Ainda relativo ao ganho competitivo de escala e poder de mercado, buscou-se avaliar se os artesãos possuíam um maior poder e capacidade de negociação com fornecedores e clientes por
participarem da Rede Asta. Após o levantamento e a categorização de dados sobre este tema, foi estabelecida a categoria analítica de relação com fornecedores.
Neste caso, diferentemente do acesso ao mercado e ampliação de vendas, não foi possível encontrar evidências sobre um maior poder de negociação dos artesãos diretamente com fornecedores, enquanto que o cliente analisado no caso é a própria Rede Asta e a relação entre a organização e os artesãos será abordada em outras categorias analíticas.
Na visão de Miriam e Alice, entrevistadas da Rede Asta, os artesãos ainda não possuem um maior poder de negociação com os fornecedores. Ambas não se sentem seguras para afirmar que não ocorreu nenhuma situação em que os artesãos tenham obtido vantagens de negociação ao tratar diretamente com os fornecedores, embora desconheçam exemplos para citar. Da mesma forma, a conselheira C1 também desconhece essa relação direta entre artesãos e fornecedores para afirmar se há ou não um maior poder de negociação. A seguir, a fala das três entrevistadas expõe essa questão:
Eu não vou me arriscar em dizer que isso acontece. Porque se isso acontecer, acontece de um jeito que a gente não sabe. Então não tenho nenhum dado para te comprovar que isso aconteça, sabe. Eu prefiro dizer que não (ALICE, [informação oral]).
Não. Eu não acho que chega a ter um maior poder de negociação [...] (MIRIAM, [informação oral]).
Eu não vivenciei presencialmente nenhuma... Não tive contato com nenhum grupo e também não tive acesso a essa dinâmica da relação (C1, [informação oral]).
Apesar disso a Rede Asta conta com empresas que doam seus resíduos, como já exposto na descrição do caso. Nessas situações, mesmo sem haver um contato direto entre artesãos e fornecedores, tampouco uma relação comercial com fornecedores, a atuação da Rede Asta garante aos grupos produtivos condições melhores para a obtenção de insumos junto a empresas que doam seus resíduos. Já uma outra situação que pode ocorrer é a de compra de matérias-primas pela Rede
Asta. Isso ocorre quando se constitui uma rede de produção e a organização fica também responsável pela obtenção dos insumos e distribuição para os grupos que estão trabalhando nessa rede específica. Nesses casos, pode-se dizer que os artesãos são beneficiados pelo poder de negociação da Rede Asta, que pesquisa os insumos e realiza a compra em quantidades maiores do que se cada grupo produtivo a realizasse individualmente, o que pode proporcionar melhores
condições comerciais. A fala a seguir de Alice demonstra como essa situação ocorre nas redes de produção:
Eu acho que o que acontece aqui é o seguinte: quando a gente consegue reunir os grupos para trabalhar numa rede de produção, aí sim, porque aí toda parte de compras, quem realiza somos nós. A gente distribui os insumos e os grupos ganham pela produção. Eles não têm o menor trabalho de pegar um ônibus, ir ao centro comprar alguma coisa, entendeu. Eles ganham pela produção. A gente faz pesquisa de insumo, compra pelo menor preço, distribui para eles (ALICE, [informação oral]).
É percebido também que a atuação da Rede Asta pode favorecer melhores condições comerciais aos artesãos por meio de conhecimentos adquiridos com a organização, que podem ajudar em futuras negociações. A fala da conselheira C1 apresenta essa visão sobre como os conhecimentos proporcionados pela relação com a Rede Asta podem favorecer os artesãos em negócios futuros:
[...] eu sei assim, na medida em que eles participam dessa dinâmica de apresentar um produto, refazer, poder precificar, pensar em estoque, pensar em logística, né? Tempo de produção. Isso dá muito mais base para poder negociar com outro fornecedor, com outro parceiro, né? [...] então eu acho que essa vivência com a Asta, sem dúvida, traz mais instrumentos para poder fazer outros negócios, né? (C1, [informação oral])
Por fim, a Rede Asta acredita em seu potencial de proporcionar melhores negociações para os artesãos. Por este motivo, não é descartada a criação de uma rede de fornecedores próximos à causa e que já trabalhem com maior constância com a Rede Asta, visando assegurar aos artesãos um maior poder de barganha junto a esses fornecedores. A seguir a fala de Miriam exemplifica como a Rede Asta percebe o potencial de criação de uma rede de fornecedores:
[...] a gente até está pensando, mais para frente, em [...] ter alguns fornecedores que [...] a gente já trabalhe com uma certa constância para, justamente, ajudar os grupos a terem um poder de negociação maior (MIRIAM, [informação oral]).
