4.1 Discussion of findings
4.1.2 The significance of psychosocial factors
Daí a circulação nos centros culturais foi um êxito, com apresentações lotadas por um público diverso e orgulhoso daquele do grupo de sua cidade. Criava-se, imediatamente, uma identificação do público com a obra, sua linguagem popular, ora em rimas, ora cantada, ora musicada. Havia mesmo pessoas da plateia que ao final da apresentação nos procurava a fim de saber se aquelas histórias eram verdadeiras.
Lembro-me de que na apresentação feita no Centro Cultural Serraria havia um público enorme para entrar no espaço. Peço licença para contar um fato que para mim foi marcante nesse dia. No final da apresentação, um adolescente veio até mim, com os olhos brilhantes de curiosidade, saber sobre o grupo e o trabalho. Anos mais tarde, conversando com William Figueiredo, o adolescente de olhos brilhantes, ele me revelou que começou a fazer teatro por causa dos Jovens Atores. Bem, eu fiquei sem palavras, por que William se tornou um articulador cultural local, estudioso de
performance art e artista, em Diadema. Esse caso não foi o único. Muitos jovens dos bairros que mais tarde se tornaram artistas em Diadema tinham os Jovens Atores como “o grupo de teatro”. O mais emocionante para mim é poder ter contribuído com a cidade onde nasci e que por tanto tempo só foi conhecida por índices estatísticos para medir crimes. Esse é o outro lado da história...
A partir de Histórias que o povo conta houve o aumento da frequência de público nos Centros Culturais e por onde passávamos isto era notável. As apresentações costumavam arrebanhar uma quantidade de público impressionante. Quando o espetáculo voltou ao Teatro Clara Nunes, a fila para entrar dava voltas no entorno. Francisco Glauter Leal, na qualidade de agente cultural, acompanhou os quatro primeiros processos de montagem. Na entrevista ele comenta que havia, na cidade, uma expectativa de saber quando os Jovens Atores iriam estrear. O grupo estava consagrado em Diadema como o mais atuante e expressivo da cidade. A partir desse momento, muito Centros Culturais de bairro passaram a contar com oficinas mais intensivas de teatro, reflexo direto do resultado artístico dos Jovens Atores. O Centro Cultural Serraria passou a catalisar uma quantidade significativa de pequenos coletivos teatrais assim como também uma nova oficina de aprofundamento, ainda que não fosse na mesma intensidade dos Jovens Atores.
Histórias que o povo conta participou do Mapa Cultural Paulista, evento de caráter competitivo, tendo ganhado dois (2) prêmios, além de ir para a fase final. Participou do Festival de Teatro Amador da Universidade São Francisco, em Bragança Paulista pela segunda vez, ganhando dois (2) prêmios e uma (1) menção honrosa. Depois se apresentou na Universidade Metodista de São Bernardo do Campo, nas cidades paulistas de Iepê e Suzano.
Na matéria abaixo, cujo título é “Grupo Jovens Atores inicia temporada”, no final do segundo parágrafo aparece escrito: “Histórias que o povo conta, um texto coletivo que conta um pouco a história da cidade mostrou que conseguiu formar um público nos centros culturais”. (Diadema Jornal, Caderno C, p. 1, 29 jan. 1998). Esse fato era notório na cidade. Por ocasião da remontagem e reestreia do espetáculo, escreveu Kalil Chaaban, então Diretor do Departamento de Cultura de Diadema:
O Grupo Jovens Atores é sem dúvida um dos mais lindos resultados desse processo de formação, desde Agosto de 1995 [...] Agora com Histórias que
grupo e dramaturgia de Ieda Cecília. Jovens Atores vêm se constituindo como um dos melhores grupos da região, representando nossa querida Diadema em outras cidades com muito sucesso. Cabe a mim o orgulho como cidadão diademense o prazer de contribuir de alguma forma enquanto companheiro de trabalho. (CHAABAN, 1997).
Daí, como era de praxe, enquanto o grupo circulava pelos Centros Culturais de Diadema, concomitantemente ao início de um novo processo de montagem. Essa característica de iniciar novo processo de trabalho quando se iniciava a circulação pela cidade foi uma marca no modo de produção do grupo Jovens Atores.
Figura 10 - Divulgação de Histórias que o povo conta. O segundo parágrafo traz a seguinte constatação: “Histórias que o povo conta, um texto coletivo que enfoca um pouco a história da cidade, mostrou que o grupo conseguiu formar um público nos Centros Culturais”. Fonte: Diadema Jornal, Caderno C, p. 1, 29 jan. 1998.
Figura 11 – Apresentação de Histórias que o povo conta em Centro Cultural de bairro. Foto:
Acervo pessoal de Cléber Pereira Borges.
