4. Empirical Findings
5.1. Functions of accounting – Inter-organizational relationships with the clients
Os termos28 contidos no gráfico serão utilizados para a compreensão da construção da peça. Uma breve explicação sobre cada um deles é dada a seguir.
Inicialmente deve haver uma exposição, ou seja, uma cena que apresente alguns personagens, ainda que não os principais, e ajude a compor o tom geral da peça. Logo no início, vê-se a Sra. Mortar ensinando elocução shakespeariana para Peggy, enquanto Evelyn corta o cabelo de Rosalie e as outras costuram sem muita empolgação. A cena apresenta logo de início o ambiente escolar, ou melhor, uma escola exclusivamente para meninas, na qual a maior parte da ação é passada.
Logo após a apresentação deve haver um gancho, algo que prenda a atenção do espectador e tenha uma conexão, ainda que não facilmente reconhecível, com a ação principal
28 Tais termos variam de autor a autor. Todos têm a mesma função dentro da estrutura dramática. Optou-se pela utilização de tais termos a partir de tradução nossa, a fim de não adotar um sistema único de nomenclatura. Os livros do roteirista Syd Field apresentam explicações consistentes sobre a estrutura dramática de filmes que têm como base a estrutura da peça bem feita. Entre eles, destacam-se: FIELD, Syd. Manual do Roteiro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001; _____. Os exercícios do Roteirista. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.
da peça. O gancho dá-se quando Mary entrega as flores para a Sra. Mortar e convence-a de que foram colhidas especialmente para a professora, alegando tê-la ouvido manifestar seu gosto por elas. Na verdade, Mary tentou entrar sorrateiramente na sala e usa o truque das flores para enganar a professora. Como dito anteriormente, a relação desse gancho com a ação principal da peça é o método usado por Mary – a mentira – para obter o que quer e livrar-se de seus problemas. Ao convencer a Sra. Mortar de que estava colhendo flores especialmente para ela, a aluna se livra da repreensãoe possível castigo que poderia vir a sofrer por estar cabulando a aula.
O gancho conduz ao incidente, uma ação aparentemente comum que vai ser o estopim de toda a ação. Ele ocorre quando Karen descobre o truque de Mary ao enganar a professora mais velha: as flores foram retiradas do lixo. Karen tenta forçar Mary a confessar que as retirou do lixo, mas Mary insiste na mentira e forja um desmaio para livrar-se de Karen. É nesse momento do incidente que Mary expõe seu descontentamento com as professoras e a escola, justificando ser perseguida por todos ali. Quando Joe chega e vai atender Mary, ele pede à Sra. Mortar que não fique no quarto, o que a deixa muito ofendida. O método de Mary é então aperfeiçoado e agravado: além de manter a mentira, ela ainda forja um desmaio, outro ato mentiroso, para evitar o castigo.
Martha, que ficou com a Sra. Mortar (sua tia) na sala, oferece-lhe dinheiro para voltar a Londres e retomar sua vida lá, já que a tia nunca gostou da escola. Novamente ofendida, a Sra. Mortar acusa Martha de se alterar quando Joe está na casa e lança a acusação que é o ponto de crise inicial na peça: a tia afirma que a sobrinha tem sentimentos anormais por Karen. Peggy e Evelyn ouvem-na, pois estão atrás da porta. A crise sempre é estabelecida contra a figura do protagonista, nesse caso, as protagonistas, Karen e Martha. O que a Sra. Mortar diz tem forte peso, uma vez que as evidências para basear tal acusação são meramente circunstanciais.
Embora a acusação da Sra. Mortar refira-se ao suposto sentimento anormal de Martha por Karen, ao obter essa informação através das meninas, Mary enxerga nela um trunfo que pode usar a seu favor para sair da escola. Após algumas imposições feitas as suas amigas, ela volta para a casa da avó e conta o que ouviu de Peggy e Evelyn, acrescentando detalhes ricos em inventividade, maldade e mentira. A avó, por fim, acredita no que a neta está contando e inicia uma série de telefonemas para as mães das meninas que estudam na Escola Wright-Dobie. Esse é o primeiro ponto de virada, a primeira grande ação que conduzirá as protagonistas a um destino diferente daquele que foi apresentado no início. Novamente, temos a mentira “costurando” a peça e fazendo a progressão dramática crescer. O que anteriormente foi uma acusação em um momento de raiva da Sra. Mortar, agora se transformou em mentira capaz de destruir impiedosamente.
