Em uma peça na qual a vida dos personagens está regida pela situação econômica, é
coerente que um assunto de cunho financeiro seja o estopim para encaminhar o enredo ao
final. Trata-se do valor do cavalo de balanço. Jane acreditava que o marido havia pago cinco
dólares, mas ele confessa que pagou dez dólares e 50 centavos, o que para ela é um ultraje.
Levando-se em conta o valor do dólar no período, percebe-se a extravagância de Moony: em
termos de valor de compra, um dólar em 2013 equivale a seis centavos de dólar no período
1934-1936. Portanto, quando Jane acreditava que o cavalo havia custado cinco dólares, esse
valor equivaleria a 83 dólares, e o valor que Moony realmente pagou por ele equivaleria a 175
dólares, um montante bastante alto para o bolso de um trabalhador assalariado e para os
padrões de vida do casal:
A renda era distribuída de maneira muito desigual entre as famílias americanas em 1920. Uma pequena elite ia muito bem e uma significante classe média vivia confortavelmente. A maioria dos americanos, porém, não tinham renda familiar suficiente para viver mais do que uma modesta e insegura existência. Entre um terço e dois quintos da população americana podia ser classificada como pobre mesmo para os mais modestos padrões da época. (KYVIG, 2004, p. 12)66
Se na década de 1920 a situação econômica era assim, na de 1930 era ainda pior com todos os
efeitos da Depressão Econômica.
Após trocarem ofensas, Jane esbofeteia Moony, que a agride, segurando-a pela
garganta. Moony parece decidido a sair de casa com seu machado e faz seu último discurso
sobre o sistema que o oprime:
Produção em quantidade, tudo em larga escala, –– isso é Deus! Milhões de estrelas – milhões de pessoas. Só Ele sabia o que fazer com as estrelas. Pregou elas lá no céu pra ficar bonito. Mas as pessoas – aqui embaixo na lama. Ah, gente demais, Senhor! Elas devem ter fugido com você, eu acho.
66 “Income was distributed very unevenly among American households in 1920. A small elite fared very
well, and a significant middle class lived comfortably. Most Americans, however, lacked sufficient household income to live more than a modest and insecure existence. Between a third and two-fifths of the entire American population could be classified as poor even by the modest standards of the time.”
Rastejando uns sobre os outros, em pedaços, se ferindo, vivendo e morrendo até que a Terra seja apenas uma grande sopa de corpos mortos! – Como isso aconteceu? Deus, é sem dúvida engraçado! – Ah, bom, pra que isso? Um homem tem que viver sua vida. Abrir seu caminho na floresta de alguma forma – […]67
Ao final da peça, com voz rouca, Jane pergunta se ele realmente a abandonaria com o
filho e a infecção no peito, sem dinheiro, sem nada, em plena época de Natal. A fala de Jane
novamente apela para a realidade e os problemas familiares. Moony lhe dá algumas moedas e
se despede novamente. Jane, porém, demonstra ter controle sobre acontecimentos do passado
e do presente. Quando falavam de relacionamento, ela já havia perguntado “Do que adianta
uma mulher tentar se manter direita?”68. Agora ela fala que voltará ao emprego antigo, certa
de que seu antigo empregador, o mesmo que já havia lhe feito uma boa proposta e dado
presentes (como o perfume Narcissus), vai aceitá-la de volta.
A esposa pega o bebê e o entrega para o marido, dizendo que agora ele pode ir e quem
sabe ele encontrará o pai e aí os três poderão cantar juntos a cantiga do cavalo. Ela sai da sala
e deixa Moony com o filho. Novamente, Moony é lembrado de suas obrigações e tem seu
campo de ação limitado.
A fala de Moony mostra seu reconhecimento de que está confinado àquela situação,
reconhecendo o que John Guare viria anos mais tarde a chamar de “as consequências das
ilusões”69 nas peças de Tennessee Williams. Ao mesmo tempo em que reconhece sua
impossibilidade de escapar, Moony se permite a ilusão de que o filho possa seguir o caminho
que ele não pôde, pois será absorvido brevemente – assim que o apito da fábrica soar – pela
vida que ele mesmo criticou: comer, beber, dormir com a esposa, receber seu salário no
67 “MOONY. […] Quantity production, everything on a big scale, – that´s God! Millions of stars – millions of
people. Only He knew what to do with the stars. Stuck´em up there in the sky to look pretty. But people – down in the mud. Ugh, too many of ´em, God! They must have run away with you, I guess. Crawling over each other, snatching and tearing, living an´ dying till the earth´s just a big soup of dead bodies! – How did that happen? Gosh, it´s sure funny! – Oh, well, what´s the use? A man´s gotta live his own life. Cut his own ways through the woods somehow -” (WILLIAMS, 1948, p. 13)
68 “What´s the good of a girl trying to keep herself straight?” (WILLIAMS, 1948, p. 9) 69 GUARE, John. The war against the kitchen sink. Lyme, NH: Smith & Kraus, 1996, p. x.
sábado, criar o filho, vê-lo crescer até assumir seu lugar na fábrica, um ciclo abusivo,
despótico e violento de banalidades.
Moony acredita na possibilidade de abandonar a situação opressora fugindo com seu
machado, mas sua ação individual é obviamente ineficaz, pois não é transformadora da
realidade. Ele fala repetidas vezes em traçar seu caminho. Fugindo ou ficando, Moony é
derrotado. Jane e o Holandês também são, mas não na mesma medida, afinal se adequam às
regras impostas pela sociedade e sobrevivem a elas de acordo com as possibilidades que lhes
são dadas.
Ao final da peça, o leitor/espectador se dá conta de que esteve diante de um “relatório
de caso”, para usar a certeira definição de Raymond Williams. Para esse autor, as peças do
dramaturgo norte-americano podem se limitar a apresentar situações, e essa concepção é
válida também para Moony´s kid don´t cry na medida em que constata a situação de
confinamento70 (mesmo sem usar essa palavra) na qual o personagem principal é relegado:
As peças de Tennessee Williams são os exemplos mais claros disto: as suas personagens são seres isolados que desejam, comem e lutam a sós, que lutam febrilmente com as energias primárias de amor e morte. Eles são, da forma mais satisfatória, animais; o resto é um revestimento de humanidade, e é destrutivo. É na sua consciência, em seus ideais, em seus sonhos, em suas próprias ilusões que eles se perdem, tornando-se sonâmbulos patéticos. (WILLIAMS, 2002, p. 159)
A rubrica final da peça é para que a cortina seja fechada lentamente. A cena se encerra
com Moony e o filho, naquele ambiente sufocante de pouco espaço, onde ele deverá viver
para manter a situação familiar. Não há foco na resolução, como seria típico do drama
regrado. Os acontecimentos da madrugada não mudarão em absolutamente nada a vida do
casal. Ao contrário, representam única e tão somente a vida sem expectativas de inversão de
destino. A cortina se fechar lentamente é um chamado ao olhar do espectador para que registre
uma cena que poderia ser alegre e terna – pai ninando filho – com consciente pesar.
70 O confinamento usado aqui não tem relação com o confinamento de que trata Peter Szondi em Teoria