4. ANALYSE AV DATA
4.2.1 Selvbilde – informant A
Detivemo-nos tratando da Procissão dos Mortos (no cap. II). Agora parece-nos vital para a estrutura de nossa investigação, fixar o olhar no cap. III, no diálogo entre dois personagens, Don Diego e Don Ángel, os quais se mostram através da perspectiva em relação ao trabalho, da cidade, da migração. Entremeiam-se observações sobre anônimos em sua adequação ao novo contexto e o que se observa sobre a cidade de Chimbote, também como se ela estivesse num processo de acomodação, nesse momento de transformações econômicas, culturais, sociais: “Chimbote es obra de las armazones cibernéticas, de su patronazo…porque su patronazo está en la vigilancia y coordinación de las fuerzas grandes, ¿no? Lloqlla que quiere llévarse todo, porque está recién desgalgándose.” (ZZ, p.88). Lloqlla parece remeter a figura de um fenômeno destituído de preocupação com aqueles que arrasta, que traga em seu movimento de crescimento, de proporções inimagináveis. Tal vocábulo pode ser lido como uma metáfora para indicar o quão diferentes são as origens dos migrantes que chegam a Chimbote para desenvolver trabalhos, temporários ou não. Tal termo refere-se a uma avalanche que se compõe de inúmeros elementos que do alto chegam, aos montes. Uma possiblidade de leitura é que lloqlla relaciona-se aos migrantes, em seu deslocamento incessante, numeroso, veloz, doloroso, caótico, sem identificação de seus elementos/indivíduos, ao chegar à costa, ao porto, ao mundo novo.
Para entender o diálogo entre tais personagens Don Diego e Don Ángel, nos parece fundamental entender o contexto em que se inseria a obra em fins da década de 60.
A “Era de Ouro” 101 proporcionou aos países industriais, com seu desenvolvimento econômico e tecnológico, um grande avanço, a ponto de dominarem três quartos da produção mundial, com a dominação dos EUA e do dólar. O alto padrão de vida foi conseguido a partir da exploração do Terceiro Mundo, de acordo com a perspectiva de Herbert Marcuse (VALLE, 1981, p. 29).
Tal progresso transformou-se num novo sistema de dominação, tendo os Estados Unidos como representante desse Capitalismo, tornando-se o maior elemento do Imperialismo. A automação aumenta o número de trabalhadores não envolvidos no processo de produção, proporcionando uma divisão entre aqueles de fora do processo e aqueles regidos por sindicatos. Esse novo momento político-econômico entende-se por Neo-Colonialismo. Ou seja: “uma nova partilha do mundo entre as grandes potências sem conflito mundial” (VALLE, p.47, 2003).
Os EUA conseguem impor-se diante do mundo também por sua grande intervenção em assuntos exteriores, como exemplo, a Guerra do Vietnã. Lá o país norte-americano testará novas armas e táticas anti-guerrilha, o que garantirá êxito em situações de conflito na Ásia, África e América Latina, como, por exemplo, contra as guerrilhas. Em relação a esse espaço geográfico, o país Imperialista apóia golpes militares contra as guerrilhas e/ou movimentos revolucionários.
Marcuse considera o Neo-Colonialismo como “um dos maiores crimes do Primeiro Mundo” (MARCUSE, 1999, p.116), servindo aos interesses do capital internacional, numa tentativa de impedir o avanço do comunismo. O ano de 1968 foi emblemático por marcar o início da crise do sistema monetário internacional que teve como causa as grandes despesas
101 Fenômeno mundial que tem início no pós Guerra e tem seu declínio com o colapso do sistema financeiro
militares dos EUA, inclusive por causa da intervenção na Guerra do Vietnã. A “Era de Ouro” fica ameaçada por ter este país como centro econômico e político. Decorrentes dessa crise, explodem a inflação e o desemprego. Surgem novas formas de oposição como movimentos estudantis e dos “hippies”, mas sem, contudo, uma organização que unisse forças tão diversas. Há um profundo desejo dessas e outras tendências opositoras por romper o sistema vigente.
Quais seriam as forças, naquele momento da década de 60, que pudessem romper o sistema instaurado? Marcuse (1997, p.129) acredita que:
Se Marx viu no proletariado a classe revolucionária, isto ocorreu ainda e talvez principalmente porque o proletariado estava liberto das necessidades repressivas da sociedade capitalista, porque nele podiam se desenvolver as novas necessidades de liberdade, que não podiam ser sufocadas por aquelas velhas e dominantes. Hoje, na maior parte dos países capitalistas altamente desenvolvidos, essa autonomia não é mais possível. Os trabalhadores não mais representam a classe que leva em si a negação das necessidades existentes. (MARCUSE, 1969, p.24-25).
