2. The Nepali context
2.2. Social vulnerability in Nepal
Na nova empresa Geraldo passou a produzir móveis cujo desenho havia recentemente desenvolvido dentro da Unilabor. Mas, em 6 de abril de 1966, as duas empresas assinam um “convênio de produção da nova linha de móveis” que estabelece o direito da Unilabor produzir esses mesmos móveis, mediante pagamento de comissões à Bioni & Companhia. Depoimento de Marcel Marmor dá conta de que nos dois primeiros anos da Hobjeto a empresa fabricou exatamente a “linha nova” da Unilabor252
.
250
Depoimento de Waldenes Ferreira Japyassu. O fator principal talvez estivesse ligado ao desgaste na gestão daà o u idade,àdaà ualàWalde esàpa ti ipavaàativa e te.à/àO se vaçãoàlate al:àaàe p essãoà quando falta pão todo mundo briga, ninguém tem razão à àusadaàe àtexto de frei João Batista (SANTOS, João Batista Pereira dos.
Histórico da experiência do Vergueiro. São Paulo, 1968, datilografado, 21 p.), quando descreve essa mesma
crise e também foi usada por Álvaro Volpe Bacelar, em entrevista em outubro de 2012, também para se referir à mesma crise.
251
Ver p. 11 de: SANTOS, João Batista Pereira dos. Histórico da experiência do Vergueiro. São Paulo, 1968, datilografado, 21 p.
252
Fig. 33 – Mesa Bergmiller (produzida na Unilabor e na Hobjeto) e cadeira Hobjeto dos primeiros anos da empresa. [crédito da imagem: Acervo da Família de Geraldo de Barros]
Fig. 34 – Camas de solteiro que podem ser empilhadas para uso como cama-beliche, integrantes da “linha nova”, desenhadas na Unilabor mas produzidas apenas na Hobjeto. [crédito da imagem: Acervo da Família de Geraldo de Barros]
Isso reforça e dá sentido à constatação de que a saída de Geraldo se deveu a insatisfação com a derivação excessivamente gestionária da comunidade, o que diminuía o espaço para a discussão e tomada de decisões quanto à produção do móvel. Ademais, a falta de capital de giro e de planejamento a médio prazo, que apesar de figurarem nos planos de frei João não se realizavam na prática, tornava sua permanência desinteressante pois, para Geraldo, não fazia sentido um trabalho que não se transformasse. Geraldo era alguém inquieto, depuseram pessoas que com ele conviveram intimamente, não conseguia permanecer inativo, não era alguém de esperar que as situações se resolvessem por si253.
A semelhança pode ser verificada mediante comparação dos móveis Unilabor da fase madura (Padrão UL) com os primeiros móveis produzidos por Hobjeto, entre 1964 e 1965 (ver figs. 26, 27) e reside na configuração retilínea, no uso de componentes e subcomponentes de medidas complementares (característica que permaneceu ao longo de décadas na Hobjeto) e na possiblidade de combinação entre as partes (com a produção de caixas, conjuntos e subconjuntos). A diferença, talvez a única, reside no fato de a “linha nova” abolir o uso do tubo metálico estruturante, substituído por perfis de madeira maciça. Os dois tipos são conhecidos por meio de exemplares encontrados em uso até hoje, por fotos de anúncios publicitários e catálogos254, além
de desenhos técnicos.
253
Depoimento de Michel Favre, genoàdeàGe aldoàdeàBa os,àe à o fe iaàpú li aà aàe posiçãoà Ge aldoàdeà Barros - odulaçãoàdeà u dos à oà“E“CàPi hei osà “ãoàPaulo àe àsete oàdeà 9.
254
Sobre a data do catálogo Unilabor desenhado por Wollner, que tenho como sendo 1958, ainda é necessário certificar-se: a empresa Planegraphis [Planejamentos Gráficos Planegraphis, ver: PRÊMIO Ampulheta-1965.
Folha de São Paulo, 21-2-1965, p.11, caderno Assuntos Diversos. / ver também: CALVO, Manuel. Exposição no Museu de Arte Contemporânea. Planegraphis, São Paulo, 1965. / ver também: Diário Oficial da União, 27 de
janeiro de 1969, p. 828, Seção III.], que é creditada como a casa impressora, talvez não existisse à época, sendo (CONTINUA ...)
