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CHAPTER 9: CONCLUSION

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Em todos os jogos da série, há algum local que funciona como base para a organização dos Assassinos, localizada em local secreto, muitas vezes subterrâneo, e sob alguma fachada: são espaços restritos e fechados, com poucos integrantes encapuzados que operam nas sombras a organização secreta. A Homestead, entretanto, é seu oposto: a Ordem dos Assassinos foi destruída na América no passado (tal história foi depois narrada em Assassin’s Creed Rogue),

e agora renasce em meio ao homem comum e por meio de seu trabalho.

Entre a representação do mundo urbano organizado e suas multidões, e o vazio da

wilderness intocada a Homestead resgata o sonho idílico da vida mais simples, da pequena

comunidade que através do trabalho duro levanta sua moradia, lida com respeito a natureza, tirando da terra o necessário, cujas relações humanas são mais próximas e afetivas, distanciando-se da impessoalidade da cidade. Tal qual a mitologia nacional valoriza os pioneiros que primeiro se assentaram em terras americanas e ali buscaram liberdade e uma vida digna. A obra de Henry Thoureau viria a valorizar e fundamentar a wilderness como negação da sociedade industrial de consumo que alienava a possibilidade do trabalho duro e a relação próxima entre homem e natureza, a qual deveria ser mediada pelos esforços humanos de obter o necessário para uma vida digna249.

Nas palavras de seu diretor de arte:

The Homestead reflects the idea of the American Dream, where you move to

a new country to get a land of your own and have everything. However, once

you step on the soil it’s actually very hard to build everything from scratch

[…] The way I visualize the Homestead is to have this clear blue perfect sky in the background, but on the ground you see people who are sweating and muddy. The ground is uneven, and by looking at this, you can imagine there was a storm the night before and these people have been working hard all through the night to patch the leaks in the roofs. That is the contrast. I wanted to push that duality250.

A Homestead é um espaço único na série Assassin’s Creed e apesar de fazer parte da

narrativa, seu maior intento é expor e reproduzir a ideologia estadunidense do sonho americano em uma série de sidequests nas quais Connor deve ajudar a construir um lar para o homem comum, ajudando pessoas e as convidando para morar lá, bem como resolvendo seus problemas. Uma única mansão ao seu epicentro, no alto de uma colina, precursora da nova comunidade, é a base original da organização, metaforicamente reafirmando a existência transhistórica dos Assassinos e os colocando como observadores e guardiões da humanidade, os confundindo e associando com a própria história do povo americano.

Esta comunidade tem alguma importância com a narrativa mais ampla, sendo citada, por exemplo, pelo vilão Charles Lee ao final do jogo, como alvo de sua fúria em destruir o protagonista, eliminando sua Homestead e seus Founding Fathers, em analogia direta aos Pais Fundadores da Nação Americana que estava em formação durante a Revolução.

No entanto, são no conjunto das sidequests que expressa sua real representação. Após salvar dois lenhadores de se afogar em meio a correnteza do rio local, Connor passa a possuir missões paralelas, lidando com negros ex-escravos, lenhadores, marceneiros, construtores, pessoas ordinárias que ganham personalidade em meio aos eventos tumultuados da revolução em seus problemas mais cotidianos. Auxilia a comunidade em missões cotidianas, tais como ajudando um casal a parir, resolvendo rivalidades entre amigos, até mesmo a construção da igreja local.

Uma sidequest específica permite que Connor “analise” estas pessoas em suas atividades, coletando assim informações para a Encylopedia of the Common Man (Fig. 3.5). Esta missão, sem maior significado ou desenvolvimento, resume-se a “enquadrar” com a câmera do jogo os habitantes realizando ações ordinárias, como cortar lenha, lavar roupa, etc. rendendo um Troféu quando todas as ações possíveis são realizadas. E na conclusão de todas as missões paralelas

com conteúdo narrativo, podemos ver o destino final do mestre de Connor, Acchiles, que falece devido à idade, e reúne todos os membros em uma missa para seu enterro.

Figura 3.5: Connor “analisando” uma fazendeira para a Encyclopedia

Fonte: https://i.ytimg.com/vi/xJV3_pSodS4/maxresdefault.jpg

Através das resoluções dos problemas dos habitantes, vemos a pequena vila lentamente progredir e se transformar, tornando a Homestead o único espaço que devidamente possui mudanças com o passar do tempo em toda a série. Em outros jogos, há também a possibilidade de melhoria de alguns edifícios através do investimento monetário do jogador, o que não significa um “passar do tempo”. De toda forma, neste e nos demais jogos da série, o progresso e a mudança se dão por ação do jogador, inexistindo sem seu auxílio, postulando a condição de sujeito-agente-empreendedor, que faz o mundo se modificar, sempre para melhor. Sem o empreendimento (literal em muitos jogos – o jogador deve investir moeda do jogo para melhorar estruturas e ter dividendos com isso), o espaço deste mundo é sempre o mesmo.

A Homestead, portanto, aos moldes da ideia da liberdade americana, aponta o papel do homem comum na revolução dentro da narrativa do jogo: nenhum. São pessoas vítimas dos acontecimentos maiores do que elas e dependentes do grande herói para protegê-las e conduzi- las ao novo local para que possam viver em paz e recomeçar em uma vida mais simples e honesta. Por um lado a narrativa da nação de Assassin’s Creed reitera o papel dos grandes heróis nos grandes eventos apresentados em suas main quests, de outro lado atesta a vulnerabilidade do povo comum em sidequests cotidianas de dificuldades não excepcionais, fazendo surgir

dessa contraposição a coexistência entre a História “vinda de cima” e a “vinda de baixo”, que faz emergir a ideologia que predomina a “razão justa” da ação e da liberdade individual em um devir histórico já colocado. A “Revolução Americana” era, então, uma necessidade, inevitável e inadiável para a constituição do sonho americano.

O homem comum como base da nação americana, e, entretanto, diminuto frente aos processos políticos que criaram o país poderiam indicar um trabalho de distintas temporalidades – uma do tempo político (dos eventos, dos grandes homens) em oposição ao tempo socioeconômico (do homem comum, trabalhador). Entretanto, isso não se verifica em nossa análise, já que as narrativas das classes subalternas são acessórias e complementares à dramaturgia melodramática, além de se limitarem a pequenas narrativas também de acontecimentos, nas quais o foco são as ações cotidianas.