É necessário fazer o retrospecto das condições que permitiram à tragédia instalar-se no internato para moças. Mary é a neta da Sra. Tilford, uma das pessoas mais ricas da região. Desde o começo da peça sabemos, através da fala de Joe, que ela é mimada pela
47 “KAREN. It´s true. (Suddenly). I want you to say it now. CARDIN. I don´t know what you´re talking about.
KAREN. Yes, you do. We´ve both known for a long time. I knew surely the day we lost the case. I was watching your face in court. It was ashamed – and sad at being ashamed. Say it now, Joe. Ask it now. CARDIN. I have nothing to ask. Nothing – (Quickly) All right. Is it – was it ever –
KAREN (puts her hand over his mouth). No. Martha and I have never touched each other. (Pulls his head down on her shoulder) That´s all right, darling. I´m glad you asked. I´m not mad a bit, really.” HELLMAN, 1971a, p. 61.
avó, Amelia Tilford, patronesse do internato e viúva respeitada na região. Economicamente, seria difícil para Karen e Martha enfrentarem a Sra. Tilford em um processo judicial. Suas chances de obter êxito concentravam-se principalmente na tia de Martha, Lily Mortar, que começou os boatos sobre os sentimentos de Martha por Karen, e não aparece para depor, arruinando a sobrinha e Karen.
Há claramente duas forças que agem na peça o tempo todo: o poder econômico das Tilford e o preconceito em relação a questões homoafetivas, na peça chamadas de anormais48. São essas as verdadeiras condições que levam as professoras ao desastre, uma vez que o embate deixa de ser pessoal, professoras versus Tilfords, e ganha dimensão na sociedade, representada, por exemplo, pelas alunas que deixam a escola, por Joe, pelo entregador de compras. Podemos identificar razões bastante concretas para não aceitar prontamente o rótulo de melodramática da maneira como Atkinson quer lhe atribuir: a peça dialoga com a esfera do social e não apenas com a do humano. É hábil a lógica discursiva de Atkinson em separar a esfera social da humana: ele privilegia a “esfera humana”. O final da peça deixa muito claro que não foi apenas um embate de intersubjetividades (próprio do drama burguês) que destruiu as professoras. Daí sua implicância com o que ele chama de empurrar a peça de volta entre as bonecas ibsenianas, em uma clara referência à construção dramática de Casa de Bonecas (talvez o crítico não enxergasse a dimensão maior desse drama também). O empurrar do qual o crítico reclama parece indicar sua crença de que Hellman estava retrocedendo a expedientes formais já superados historicamente.
De todos os elementos do último ato, o retorno de Amelia Tilford para se redimir é com certeza o que deve causar mais surpresa no espectador ou leitor. Após a firmeza e convicção com que trata as professoras no segundo ato, realmente não se espera que ela retorne mais, pois no momento de seu retorno o processo judicial já está encerrado e ela,
48 Fica estabelecido que toda vez que a palavra “anormal” surgir é uma referência ao uso que dela é feito na peça.
vitoriosa. Se na forma pode-se entender o desgosto do crítico com o retorno da personagem nos minutos finais da peça, é novamente para o conteúdo que se deve atentar a fim de entender a razão dessa escolha. A Sra. Tilford não retorna apenas para dizer que está arrependida e oferecer restituição a tudo que as professoras perderam. Há uma fala breve que indica que, apesar do que Mary fez, ela continuará detentora de meios para continuar impondo ao mundo seus desejos:
KAREN: Eu estou cansada, Sra. Tilford. A senhora vai ter um caminho difícil pela frente, não vai?
SRA. TILFORD: Sim. KAREN: Mary?
SRA. TILFORD: Eu não sei.
KAREN: A senhora pode mandá-la pra longe.
SRA. TILFORD: Não. Eu não poderia nunca fazer isso. Seja lá o que ela fizer, deve ser pra mim e ninguém mais. Ela é – ela é -
KAREN: Sim. Ela é um dos seus, com quem deve viver até o fim da vida. [...]49
O reconhecimento de Amelia Tilford de que não pode fazer nada com Mary é importantíssimo nesse último ato, pois deixa claro que, mesmo tendo descoberto toda a verdade e propondo-se a corrigir seus erros, a causa motriz de toda a sucessão de desgraças vai continuar impune. Mary é da família e não deve perder seu lugar, pois a família é o sustentáculo da vida burguesa e da forma como a burguesia mantém-se. A Sra. Tilford diz no segundo ato que está fazendo com as professoras o que deve ser feito. No terceiro ato, usa a mesma expressão. Fica evidente, com o seu retorno, que sua posição social garante sempre fazer o que lhe convém. Não fosse ela uma das pessoas mais ricas da região, nem a patronesse da escola, seu campo de ação e sua convicção sobre “o que deve ser feito” seriam bem mais restritos. Sua volta à escola para falar com Karen ainda manifesta muito do poder que a
49 “KAREN. I´m tired, Mrs. Tilford. You will have a hard time ahead, won´t you? MRS. TILFORD. Yes.
KAREN. Mary?
MRS. TILFORD. I don´t know. KAREN. You can send her away.
MRS. TILFORD. No. I could never do that. Whatever she does, it must be to me and no one else. She´s – she´s –
personagem tem, afinal ela afirma que está com tudo preparado e acertado previamente com o juiz para a explicação à sociedade. Não é apenas Mary quem ficará impune; aquela sociedade burguesa repleta de Marys e Sras. Tilford também.