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Qualitative methods

In document A Transformative Lens on Resilience (sider 51-56)

4. Methods

4.2. Qualitative methods

Enquanto o homem insiste para que ela continue a “voar com ele nas nuvens, como pássaros”, ela já fincou a consciência no concreto, só o que enxerga são os lugares reais da cidade, conhecidos:

MARIAZINHA – Não... não... o Viaduto... o Viaduto, o bar, o viaduto, o bar... o viaduto... o viaduto... (pedindo socorro). O Viaduto! (volta correndo,

desesperada, perdida – quando ela volta o som volta também) (ela fica encurralada). Municipal... o bar... O VIADUTO (encurralada.)

Nova pausa, silêncio e ela então encontra mais um vínculo com a realidade: “agarra-se à palavra salva-vida” Mappin. Começa a dizer que precisa pagar a prestação do Mappin, que seu nome vai ficar sujo, repete as palavras “pagar”, “prestação”, “prestação”. O homem ameaça gritar, avisa que ela não vai trabalhar hoje. Mariazinha vai entrando em desespero. Pede insistentemente que ele não faça barulho, que fale baixo para não acordar as meninas. E ele responde: “QUE ACORDEM! Que acordem! Que acordem todas! Que me vejam...! Vou gritar! Vou gritar! Mariazinha! Não vá trabalhar amanhã!” – ao declamar “que acordem todas”, estaria o homem também querendo dizer “que despertem todas para a consciência”?

Ele está desesperado para não falhar em sua missão de “acordar” Mariazinha. Ela liga o rádio, de onde se ouve uma narração sobre os benefícios da clara de ovo, tanto para embelezar a pele quanto para fazer bolo, “um bolo aliás muito versátil, pois vem a ser um bolo tranquilizante, deveras necessário e útil nestes dias turbulentos pelos quais passa a nossa juventude”. Parodiando os programas femininos, a locução é uma intervenção irônica no enredo e funciona, pelo estranhamento, mais uma vez como um recurso de distanciamento. Desta vez, porém, o fator distanciador chama atenção para “os dias turbulentos pelos quais passa a nossa juventude”, ou seja, refere-se aos tempos atuais que, naquele período, como todos sabiam, eram duros tempos de ditadura e enfrentamento. Sai da esfera particular de Mariazinha para brevemente contextualizá-la no turbulento mundo real de então.

O homem continua insistindo que Mariazinha venha com ele, mas ela já está definitivamente rendida à realidade do dia que amanhece:

MARIAZINHA – O sol nasceu! Vai embora! Por favor! Meu horóscopo! Que dia é hoje? (corre pegar a folhinha). Sexta? Terça? Quinta-feira!

(alívio). Hoje é quinta-feira!!!!

HOMEM – (sacode-a) Eu vou sair e você vai comigo! Eu estou pedindo, Mariazinha! Eu estou pedindo...!

MARIAZINHA – Meu quarto! Meu quarto! (alívio). Ah! Ainda bem que está tudo em ordem... Tudo bem... Tudo normal... (sorrindo) (para o

relógio) – Posso ir, né papai? (para o criado-mudo). Vocês são antiquados, mamãe, todas as minhas amigas vão! (para os bibelôs) Meu filho, obedeça à sua mãe, mãe é uma só!

(Ela sorrindo vai voltando ao clima do começo)

MARIAZINHA – Tudo em ordem, tudo normal, boa noite, boa noite querido, muito trabalho? Cansado? Onde você me leva hoje? Bênção,

benção... posso? Posso? Posso? Posso ir? Posso comprar? Posso? Posso? Posso?

HOMEM – (corta) NÃÃÃÃÃÃÃÃOO!!!!

MARIAZINHA – (susto, acorda) FALA BAIXO! FALA BAIXO, SENÃO EU GRITO! EU VOU GRITAR!

Mariazinha volta ao vocabulário de antes, a falar com os móveis, a ser a menininha da mamãe e do papai. Tenta desesperadamente voltar à ordem, mesmo que a ordem não exista mais, nem no seu quarto, nem na sua cabeça. O homem, angustiado, ainda tenta. Pede que ela faça alguma coisa, que fale ao menos um palavrão. Insiste tanto que ela finalmente diz: “PORRA! PORRA...! PORRA! PORRA! PORRA! PORRA! PORRA! PORRA! PORRA! PORRA! PORRRRRRRRAA!!!!”

A reação do homem é abraçá-la e tapar-lhe a boca, diz que quer vê-la explodir e acordar a casa toda, que quer “trepar” com ela.

MARIAZINHA – (debatendo-se) Não! Não!