Há uma Nova Esquerda nos EUA composta por movimentos negros e por grupo de intelectuais e, posteriormente, aos movimentos de hippies, feministas e homossexuais. Marcuse, líder de um grupo de imigrados, pertence à Nova Esquerda. Percebe-se claramente uma profunda contradição no cerne do capitalismo.
Surge uma organização (SNCC - Student Nonviolent Coordination Committee), que tenciona resistir passivamente e ser rebelde sem violência física, respeitando os limites democráticos (2003, p.49). Seu maior líder é Martin Luther King, que luta contra a segregação na universidade. A partir de 1964, o movimento negro intensifica sua atuação e, sob a liderança de Malcolm X, transforma-se de perfil pacífico a violento, no tocante à questão da legítima defesa. Duas questões vitais impulsionaram tal mudança: a insuficiência das leis dos direitos civis de 1964 e do direito de voto de 1965. A questão da violência passa a ser um divisor de águas em relação à defesa da revolução. Os diferentes grupos que citamos anteriormente vislumbram uma aliança com movimentos revolucionários do Terceiro Mundo.
A idéia de massa, de impessoalidade, uma total destituição de caracterização, se faz evidente. Por isso, talvez, o termo “lloqlla” seja utilizado com tanta precisão, referindo-se a
um fenômeno da natureza que, independente da vontade humana, desfaz diferenças e compõe algo impossível de controlar-se, como rolo compressor que a tudo arrasta, massacra, destrói. (ZZ, p.87)
Quando o narrador refere-se a “las barriadas crecen y crecen, y aparecen plazas de mercados en las barriadas con más moscas que comida” (ZZ, p.88) nos dá uma forte imagem do crescimento descomunal, do movimento acelerado do Neo-Colonialismo, que proporcionou o avanço de algumas potências, de um grande império, mas “arrastou” inúmeras nações. Remete-se aos “hippies” e a seu desejo de mudança, “este alevitado hippies de confianza, un pituco a medias descuajado”. (ZZ, p.88)
As manobras, neste capítulo, feitas por Don Diego, como alguém que sente atração por insetos, aos quais morde, come, massacra com as mãos, nos faz acreditar que há toda uma relação, metafórica, com o seu discurso sobre migração e poder nos anos 60, movimentos revolucionários e de manifestação contra o imperialismo que cresce e abocanha o menor, o pequeno. A transmutação do personagem Don Diego é notória, a olhos vistos; seu corpo se transforma de tal forma que recordamos que realidades paralelas coexistem em Los Zorros: há o universo mítico, das raposas; há também o espaço ficcional, literário, da cidade de Chimbote. Neste capítulo há um claro entrelaçar dos dois universos, através deste personagem, o qual detém a palavra, observa a cidade chimboteana com um olhar bastante crítico e atento; analisa a migração dos serranos (indígenas) e se utiliza da língua quéchua para determinar as suas relações, os seus motivos. De forma repetitiva, pergunta-se o que estaria por trás do deslocamento dos indígenas em direção a Chimbote. Metáforas se substituem continuamente em relação à cidade de Chimbote, ao ser humano. Reflexões, argumentações, hipóteses: eis a que nos levam as perspectivas de dois personagens que, claramente, se opõem.
Aclara-se que, mais que índios, mestiços migram da serra para a costa. Perguntamo- nos: O que os leva a migrar em tão grande número num movimento acelerado? Há uma clara referência, ainda que cifrada, ao personagem Antolin Crispin, o qual cego, músico, migrou para tocar no Mercado Central. Ocorre uma insistência por evocar a tristeza de sua inserção nesse novo mundo: “El paiteño tocaba un triste, un tristísimo triste, ciego de los dos ojos...”. (ZZ, p.88).
O estrangeiro Meiggs, de acordo com o personagem Don Diego, traçou a cidade de Chimbote, o que nos remete a Rama, com a cidade simbólica nascendo antes da cidade real, como uma realidade paralela. Não há interesse da indústria em manter um número grande de funcionários. Ao contrário, há uma drástica redução de trabalhadores, inclusive uma acentuada preferência pelos temporários em detrimento da mão de obra fixa, com seus direitos sociais obrigatórios. Don Diego acredita que o futuro será bem pior para aqueles que desejam empregar-se nas indústrias pesqueiras, desfazendo-se os laços de compromisso da indústria para com os trabalhadores. A indústria “engorda” a partir do trabalho operário, para mais tarde dispensá-los. Ao mesmo tempo, a América Latina está sendo tragada pelo imperialismo, o Neo-colonialismo.
Braschi parece simbolizar o grande império norte-americano e sua enorme fome por crescer a partir de inúmeros “animais” / países que estão a sua mercê, sob sua dependência. O fragmento a seguir nos traz esta percepção: “Braschi es grande, el más grande capitán de industria que ha dado el Pacífico en estas dos décadas y, como usted sabe, tiene quejada de mono, de monazo fuerte.” (ZZ, p.90). Insiste-se em referir-se a Braschi como águia, que voa e aprende rápido.