Fig. 35 – Acima: estante Hobjeto, em pórticos de madeira, com caixas independentes, possibilitando configuração de acordo com a vontade do comprador [crédito da imagem: Acervo da Família de Geraldo de Barros] / abaixo: estante multifuncional Unilabor [crédito da imagem: German Lorca / Acervo da Família de Geraldo de Barros]
posterior; informações dão conta que foi fundada por Geraldo de Barros e Alexandre Wollner, tendo como sócios de capital membros da família do artista plástico Nélson Leirner, senão o próprio. A questão é saber: quando?
Mas em 6 de abril de 1966 as duas empresas assinam um “convênio de produção da nova linha de móveis”, que dá à Unilabor o direito de produzir tais peças mediante pagamento de comissão a Bioni & Companhia. Antonio Bioni informa255 que o
intuito desse contrato era o de auxiliar a Unilabor num momento de dificuldade financeira mas que, devido à enorme “má vontade” dos donos da Unilabor, não chegou a ser posto em prática, pois não foi possível acordar detalhes operacionais “por puro ciúme”, diz. “Rasguei o contrato, de raiva”.
Fig. 36 – Anúncio da “nova linha” da Hobjeto. Notar a estante e sua construção em caixas e pórticos, estes agora em madeira e não em metal, como eram na Unilabor, assim como a presença das “caixas” nos bufês horizontais e na estante. Atente-se também, complementarmente, para a construção da frase com um misto de imagem, texto e sinais de pontuação, numa alusão à poesia concreta. [crédito da imagem: Revista Casa & Jardim, n.136, abril de 1966, p.28]
255
A autoria não é contestada por ninguém pois todos, na época e hoje, são unânimes em apontar Geraldo de Barros como autor; porém, dada a situação coletiva da qual é fruto o móvel, a autoria da obra de arte na época da indústria é coletiva, e poderia ser hipoteticamente atribuída ao grupo, o que faria justiça ao programa moderno da arte incorporada na indústria, do qual o concretismo e Geraldo em particular, são tributários. Portanto não foi a autoria, que nesse momento não é colocada em dúvida, mas sim a propriedade do desenho o que esteve em disputa. A disputa pelo direito de produção não traz à tona uma reivindicação de autoria por parte da Unilabor em relação a Geraldo, ou a Bioni, ou à Bioni & Companhia, ou à Hobjeto até porque todos os companheiros, em registros da época e em depoimentos posteriores, se referem aos móveis em questão como sendo desenhados por Geraldo, tanto os da “linha nova” da Hobjeto quanto os anteriores, da fase do Padrão UL256,
reconhecendo-o explicitamente como o único autor. Quanto a isso não parece que tenha havido disputa, ao contrário. Geraldo era benquisto e admirado por todos ou a maioria dos companheiros. A questão que se colocava dizia respeito a um arranjo ao qual se viram obrigadas as partes e que consistia na possibilidade de a Unilabor produzir a linha nova desde que pagasse uma comissão a Geraldo, considerado o responável por sua criação.
O que é possível dizer é que a Hobjeto, ao longo das décadas seguintes (1970 e 1980) tornou-se uma empresa desejável do ponto de vista do emprego de designers e arquitetos, que a consideravam257 um excelente lugar para se trabalhar. A Hobjeto
talvez tenha sido uma Unilabor que deu certo.
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Padrão UL foi o nome dado ao conjunto de móveis da fase madura da Unilabor, a partir de 1958 aproximadamente, a partir de quando a empresa deixa de produzir sob encomenda.
257
O trabalho de concepção foi feito na Unilabor, tendo-se utilizado sua estrutura material e humana; sendo assim os ex-companheiros, mesmo não autores no sentido estrito, julgavam ter algum direito sobre o desenho resultante, ao menos o direito de produzir os móveis correspondentes e lucrar com eles. O contrato mencionado reconhece esse direito, enquanto o pagamento de comissão a Bioni & Companhia reconhece a autoria de Geraldo de Barros. Do ponto de vista do direito empresarial contemporâneo a questão de autoria compartilhada pode talvez ser colocada. Porém não se colocou à época.
Frei João usa o fato de um beliche (ver fig. 37), desenhado por Geraldo, haver sido premiado na VI UD, em 1965, para alardear, em carta que pede a entidades estrangerias apoio financeiro para a Unilabor, já na época das dificuldades narradas no capítulo 1, que a Unilabor tinha peças premiadas na UD.
Fig. 37 – Beliche da Hobjeto, Prêmio Roberto Simonsen, VI UD. Foto: acervo Alcântara Machado Feiras e Exposições.