4. Methods
4.1. A qualitative research design
A primeira peça de Leilah Assumpção, escrita em 1964 e encenada pela primeira vez em 1979, diferentemente de Fala Baixo, Jorginho ou Roda Cor de Roda, não teve como meta o ataque à família burguesa. Partindo de sua experiência pessoal – jovem estudante, moradora de pensionato, criada em família de classe média, porém simpatizante dos movimentos sociais
42 BUENO, Clóvis. Introdução metafísica. In: Programa da peça Jorginho, o Machão. Rio de Janeiro, 1970, p. 6. 43 VIOTTI, Sergio. Jorginho, o machão. Palco+Platéia, São Paulo, n. 2, abr. 1970, p. 16.
e dos ideais libertários dos anos 60 – Leilah cria, em Vejo um Vulto na Janela, Me Acudam que Eu Sou Donzela, uma espécie de autorretrato de sua vivência e de suas impressões do período.
Em entrevista recente, a autora relembra sua primeira experiência dramatúrgica: Eu estava escrevendo uma peça, Vejo um Vulto na Janela Me Acudam que
Eu Sou Donzela, e não contei pra ninguém, porque tinha vergonha. Escrevi
escondido. Eu morava em pensionato quando era manequim, todo mundo ia para as boates, eu ia para o pensionato escrever. Claro que ninguém acreditava, achavam que eu tinha um amante, um caso. Mas meu caso era a Remington, minha maquininha de escrever.44
A peça se passa em 1964. Enquanto a cidade lá fora vive a intensa movimentação que antecedeu ao golpe militar, com passeatas de estudantes e a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, dentro do pensionato localizado na Avenida Paulista oito personagens femininas travam diálogos que acabam por refletir as preocupações e os questionamentos das jovens daquele tempo. Política, sexualidade e liberdade são alguns dos temas discutidos entre as moças.
A recepção crítica, tanto da época quanto posterior, apontou ressalvas sobre o texto. Até mesmo Leilah expressa olhar crítico sobre a sua primeira obra: “Vejo um Vulto na Janela funcionou como exercício”, ponderou. A autora reescreveu alguns de seus trechos em 1976, versão que estrearia nos palcos em 1979.
Em crítica escrita nesse mesmo ano sobre a estreia, no Jornal da Tarde, Sábato Magaldi fala sobre a imaturidade dos primeiros textos de quase todo autor brasileiro e comenta:
Não tinha sentido Leilah montar agora, na forma original, Janelas, escrita em 1964, quando eram pequenos seus conhecimentos de teatro. [...] Apenas, Leilah não foi feliz na fatura definitiva de Janelas. Mantiveram-se os defeitos primitivos e os acréscimos estão incrustrados nos diálogos quase como excrescências. [...] Um problema que Leilah não conseguiu resolver, a princípio, foi o da ação dramática. Os personagens ficam quase o tempo todo em conversas, sem que seu relacionamento crie uma tensão própria, desencadeadora de algum fato. O bate-papo estagna a evolução teatral, sempre trazida por algo exterior, não nascido do conflito entre as personagens.
