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Conforme apresentado, é conhecido que as empresas estão se organizando em redes e que um novo ambiente competitivo foi um impulsionador para esses modelos. Entretanto, é importante questionar: quais são os motivadores para se estabelecer um relacionamento interorganizacional? Qual é o racional para se explicar a formação destes arranjos? Quais são os ganhos proporcionados pelas redes a seus integrantes? Para responder a estes questionamentos, a seguir será dada continuidade à revisão da literatura sobre redes interorganizacionais e redes de cooperação.

Barringer e Harrison (2000), para tentar identificar qual era o racional para se estabelecer um relacionamento interorganizacional, realizaram um aprofundamento na literatura e identificaram seis grandes paradigmas teóricos que podem explicar a sua formação:

a) Custos de transação: foca em como uma organização estrutura suas atividades para minimizar seus custos de produção e transação. É um racional para se estabelecer o relacionamento interorganizacional pois este pode reduzir as incertezas causadas por falhas no mercado e reduzir custos oriundos de hierarquias.

b) Dependência de recursos: baseada na teoria de sistemas abertos, aponta que as organizações devem realizar trocas com seus ambientes para obter recursos. É um racional para se estabelecer o relacionamento interorganizacional pois nele as organizações podem exercer poder ou controle sobre outras que possuem poucos recursos ou a organização pode fazer parte de um relacionamento interorganizacional para sanar uma necessidade de recurso.

c) Escolha estratégica: tem como base os fatores que proporcionam oportunidades para as empresas aumentarem sua competitividade ou poder de mercado. É um racional para se estabelecer o relacionamento interorganizacional pois este pode aumentar a capacidade da empresa de entregar produtos superiores e serviços de forma eficiente, bem como para diminuir a competição em determinado setor.

d) Teoria dos stakeholders: defende que as organizações estão no centro de uma rede interdependente de públicos estratégicos, que devem ser levados em consideração na tomada de decisão e realização de negócios. É um racional para se estabelecer o relacionamento interorganizacional pois com ele as organizações podem alinhar seus interesses com os de seus stakeholders e diminuir as incertezas do ambiente.

e) Teoria da aprendizagem: se preocupa com o processo que leva ao aprendizado organizacional e tem como chave a capacidade de absorção. É um racional para se estabelecer o relacionamento interorganizacional pois as organizações podem absorver o máximo possível de conhecimento de seus parceiros para aumentar suas competências e seu valor.

f) Teoria institucional: sugere que ambientes institucionais pressionam as organizações para que elas respeitem as normas sociais. É um racional para se estabelecer o relacionamento interorganizacional pois com este é possível obter legitimidade. É válido destacar que aparentemente o relacionamento interorganizacional originado e guiado pelos princípios do comérico justo se baseia na visão de escolha estratética.

Já Kwasnicka (2006), a partir do trabalho de Barringer e Harrison (2000), sintetiza oportunidades e ameaças para a formação das redes interorganizacionais conforme apresentado no Quadro 6. A autora (2006) ainda destaca que as ameaças são perfeitamente controláveis, ao passo em que as oportunidades são ganhos organizacionais, justificando a formação dos relacionamentos interorganizacionais.

OPORTUNIDADES AMEAÇAS Permitir acesso a capital, conhecimento, mercado,

tecnologia, e processos produtivos. Perder a tecnologia para parceiro que já seja competidor ou venha a se tornar um. Possibilidade de expandir seu volume de produção

sem aumentar custos fixos. Dificuldade em gerenciar particularidades, como cultura, processos e sistemas. Possibilidade de se globalizar com acesso a mercados

externos. Geração de dependência, quando um parceiro é mais forte que os demais. Usar as habilidades conjuntas para desenvolver novos

produtos ou serviços e entrar primeiro no mercado, gerando vantagem competitiva.

Dificuldades de adaptar-se a novas culturas organizacionais que podem gerar desconfianças, falta de lealdade e comportamento oportunístico.

Aumentar a capacidade de pressão coletiva sobre o governo, no sentido de obter políticas favoráveis a seus interesses.

Perda parcial de autonomia de decisão e de flexibilidade de trabalho, prejudicando a ação independente da empresa.

Ganhar competência e poder de mercado para neutralizar avanço de competidores.

Gerar maior controle do governo por políticas reguladoras anti trustes.

Quadro 6 Oportunidades e Ameaças Fonte: Kwasnicka (2006, p. 33)

Assim como Kwasnicka (2006) e Barringer e Harrison (2000), Dyer e Singh (1998) apresentam as vantagens competitivas que podem ser resultantes das redes interorganizacionais, as dividindo em quatro grandes categorias: investimentos em ativos específicos da relação para ganho de produtividade e especialização; troca de conhecimentos que pode gerar aprendizado conjunto; combinação de recursos e capacidades para a criação de novos produtos, serviços ou tecnologias e; menores custos de transação devido à governança.

