarecer que a chegada do estudante ao Brasil, não se deu de forma direta, para todos os estudantes, em Brasília, pois grande parte realizou o curso de português em outra cidade antes de iniciar a graduação na UnB, e tantos outros vieram transferidos de outras IES.
80 assim auxiliar no desenvolvimento de ações para auxilia-los, foi perguntado aos estudantes, quais as dificuldades foram vividas nos primeiros dias, como pode ser visto no Gráfico 13.
Gráfico 13 - Dificuldades vividas nos primeiros dias no Brasil
Fonte: Questionário aplicado aos estudantes PEC-G da UnB, 2018.
Dentre as dificuldades relatadas nos primeiros dias no Brasil, a financeira foi informada por metade dos estudantes, variando entre os países, por exemplo, entre os beninenses 80% disseram ter passado por esse tipo de dificuldade, já entre os congoleses apenas 28%. Observemos o seguinte comentário:
“Passei por dificuldades financeiras sobretudo por causa da diferença cambial entre a moeda daqui e a do meu país, o que faz com que a família tenha que mandar muito dinheiro de lá para cá e que não dava muita coisa aqui.” (Comentário estudante do Benim)
Essa diferença não depende apenas da condição financeira do estudante ou de seu país, mas também da falta de informações que deviam ser consultadas pelos candidatos ou informadas pela embaixada ou IES antes da vinda destes estudantes ao Brasil, como por exemplo, a diferença cambial e detalhes do custo de vida na cidade de destino, principalmente em relação ao aluguel de imóveis, que tem maior impacto no orçamento, pois essas
0% 10% 20% 30% 40% 50% Dificuldades financeiras:
Sentiu vontade de desistir do PEC-G:
Dificuldade com a Língua portuguesa:
Falta de informações sobre a cidade, a universidade ou emissão de documentos: Sentiu que a cidade ou a universidade não te
ofereciam segurança:
Outra dificuldade:
Ficou decepcionado por não encontrar o que esperava em algum aspecto:
50% 40% 31% 29% 25% 17% 13%
Quais destas dificuldades foram vividas
nos seus primeiros dias no Brasil?
81 informações podem determinar os valores que serão enviados com, ou para, esses estudantes para a chegada ao Brasil. A porcentagem, 50%, dos estudantes que informaram dificuldade, reflete a importância destas informações citadas serem repassadas a esses estudantes entes de escolherem a cidade em que irão estudar.
Uma dificuldade vivida por muitos estudantes PEC-G quando chegam ao Brasil, é com a comunicação devido à falta de conhecimento da língua portuguesa, problema que aparentemente atinge mais os estudantes que chegam para realizar o curso de português para estrangeiros, mas pode ser vivido até por estudantes de países com o português como língua oficial ou por estudantes aprovados no Celpe-Bras antes da vinda ao Brasil. No questionário apresentado, 31% dos estudantes informaram que tiveram dificuldades com a língua nos primeiros dias no Brasil, entre os estudantes que fizeram o curso de português no Brasil apenas 32% tiveram problema, dos que chegaram com o Celpe-Bras de países que não tem o português como língua oficial, foram 50%, já entre os que tem o português como língua oficial, apenas 20% informaram ter tido dificuldades com a língua nos primeiros dias. Esses dados mostram que podem haver outros aspectos que interfiram no impacto desta dificuldade, como por exemplo a recepção por parte de compatriotas, como é o caso dos beninenses e congoleses que tem uma comunidade grande entre os PEC-Gs e geralmente acolhem seus compatriotas auxiliando em questões como a emissão de documentos, registro na UnB e habitação.
Ao chegar à cidade e universidade que irá cursar a graduação, o estudante precisa realizar alguns tramites burocráticos como emissão de documentos, registro na universidade, procurar hospedagem e para isso precisa se locomover pela cidade. Foi falado acima, sobre a importância do envio de informações prévias sobre esses temas aos candidatos aprovados no Programa antes da vinda ao Brasil para evitar dificuldades com esses temas. E no questionário, 29% dos estudantes informaram ter tido dificuldades nos primeiros dias no Brasil por falta de informações sobre a cidade, a universidade ou emissão de documentos. Esses direcionamentos podem evitar situações como a da estudante. Como exemplo:
Me informaram que ia ser recebida no aeroporto pelo pessoal da faculdade e iam providenciar um alojamento para mim até eu conseguir um para mim mesmo, mas não foi o caso e dormi na rua e depois recolhida por um desconhecido fui na casa dele onde fiquei uma semana (Comentário estudante A).
