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Review of the Findings – Fifteen Shades of Accounting

4. Empirical Findings

4.2. Findings from secondary sources – A structured literature review

4.2.2. Review of the Findings – Fifteen Shades of Accounting

Como muito bem definiu Jean Marie Thomasseau (2005, p. 9),

A palavra melodrama, com efeito, traz ao pensamento a noção de um drama exagerado e lacrimejante, povoado de heróis falastrões derretendo-se em inutilidades sentimentais ante infelizes vítimas perseguidas por ignóbeis vilões, em uma ação inverossímil e precipitada que embaralha todas as regras da arte e do bom senso, e que termina sempre com o triunfo dos bons sobre os maus, da virtude sobre o vício.

O autor atesta que o esquema é muito simplificador, embora não inteiramente falso. Para Thomasseau, o preconceito contra o melodrama deve-se basicamente a dois fatores: o primeiro é que o melodrama sempre teve um forte apelo popular, o que imediatamente é associado a algo inferior ou menos elaborado; e segundo, o melodrama foi o gênero que primeiro rompeu as amarras entre o fazer literário e o fazer teatral, ou em outras palavras, os autores de melodrama reivindicaram para si as técnicas teatrais, não necessariamente as técnicas literárias. O teatro passou a ser menos discursivo e ter mais ação, ou seja, a encenação foi ficando cada vez mais elaborada.

É necessário explicar que a palavra melodrama foi sofrendo mudanças de significado ao longo dos tempos, até objetivar-se na fórmula que Thomasseau expõe. “Melo” e “drama” vêm do grego, significando respectivamente “música” e “ação”. Especialmente as óperas italianas do século XVI recebiam o nome de melodramas, o que significava que todo o diálogo das mesmas era cantado. Mais tarde, o melodrama passou a ser o texto teatral no qual a ação é acompanhada de música. Essa utilização do termo melodrama durou mais de um século e o termo seria redefinido principalmente a partir da Revolução Francesa.

O termo melodrama, anteriormente associado à música, passaria agora a representar espetáculos cuja temática principal fosse a luta do bem contra o mal. René- Charles Guilbert de Pixerécourt (1773-1844) estabelece as diretrizes para essa forma

dramática que não era nova, mas que ele ajuda a restabelecer, fazendo a transição entre o uso da música (como principal característica) para a moral do embate entre virtude e tirania. Note- se que Pixerécourt não dispensou a música em vários de seus melodramas. Ela simplesmente passou a ter menos importância e a ser menos utilizada.

A estrutura do melodrama é simples: a virtude terá um protagonista em cena ao passo que o vício terá um antagonista. O antagonista será responsável por fazer maldades e oprimir o protagonista, que deverá lutar por justiça, até conquistá-la ao final da peça, quando derrotar o antagonista. A punição do antagonista pelas mãos do protagonista trará um exemplo moral edificante para a platéia.

Thomasseau também afirma que o melodrama surgiu da confluência de vários fatores: grande interesse pelo teatro após a Revolução Francesa; a possibilidade de identificação das camadas mais populares no temário melodramático (virtude que é oprimida e ao final triunfa); preferência da burguesia pelo gênero em detrimento do teatro anticlerical e

noir; adequação do gênero ao culto do civismo, da família; e, por fim, sua capacidade de

instruir e fortalecer as platéias sobre as instituições que a aristocracia e a burguesia queriam ver preservadas: hierarquia social, moral e religiosa (THOMASSEAU, 2005, p. 14-15).

Para Ivete Huppes, o melodrama tem dois temas principais “que freqüentemente aparecem entrelaçados: a reparação da injustiça e a busca da realização amorosa” (HUPPES, 2000, p. 33). Thomasseau ocupa boa parte de seu livro já citado demonstrando como esses dois temas perduram desde o período que ele identifica como melodrama clássico (1800-1823), passando pelo melodrama romântico (1823-1848) e atingindo o melodrama diversificado (1848-1914). Vê-se, portanto, que os dois temas principais fizeram-se presentes no teatro de estética melodramática por mais de um século, o que não significa que o melodrama tenha sido sempre igual. Mudanças surgiram e o melodrama preservou muito de suas temáticas, adaptando-as aos novos tempos. Thomasseau

afirma que no fim do século XIX havia quatro grandes inspirações melodramáticas: a) militar, patriótico e histórico; b) de costumes e naturalista; c) de aventuras e de exploração; d) policial e judiciário. Um dos dois temas (ou mesmo os dois simultaneamente) pode ser identificado em todas elas18.

