A partir do reconhecimento da situação de risco a que muitos jovens estavam submetidos, seja pela falta de oportunidades de trabalho seja pela exposição direta à violência, a gestão 1989/1992 de José Augusto empreendeu um plano audacioso: a
cultura como alternativa para a criação de espaços de cidadania, prevenção e lazer.
Na gestão José Augusto foi inaugurado em 24 de junho de 1989 o primeiro equipamento de bairro. O Espaço Cultural da Região do Campanário, também chamado Casa de Cultura do Campanário, começou a funcionar onde hoje se localiza o Centro Cultural Vladimir Herzog. Tinha como proposta a criação de um polo aglutinador no bairro. Paralelamente à proposta de “Casa da Cultura” discutia-se o projeto do Centro Juvenil de Cultura, em parceria com o Departamento de Promoção Social, que buscava dar resposta a um dos graves problemas da cidade e preocupação da administração, o grande número de adolescentes. (VAZ; GODOY, 2010, p. 8).
Nessa gestão foram construídos 7 (sete) equipamentos culturais denominados “Centro Juvenil de Cultura”, ou, simplesmente, CJC. Esse projeto preteriu a ideia de Casa de Cultura, fazendo com que a existente no bairro Campanário desse lugar a um CJC, inaugurado a 19 de setembro de 1992.
Esses equipamentos culturais de bairro visavam ao atendimento infantil e infanto-juvenil, a princípio não havendo atividades destinadas aos adultos. Os CJC mantinham a iniciativa da descentralização cultural já observada na gestão anterior por meio de oficinas de arte popular: dança, teatro, música, artes plásticas, etc., além de manter as festividades do calendário da cidade. Começaram a operar com o objetivo de oferecer atividades de cunho sociocultural e de resgate da cidadania. Os CJC serviriam também para a realização de debates e palestras educacionais a partir de temas como saúde, sexualidade, relacionamento familiar, drogas, etc.
Seu funcionamento encontrou muitos problemas organizacionais, com poucos oficineiros contratados e um quadro de funcionários reduzido. Os equipamentos dispunham de poucos recursos físicos e materiais, sendo que alguns CJC eram adaptações de espaços utilizados para outros fins. As questões culturais nesse governo começaram a ganhar um contorno mais visível, conquanto não atingir plenamente todos os objetivos a que se destinavam.
Por meio de um concurso público realizado pela prefeitura, em 1992, foram contratados novos funcionários para trabalhar no Centro Cultural Diadema (CCD), o maior, central e que abrigava o Teatro Clara Nunes (TCN) e a Biblioteca Municipal. Mas também para os equipamentos culturais de bairro (CJC). Os problemas enfrentados nesse período no setor cultural ainda era o baixo orçamento destinado para o Departamento de Cultura, equipamentos deficitários e principalmente no que
diz respeito ao conceito de política cultural.
Segundo Francisco Glauter Almeida Leal, coordenador do Centro Cultural Serraria, havia, em seu entendimento, uma visão por parte dessa gestão de que as atividades desenvolvidas nos CJC e no CCD deveriam contemplar somente o universo da “cultura popular”, ou seja, não haveria abertura para outras manifestações artísticas que não contemplassem esse princípio. Outras manifestações estéticas, artísticas e filosóficas consagradas pela História seriam entendidas, nesse contexto, como sendo “arte burguesa”.
A partir dessa perspectiva, algumas poucas oficinas começaram suas atividades, em 1992, dentro desse princípio. Foram experiências realizadas, ao menos no ponto de vista de Francisco Glauter, por puro heroísmo. Para eles, essas primeiras iniciativas eram tímidas e quase sem estrutura organizacional para a realização das atividades, tampouco havia material disponível.
Figura 2 - Construção de um CJC, em Diadema. Fonte: Pé na Rua – Região Ruyce/Portinari/casa Grande/Promissão/Marilene – IPD, n. 66, p. 5, mai. 1992.
As atividades culturais até 1992 estiveram mais concentradas na promoção de grandes shows e eventos pela cidade sempre marcando a inauguração de alguma obra importante da prefeitura nos bairros: unidades básicas de saúde, CJC, ruas pavimentadas e avenidas, etc., além das muitas oficinas artístico-culturais de iniciação e sensibilização:
Na questão de formação foram desenvolvidas oficinas de artes, seguindo o programa da gestão passada, na tentativa de descentralização, oferecendo à comunidade a possibilidade de aprendizagem de várias linguagens artísticas: música (teoria, percepção e apreciação musical), harmonia e arranjo, musicalização para crianças, instrumentos de sopro, percussão, violão, coral adulto e infantil, teatro de rua, teatro de bonecos, mímica, literatura e ilustração, artes plásticas, expressão e construção, pintura, capoeira, desenho, circo, cerâmica, consciência corporal, danças brasileiras, tai-chi-chuan. [...] Até o final de 1992, foram inauguradas dez (10) bibliotecas, um (1) observatório astronômico e sete (7) centros culturais, alguns construídos outros adaptados de outros espaços, três (3) foram entregues no final da gestão sem que estivessem equipados, mas os que estavam em funcionamento aplicavam a política voltada aos jovens. (OLIVEIRA, 2002, p. 29-30).
Oliveira (2002) ressalta também a redação do “Plano de Ação para a Divisão de Cultura”, documento que fez um levantamento sobre a condição dramática dos jovens diademenses, ressaltando a importância de uma intervenção pública com a finalidade de se alterar esse estado. Esse plano de ação cultural procurava estabelecer as primeiras metas de atuação da Prefeitura na cidade. Porém, essa iniciativa foi bastante prejudicada devido aos prazos de entrega dos equipamentos culturais, que ficaram prontos, ou quase, somente no final da gestão.
O que se pode considerar, em síntese, como contribuições importantes dessa gestão e que serviram de mola propulsora para o êxito das políticas culturais implementadas a partir de 1993 são: a construção dos CJC, as bibliotecas de bairro, contratação de funcionários – ainda que insuficiente – e a iniciativa de ocupação dos equipamentos com oficinas artísticas de iniciação e sensibilização que visavam à ampliação e à descentralização da cultura.