Figura 12 – Histórias que o povo conta. Teatro Clara Nunes (1997). Fotos: acervo pessoal de Cléber Pereira Borges.
Figura 13 – Histórias que o povo conta. Teatro Clara Nunes (1997). Fotos: acervo pessoal de Cléber Pereira Borges.
4.3.4 As Troianas
Desde a remontagem de Histórias que o povo conta, em meados de 1997,os Jovens Atores estavam ensaiando em novo espaço, o Centro Cultural Okinawa. Durante a circulação pelos centros culturais de bairro intercalados com apresentações fora da cidade, o grupo deu início a um novo processo criativo. Luiz Nunes propôs a leitura de textos teatrais para começar o processo. O grupo então se decidiu pelo texto Gota d’água, escrito por Paulo Pontes e Chico Buarque.
O texto é uma transposição de Medeia, de Eurípedes, para uma paisagem carioca, onde a personagem título, Joana, casa com Jasão com quem tem dois filhos pequenos. Jasão, músico e bem mais jovem que Joana, escreveu um canção que do dia para a noite passou a fazer enorme sucesso comercial. Diante da visibilidade do rapaz, o rico dono do cortiço onde moravam, o Sr. Creonte, passou a cortejar o rapaz para que Jasão conhecesse sua filha, Alma. Jasão, diante da fortuna e do sucesso, deixa Joana com os filhos e vai morar com a jovem. As personagens de Gota d’água são compostos pelos vizinhos de cortiço de Joana: lavadeiras, donas de casa, gigolô, etc. O texto busca conservar a densidade do original grego, porém, com uma forte acepção de subúrbio. Joana torna-se uma mulher amarga, sofrida, deixada sozinha por Jasão com os filhos pequenos. Com base nesse contexto da história é que o grupo dá início à preparação do espetáculo.
O processo artístico de Gota d’água começou com intenso trabalho físico: exercícios e jogos que buscavam desenvolver resistência, agilidade. Nunes propôs um trabalho de percepção de equilíbrio e desequilíbrio precário. Essa técnica prevê a expansão do potencial expressivo do ator ao romper com o gesto cotidiano. A absorção dessa técnica pelo grupo não foi nada fácil. Nunes propunha um aprofundamento técnico ao mesmo tempo que oferecia uma proposta estética diferenciada em relação ao percurso do grupo. Aliado a isso, o grupo passou a ter aulas de percussão e voz bem como expressão corporal com o bailarino da Cia de Danças de Diadema, Eloi Rodrigues.
Enquanto o elenco ia se aprofundando nas questões levantadas pelo texto, a exigência técnica também exigia dos atores e atrizes uma disponibilidade de entrega,
que muitos demoraram para atingir, e outros talvez nem chegaram a entender. Outro aspecto interessante foram as aulas de História do Teatro que Nunes ministrou para o elenco, como forma de aumentar a sua bagagem teórica sobre teatro. Nunes comenta a dificuldade da formação de base de integrantes do elenco e o quanto isso se refletia nas aulas teóricas e de leitura de texto, mas que no palco isso era completamente diferente, porque, segundo ele, o elenco “pegava fogo”. Para ele, isso acontecia porque o grupo tinha muito talento, apesar desse problema formativo educacional. A certa altura, parte do elenco passou a fazer pesquisas de campo. Um exemplo disso foi a ida a um terreiro de Candomblé para se apropriar das imagens evocadas nesses espaços de rito, porque, no texto, havia passagens em que a protagonista Joana tinha manifestações espirituais dessa natureza religiosa. Isso chegou mesmo a causar certo mal estar numa integrante por conta de sua orientação cristã, o que a levou a considerar a sua saída do grupo.
A técnica de ator trazida por Nunes desafiava o grupo a se embrenhar num campo de atuação desconhecido. Entretanto, o “clima” dos ensaios ficava tenso tanto pelo conteúdo do texto da peça, como pela intensa preparação física. O fato é que o grupo enfrentou alguns desentendimentos entre os integrantes e também em relação à direção do espetáculo. O texto, árido em sua conotação política, denso e cheio de imagens fortes (como a cena final em que Joana mata os dois filhos envenenados e suicida-se na sequência) não tinha nada do clima de Histórias que o povo conta ou Retratalhos. Gota d’água foi ensaiada durante quase oito meses. O dado mais traumático foi a peça não estrear por conta de questões de direitos autorais. A notícia, dada por Nunes, ecoou dentro do grupo de forma devastadora. Uma sensação de frustração tomou conta do elenco. Depois de tantos meses ensaiando aquele difícil texto bem como difícil a técnica perseguida por Nunes para o espetáculo, ele, por fim, não ficaria pronto.
