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Deve ser tarefa do docente da educação superior reforçar a curiosidade e a capacidade crítica do educando e, principalmente, ensiná-lo a pensar. Nesse sentido, o professor não pode ser um mero transmissor de informações, repetidor de frases e idéias. O entendimento de algo não é transferido, e sim, co-participado. É importante que o professor estimule a participação dos alunos por meio de perguntas, refletindo a partir de um dado tema, e que a relação entre professor e aluno se torne dialógica. Ou seja, não é o caso de se ter apenas o professor discursando e o aluno ouvindo, mas sim os dois como curiosos, em uma relação

aberta em que a aula se torne desafiadora e não cansativa. Assim, o bom professor consegue “enquanto fala, trazer o aluno até a intimidade do movimento de seu pensamento” (FREIRE, 1996, p. 86). É estratégico que a aprendizagem ativa seja ressaltada em detrimento da aprendizagem receptiva, e dessa forma se possa ultrapassar a mera “aquisição do conteúdo prescrito”. Mas um grande problema nisso é que os professores foram muitas vezes formados em ambientes passivos, onde, como regra, se pratica a aprendizagem receptiva (DEMO, 2000).

Mager (1979) afirma que, se o aluno não estiver influenciado para tornar-se diferente do que era antes da aprendizagem que será empreendida, nenhum objetivo será alcançado. Ainda conforme o mesmo autor, o mais importante no processo não é o que o docente tem que ensinar, mas que o aluno sinta o desejo de fazer uso daquilo que lhe foi ensinado. Para isso, o docente deve fazer o possível para que, ao final da ação educativa, o aluno tenha mais sentimentos favoráveis do que desfavoráveis sobre aquilo que foi ensinado.

Nesse sentido, Assmann (1998) afirma que não se pode comparar o ato de ensinar com a prática de uma transfusão de sangue, em que esse entra no organismo do indivíduo e há o sistema circulatório que se encarrega de utilizá-lo da melhor maneira possível. Dificilmente o conteúdo que um professor tenta transferir a um aluno será aproveitado pelo sistema neuronal se não houver uma aprendizagem. Quem ensina deve mostrar as pistas para que se chegue ao aprendizado, mas não deve dar todas as informações prontas. É importante que o complexo sistema neuronal seja ativado ao máximo.

Tem-se observado na educação um descompasso com o avanço paradigmático que a sociedade apresenta. Conforme citado anteriormente, os professores da educação superior tendem a repetir os modelos que tiveram em sua formação, muitas vezes sem refletir se é o melhor modelo a ser utilizado. Assim, se observarmos como as aulas se processam nesse nível de ensino, pode-se perceber modelos engessados de exposição da matéria, de acordo com os quais deve haver uma memorização do conteúdo transmitido. Dessa forma, os alunos não são estimulados a desenvolver sua capacidade de criar, construir e reconstruir (BEHRENS, 1999).

O estudo realizado por Lazzarin, Nakama e Cordoni Júnior (2007) com alunos do curso de odontologia, investigando o papel do professor no processo ensino- aprendizagem, identifica alguns aspectos já tratados no presente texto e reforçam a impressão de que são utilizados modelos que pouco valorizam a criatividade do aluno. No trabalho, verificou-se a predominância do ensino centrado no professor, sendo utilizadas em grande parte a exposição oral do conteúdo e a aplicação de provas tradicionais teóricas e práticas. Essa passa a ser uma característica de cursos em que há uma grande carga horária com pouco tempo para ser destinado ao estudo, o que de certa forma acaba resultando no repasse de conteúdos prontos e acabados, situação em que o aluno deve memorizar e depois repetir as informações recebidas do docente. E isso é uma prática bastante comum nos cursos da área de saúde. Infelizmente, o profissional que será formado e que vai atuar no mercado de trabalho não estará preparado para prestar um atendimento adequado ao indivíduo.

2.6.1 Os quatro pilares da educação

   

Jacques Delors, coordenando a Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI, elaborou um relatório para a Unesco em que são apresentados os quatro pilares da educação. Concluído no ano de 1996, o relatório põe a ênfase no educador, colocando-o em posição de destaque como agente de mudanças e formador do caráter das novas gerações. No relatório esses quatro pilares da educação são compreendidos como quatro aprendizagens em torno das quais a educação deve organizar-se para atingir os seus objetivos. Esses são tidos como os pilares do conhecimento: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver

juntos e aprender a ser (DELORS, 2001).

Assim, com o aprender a conhecer busca-se o domínio dos instrumentos do conhecimento. Supõe o aprender a aprender, trabalhando a memória, a atenção e o pensamento. O aprender a fazer está ligado a ensinar ao aluno as formas de colocar em prática aquele conhecimento adquirido e fazer adaptações dos aprendizados ao

contexto em que irá atuar. O aprender a viver juntos visa desenvolver a compreensão do outro e a sua interdependência, respeitando os seus valores. E o

aprender a ser tem como objetivo levar o aluno a se desenvolver como pessoa em

sua totalidade, em sua capacidade de discernimento, autonomia e responsabilidade (DELORS, 2001).

Isso se torna bastante compreensível também quando se pensa no profissional de saúde, que atua em locais onde a vida está em seu limite, convivendo com o contexto vida/saúde/doença/morte. Nesse sentido, o profissional precisa estar preparado para lidar com diferentes públicos, fornecendo um atendimento humanizado. Ou seja, a formação desse profissional deve transmitir-lhe essa visão e o formador será o responsável pelo processo.

2.6.2 O profissional de saúde e a sua atuação

A medicina moderna ocidental se desenvolveu afastando o saber do sentir. Com a especialização em áreas, o indivíduo passou a ser visto em partes e não como um conjunto. No entanto, hoje já se percebe que os serviços de saúde devem atender o indivíduo como um ser humano integral, que está submetido a diversas situações de vida e de trabalho. Dessa forma, o indivíduo não deve ser visto como um conjunto de partes (cérebro, coração, rins, fígado, etc.), e sim como alguém que precisa ser atendido em sua integralidade. Nesse contexto, tem lugar a preocupação com o profissional que vem sendo formado pelas IES.

Cabe ressaltar que a Constituição Federal em seu artigo 198 previu a criação de um sistema único de saúde que garantisse a qualidade de vida do cidadão, prevendo ações e serviços para promoção, prevenção e recuperação da saúde (BRASIL, 1990). Dessa forma, o atendimento que se faz nos serviços de saúde deve estar humanizado. E, nesse caso, quando se fala em humanização, esta deve ser “entendida como valor, na medida em que resgata o respeito à vida humana. Abrange circunstâncias sociais, éticas, educacionais e psíquicas presentes em todo relacionamento humano” (BRASIL, 2000, p. 33).

Assim, quando se pensa na formação do profissional que se pretende desenvolver na área de saúde, os pilares do conhecimento apresentados por Delors se apresentam afinados, fugindo da educação formal e fazendo o profissional de saúde ficar atento aos contextos sociais em que está incluído.

O profissional de saúde deve ser formado a partir da semeadura de um conjunto de valores universais, que se realizam a partir de cada diferente cultura, tendo ainda uma adequada compreensão de valores, isso é o que Machado (2000) chama de educar para a cidadania. Para o mesmo autor, uma profissão é mais do que uma simples ocupação e apresenta três características fundamentais: exige competência específica, deve ser exercida com certa autonomia e apresenta um compromisso público, um comprometimento pessoal. No caso da área de saúde, esse compromisso público deve estar pautado no bem-estar da comunidade, buscando atender aos princípios garantidos pela Constituição Federal, independentemente de classes sociais ou culturas (BRASIL, 1990).