3. Theoretical framework
3.4. Social construction of society
“Até que em maio de 66 sobreveio a maior das graças: a derrocada da UL. A bem dizer, a morte da empresa anunciada por mim já em 65, em
282
manifesto também assinado pela FNT, causou ao país um impacto de certo modo maior que a sua fundação em 54. O manifesto foi distribuído por todo o país em 25 mil exemplares; traduzido em inglês por americanos, foi divulgado na Inglaterra em 5 mil exemplares, correu a América Latina toda [...] chegou às mãos de Robert Kennedy, Eugene McCarthy e W. Fullbright [...], jornal Le Monde [...]. Amigos do exterior mandaram-me, logo após a publicação, 5 mil dólares para lutar contra a falência; de South Bend, Indiana, EEUU, veio uma carta de um americano – voluntário do Papa e muito anti-capitalista que me visitara pouco antes – com um cheque em dólares e mais a proposta de um empréstimo de 100 mil dólares por três anos a 3,5% ao ano, juros normais de lá e finalmente, um brasileiro – entusiasta do ideal da UL – procurou para oferecer duzentos milhões de cruzeiros a juros baixos e prazo indefinido: ‘Uma coisa como esta não pode morrer assim, por falta de dinheiro’, disse ele. Eu acabava de sair do hospital, e só teria aceitado propostas tão tentadoras se fosse realmente louco. A coisa toda merecia morrer. Nunca a palavra do Evangelho: se o grão não cair em terra e não morrer... me pareceu tão válida. E escrevi ao americano e disse ao brasileiro que haviam chegado tarde demais.”283
O texto acima é de 14 de setembro de 1968 e mostra uma avaliação posterior ao fim da Unilabor. Sua importância, além de mostrar o espírito que dominava frei João nesta fase crítica, está em delimitar maio de 1966 como a data do início da derrocada. Duas outras cartas de frei João, sem data, manuscritas, encontradas no arquivo da ordem em Belo Horizonte e dirigidas ao padre provincial, são peças centrais na
283
Ver p. 13-4 de: SANTOS, João Batista Pereira dos. Histórico da experiência do Vergueiro. São Paulo, 1968, datilografado, 21 p.
compreensão da crise que levou ao fim da Unilabor. Nelas frei João faz uma série de solicitações, esclarecimentos e conjecturas, tentando arranjar o quebra-cabeças de responsabilidades, valores monetários e providências práticas que a situação falimentar da Unilabor havia estabelecido. De uma delas se tem apenas a página inicial284
mas da outra existe a íntegra285
(14 páginas manuscritas), embora não seja possível estabelecer a ordem correta de algumas páginas, ou faltem algumas páginas. A seguir um relato de seus conteúdos.
3.3.1.1. Documento DG2P53D034
Pela leitura dessa carta fica-se sabendo que há uma ação de despejo, movida pela Ordem contra a Unilabor. A Ordem quer despejar a Cooperativa Unilabor dos edifícios que lhe pertencem, como forma de resgardar o que é seu, para evitar que os edifícios, de propriedade dos dominicanos, fossem envolvidos na quitação de dívidas. Há uma ação trabalhista contra a Unilabor movida pelo advogado Mário Carvalho de Jesus, representando companheiros que precisavam interpelar a Unilabor para ter alguma esperança de receber suas respectivas partes. O DAC deverá sustar ambas para permitir que a Unilabor permaneça em sua sede até pagar as dívidas:
IAPI e Receita Federal (imposto de renda), num total de 20 milhões
30 milhões ou mais de imposto de consumo atrasado
20 milhões de vendas e consignações
284
SANTOS, João Batista Pereira dos. Padre Provincial. Carta manuscrita, sem data [c.1965-66]; Arquivo da Ordem dos Dominicanos, Belo Horizonte, item DG2P53D034.
285
SANTOS, João Batista Pereira dos. Meu caro Pe. Provincial. Carta manuscrita dirigida a frei Alexandre; sem data [posterior a 1965, provavelmente início de 1966]; Arquivo da Ordem dos Dominicanos, Belo Horizonte, item DG2P53D033.
10 milhões para a Prefeitura
3.3.1.2. Documento DG2P53D033
Esta carta, também dirigida ao “padre provincial”, tem 14 páginas. É posterior à analisada acima. Sua leitura permite obter as seguintes certezas sobre os acontecimentos:
Miriam Braga, Alice Nigro Sobrinha, Dorival Geres e o Centro Social Cristo Operário são sócios na loja da Praça da República
o gerente da Cooperativa tem um salário de 500 mil cruzeiros
reunião na Unilabor à qual comparecem Nelson Abrão, Miriam, Alice, Dorival, com os sócios, mas Mário Carvalho de Jesus não comparece, embora fosse esperado
a Cooperativa já aprovou uma ata de dissolução, não aceita pelo DAC pois desobedece seu próprio estatuto (da cooperativa) que manda que o liquidante deve ser nomeado pela cooperativa, o que não ocorreu; Cooperativa por fim nomeia Alfredo Lopes como liquidante286
Alfredo é irmão do presidente da Cooperativa [trata-se de José Lopes, cuja assinatura como presidente aparece em inúmeros documentos
o presidente da coopeativa muda de endereço residencial e passa a propriedade do imóvel para os filhos para se precaver contra possível penhora, a conselho do advogado [nome suprimido]
286
Isto é confirmado por Alfredo em seu texto: SILVA, Alfredo Lopes da. Ad memoriam Unilabor: nascimento e fim. São Paulo, datilografado, inédito, 1998, 38 p.
empresa não paga mais ninguém e “[nem tem] dinheiro vivo para pagar os sócios e os empregados”; estes últimos se demitem e movem ação contra a Cooperativa através de Mário Carvalho de Jesus
a Cooperativa tem um interventor que exige que a escrita fiscal seja posta em dia de acordo com a realidade, o que significa declarar os 87 milhões devidos “ao agiota”
esse valor, uma vez incluído na escrita fiscal da Cooperativa, “deu alta de caixa, pois foi dinheiro que realmente não entrou”, diz frei João; mas em outubro [provavelmente de 1966] a alta já estava em 170 milhões; frei João e [nome suprimido] não conseguem fazer chegar todos esses valores a zero pois não havia documentos que permitissem