O primeiro ponto-foco é aquele que retoma a questão apresentada no primeiro ponto de virada, atualizando-a para a crescente tensão. Nesse caso, o primeiro ponto-foco vai ser apresentado quando Mary ameaça contar quem roubou o bracelete de Helen na escola. Assim, Mary obriga a amiga a corroborar as mentiras que contou para a avó. A ironia nessa parte é que Mary consegue o apoio de Rosalie ameaçando contar a verdade sobre o bracelete. O ponto central é aquele em que o conflito aparentemente é resolvido por gerar uma situação de nó dramático, uma situação em que nem protagonista nem antagonista parecem poder fazer mais nada. Esse momento dá-se quando Karen e Martha enfrentam a Sra. Tilford, obrigando a velha senhora a pedir que elas se retirem de sua casa. O objetivo da Sra. Tilford foi alcançado: livrar as crianças do convívio com as professoras. Para Karen e Martha, discutir a situação não conduziria a nenhum acordo, porque a Sra. Tilford está irredutível em relação ao que fez. As professoras ameaçam processá-la, o que não parece preocupar a ex- patronesse da escola. O nó dramático desse ato está cingido pela mentira: os dois lados expõem seus argumentos, entretanto não há uma conclusão pacífica.
É Joe, no entanto, quem usa uma estratégia para desfazer o nó: apela para a relação de parentesco que tem com a Sra. Tilford (é sobrinho dela) e pede-lhe que o deixe conversar com Mary e fazer algumas perguntas a fim de averiguar a história. A Sra. Tilford cede ao seu pedido. Mary é posta contra a parede tanto por ele, quanto pelas professoras, que conseguem demonstrar que Mary inventou a história que contou. Esse é o segundo ponto- foco, aquele em que o aparente nó do ponto central começa a ser desatado. O segundo ponto- foco em The Children´s Hour ocorre a favor das protagonistas: elas e Joe conseguem demonstrar que Mary mentiu. Joe anuncia que vai embora com as professoras para a escola. A mentira parece então ter sido arrancada da tessitura da peça e não mais poder interferir na vida das professoras.
Mary chora, complica-se em sua história e é pressionada pela própria avó a contar a verdade. A menina usa a influência que adquiriu sobre a amiga a seu favor, alegando ser Peggy quem sabia e tinha ouvido tudo. É a vez de Peggy ser inquirida pelas professoras e por Joe. Tendo as ameaças de Mary sobre o roubo do bracelete em mente, ela confirma a história que prejudicará indelevelmente as professoras. Eis o segundo ponto de virada, no qual a ação sempre crescente ganha novo contorno e importância ainda maior: a Sra. Tilford não cederá agora, pois tem mais uma testemunha do que supostamente acontecia na escola para moças. Isso complica ainda mais a vida das professoras. Afinal, mesmo tendo ameaçado abrir um processo contra a avó de Mary, sabem que ela é mais rica e poderosa. Se no segundo ponto-foco a mentira parecia ter sido desfeita, agora ela retorna com força redobrada e nova testemunha a favor das Tilford.
Após o segundo ponto de virada, nesse momento a favor das antagonistas, há outra exposição29, dessa vez para informar que Karen e Martha perderam o processo que foi instalado contra a Sra. Tilford. Lily Mortar, única pessoa capaz de testemunhar a favor das
29 Alguns termos se repetirão como os do primeiro ato, porém entenda-se que a intensidade deles é maior, por tratar-se do terceiro.
professoras, não interrompeu sua turnê teatral. Somente ela poderia desfazer a mentira criada a partir de sua própria acusação contra a sobrinha.
Há a seguir um incidente entre Karen e Joe. Karen põe Joe à prova, colocando em dúvida o fato de ele acreditar totalmente na inocência dela. Joe fica indeciso e acaba revelando, através de uma pergunta, que não confiava plenamente na noiva. Karen nota na atitude dele um problema sério para o relacionamento dos dois e encerra o relacionamento. Joe recusa a princípio, Karen insiste e ele aceita o seu pedido, dizendo que vai voltar. Karen sabe que o noivo não voltará, pois percebeu que, embora negue, ele ainda dá crédito à mentira.
O incidente conduz à crise entre as professoras, que tem seu momento mais forte com a confissão de Martha. Ela reconhece a destruição financeira que o fechamento da escola trará e culpa-se pela partida de Joe, além de compreender que as possibilidades de um futuro minimamente digno estão esgotadas para ela e Karen. Inicialmente Martha sustenta para Karen e para si mesma que seus sentimentos são apenas fraternos, porém ela confessa seu amor pela amiga ao final da conversa. Mais uma vez, a mentira que vem percorrendo todos os pontos de tensão dramática da peça está presente, agora para suscitar uma verdade que contradiz e relativiza o que até então era acreditado como mentira.
A crise conduz ao clímax, que é o momento de mais alta tensão dramática, no qual há o embate final entre protagonista e antagonista. Em The Children´s Hour, o clímax ocorre com o suicídio de Martha: após confessar seu amor por Karen, ela atira em si mesma.
Após o clímax, há uma resolução, isto é, o momento no qual se apresenta um final para todo o conflito da peça. A mentira de Mary tomada como verdade pela Sra. Tilford relegou Karen a ficar sozinha, sem Martha e sem Joe. Mesmo as tentativas de redenção da Sra. Tilford para compensar financeira e moralmente todo o mal causado parecem surtir pouco efeito sobre Karen, que pede apenas para ficar sozinha.