O trabalho de Cléria Bittar Bueno (2009) apresenta as normas morais que atribuem às mulheres no Espiritismo um status de igualdade. Presentes na obra kardequiana, os excertos apontam o horizonte de valores com que se baseia a comunidade espírita para as relações homem-mulher. Nosso esforço será o de apontar algumas passagens centrais e apresentar apontamentos sobre o tema de um olhar diferente.
Kardec (1995, p. 135) vai afirmar n’O Livro dos espíritos, de 1857, que os espíritos não tem sexo, cumprindo encarnar de forma alternada para progredir em tudo. Mas, na “lei de igualdade”, uma das leis morais que o Espiritismo apresenta sob o título com marcador de sexo (Kardec, 1995, p. 380 e ss., grifo nosso):
Igualdade dos direitos do homem e da mulher:
817. São iguais perante Deus o homem e a mulher e têm os mesmos direitos? ‘Não outorgou Deus a ambos a inteligência do bem e do mal e a faculdade de progredir?’ 818. Donde provém a inferioridade moral da mulher em certos países? ‘Do predomínio injusto e cruel que sobre ela assumiu o homem. É resultado das
instituições sociais e do abuso da força sobre a fraqueza. Entre homens moralmente pouco adiantados, a força faz o direito.’.
Kardec não se deixa levar por um relativismo intelectual, mas opta por uma saída universalista. A relevância que a mulher tem no Espiritismo, tem uma raiz na possibilidade de estabelecer critérios normativos baseados em valores sociais e não apenas no texto bíblico. O Espirtismo precisa ajudar os indivíduos na sua individuação, que é um tipo de ascese espiritual para eles. Assim, fica livre para convencionar elementos morais novos, mais relevantes, afinal, ele se vê como o projeto de Jesus na Terra:
819. Com que fim mais fraca fisicamente do que o homem é a mulher? “Para lhe determinar funções especiais. Ao homem, por ser o mais forte, os trabalhos rudes; à mulher, os trabalhos leves; a ambos o dever de se ajudarem mutuamente a suportar as provas de uma vida cheia de amargor.”
820. A fraqueza física da mulher não a coloca naturalmente sob a dependência do homem? “Deus a uns deu a força, para protegerem o fraco e não para o escravizarem.” Deus apropriou a organização de cada ser às funções que lhe cumpre desempenhar. Tendo dado à mulher menor força física, deu-lhe ao mesmo tempo maior sensibilidade, em relação com a delicadeza das funções maternais e com a fraqueza dos seres confiados aos seus cuidados.
821. As funções a que a mulher é destinada pela Natureza terão importância tão grande quanto as deferidas ao homem? “Sim, maior até. É ela quem lhe dá as primeiras noções da vida.”
822. Sendo iguais perante a lei de Deus, devem os homens ser iguais também perante as leis humanas? “O primeiro princípio de justiça é este: Não façais aos outros o que não quereríeis que vos fizessem.” a) - Assim sendo, uma legislação, para ser perfeitamente justa, deve consagrar a igualdade dos direitos do homem e da mulher? “Dos direitos, sim; das funções, não. Preciso é que cada um esteja no lugar que lhe compete. Ocupe-se do exterior o homem e do interior a mulher, cada um de acordo com a sua aptidão. A lei humana, para ser eqüitativa, deve consagrar a igualdade dos direitos do homem e da mulher. Todo privilégio a um ou a outro concedido é contrário à justiça. A emancipação da mulher acompanha o progresso da civilização. Sua escravização marcha de par com a barbaria. Os sexos, além
disso, só existem na organização física. Visto que os Espíritos podem encarnar num e noutro, sob esse aspecto nenhuma diferença há entre eles. Devem, por conseguinte, gozar dos mesmos direitos” (Kardec, 1995, p. 380 e ss.).
Cabe salientar que os espíritos se utilizariam de certas roupagens da personalidade, como uma aparência, sexo, etnia que lhes foi cara em existência passada. Dessa forma, Allan Kardec, embora ainda estabeleça diferenças do ponto de vista corporal, o que a própria Martha Nussbaum (2000, p. 264) reconhece como possibilidade não-justificadora, do ponto de vista do direito e da intelectualidade existe uma normatividade que concebe como seres iguais, reencarnam numa “roupa” que o espírito modela. Aqui talvez esteja uma grande âncora de “relevância” do Espiritismo para estruturar formas de reconhecimento.
Um caso de inversão de sexos seria Judas Iscariotes, que redimido, seria a reencarnação de Joana D’Arc. Segundo o espírito Miramez (Maia, 2011) teria narrado, Joana D’Arc teria a missão de impedir a invasão da França porque ambas as nações tinham missões diferentes. Na França teriam reencarnando milhões de espíritos que viveram na Atenas helênica e teriam vindo com o mister de levar a democracia ao mundo. A reencarnação é uma categoria de relevância que o espiritismo usa com vários fins, sobretudo, para relativizar classe, sexo, nacionalidade e dar-lhes um ar de transitoriedade, o que geraria uma abordagem secular das diferenças. Chico Xavier teria sido entre outros personagens como Francisco de Assis, Platão e a faroni Hatshepsut, segundo nos contou um de seus amigos próximos e editor Geraldo Lemos Neto, numa conversa pelo Facebook.
Outro aspecto do Espiritismo é o amor como eixo cristão da transformação social: Allan Kardec em seu estudo do Evangelho (segundo o espiritismo), veria o amor uma força atratora com relevância social e psicológica (1996, p. 91) e ainda para o “codificador” do espiritismo: “a lei de amor substitui a personalidade pela fusão dos seres; extingue as misérias sociais” (1996, p. 186), ou seja, Kardec dá ao amor o eixo de sua “teoria da comunicação generalizada74”, onde todos os seres humanos encarnados ou não, de todos os planetas do universo, comporiam a mesma família universal, portanto o material e o espiritual são meras categorizações de uma mesma sociedade em diversos níveis de evolução cuja atração para a esfera primária de relação é o objetivo, veja-se as formas de tratamento e deferência: irmão e irmã, inclusive com os espíritos maus que são tratados como irmãos, na medida que são vistos como espíritos em evolução.