Com as profundas transformações que ocorreram no século XIX, principalmente na França, berço tanto da peça bem feita quanto do melodrama que veio a se estabelecer, os novos melodramaturgos começaram a inserir as questões sociais em suas obras. Pixerécourt reconhecia essa necessidade em seu trabalho e no de seus contemporâneos, aclamando a função didática do melodrama:

Não podemos negar ao melodrama a justiça de reconhecer que é ele que nos reconta melhor e mais freqüentemente os assuntos nacionais, gênero de espetáculo que deve ser representado em todos os lugares. Ele dá à classe da nação que mais deles necessita belos modelos de atos de heroísmo, traços de bravura e de felicidade. Ele a instrui assim a tornar-se melhor, mostrando, mesmo em meio a seus prazeres, os nobres caracteres desenhados em nossos anais [...] O melodrama será sempre um meio de instrução para o povo, porque ao menos este gênero está a seu alcance. (PIXERÉCOURT apud THOMASSEAU, 2005, p. 49)

Se foi Pixerécourt quem estabeleceu determinadas diretrizes para o melodrama, não se pode esquecer a figura do “pai” da peça bem feita, Eugène Scribe, que identificou no gênero algumas falhas, que para ele eram apelações ao público. Thomas H. Dickinson explica exatamente quais eram as falhas que Scribe via nos melodramas primevos e como ele propunha resolvê-las: “Ele percebeu que para ter sucesso com as pessoas, você deve lhes causar interesse sem apelar muito profundamente a seus corações, você deve lhes dar a ilusão de bem-estar, você deve elogiar suas limitações, e não pedir a eles que pensem”19 (DICKINSON, 1927, p. 24).

18 THOMASSEAU, 2000, passim.

19 Scribe recognized the shortcomings of melodrama. He saw that to be successful with the people you must interest them without probing too deeply into their hearts, you must give them the illusion of well-being, you must flatter their limitations, and not ask them to think.”

A peça bem feita viria a “corrigir” os excessos do melodrama através das noções de encadeamento lógico, causa e efeito e estruturação distribuída. Tais técnicas melhoravam os melodramas, pois os tornavam mais calculistas no sentido de atingir os sentimentos das platéias mais efetivamente. Nesse sentido, a peça bem feita além de não ter prejudicado o melodrama, contribuiu para que ele tivesse uma forma mais orgânica. O contrário também é verdade: o melodrama passou a dar às peças de estrutura bem feita novos conteúdos em que se apoiar.

O século XIX foi, portanto, aquele em que o melodrama foi sofrendo modificações e estabelecendo-se enquanto gênero teatral, absorvendo os conteúdos sociais em voga. No início do século XX, sua trajetória parecia estar ameaçada pelo crescimento das peças naturalistas. O melodrama parecia estar se tornando um gênero ultrapassado, porque os dramaturgos (agora novamente sem o prefixo “melo”) já há algumas décadas procuravam uma forma teatral que pudesse ao mesmo tempo ser diferente do melodrama e representar melhor em cena as questões sociais. O fato é que os naturalistas conquistaram seu lugar ao sol, tanto com o público quanto com a crítica; o melodrama não entrou em decadência por conta disso. O forte apelo popular e a capacidade de se adequar a novos meios de comunicação garantiriam ao melodrama uma ainda longa trajetória, como bem explica Ismail Xavier (2003, p. 89, grifo do autor) em seu livro O Olhar e a Cena:

Essa combinação de sentimentalismo e prazer visual tem garantido ao melodrama dois séculos de hegemonia na esfera dos espetáculos, do teatro popular do século XIX, já orgulhoso de seus efeitos especiais, ao cinema que conhecemos. Por mais de um século, grosso modo até a Primeira Guerra Mundial, a França definiu o pólo de maior vigor e interesse. A partir de então, o show business anglo-americano tem sido o foco privilegiado das experiências que dominam o mercado [...]

Vale a pena citar algumas experiências teatrais que não são amplamente conhecidas: o Federal Theatre Project (Projeto Federal para o Teatro), instituído em 1935, foi

um dos cinco projetos20 do governo federal norte-americano para combater a Depressão econômica causada pela quebra da bolsa de Nova York em 1929. O mundo teatral ficou profundamente afetado nesse período, com enorme taxa de desemprego em uma área cujo fôlego sempre foi admirável. Entre seus trabalhos, o Federal Theatre Project tinha melodramas (LIBRARY, 2006).

Dentro do Projeto Federal para o Teatro havia vinte e dois subprojetos, entre eles o Negro Theater (Teatro do Negro), que também encenou melodramas históricos, comprovando a vitalidade e o apelo popular de que o gênero desfrutava. Não era apenas em projetos com o apoio do governo federal norte-americano que o melodrama aparecia. Vários grupos teatrais incluíam melodramas em seus repertórios nos anos 1930, alguns antes mesmo do Projeto Federal para o Teatro, a saber: Provincetown Playhouse (Teatro de Provincetown), teatro que proporcionou a Eugene O´Neill a oportunidade de expor suas primeiras experiências teatrais até se tornar o grande dramaturgo norte-americano, primeiro e único a ganhar um Nobel de Literatura (BORDMAN, 1996, p. 54); o Anglo Yiddish Group (Grupo Anglo-iídiche); o Theatre Guild (Associação de Teatro), grupo que trazia renovações estruturais importantes, como o sistema de cotas, através do qual os diretores dividiam os custos para produzir as peças, ficando com o lucro proporcional às cotas investidas, e a inclusão no repertório de peças não-comerciais americanas e estrangeiras21.

