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A crescente expansão de atos comunicativos na sociedade inspira cada vez mais pessoas em busca de profissionalização no campo da Comunicação (Marques de Melo, 2009, p. 8), o que impõe, de um lado, a criação de escolas técnicas e de nível superior para fomentar essa formação, e de outro, a formação dos professores que vão trabalhar em tal formação. Nos
níveis superior e pós-superior, a formação tanto de docentes como de discentes é acompanhada pela pesquisa científica, o que traz a quem busca conhecer esse campo o imperativo de estudar o método científico, tarefa árdua se admitirmos, como aponta Newton da Costa (apud Santaella, 2001, p. 113) que, desde o século 20, ninguém mais domina completamente a metodologia.
Mas será que existe mesmo o ofício de Comunicador nas sociedades contemporâneas? Ou o jornalismo é o jornalismo; a publicidade é a publicidade; as relações públicas, relações públicas? A profissão do comunicador se restringe a essas três funções originais ou tem mais alguma coisa? Por outro lado, se não há o ofício de Comunicador, como é possível que haja escolas técnicas, escolas de nível superior e até escolas de pós-graduação a credenciar esses contingentes profissionais? O que é o campo da comunicação? Como se desenvolvem as escolas de Comunicação no Brasil? E existe uma Ciência da Comunicação para dar suporte teórico e metodológico a tal saber? Basta falar em campo da comunicação, e já uma corte de importantes questionamentos se manifesta. O tema é complexo e ainda hoje provoca muita polêmica, dado o caráter multidisciplinar que bem caracteriza o campo.
Admitir um campo científico da Comunicação é admitir a existência de um corpo próprio de ação e de estudos. Isso implica na organização, profissionalização e legitimação de práticas manifestadas num composto social, que reconhece e diferencia tais práticas, reclamando a necessidade e responsabilidade daqueles que se afirmam agentes profissionais do campo em constituir um corpo teórico-epistemológico, que funde e amplie o referencial reflexivo de tal ação, possibilitando ao campo persistir e vigorar no conhecimento, em geral, e na ciência, em particular. Assim dito, parece óbvio que a Comunicação existe efetivamente como campo de saber científico; afinal, já se podem contar algumas décadas desde que vieram à tona os primeiros esforços em discutir e, por diferentes vias, sistematizar a questão.
Vera França (2001) nos acompanha em uma primeira aferição da questão a partir da constatação de que a Comunicação só veio a assumir o vulto que hoje ostenta como campo de conhecimento científico a partir do século 20, com o surgimento dos assim chamados meios de comunicação de massa. Ela alerta, contudo, que uma conclusão simplória, a de que o objeto da Comunicação seria precisamente algum objeto ou conjunto de objetos empíricos, deve ser evitada, embora reconheça que aquele fenômeno – o advento dos meios de comunicação de massa, os mcm – representa efetivamente um divisor de água entre a comunicação entendida como algo natural e próprio da natureza humana e a comunicação revelada como algo complexo e, por isso mesmo, problemático e problematizável. A autora alerta para o fato de que não só o surgimento e rápido desenvolvimento dos meios
determinaram o interesse em estudar aquele emergente tipo de comunicação, mas principalmente a demanda da sociedade, ávida por saber “usar melhor a comunicação para a consecução de seus projetos”. Seu esforço não é conclusivo, pelo contrário: ela admite que, apesar de um já estimado percurso de estudos e pesquisas em torno da comunicação, este é um campo que “ainda não constituiu com clareza seu objeto, nem sua metodologia” (ibidem, p. 52; 51).
A tentativa de fugir à simplificada visão da Comunicação como campo inter, multi e transdisciplinar também instiga Lúcia Santaella, que recorre a pensadores de áreas diversas, da cibernética à lingüística, da filosofia à psicopatologia, para tentar responder à indagação suscitada. Ela ressalta a contingência de um fluxo contínuo da comunicação, fluxo este segmentado em partes pelos indivíduos para facilitar a participação mesma nesse fluxo: “Costumamos chamar alguns desses pedaços de causas ou estímulos e outros de respostas ou efeitos” (2001, p. 22). Para a pesquisadora, é preciso evitar simplificações ao tentar identificar os agentes de um processo comunicativo, ressaltando que as interações comunicativas podem se dar por vias simétricas ou assimétricas entre as pessoas, que por sua vez podem, em processos transacionais de comunicação, assumir a dupla função de emissor e receptor, tão comum atualmente, na era da comunicação interativa.