HOMEM – Vem! Vem! Puta que pariu, como eu quero trepar com você! Sua besta, é a primeira vez que eu declaro amor para alguém, porra! VEM!!! MARIAZINHA – Não! Eu sou virgem mesmo! Sou virgem!

Ele a pressiona, quer saber se pelo menos ela sabe o que é gozar. Ela diz que não. “NEM VOCÊ?”, pergunta ele indignado. “EU TENTO!... MAS NÃO CONSIGO!...”, ela responde.

Nesses momentos finais, apesar de tentar desesperadamente voltar à ordem, Mariazinha faz concessões e revelações que até então não havia se permitido. Importante notar que eles não estão mais encenando suas fantasias. Quando ela diz “PORRA” e confessa ser virgem e nunca ter gozado, ela é Mariazinha ela mesma, não a Mariazinha dentro dos jogos oníricos de antes, não é mais a Mariazinha fantasiada, que tudo podia dizer ou fazer. Portanto, são revelações reais da solteirona.

Ao mesmo tempo, o homem diz que é a primeira vez que anuncia amor por alguém. O mesmo homem que no início da peça entrou com um revólver na mão, que a ameaçou, xingou, ofendeu, termina dizendo que a ama: “Sua besta, é a primeira vez que eu declaro amor para alguém”. Pronunciada no momento intenso de confissões, a frase praticamente resume todo o seu comportamento e revela a sua intenção, desde o início. Ele fez tudo o que fez por amor.

Ele diz que vai embora, mas que ela vai com ele. Mariazinha, no último instante, ainda hesita: “Não sei...! Não sei!”, desesperada, contraditória, tremendo-se toda. De repente:

VOZ DE MULHER FORA – Mariazinha, são sete horas. Você vai perder o ponto...!

(Grande pausa) (Enorme) (Silêncio)

(Luz no quarto todo)

(E Mariazinha grita, ou melhor, urra: é um grito animal)

MARIAZINHA – SOCOOOOOORRO!!!!! TEM UM LADRÃO DENTRO DO MEU QUARTO!! POLÍCIA!! POLÍCIA! SOCOOOOOORROOOO!!!!! Fim da história. A “voz de mulher fora” repete a expressão que o homem tinha dito a Mariazinha: “você vai perder o ponto”. O ponto do trabalho, o ponto da virada, o ponto da transformação. Este último bloco revela a dificuldade de Mariazinha em mudar sua realidade, libertar-se de sua herança familiar, de amadurecer. E sobretudo, ou talvez por causa mesmo dessa reverência aos mandamentos familiares, à ordem e às regras cotidianas que aprendeu a seguir, Mariazinha não se permite deixar de ser menina e se tornar mulher. Ela confessa nunca ter sentido o prazer do sexo nem do gozo. Tenta, mas não consegue.

O desfecho da peça leva Mariazinha de volta para onde tudo começou, conferindo à dramaturgia, a princípio, um caráter circular. Mas isso se considerarmos que a solteirona reinicia o seu ciclo cotidiano, o novo dia, do mesmo modo – tal qual estava, sentia e pensava como antes da entrada do homem. Mas não se poderia considerar que Mariazinha, apesar de dizer não à chamada de consciência do homem, ainda assim sofreu alterações nesse processo, nessa noite de tantas indagações? O fato de ter revelado seus anseios, admitido suas fragilidades, encarado seus medos, verbalizado palavrões e feito revelações íntimas não resultaria em um movimento circular que não se fecha, isto é, um movimento espiral de tese, antítese e síntese, aos moldes da dialética hegeliana?

Ao chamar a polícia e se negar ir embora com o homem, Mariazinha estaria confirmando sua fraqueza diante das forças do passado e das dificuldades do presente que ainda a oprimem? Se Leilah a libertasse, ou seja, se Mariazinha saísse do quarto com o homem, estaria a autora sendo infiel à realidade de um grande grupo de mulheres da época que, como Mariazinha, ainda não tinha se libertado? Ou, por outro lado, não seria justamente essa a crítica apontada pela autora, isto é, ao negar seguir seus impulsos até o fim, Mariazinha

estaria retratando uma parcela de mulheres que ainda viviam sob tais amarras familiares e culturais?

Ana Lúcia Vieira de Andrade, por exemplo, propõe uma leitura alternativa para o final da peça:

[...] Talvez, nesse momento, possamos compreender o desfecho da peça não apenas como uma vitória das forças repressoras, mas como um instante crucial em que a mulher se sente bastante forte para abdicar do “professor” e buscar sua liberdade sozinha.77

Mais que respostas, a peça parece deixar perguntas, questionamentos, possibilidades. Aqui jaz Mariazinha Mendonça de Morais? É o que buscaremos deduzir no capítulo de conclusão deste trabalho.

In document A Transformative Lens on Resilience (sider 51-56)