O gênero melodramático não estava associado apenas aos grupos menores. Dramaturgos como Maxwell Anderson e Elmer Rice, em plena atividade nos anos 1930, também escreveram melodramas. Anderson colocou o episódio do assassinato dos líderes anarquistas Niccola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, acusados, julgados e condenados à morte

20 Os cinco projetos ficaram conhecidos como Federal One (Federal Um), cujo nome completo era Federal

Project Number One (Projeto Federal Número Um) e consistia dos seguintes programas elaborados pelo Work Projects Administration (Administração de Projetos de Trabalho): Federal Writer´s Project (Projeto

Federal para Escritores), Historical Records Survey (Pesquisa de Arquivos Históricos), Federal Theatre

Project (Projeto Federal para o Teatro), Federal Music Project (Projeto Federal para a Música) e Federal Art Project (Projeto Federal para a Arte).

em 1927, em sua peça Winterset (Winterset – 1935), formalmente estruturada como tragédia. No entanto, Gilbert Gabriel (apud BORDMAN, 1996, p. 121) observou que: “É, até agora, a obra-prima de Anderson. É, sob o aspecto de sua viçosa eloqüência, melodrama, honesto, firme e bonito melodrama, e também um melodrama imensamente emocionante”22. Rice, por sua vez, incluiu a palavra melodrama até mesmo no subtítulo de uma de suas peças: Judgment

Day – a melodrama in three acts (Dia do Julgamento – um melodrama em três atos), que

estreou em 1934, apenas dois meses antes de The Children´s Hour.

Sem dúvida, o melodrama era um dos gêneros que recorrentemente aparece associado ao êxito comercial, especialmente aliado a boas interpretações do elenco, muitas vezes vindas de atores e atrizes de grande fama da Broadway. O termo star-system (sistema de estrelato), atualmente mais associado ao cinema que ao teatro, outrora foi uma prática recorrente no circuito teatral da Broadway. Todavia, não foi a Broadway que o inventou. As companhias de repertório francesas já mantinham suas atrizes de renome, a grande atração nos teatros. O circuito off-Broadway, pouco dependente de elenco de renome, não deixava de oferecer ao público boas interpretações. Um exemplo de sucesso comercial foi Johnny

Belinda, de Elmer Harris, considerada por Richard Watts, Jr., do jornal Herald Tribune, um

“[...] melodrama obsoleto [que] contém todos os clichês de sua desbotada escola de dramaturgia”23 (WATTS JR., apud BORDMAN, 1996, p. 194). Apesar do descrédito do crítico, a peça teve uma vigorosa temporada de quase um ano, entre o Belasco Theater e o Longacre Theater, ambos da Broadway e com mais de mil lugares cada, totalizando 321 performances. O sucesso da peça seria reconfirmado em 1948, quando foi adaptada para o cinema com título homônimo24. Além dessa, ela ainda teve outras três versões para a televisão (1967, 1969 e 1982).

22 “It is, to date, Anderson's masterpiece. This, underneath all its full-flower eloquence, is melodrama, right, tight, trig melodrama, and immensely exciting melodrama, too.”

23 “[...] an antique melodrama” noting “It contains all the clichés of its shopworn school of dramatic writing.” 24

Johnny Belinda. Direção de Jean Negulesco. Produção: Jerry Wald. Intérpretes: Jane Wyman; Lew Ayres;

Ao concluir seu livro, Thomasseau afirma que

O melodrama é um gênero teatral que privilegia primeiramente a emoção e a sensação. Sua principal preocupação é fazer variarem estas emoções com a alternância e o contraste de cenas calmas ou movimentadas, alegres ou patéticas. É também um gênero no qual a ação romanesca e espetacular impede a reflexão e deixa os nervos à flor da pele [...] (THOMASSEAU, 2005, p. 139)

Essa constatação sobre a emoção e a sensação percorre não apenas os séculos em que o melodrama esteve presente, mas também as diversas apropriações que o gênero foi fazendo ao longo do tempo, das inúmeras adaptações que ele foi sofrendo ao ser utilizado por grupos minoritários e identitários, entre outros. É um gênero que pode realmente levar à falta de reflexão, como diz Thomasseau, apenas se o seu foco privilegiar a emoção pela emoção, a emoção pela espetacularidade, a emoção pela tensão. Como o mesmo autor afirma mais adiante em sua conclusão:

O melodrama, é verdade, pratica em geral uma moral convencional e “burguesa”, mas não se pode esquecer que ele veiculou, durante uma boa parte do século, não só idéias políticas, sociais e socialistas, mas sobretudo humanitárias e humanistas, apoiando-se na esperança fundamental de um triunfo final das qualidades humanas sobre o dinheiro e o poder. Ele carreou, de cambulhada, os sonhos e as esperanças dos estratos sociais mais desfavorecidos, mas também criou e manteve a efervescência de um imaginário popular, rico e vigoroso. (THOMASSEAU, 2005, p. 140)

Sendo assim, é possível verificar a multiplicidade de significados e entendimentos que a palavra melodrama recebeu ao longo dos tempos e quão complexo é usá- la, pois sempre existe o risco de ser entendida em um sentido diferente daquele que foi proposto.

Feito o panorama da época das estréias das peças e a explanação sobre os conceitos de peça bem feita e melodrama, parte-se agora para a análise de The Children´s