Osvaldo Trigueiro (2001) é outro que vai expor a amplitude de concepções acerca da lógica operacional da Comunicação, traçando um mapeamento parcial do desenrolar das teorias. Ele começa em Aristóteles e o processo de persuasão da retórica no fluxo locutor- discurso-ouvinte, do qual irá derivar o Modelo Clássico Tricotômico da ciência da Comunicação: fonte-mensagem-receptor. Embora restritiva por sua lógica linear, essa concepção fundamenta o pensar comunicacional, o qual irá evoluir por uma série de outros sistemas. Trigueiro ilustra essa diversidade com os esquemas propostos por vários estudiosos, de diferentes épocas e localidades, inclusive de outras áreas do conhecimento.
Interessante notar no estudo do pesquisador como essas concepções vão se encontrando e se influenciando mutuamente, gerando novas concepções. Ele destaca o pensamento de Luiz Beltrão, que ainda nos anos 60 vai se deixar influenciar pelos estudos do cientista social Willow Schramm. Este, por sua vez, desenvolve seu modelo de comunicação humana e suas relações com as mídias com base em princípios postulados pela Teoria da Informação, área que estuda o processamento eletrônico da informação e na qual o termo comunicação é entendido “como a transferência de mensagens de uma fonte para um destinatário e estuda por etapas os componentes do sistema: fonte, canais, ruídos, recepção e destino” (Trigueiro, idem).
Na Comunicação, o caminho da pesquisa científica, isto é, o método, reflete a natureza interdisciplinar e plural do campo. São muitas e diversificadas as experiências, assim como muitos e diversificados os esforços em sistematizar tais experiências, desde a criação de cursos de nível superior até outras instâncias fomentadoras do conhecimento, como disciplinas, instituições, eventos. Claro que essa experiência está em consonância com o debate acerca da metodologia da Comunicação em todo o país, bem como no exterior, o que permitiu criar um lastro de registros e referências que, a cada nova geração, adensa-se e amplia-se. Temos então, desde aqueles anos, uma série de ações institucionalizadas que corroboram a vigência de um status científico da pesquisa em Comunicação, isso implicando na criação de cursos de metodologia científica da Comunicação, no estímulo ao intercâmbio e na luta por conquistar, na esfera pública, direito de acesso às agências de fomento à pesquisa científica. Acrescente-se ainda a emergência de uma nova geração de escritores e editores, o que resulta numa bibliografia vasta e variada e que atualmente tem favorecido o surgimento de obras “mais abrangentes, dimensionando a complexidade do campo comunicacional” (Marques de Melo, 2009, p.8).
O mesmo autor resgata uma considerável parte dessa história, definindo como marco pioneiro da pesquisa em Comunicação no Brasil – no sentido de configuração de um campo próprio e legítimo de investigação científica – o empenho de um grupo de estudiosos no Recife, fundadores daquele que seria considerado o “primeiro núcleo universitário da pesquisa comunicacional do nosso país” (ibidem, p.1), o Instituto de Ciências da Informação. Ali, Luiz Beltrão – um dos principais mentores do Icinform – e seus pares já observavam a necessidade de construir uma metodologia adequada ao fenômeno comunicacional em curso, de modo a não limitar a pesquisa a um único de seus vetores. Era preciso supor uma metodologia complexa, que desse conta da multiplicidade de fases que compõem o fluxo comunicacional, desde a produção até a recepção, passando pela mensagem, canal, linguagem e demais elementos, até o feedback.
