4 TEORETISKE PERSPEKTIVER OG HYPOTESER
4.6 H VEM ER AKTØRENE ?
4.6.2 Skolene
O tema da identidade não é novo e está fortemente associado aos debates e lutas democráticas que se amplificaram enfaticamente no século 20, quando a premissa do humano ideal – homem, adulto, branco, europeu, racional – começa a ruir em função da pressão dos humanos não ideais – mulheres, negros, índios, crianças, jovens e outros, de todos os cantos do mundo, inclusive o homem macho, oprimido, real. Esse cenário coloca em evidência a premissa do diferente, do outro, da alteridade, conforme destacado anteriormente por Luiz Carlos Iasbeck, quando reflete sobre o sentido profundo de compreender o signo não como algo em si, mas algo em relação a outro. Ou a outros, já que a categorização peircena é de ordem triádica: o signo que representa um objeto que afeta um interpretante.
Bem no limiar dos séculos, Suely Soares (2000) discutia a necessidade de se formar profissionais competentes para lidar com a arquitetura da identidade nas instituições educacionais. A discussão, prioritariamente orientada para o campo da Educação, dá grande ênfase aos processos midiáticos na sociedade e como esse fenômeno envolve os aprendizes em geral. O texto se desenvolve a partir da noção fundamental de design como fenômeno sígnico, portanto, semiótico. Sobre essa associação esclarece a autora (idem, p. 17):
“ensaiamos o emprego da semiótica como ciência das significações, exercitando a ampliação do conceito de design para além do usual. Design como projeto para além da obra gráfica, do desenho. De pessoas e suas arquiteturas”. Persistindo na metáfora arquitetônica, Soares define outros conceitos fundamentais a sua argumentação, como desenho, arquitetura, arquiteto, designer. Essa fundamentação conceitual se completa com mais um conceito, o de identidade, assim definido por Soares (idem, pp. 17-18) de acordo com os propósitos de seu trabalho:
Trata-se da síntese do ser, constituída democraticamente, livre dos condicionamentos de valor de uso e troca. Etapa caracterizada na educação infantil, prolongada na juventude e consolidada na fase adulta. É o resultado de um processo no qual o respeito pelas manifestações naturais, a permissão para sua consolidação, incentivo ao desenvolvimento aprimorado e original se efetiva.
Controversa, a conceituação pode inspirar vigorosos debates, que aqui não serão propostos por que nos afastaria do contexto metodológico. Todavia, é importante ressaltar que o teor dessa definição irá se transformando na referida obra, chegando a autora a apontar uma serie de competências a serem conformadas pela educação diante do desafio de arquitetar identidades.
A questão da identidade aparece também nas políticas públicas do Brasil para a educação e pode ser percebida em diversas providências. Uma delas, a criação em 2003 de um órgão específico para tratar do tema, a Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural, vinculada ao Ministério da Cultura, à qual compete dentre outras finalidades:
I – planejar, coordenar, monitorar e avaliar políticas, programas, projetos e ações para a promoção da cidadania e da diversidade cultural brasileira;
II – promover e fomentar programas, projetos e ações que ampliem a capacidade de reconhecimento, proteção, valorização e difusão do patrimônio, da memória, das identidades, e das expressões, práticas e manifestações artísticas e culturais. (Brasil, 2012)
Curioso notar no nome original desse órgão7 dois termos de significados
contraditórios, identidade e diversidade. Em geral, vemos a palavra identidade nos dicionários como um substantivo a designar a qualidade de idêntico nas coisas. Idêntico como semelhante e também como próprio e exclusivo a algo ou alguém. Mas a teoria vai revirar essa idéia, partindo daquilo que se lhe opõe, ou seja, a diferença.
7 Em 2012, a SID se funde com a SCC – Secretaria de Cidadania e Cultura, originando a Secretaria da Cidadania e
Luís Iasbeck (1997, p. 6) recomenda que a identidade seja “concebida como o espaço das afinidades num território de diferenças”. Também reconhecendo a implicação da noção da diferença ao se tratar de identidade, Oliveira (2001, s/p) afirma:
[...] a identidade é uma construção que se faz com atributos culturais, isto é, ela se caracteriza pelo conjunto de elementos culturais adquiridos pelo indivíduo através da herança cultural. A identidade confere diferenças aos grupos humanos. Ela se evidencia em termos da consciência da diferença e do contraste do outro.
Ambas considerações reforçam o pressuposto de que só é possível pensar a identidade de um dado grupo social se admitirmos que há diferenças entre grupos, assim como diferenças entre os integrantes de um mesmo grupo. O “território de diferenças” não é um ambiente de negação e aniquilação do que é diferente. Antes o contrário, é o habitat natural das identidades, que só ali podem revelar, cada qual, a sua peculiaridade, a sua unicidade, a sua originalidade na transitoriedade. Por outro lado, se há identidade, implica que há também aproximação, aglutinação, ajuntamento, ou seja, há afinidade, aquela outra dimensão da identidade que muitas vezes chega mesmo a ser confundida com ela. O que faz sentido, porque afinidade é o signo em terceiridade, ou seja, é um símbolo. A afinidade é o elemento que permite a aglutinação dos grupos, lembrando que essas aglutinações só podem ser percebidas porque lhe antecede uma condição de diferenciação.
Segundo Iasbeck, “a identidade pode ser administrada fazendo-se aferições permanentes” (2009b). Essa consideração nos remete a uma nova síntese esquemática estruturada sobre as categorias da semiótica triádica, dessa vez enaltecendo a discussão de Iasbeck acerca dos níveis de identidade, conforme se pode observar pelo quadro 5:
Quadro 5 – Níveis de identidade de acordo com as categorias da semiótica triádica
Categoria Primeiridade Secundidade Terceiridade
Nível de identidade Indiferença Diferença Afinidade
Fonte: adaptado de Iasbeck (2009b)
O tema da identidade é rico e cresce por muitos campos do conhecimento, inclusive na Comunicação (Dencker, 2008, pp. 19 e 25), seja nos estudos organizacionais, de recepção ou culturais. Nesta contextualização ele está referido não apenas por sua importância como elemento da concepção metodológica proposta para a pesquisa (que visa descobrir traços identitários), mas por ser um dos conceitos assimilados por muitas organizações
contemporâneas, inclusive por universidades, como critério de enunciação de seus valores específicos e distintivos.