Para contornar a situação, Nunes propôs a montagem do texto As Troianas, de Eurípedes, que ele já tinha dirigido com outro grupo em São Paulo. O elenco leu o texto e gostou da proposta. Nunes então conseguiu uma formação em mitologia grega realizada pelo professor George Barcat, do Instituto Palas-Athenas, de São Paulo. Barcat frequentou os ensaios por um tempo para ministrar aulas e conversas sobre o tema.
do espetáculo que representavam as lutas entre gregos e troianos. Também uma banda de heavy metal da cidade foi convidada para integrar o espetáculo, a fim de realizar a trilha sonora ao vivo. Para tanto, a banda Déspota musicou passagens do texto, servindo muitas vezes como ligação entre os atos da peça.
Nunes retomou os estudos sobre desequilíbrio precário a fim de intensificar a presença dos atores e atrizes naquele contexto de tragédia grega. Buscou-se na linguagem estética uma aproximação aos gregos antigos, o que tornaria o trabalho de interpretação único no processo criativo do grupo. A intenção era causar um forte impacto imagético na plateia. As ambições artísticas em As Troianas não foram poucas. O cenário contou com duas grandes plataformas, uma para abrigar a banda e a outra, maior, para servir como o castelo real de Hécuba, a rainha troiana destituída de seu trono após a queda da cidade, completamente destruída pelos gregos.
Todo o figurino bem como os adereços foram confeccionados pelo próprio elenco, num processo colaborativo intenso que avançava por finais de semana inteiros e madrugadas, ora na casa de alguém do elenco ora no espaço de ensaio. O cenário, altamente elaborado, contou com inúmeros tambores de papelão para construção dos pilares da cidade destruída. . Com relação à divisão dos papeis, houve tensão entre a direção e alguns integrantes. Em algumas entrevistas, percebi que alguns integrantes se sentiram injustiçados. O elenco era bastante grande e nem todos receberam papeis com muitas falas. Alguns reagiram naturalmente e outros se magoaram com essa condição tão diferente da experimentada nos espetáculos anteriores.
Valdilene Santana comenta que sua noção sobre a temática da violência só se tornou clara depois de As Troianas. A cidade arrasada pelos gregos, cujos homens são todos assassinados e às mulheres cabem apenas os papeis de concubina ou escrava, saltou aos seus olhos. Santana ainda diz que sua percepção sobre a cidade mudou consideravelmente e que ela se deu conta da violência local como nunca antes percebeu. O seu relato revela o enorme poder do mito como uma ferramenta para desobstruir os sentidos e ressignificar aquilo que já se tornou natural, cotidiano, invisível. O papel da cultura e, mais especificamente o da arte, tem a função mesma de dar novos sentidos àquilo que parece não ter nenhuma importância porque está atrelada a uma dimensão cotidiana, isto é, não carregar, na aparência, nada de mais. O coro sôfrego das mulheres lamentosas pela morte da última criança do sexo masculino de Troia, Astianax, neto de Hécuba, era intensificado pela cena de suicídio de
Andrômaca, sua mãe.
Para Elaine Alves, As Troianas elevou o grupo a outro patamar artístico, porque era uma peça profissional. Para ela, se o grupo tivesse tido a maturidade de entender isso, ali os Jovens Atores teriam se profissionalizado. Os desafios impostos pela montagem tanto no que concerne ao trabalho de ator quanto pelo tamanho da produção só contribuíram para tornar As Troianas o espetáculo mais grandioso produzido em Diadema. Artisticamente, o espetáculo impressionou a plateia que foi assisti-lo no teatro. No final da peça, com a queda de Troia, nós derrubávamos todas as enormes colunas no palco, o que causava um impacto enorme no público. Tudo ao som de canções com letras do texto de Eurípedes e estilo música heavy metal, o que aumentava o aspecto de violência do espetáculo. A última cena, já com a cidade completamente destruída, todos as personagens voltavam à cena se posicionando em forma de barco no meio do palco portando longos bastões nas mãos: eram os remos que levariam todas as mulheres rumo ao inexorável e humilhante destino grego. A música que embalava a longa cena do barco tinha letra de Promessas do sol, de Milton Nascimento:
Você me quer forte E eu não sou forte mais
Sou o fim da raça, o velho que se foi Chamo pela lua de prata pra me salvar Rezo pelos deuses da mata pra me matar Você me quer belo
E eu não sou belo mais
Me levaram tudo que um homem podia ter Me cortaram o corpo à faca sem terminar Me deixaram vivo, sem sangue, apodrecer Você me quer justo
E eu não sou justo mais
Promessas de sol já não queimam meu coração Que tragédia é essa que cai sobre todos nós? (BRANT; NASCIMENTO, 1976).