[...] O propósito de justapor uma preocupação política de hoje a adolescentes que eram, na maioria, “alienadas”, falseou as psicologias, não trazendo outro benefício ao texto. Janelas ganhará, se Leilah reescrever o texto original, com o empenho único de aprimorar a estrutura dramática, e deixando de lado
a teoria política, aprendida às pressas. Porque no texto estão muitas virtudes, desenvolvidas depois na dramaturgia de Leilah.45
O professor e crítico Clóvis Garcia, em sua coluna do jornal O Estado de S. Paulo de 1979, destaca o “sentido de testemunho” dos textos censurados à época do endurecimento da ditadura e que puderam ser encenados no final dos anos 70, entre eles Vejo um Vulto:
Os novos ventos de abertura estão permitindo, no teatro, que muitos textos e autores que se conservaram inéditos, seja pela censura oficial, seja como decorrência do clima restritivo então dominante, apareçam agora nos palcos. [...] Uma das características predominantes nessas antigas e, para o público, novas peças é o sentido de testemunho da realidade brasileira nesse período, tornando-se não somente um registro histórico, mas, principalmente, devolvendo ao teatro a sua função fundamental de expressão social. “Sinal de Vida” de Lauro Cesar Muniz e “Oração Para um Pé de Chinelo” de Plínio Marcos, recentemente encenadas, estão nessa linha de contribuição. Agora Leilah Assumpção, ao comemorar dez anos de sua estreia como autora, com “Fala Baixo, Senão Eu Grito”, peça que transcendeu os limites do teatro nacional, apresenta seu primeiro texto, de 1964, com o extenso título “Vejo um Vulto na Janela Me Acudam que Eu Sou Donzela”, um testemunho do período vivido em 1963/64.46
Jefferson Del Rios, em sua crítica de 1979, também percebera a importante contribuição da peça como reflexão do momento histórico:
Os episódios referentes à mudança de regime no Brasil, em 1964, já foram submetidos a análises e estudos de historiadores, sociólogos e economistas que começam a repor a verdade, ou parte dela, em questões tão controversas. Falta, ainda, o mergulho das artes no período que marcou não apenas a brutal alteração do sistema republicano brasileiro mas, também, a radical mudança de nossas vidas.
Leilah Assumpção oferece agora uma das primeiras e mais bem-sucedidas contribuições do setor à tarefa de repensar – mesmo que emocionalmente – o país em “Vejo um Vulto na Janela, Me Acudam que Eu Sou Donzela”, peça voltada para os dias imediatamente anteriores à derrubada do governo de João Goulart.
[...] “Vejo um Vulto na Janela” termina, assim, como um réquiem por uma época. Ficção e realidade se fundem nas cenas finais que prenunciam um novo Brasil onde certas ilusões – políticas ou pessoais – não terão razão de existir.47
Sábato Magaldi, em mesmo artigo já mencionado do Jornal da Tarde, chamou atenção para o bom uso do humor em Vejo um Vulto na Janela, componente que seria determinante na
45 MAGALDI, Sábato. Faltou ação dramática a estes engraçados diálogos. Jornal da Tarde, São Paulo, 07 set. 1979, p. 15. 46 GARCIA, Clóvis. Um testemunho com boas interpretações. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 17 set. 1979, p. 23. 47 DEL RIOS, Jefferson. Janela aberta para uma realidade que agoniza. Folha de S. Paulo, São Paulo, 25 set. 1979, p. 31.
dramaturgia de Fala Baixo: “E o diálogo, com frequência, tem deliciosas tiradas de humor – dos pontos altos da criação de Leilah”.48
Diferentes limitações do texto, contudo, foram percebidas e apontadas por críticos da época. Paulo Lara, no Jornal Folha da Tarde, em 1979, assim avaliou a encenação realizada no Teatro Aliança Francesa de São Paulo:
A priori, os elementos básicos foram detectados. Mas teria Leilah atingido as mais elevadas pretensões artísticas sob o ângulo dramatúrgico? Acho que não. O enredo, embora possibilite englobar os símbolos, não vai além disso. Narra apenas. Informa somente. Os “nós dramáticos” ressentem-se de uma força suficiente que consiga amarrar a ideia proposta, dando-lhe a precisão ótica que se espera, principalmente após a definição do perfil psicológico na moldura do contexto dialético. E, no segundo ato, o que acontece? Em vez dos fatos extrapolarem, eles perseguem a narração limitada por satirizações – finas e bem construídas, por sinal – que possivelmente poderá encontrar uma resposta do grande público, sem, contudo, atingir o principal: motivá-lo politicamente.