Com isso, os três questionamentos feitos anteriormente estão em parte respondidos por visões bastante sinérgicas. Para essa pesquisa, porém, é fundamental que se apresente o conceito de ganhos competitivos em redes de cooperação que complementará o exposto por Kwasnicka (2006), Barringer e Harrison (2000) e Dyer e Singh (1998) e permitirá o cumprimento dos objetivos do estudo.

Os trabalhos de Verschoore (2006) e Verschoore e Balestrin (2008) consolidaram a partir da literatura cinco principais ganhos competitivos proporcionados às empresas em redes de cooperação, a saber: escala e poder de mercado; acesso a soluções; aprendizagem e inovação; redução de custos e riscos e; relações sociais.

Com isso, estes trabalhos identificaram e mensuraram os ganhos competitivos nas redes de cooperação do Rio Grande do Sul. Ilustrando ainda mais a consistência do modelo, Souza et al (2013) o aplica em uma cooperativa, enquanto Santos et al (2013) apresentam os ganhos competitivos em seu levantamento bibliográfico. A seguir, serão detalhados os cinco ganhos

competitivos em redes de cooperação e paralelos são feitos com o conceito, os princípios e as características do comércio justo.

Os ganhos de escala e o poder de mercado são geralmente os primeiros benefícios que vem à mente quando se pensa em uma rede de cooperação, já que eles dizem respeito à maior força que uma empresa tem para agir quanto está junta de outras empresas. A escala e o poder de mercado crescem com o aumento do número de presentes na rede e faz com que as empresas tenham maior poder de negociação e relações comerciais, visibilidade, credibilidade e legitimidade (VERSCHOORE, 2006; VERSCHOORE e BALESTRIN, 2008). Ao se traçar um paralelo com o comércio justo, é possível perceber um claro alinhamento entre a escala e o poder de mercado e uma das bases do fair trade que é garantir o acesso de produtores marginalizados ao mercado consumidor.

Já o acesso a soluções se refere aos produtos, serviços e infraestrutura que as empresas podem encontrar na rede. Exemplos podem ser capacitações, consultorias, prospecção de oportunidades, garantia ao crédito, campanhas de marketing, entre outros (VERSCHOORE, 2006; VERSCHOORE e BALESTRIN, 2008). Assim como nos ganhos de escala e poder de mercado, ao se traçar um paralelo com o comércio justo e seus princípios pode-se identificar as capacitações como um ponto em comum entre eles. Ainda, a prospecção de oportunidades pode se relacionar com o acesso ao mercado proporcionado para os produtores e a garantia ao crédito, acontecendo dentro da própria rede, tem um ponto em comum com as condições comerciais diferenciadas proporcionadas aos produtores. Por fim, campanhas de marketing e comunicação podem ter um ponto em comum com a promoção do comércio justo, outro princípio esperado dos atores da rede.

O terceiro ganho competitivo é relativo à aprendizagem e inovação. A participação em uma rede de cooperação permite às empresas que troquem conhecimentos e acessem novos métodos, ideias, modelos de gestão, etc, ao passo em que a literatura apresenta evidências empíricas que aprendizagem pode se reverter em inovações para as organizações (VERSCHOORE, 2006; BARROS, BOAVENTURA e POLO, 2014). As redes de cooperação permitem estratégias conjuntas de inovação e um acesso mais rápido às novas tecnologias pelo compartilhamento de informações internas e externas à rede, sendo essa troca e utilização dos conhecimentos muito mais intensas devido à estrutura descentralizada das redes e à proximidade e relacionamentos de longo prazo entre os envolvidos (VERSCHOORE, 2006; VERSCHOORE e BALESTRIN, 2008). “Pode-se afirmar, então, que os benefícios

relacionados com o compartilhamento de ideias e experiências entre empresários e o empreendimento conjunto de processos de melhoria e inovação são particularidades intrínsecas às redes de cooperação” (VERSCHOORE, 2006, p. 110). Por fim, o comércio justo preza pela capacitação dos produtores e pela cooperação na troca de informações como parte de um de seus princípios, o que pode se relacionar com a aprendizagem. Apesar disso, não é possível apenas com a análise da literatura encontrar outros pontos convergentes com esse ganho competitivo, especialmente ligados à inovação.

A redução de custos e riscos é o quarto ganho competitivo identificado nas redes de cooperação. Esse ganho diz respeito “[...] à vantagem de dividir entre os associados os custos e riscos de determinadas ações e investimentos que são comuns aos participantes” (VERSCHOORE, 2006, p. 111), bem como a dividir os resultados obtidos pelas ações conjuntas. Uma das maneiras pela qual a rede de cooperação possibilita a redução de custos e riscos é pelo acesso aos recursos, que podem ser mais facilmente combinados entre empresas a partir dos relacionamentos (VERSCHOORE, 2006; VERSCHOORE e BALESTRIN, 2008). Ao se traçar um paralelo com o comércio justo, é possível perceber que as condições comerciais diferenciadas, como o pagamento antecipado aos produtores, podem ser um indício de compartilhamento de riscos, principalmente nos casos dos produtos considerados commodities que sofrem com a variação de preço de acordo com o mercado internacional. Além disso, o compartilhamento dos resultados obtidos se evidencia com o valor final pago por um produto sendo distribuído de maneira justa e transparente entre os membros da cadeia.