Ressalte-se, aliás, que Marques de Melo é ele mesmo personagem histórico nessa saga, figurando entre os pioneiros do ensino da disciplina Metodologia da Pesquisa em Comunicação (ibidem, p. 3). Em sua trajetória de cerca de meio século de estudos dedicados à Comunicação há referências a vários pensadores e pesquisadores, apontando ele alguns destaques, como a defesa que José Seixas Patriani faz em prol de uma metodologia “brasileira” para a investigação científica dos fenômenos comunicacionais:
O estudo da comunicação precisa ser organizado por uma estrutura de conceitos que se refiram aos processos e fatos prioritários a serem pesquisados na realidade
brasileira. [...] A teoria e a pesquisa da comunicação são instrumentos fundamentais no processo da mudança sócio-cultural, são catalisadores da dinâmica psicossocial. Infeliz o povo que não tem seus próprios comunicadores e cientistas da comunicação: fica-lhes reservada a castração cultural, a dominação neo-colonialista, com todas as suas terríveis consequências. (Patriani, 1969, p 41-44; apud Marques de Melo, 2009, p. 7)
O arroubo ideológico expresso nas palavras de Patriani e que refletia o pensamento de parcelas importantes dos educadores e pesquisadores da Comunicação não resistiu ao jugo ditatorial, mas permaneceu latente em toda a década de 70. Apesar de alguns avanços estabelecidos pelo governo militar (inclusive em nível de pós-graduação e pesquisa, como se pode ver em Siqueira, 2006, pp. 107-109), a repressão política cerceava o pensamento político geral da nação. Isso resultou em certo recuo no florescimento do campo da Comunicação como instância científica legítima, o que voltará a se intensificar nos anos 80, com os ventos da abertura política soprando sobre o País e sobre o continente. Marques de Melo (2009, p. 8) situa o Intercom4 de 1982 como um marco nesse processo, entre outras coisas por ter sido o primeiro “que recebeu atenção das agências federais de fomento científico, cujos dirigentes enviaram seus observadores para radiografar o que acontecia em nosso campo”. Mas era ainda um momento delicado, como reforça Trigueiro (2001):
Nos anos 70/80 o mal-estar, a insatisfação estava instalada nos meios acadêmicos e centros de pesquisas de comunicação com relação aos modelos consagrados e os estudos de comunicação no mundo globalizado e em particular na América Latina. Era necessário mudar o enfoque dos estudos de comunicação relacionados com as novas matrizes culturais, com as novas configurações das identidades locais e globais, o papel dos emissor e receptor na comunicação de massa ou face a face. A profusão de mutantes configurações de realidade irá se refletir na conformação atual do campo da Comunicação, quando a tônica é uma curiosa indeterminação: de um lado, uma legislação que afirma o campo; de outro lado, outras legislações que, sem negar o campo, querem contudo lhe sobrepor em termos de legitimação profissional. Vejamos como esse conflito vem se desenrolando desde o começo do século.
Em 2001, o Ministério da Educação do Brasil publicou o parecer 492/2001, do CNE/CSE, aprovando as Diretrizes Curriculares Nacionais da área de Comunicação Social e suas Habilitações. O documento informa que tais diretrizes
4 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. Fundada em 12 de dezembro de 1977 em
São Paulo, é u a i stituição se fi s luc ativos, desti ada ao fo e to e à t oca de co heci e to e t e pes uisado es e profissionais atuantes no mercado. A entidade estimula o desenvolvimento de produção científica não apenas entre mestres e doutores, como também entre alunos e recém-g aduados e Co u icação (I
[...] foram elaboradas procurando atender a dois objetivos fundamentais:
a) flexibilizar a estruturação dos cursos, tanto para atender a variedades de circunstânicas geográficas, político-sociais e acadêmicas, como para ajustar-se ao dinamismo da área, e para viabilizar o surgimento de propostas pedagógicas inovadoras e eficientes;
b) estabelecer orientaçoes para a obtenção de padrão de qualidade na formação oferecida. (Brasil, 2001, p.16)
O caráter interdisciplinar do campo é ressaltado no documento, que se refere as habilitações decorrentes da formação em cursos de graduação em Comunicação elencando o Jornalismo, Relações Públicas, Publicidade e Propaganda, Cinema, Radialismo e Editoração. O documento admite ainda que outras habilitações pertinentes ao campo possam ser criadas.
Curiosamente e apesar de que um dos objetivos das Diretrizes da Comunicação seja estabelecer “um padrão básico de referência para todas as instituições que mantenham Cursos de Graduação em Comunicação” (idem), a conformação do campo prosseguirá nos anos seguintes com foco em estabelecer diretrizes específicas para cada habilitação, uma delas já instituídas, as Diretrizes para graduação em Cinema e Audiovisual (Brasil, 2006a); outras já propostas, mas ainda não aprovadas, como é o caso das diretrizes de graduação em Jornalismo em Relações Públicas (Brasil, 2009 e 2010a). Mesmo com protestos de setores da sociedade envolvidos com o desenvolvimento dessas propostas e que reclamam sua pronta aprovação pelo Mec (FNPJ et al., 2012), o fato é que o assunto é controverso e gera ainda muitas dúvidas. Inclusive entre os estudantes, que tendem a compreender o tema por outro ângulo.