Indiretamente, As Troianas trazia em seu desfecho uma pergunta bastante contundente para a cidade de Diadema, que, apesar das amplas melhorias urbanas e sociais, como já visto no Capítulo 2, tinha a amarga marca de campeã de violência do Estado de São Paulo e uma das três primeiras em nível nacional. A pergunta feita na canção de Milton Nascimento parece revelar uma questão que parecia de difícil compreensão. A violência contida no texto e na encenação de As Troianas foi, sem
sombra de dúvidas, a ocasião mais evidente de um posicionamento político do grupo, embora eu não possa afirmar que esse estado de consciência era uma percepção de todos. No fundo, o grupo não se ocupava de uma discussão política mais clara sobre seu papel dentro do contexto local. A preocupação constante em “fazer teatro” enfraqueceu o debate coletivo nas questões políticas mais amplas da cidade e até mesmo do país.
Fora o período em que se apresentou no Teatro Clara Nunes, As Troianas se apresentou uma única vez na cidade de Mauá, na Grande São Paulo e no Centro Cultural Taboão, em Diadema. Foi a peça que menos circulou de todas as montagens realizadas pelos Jovens Atores devido a suas dimensões, pois, para cada saída com o espetáculo, era necessário um caminhão para carregar todo o cenário, além das dificuldade de transporte da banda.
Por um lado, as questões artísticas ocuparam todas as atenções por meio de uma produção rebuscada e que revelava o alto grau de sofisticação envolvido no processo artístico. A fala de Mônica Rodrigues reflete exatamente esse importante aspecto do processo criativo na montagem de As Troianas:
Em 1998, o Jovens Atores passaram a ser considerados uma oficina de teatro avançada. Com novo diretor, encenamos a tragédia grega As
Troianas. Foi o meu primeiro personagem protagonista, como Hécuba,
rainha de Troia, que me exigiu muita dedicação e estudo para conseguir dar o mínimo de realismo ao sofrimento profundo daquelas mulheres. Esta montagem me levou a ter uma visão mais séria com todo produto artístico e impulsionou minha capacidade crítica e de observação estética. Passei a ver ética e disciplina como coisas indissociáveis da arte. (RODRIGUES apud MANSO, 2005, p.4).
Por outro lado, a peça, justamente por sua grandiosidade, acabou por se afastar dos bairros e comunidades de Diadema, onde se encontrava o seu numeroso público. Aqui coloco uma questão que considero pertinente para esse caso: o quanto o resultado estético atingido em As Troianas de fato contribuiu para que o grupo mantivesse seus laços identitários com as comunidades de sua cidade? Como lidar quando num contexto de políticas culturais, como era o caso de Diadema, os aspectos puramente estéticos, desvinculados de objetivos e propostas bem definidas, sobrepõem as condições da própria mediação cultural? Vou recuperar esses questionamentos nas Considerações desse trabalho.
da cidade, consolidando o prestígio do grupo e de seu diretor junto ao Departamento de Cultura. Porém, crises internas abalavam as relações interpessoais do grupo desde o início dos trabalhos de Gota d’água. Com o tempo, muitos desses problemas se agravaram. Na retomada dos trabalhos, em janeiro de 1999, os Jovens Atores se reuniram para uma longa conversa no Centro Cultural Okinawa, seu local de ensaios. Dessa reunião, quase metade do elenco saiu do grupo, sendo eu mesmo um deles. Havia uma falta de definição clara dos objetivos do grupo. Questões de identidade saltaram para a mesa de discussão: afinal, era só uma oficina livre de teatro ou era um grupo? Essa questão implicava diretamente no modo como os Jovens Atores lidava com o poder público. A princípio, essas questões ficaram sem respostas. Com a saída de muitos integrantes, abriu-se um novo processo seletivo para completar o quadro de atores e atrizes. A ideia era montar um novo espetáculo para aquele ano de 1999.
Figura 14 - Divulgação de As Troianas: peça é considerada a melhor produção de Diadema. Fonte: Diadema Jornal, Caderno de Cultura, p.1, 03 set. 1998.
Figura 15 – Apresentação de As Troianas no Teatro Clara Nunes, 1998. Foto: Acervo pessoal de Valdilene Santana.
Figura 16 – Apresentação de As Troianas no Teatro Clara Nunes, 1998. Foto: Acervo pessoal de Valdilene Santana.
Figura 17 – Apresentação de As Troianas no Teatro Clara Nunes, 1998. Foto: Acervo pessoal de Valdilene Santana.