A minha primeira decepção foi como era difícil conseguir algum lugar decente pra morar. Pois as imobiliárias cobram taxas absurdos e exigem muita coisa que o
82 aluno estrangeiro não seria capaz de providenciar. Exemplo sendo os fiadores e a taxa de caução (Comentário estudante B).
Nestes depoimentos se destaca a importância de, além de receberem as informações suficientes, que essas informações estejam de acordo com a realidade que será encontrada. Essas dificuldades geralmente são temporárias, pois o estudante aprende os procedimentos com as tentativas, mas pode causar grande frustração e até prejuízo, por exemplo no caso de uma má orientação sobre o aluguel de um imóvel pode comprometer a renda do estudante de maneira que o prejudique em relação a demais despesas essenciais. Assim, os estudantes traçam estratégias pessoais e coletivas para vencerem as dificuldades durante a estadia no país. Algumas formas encontradas por estudantes estrangeiros no país para vencer as dificuldades em alguns contextos é a locação de moradias coletivas (SOUZA, 2014).
A segurança também é um aspecto que pode interferir fortemente na sensação de acolhimento dos estudantes e que também define essa primeira “impressão” da cidade. No questionário, 25% sentiram que a cidade ou universidade não ofereciam segurança, (Lembrando que, incluem estudantes que não chegaram em Brasília, os transferidos e que fizeram o português em outra cidade.), esse aspecto afetou ainda mais as mulheres, com 46% e apenas 17% dos homens. Além da segurança na universidade e no caminho entre a casa, a localização da moradia do estudante pode ser determinante para essa sensação, em Brasília por exemplo, a criminalidade varia muito de uma cidade para outra, o que mostra que uma orientação prévia pode ser muito significativa nesse aspecto.
Os estudantes também foram questionados se ficaram decepcionados por não encontrar o que esperavam no Brasil, e 13% responderam que sim, essa questão mostra um decepção com a imagem que foi criada antes da vinda ao Brasil. Além das dificuldades apresentadas na questão, alguns estudantes relataram questões relacionadas ao racismo, diferença cultural, dificuldade de conseguir moradia por exigências como fiador e caução ou mesmo algum tipo de antipatia dos brasilienses.
Segundo eles, esperava uma sociedade mais homogênea, no sentido em que há uma miscigenação maior de descendentes de africanos escravizados. Assim, disseram que infelizmente perceberam que a imagem que tinham do Brasil era bem utópica. E, que o fato de terem conhecido pessoas que já estavam em Brasília facilitou bastante a chegada à cidade. Nesse sentido, há uma formação de rede de solidariedade, em que os recém-chegados são acolhidos pela a comunidade veterana de africanos nas universidades (LIMA, 2017). O que
83 justificaria a formação de grupos em momentos intervalos das aulas, horários de refeições, etc. Essa forma mais que espontânea de sociabilidade é também fortalecida por valores identitários em contextos em que há sentimento enquanto estrangeiro (SIMMEL, 2005).
As dificuldades encontradas nos primeiros dias na universidade, tem uma carga psicológica mais intensa por toda pressão e expectativas deste momento, o que gera em muitos estudantes a vontade de desistir neste período inicial. Na pesquisa, 40% dos estudantes sentiram vontade de desistir nos primeiros dias no Brasil, refletindo a consequência destas dificuldades vividas neste período, o que pode gerar traumas que são levados por um grande período do curso e prejudicar o desempenho acadêmico. Essa alta porcentagem reforça a importância do papel das embaixadas e da universidade, no sentido de passar informações suficiente e confiável antes da vinda ao Brasil e após a chegada, além do acolhimento proporcionado pela universidade proporcionando uma sensação de acolhimento que considere o momento de mudanças vivido pelos estudantes e que também tenha foco em ações que oriente em questões como dificuldade financeira, com a língua portuguesa ou burocracias exigidas.