A maior dificuldade que a Rede Asta enfrenta para a criação dessa rede de fornecedores é a grande diversidade de produtores e, consequentemente, de matérias-primas utilizadas nos produtos. Isso faz com que muitos fornecedores diferentes sejam acessados e poucos de fato estejam ligados à causa da Rede Asta. A grande diversidade de insumos também inviabiliza mercadologicamente acordos maiores com fornecedores-chave, como evidencia Alice em sua fala:
Então, são vários tipos de insumos diferentes para grupos que trabalham com eles de forma diferentes. Aí a gente percebeu que se a gente não encaminhar esse processo de montar uma rede de compras, ela não ia sair do papel. E a gente também percebeu que o
custo benefício desse grupo, pelo volume ser ainda muito pequeno, não ia ser tão vantajoso assim (ALICE, [informação oral]).
Com isso, é possível sintetizar que: a) os artesãos não possuem poder de barganha quando lidam diretamente com seus fornecedores; b) a Rede Asta pode se responsabilizar pela coleta e distribuição de insumos doados por empresas, proporcionando melhores condições de recebimento das matérias-primas pelos artesãos; c) A Rede Asta pode se responsabilizar pela pesquisa, compra em maior quantidade e distribuição de matérias-primas aos grupos de artesãos que integrem redes de produção, visando melhores condições comerciais ao lidar direto com os fornecedores; d) e a Rede Asta acredita que pode ter um papel relevante em formar uma rede de fornecedores com os quais os artesãos possam ter melhores condições comerciais, embora a maior dificuldade para isso seja a grande diversidade de produtores, insumos e fornecedores.
É possível relacionar os achados da relação com os fornecedores com os princípios e as características do comércio justo, embora os fornecedores não tenham sido apontados como atores do comércio justo pela literatura.
Moore (2004) aponta que os principais atores do comércio justo são os produtores, as organizações compradoras, as organizações guarda-chuva e as organizações tradicionais que vendem produtos do comércio justo. Já Schneider (2012a) aponta que os principais atores são os produtores, os exportadores e importadores, as world shops, o varejo tradicional, os licenciados, as iniciativas de certificação e as organizações ligadas ao comércio justo. Para este trabalho, durante o levantamento teórico também foi considerado o consumidor como um dos atores fundamentais da cadeia do comércio justo.
Mesmo notando que os fornecedores não foram abordados por Moore (2004) e Schneider (2012a), organizações podem ser engajadas com a causa e participarem dessa cadeia. Este é o caso de empresas como as parceiras da Rede Asta, que doam seus resíduos como insumos para os grupos produtivos, ou até mesmo fornecedores específicos que por acreditarem no comércio justo podem oferecer condições comerciais diferenciadas.
Segundo Wills (2006), as condições comerciais diferenciadas fazem parte do comércio justo de forma a garantir a perpetuação dos negócios dos produtores, e para Low e Davenport (2005b) as condições comerciais diferenciadas são apontadas inclusive como argumento para se
justificar a mudança do termo comércio alternativo para comércio justo. Já a WFTO e a FLO International (2009) apontam que um dos princípios do fair trade é ter a causa como um contrato social, segundo o qual os compradores devem ter atitudes diferentes das que teriam em uma relação comercial tradicional, incluindo as condições comerciais diferenciadas.
Embora as condições comerciais diferenciadas sejam frequentemente associadas ao contato entre os compradores e os produtores, no caso da Rede Asta foi possível notar que empresas fornecedoras de insumos também estabelecem relações comerciais com artesãos e podem igualmente oferecer condições comerciais diferenciadas. Como mencionado, no caso estudado algumas empresas oferecem seus resíduos como matérias-primas e em outras situações a Rede Asta negocia direto com os fornecedores para assegurar melhores acordos para os artesãos. Além disso, a Rede Asta percebe que pode contribuir para que os artesãos tenham melhores resultados em suas negociações diretas com os fornecedores.
Portanto, é possível perceber que a Rede Asta pode contribuir para que os artesãos encontrem condições comerciais diferenciadas, atendendo a essa característica do comércio justo e proporcionando um ganho de poder e capacidade de negociação com fornecedores. É válido destacar ainda que essa relação não foi estabelecida na comparação teórica, uma vez que foram os achados da pesquisa que permitiram relacionar os fornecedores à causa do comércio justo e às condições comerciais diferenciadas.