7. Conclusion
7.1. Revisiting the research questions
Ao escolher a RAM como objeto de pesquisa, o fizemos por reconhecer que tal periódico representa um sintoma de uma época, momento de profissionalização da intelectualidade em São Paulo. Assim, analisar sua estrutura, seus colaboradores, sua vinculação institucional e seus artigos nos permitiram identificar algumas das características de tal processo.
Para orientar nossas análises, partimos dos estudos sobre definição de campos desenvolvidos por Pierre Bourdieu1. Ao analisar as disputas que ocorrem dentro dos campos para determinar qual grupo está habilitado a oferecer o veredicto, ou seja, a explicação científica para a sociedade, o autor propõe a existência de um espaço de intersecção dos campos hierarquizados2.
“O espaço de interacção funciona como uma situação de mercado lingüístico, que tem características conjunturais cujos princípios podemos destacar. Em primeiro lugar, é um espaço pré-construído: a composição social do grupo está antecipadamente determinada. Para compreender o que pode ser dito e sobretudo o que não pode ser dito no palco, é preciso conhecer as leis de formação do grupo dos locutores – é preciso saber quem é excluído e quem exclui. A censura mais radical é a ausência. É preciso pois considerar as taxas de representação (no sentido estatístico e no sentido social) das diferentes categorias (sexo, idade, estudos, etc.), logo as probabilidades de acesso ao local da palavra – e, depois, as probabilidades de acesso à palavra, mensurável em tempos de expressão.”3
1 BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico, op.cit.; - . A Economia das trocas simbólica, op.cit.. 2 BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico, op. cit., p. 55.
Tal conceitual pode ser aplicado na análise da RAM à medida em que percebemos que a revista pode ser compreendida como o “lugar da palavra”, espaço de interação entre um grupo de intelectuais que procuravam apresentar explicações e soluções para os problemas de São Paulo e, a partir daí, resolver os problemas nacionais. Refletem também um diálogo com outros grupos de outras regiões do Brasil, todos procurando ocupar o mesmo espaço. Falamos aqui dos intelectuais ligados ao governo federal e que, através da revista Cultura Política, propunham a explicação para o Brasil4
“Mas, não se pode ficar por aí. O espaço de interacção é o lugar da actualização da intersecção entre os diferentes campos. Os agentes na sua luta para imporem o veredicto “imparcial”, quer dizer, para fazerem reconhecer a sua visão como objectiva, dispõem de forças que dependem de sua pertença a campos objectivamente hierarquizados e de sua posição nos campos respectivos.”5
A hierarquia que o autor propõe inicia-se pelo campo político, seguido pelo jornalístico, chegando ao campo universitário. O último seria o mais distanciado das disputas políticas e, como tal, representante de maior objetividade. Assim, ao aplicarmos tal conceito na análise da RAM, percebemos que grande parte de seus colaboradores eram ligados ao sistema universitário (ESLP e USP) e, como tal, transformaram a revista em seu local da palavra como manifesto, portanto em espaço que se pretende de objetividade e cientificidade, aparentemente distante das disputas políticas.
“As estratégias discursivas dos diferentes actores, e em especial os efeitos retóricos que têm em vista produzir uma fachada de objectividade, dependerão das relações de força simbólicas entre os campos e dos trunfos que a pertença a esses campos confere aos diferentes participantes ou, por outras palavras, dependerão dos interesses específicos e dos trunfos diferenciais que, nesta situação particular de luta
4 GOMES, Angela de Castro. História e historiadores, op. cit.. 5 BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico, op. cit., p. 55.
simbólica pelo veredicto “neutro”, lhes são garantidos pela sua posição nos sistemas de relação invisíveis que se estabelecem entre os diferentes campos em que eles participam.”6
Nesta perspectiva, os colaboradores da RAM que se encontravam mais próximos dos grupos dirigentes, e também aqueles que estavam mais longe das propostas do governo central, tinham desde o início um trunfo simbólico que os possibilitou participar de tal esfera. Além disso, é necessário que participassem das práticas e ideologias eleitas pelos grupos que fazem parte dos campos em disputa dentro da hierarquização.
Ainda seguindo a teoria de Bourdieu, destacamos que a análise que fizemos da RAM passou pelos três momentos que o autor considera necessários para a compreensão do sistema. Em primeiro lugar, através da biografia dos colaboradores, ficou possível perceber a posição dos mesmos em relação à classe dirigente.
Em segundo lugar, quando propusemos, no capítulo anterior, uma investigação das disputas entre as instituições de ensino e pesquisa ligadas à RAM (ESLP e USP), procuramos demonstrar qual a estrutura de relações que estava em jogo na publicação na revista. Continuando,
“O terceiro e último momento corresponde à construção do
habitus como sistema das disposições socialmente
construídas que, enquanto estruturas estruturadas e estruturantes, constituem o princípio gerador e unificador do conjunto de práticas e das ieologias características de um grupo de agentes.”7
Foi com base em tal conceitual que procedemos à análise da RAM como o sintoma de uma época. Compreendemos que aquele período foi marcado por disputas dentro do campo político, envolvendo forças regionais – São Paulo, no caso de nosso estudo – e federais. Este campo de disputas políticas espraiou-se por todos os setores da sociedade, em cada um com
6 Idem, p. 56.
características e alcance diferenciados e que merecem análises detalhadas. O campo intelectual foi utilizado como espaço em que os vários discursos se confrontaram, procurando legitimar o campo político que representavam.
Assim, dentro do campo intelectual encontramos outras disputas para se determinar qual dos campos de conhecimento seria o mais apropriado para legitimar o político. Por tal motivo é que encontramos na RAM um número extenso de temas abordados, conforme procuramos mostrar no capitulo anterior. Porém, apesar de tanta diversidade, foi o campo dos estudos históricos o que mais se destacou ao longo do período estudado.
Desta forma, sugerimos que, na disputa dentro da hierarquia, foi o campo da história que se sobressaiu. Este campo estava ligado à idéia de construção do passado desejada pelos agentes do campo político. A nós cabe analisar e encontrar a característica da história escolhida para representar os interesses daqueles que estavam em disputas políticas.
3.2 Os Estudos Históricos na RAM e a construção de um estatuto