A Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) é uma estratégia de ensino voltada para o estudante, nela os alunos trabalham para resolver um problema e o professor age como um facilitador. Esse método apresenta semelhanças com a teoria da problematização, mas diferenças significativas são observadas (GIL, 2007). No presente tópico as duas metodologias serão apresentadas e discutidas.
A ABP surgiu no final da década de 60 quando um grupo de professores desenvolvia um novo programa para o curso de medicina da Universidade de McMaster no Canadá. A ABP busca preparar o aluno para que este tenha consciência de seu mundo e atue de forma a transformá-lo sempre para melhor, ou seja, o foco do processo educativo é mesmo o estudante, que é estimulado em sua capacidade de autoformação, na busca de informações e no desenvolvimento de raciocínio crítico (ANGELI; LOUREIRO, 2001; SILVEIRA; DOHMS, 2006).
Nessa técnica, uma comissão seleciona os problemas que deverão ser estudados pelos alunos, o estudo obedece a uma seqüência e ao final de cada módulo o conhecimento é avaliado. O estudo se dá basicamente em bibliotecas, e os resultados são usados para solucionar os “problemas como exercício intelectual e
nas práticas de laboratório e ou com pacientes” (BERBEL, 1998, p. 151). Soares (2008), em estudo com alunos de ciências contábeis, verificou que os estudantes adquirem mais capacidade para resolução de problemas, melhoram a comunicação, desenvolvem habilidades e adquirem confiança.
A metodologia da problematização, bastante utilizada em cursos de enfermagem, caracteriza-se por poder ser empregada sempre que os temas se referirem a contextos sociais. Ocorre em cinco etapas: observação da realidade, pontos-chave, teorização, hipóteses de solução e aplicação à realidade. Nessa metodologia o próprio aluno identifica os problemas, por meio de observação, e após o estudo desses problemas podem surgir outros. Enquanto constroem os conhecimentos, os alunos conjugam os saberes envolvendo relações entre o técnico, o científico, o social, o político, o ético, etc. O estudo pode ocorrer de diversas maneiras, como coleta de dados, entrevistas, depoimentos. Os resultados, por sua vez, devem ser voltados para algum tipo de intervenção na realidade (BERBEL, 1998).
A teoria da problematização pode ser usada em uma única disciplina, e a aprendizagem baseada em problemas não deve ser usada isoladamente, uma vez que esta afeta o corpo docente, administrativo e acadêmico durante todo o curso (BERBEL, 1998).
2.9 ESTUDANTES DA EDUCAÇÃO SUPERIOR
De acordo com a PNAD 1997 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE (Instituito Brasileiro de Geografia e Estatística), citado por Schwartzman (1999), 72% dos estudantes da educação superior eram economicamente ativos e 54% estudavam no período noturno, ou seja, não teriam como se dedicar em tempo integral aos estudos. O estudo também aponta que somente 15% dos alunos das instituições públicas federais estudam no período noturno, ao passo que 90% dos alunos das instituições particulares freqüentam cursos nesse turno.
Dessa forma, a grande maioria dos estudantes do ensino superior está vinculada a instituições superiores não tradicionais. Tais instituições apresentam uma realidade diferente das instituições públicas ou das particulares “tradicionais”. Em primeiro lugar, citam-se os alunos que entram para essas instituições, tendo em vista que as públicas e as particulares tradicionais oferecem uma menor quantidade de vagas. Como conseqüência há uma maior disputa para o ingresso, de forma que apenas as pessoas que tiveram acesso a uma educação básica de qualidade conseguem entrar. Já as particulares não tradicionais possuem um alunado com perfil próprio (GRECO, 2002; PINTO, 2004).
Quem leciona em cursos de graduação de grande número de instituições particulares no Brasil percebe as carências apresentadas pelos alunos. Tais carências expressam, geralmente, uma vida sacrificada, com trabalho precoce e acesso a uma educação básica de baixa qualidade, o que os faz entrar em instituições de educação superior com processo seletivo apenas classificatório. No entanto, com uma rotina dividida entre trabalho e estudo, passando por longos períodos de deslocamento até tais locais, e com horas reduzidas de sono e descanso, falta tempo de estudo e dedicação ao curso superior. O curso, que seria fundamental para a construção de um projeto de vida, se transforma em um fardo, e o diploma acaba por se tornar o único objetivo perceptível (BARREIRA; TERRIBILI FILHO, 2007; GRECO, 2002).
Convém mencionar Casassus (1995, p. 22) quando afirma que a educação “toca de forma especial o poder e de como este se exerce na sociedade”. As pessoas que recebem conhecimentos adequados são beneficiadas como depositárias de saber, e esse conhecimento se relaciona não somente com o ser, mas também com a capacidade de fazer as coisas, com o “poder fazer”. Segundo Morin (2000), a educação deve contribuir para a autoformação do indivíduo, ensinando-o o assumir sua condição humana e ensinando-o a viver, bem como a se tornar um cidadão. Mas é estéril uma educação cujo objetivo final seja apenas o diploma. Se esse aluno já entra para a educação superior com dificuldades relacionadas à formação básica, e não tem como objetivo a sua formação profissional, os resultados são desastrosos.
Dessa forma, o docente deve estar atento às limitações dos alunos, suas carências, o contexto em que vivem, entre outros. A partir daí o processo educativo deverá ser realizado. E, conforme já tratado, os professores constituem um dos elos fracos na cadeia da educação superior, e isso se torna mais perceptível quando se pensa nos alunos com as características citadas anteriormente, ou seja, pessoas em que as carências vão além daquilo que o professor está preparado para oferecer. Em virtude da situação em que os seus alunos se encontram, é necessário que o professor faça um trabalho não apenas de transmissor de conhecimento, mas também de recuperador de imagem, gerador de auto-estima, despertador de consciência, motivador de luta e desabrochador de confiança (GRECO, 2002).
A relação que se estabelece entre professor e aluno é então considerada nuclear, ou seja, toda ação docente é realizada voltando-se para o aluno, independentemente da forma como ocorra. E sob a ótica dos alunos é também voltada para os professores (VASCONCELOS, 2006). Diante do exposto, tem-se a preocupação de como o processo educacional se processa em uma situação em que o docente não esteja pedagogicamente preparado. Ou ainda, como citado por Vasconcelos (2006), os professores desconhecem questões importantes relacionadas ao seu papel profissional e sua autoridade em sala de aula. A mesma autora ainda afirma haver uma crise de autoridade docente em grande parte das instituições de educação superior. Dessa forma, o professor muitas vezes não se dá conta da autoridade que lhe é conferida em virtude da profissão que exerce, ou mesmo pode rejeitá-la por receio de ser visto como autoritário ou tirano.