Por fim, o quinto ganho competitivo é o de relações sociais, que proporciona para a rede de cooperação a emergência da confiança, do capital social. Tendo claro que o conceito de relações sociais “[...] diz respeito ao aprofundamento das relações entre os indivíduos, ao crescimento do sentimento de família e à evolução das relações do grupo além daquelas puramente econômicas” (VERSCHOORE, 2006, pp. 113-114), esse ganho competitivo limita ações oportunistas por meio de uma coesão interna e pelo risco de se perderem os ganhos coletivos, não implicando em custos burocráticos ou contratuais (VERSCHOORE, 2006; VERSCHOORE e BALESTRIN, 2008). A definição e os princípios do comércio justo não apresentam muitos indícios concretos sobre como se dão as relações sociais em suas iniciativas, embora supõe-se que a relação transparente e de longo prazo entre os atores favoreça o crescimento da confiança e do capital social.

Com isso, Verschoore (2006) e Verschoore e Balestrin (2008) sintetizam a partir da literatura os principais ganhos competitivos em redes de cooperação e suas variáveis. É possível encontrar algumas similaridades entre os ganhos apontados e as visões de Kwasnicka (2006), Barringer e Harrison (2000) e Dyer e Singh (1998), embora não seja o propósito desse trabalho fazer esse cruzamento por já ter definido que o modelo teórico que será adotado é o dos ganhos competitivos. Apenas para citar um exemplo dessa congruência de pensamentos, a aprendizagem é apresentada como um ganho competitivo da mesma forma que é citada como uma vantagem competitiva por Dyer e Singh (1998), como uma oportunidade por Kwasnicka (2006) e como um paradigma teórico por Barringer e Harrison (2000). A síntese dos ganhos competitivos expostos, suas definições e variáveis encontram-se no Quadro 7.

GANHOS

COMPETITIVOS DEFINIÇÃO VARIÁVEIS

Escala e Poder de Mercado

Benefícios obtidos em decorrência do crescimento do número de associados da rede.

Quanto maior o número de empresas, maior a capacidade da rede em obter ganhos de escala e

poder de mercado Poder de barganha Relações comerciais Representatividade Credibilidade Legitimidade Força de mercado Acesso a Soluções

Os serviços, os produtos e a infraestrutura disponibilizados pela rede para o desenvolvimento de seus associados.

Capacitação Consultorias Marketing Prospecção de oportunidades Garantia ao crédito Aprendizagem e Inovação

O compartilhamento de ideias e de experiências entre os associados e as ações de cunho inovador

desenvolvidas em conjunto pelos participantes.

Disseminação de informações Inovações coletivas Benchmarking interno e externo

Ampliação de valor agregado

Redução de Custos e Riscos

A vantagem de dividir entre os associados os custos e os riscos de determinadas ações e

investimentos comuns aos participantes.

Atividades compartilhadas Confiança em novos investimentos

Complementariedade Facilidade transacional

Produtividade

Relações Sociais

O aprofundamento das relações entre os indivíduos, o crescimento do sentimento de família e a evolução das relações do grupo para

além daquelas puramente econômicas.

Limitação do oportunismo Ampliação da confiança Acúmulo de capital social

Laços familiares Reciprocidade Coesão interna

Quadro 7 Síntese dos ganhos competitivos de empresas em redes de cooperação Fonte: Adaptado de Verschoore e Balestrin (2008)

É importante ressaltar que a comparação feita entre os ganhos competitivos e os aspectos do comércio justo não tem como objetivo esgotar a relação entre os temas. Contrariamente, ao traçar paralelos buscou-se indícios de que o modelo proposto era aderente

à literatura de comércio justo, permitindo sua utilização na coleta de evidências empíricas. Portanto, a partir do que foi exposto, chegou-se à segunda proposição deste estudo:

Proposição 2: artesãos em uma iniciativa de comércio justo podem ter ganhos competitivos de redes de cooperação, a saber: escala e poder de mercado; acesso a soluções, aprendizagem e inovação; redução de custos e riscos e; relações sociais.

É a partir das duas proposições que o problema dessa pesquisa foi definido e, embora já tenha sido apresentado, é retomado a seguir:

Como os ganhos competitivos de redes de cooperação podem ser proporcionados aos artesãos em uma iniciativa de comércio justo?

De forma a responder o problema de pesquisa e cumprir com os objetivos propostos, a metodologia utilizada para cada uma das etapas do fluxo de pesquisa adotado no presente trabalho será detalhada no próximo capítulo.