[...] Numa síntese, este “vulto” assemelha-se a um daqueles bons champagnes, que, na hora da festa, quando se espera dele o grande estouro, acaba surpreendendo a todos um decepcionante “blip”.49
Também Clóvis Garcia faz referências às lacunas do texto e ao parco vigor dramático: O principal problema do texto, porém, está em ser apenas um testemunho, quase como se fora a apresentação de um diário, sem que houvesse uma maior estruturação dramática. Os personagens [...] são estereótipos, representando os vários tipos de posições e pensamentos da época, faltando- lhes uma força e um delineamento teatrais. Por outro lado, a história é excessivamente contada, perdendo-se em pequenos incidentes, numa forma discursiva.50
Com uma opinião mais otimista, o crítico Yan Michalski escreveu sobre a encenação da peça dos anos 80, em nova montagem:
Originalmente escrita em 1964, Vejo um Vulto na Janela, Me Acudam que
Eu Sou Donzela já revela, em estado latente, as qualidades que mais tarde (a
partir de Fala Baixo, Senão Eu Grito, 1969) fariam de Leilah Assumpção um dos mais importantes nomes da atual dramaturgia brasileira. Notável facilidade de dialogação, misturando equilibradamente o coloquial e o poético, o pungente e o agressivamente engraçado; uma compreensão aguda da psicologia feminina, combinada com um generoso inconformismo diante das opressões de que a mulher continua sendo vítima de nossa sociedade; um
48 MAGALDI, Sábato. Faltou ação dramática a estes engraçados diálogos. Jornal da Tarde, São Paulo, 07 set. 1979, p. 15. 49 LARA, Paulo. No Aliança Francesa, um vulto que não chega a impressionar. Folha da Tarde, São Paulo, 27 set. 1979,
Ilustrada, p. 23.
espírito de observação sempre alerta; uma intuição teatral muito segura, que lhe permite discutir ideias não num plano predominantemente verbal, mas através de imagens dinâmicas e ricas em noções de conflito – eis algumas dessas qualidades que já podem ser pressentidas nesta primeira obra da então muito jovem autora. 51
Interessante notar como a passagem acima, que abre o artigo, parece estar “contaminada” pelas impressões que o crítico já tinha da obra de Leilah – considerando-se que Michalski, na década de 80, já teria podido assistir a ao menos cinco peças da autora.
Na sequência da análise, o crítico alerta para mais um dado curioso da peça, que de certo modo retoma a questão do que seria o teatro alienado da geração de 69, em comparação com o anteriormente realizado, o chamado teatro engajado:
A própria ideia temática de Vejo um Vulto é uma prova do instinto teatral de Leilah: o pensionato em que vivem, às vésperas dos acontecimentos de março de 1964, jovens paulistanas de alta classe média, consegue ser um até certo ponto convincente microcosmo do conturbado Brasil daqueles fatídicos dias. Época fascinante, cujo potencial dramático nosso teatro nunca soube explorar, esses primeiros meses de 1964 revivem na peça, com apreciável dose das suas contradições, vibrações, utopias e preconceitos cada uma das pensionistas, sendo uma facilmente decifrável personificação de uma das principais tendências do momento. Ao deixar claro até que ponto o processo histórico da época, de ambos os lados da divisória, foi mesmo conduzido pela classe média, e até que ponto argumentos ilusórios e desvinculados de um conhecimento mais lúcido da realidade foram responsáveis, também de ambos os lados, pela marcha dos acontecimentos, o texto propõe um diagnóstico cujo acerto nunca foi desmentido, nos duros anos que se seguiram.52
Porém Michalski não deixa de assinalar a imaturidade da construção dramatúrgica do texto:
Mas o métier dramatúrgico da autora então estreante não podia estar à altura de tão complexa tarefa; as sucessivas versões extraídas do texto original (uma de autoria da própria Leilah, e duas elaboradas no decorrer da atual produção), se tiveram o mérito de condensar a obra – que seria impraticável, na sua derramada dimensão original – não conseguiram contornar a sua básica falha estrutural. Refiro-me ao desequilíbrio entre o seu caráter de painel de toda uma faixa da sociedade brasileira e o tratamento dado a cada um dos destinos individuais que compõem esse painel.53
51 MICHALSKI, Yan. O tempo que não passou na janela. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20 maio 1981, Caderno B. 52 Ibidem.