Uma das hipóteses levantadas para o deslocamento dos indígenas para Chimbote é que, dez anos antes, houve uma verdadeira propaganda da indústria para atrair peões para a atividade pesqueira, que estava em plena aceleração. Tal história, ainda que o tempo tenha
transcorrido, permanecia como uma lenda urbana. Faz-se menção aos grandes fazendeiros, os quais, com mão firme, os pressionaram. De um lado, havia a impossibilidade de cultivar a terra e fazer dela sua subsistência; do outro lado, grande publicidade em relação ao milagre da cidade e suas supostas faculdades: terras boas para casas próprias e gratuitas, trabalho fácil nas fábricas e lanchas “bolicheras”, nos mercados, nos restaurantes, em todo o comércio, em geral. Por que não se deslocar com grande esperança de encontrar aquilo de que se necessita e com que se sonha?
Ainda em relação aos grandes fazendeiros, além de expulsá-los da terra, (aos indígenas), por vezes ainda os matavam. Chimbote surge então como possibilidade de fuga, de êxito, de salvação, de redenção. Matar indígenas é possibilidade de ascensão. O poder de vida e morte confere “status” aos soldados. Eleminar o quéchua também é algo desejável, já que desta forma, diz Don Ángel, evitam-se segredos entre os serranos; tudo fica muito claro, sem mistérios, nem surpresas.
Os pescadores foram atraídos por bebidas e prostitutas, sendo “possuídos” com facilidade, como evidencia o trecho da obra que segue: “Las borracheras y putas, etc, etc, que les metíamos por las narices, por la lengua, por todos, los orificios donde el gusto entra, pero a cambio de gastos y endiablamientos, los manteníamos con la bolsa al ajuste.” (ZZ, p.91). O atrativo que se espalhou sobre Chimbote surtiu efeito.
Don Ángel se identifica com o explorador. Utiliza com freqüência o verbo na 1º pessoa do plural, assumindo tranqüilamente a ação de premeditar, calcular, determinar, induzir: “les metíamos por las narices” (ZZ, p.91). Acredita que os primeiros sejam dotados de maior aficção por vícios. Em relação aos serranos estariam à mercê de sua própria impossibilidade de administrar sua relação com o dinheiro, a moeda corrente. Sendo assim, facilmente seriam presas de cálculos de seus supostos benfeitores.
A partir da fala de Don Ángel, há a clara percepção de que o autor nos remete a um mundo de luz e sombra. Explico: o nome deste personagem direciona nosso olhar ao que simboliza, um representante divino. Porém, seguramente seu contrário é o que realmente parece significar: interesse, ambição, desonestidade, prepotência.
Comparam-se “criollos” a “serranos”. Voltemos nosso olhar ao capítulo, quando acreditamos que, esclarecendo o significado de vocábulos recorrentes, estaríamos ampliando e aprofundando a questão da cidade, as relações de poder, de que maneira os diversos tipos humanos se constituem e integram a urbe:
A los pobrecitos serranos les haremoso enseñar a nadar, a pescar. Les pagaremos unos cientos y hasta miles de soles y, carajete. Como no saben tener tanta plata, también les haremos gastar en borracheras y después en putas y también les hacer sus casitas propias que tanto adoran estos pobrecitos. (ZZ, p.92)
De maneira muito particular, o narrador nos conduz a olhar os alcatrazes e pensar na violação de direitos, na extrema exploração dos países pobres por alguns países ditos “superiores”, os quais detêm forte poder sobre os demais. Toda esta discussão nos direciona para um processo de animalização. Sua fome por usar e abandonar no momento seguinte ocorre de maneira desenfreada. Ocorreu de maneira similar, diagnostica o personagem de Don Ángel, com a baía de Chimbote, em relação a sua abundância pesqueira. É o preço que se paga por um desenvolvimento mal direcionado, irresponsável, inconsequente.
Chimbote, no capítulo três, é claramente a imagem do Peru. No diálogo que se trava durante todo o capítulo, os dois personagens mapeiam a miséria, a história, a desolação da cidade. Ainda que seja algo efêmero, determina sutilmente Don Ángel, já que toda essa metamorfose social, econômica, fincou seus pilares sobre o trabalhador, o índio, o destituído de uma cara e uma voz. A que preço alçar o posto de superar as demais nações em relação à pesca? Arguedas, de forma bastante habilidosa, permite que cada personagem fale sua verdade, sua versão dos fatos ocorridos ou ainda por ocorrer. O grito da cidade ecoou por
terras distantes, chegando à Europa. O personagem Chaucato surgiu a partir dessas migrações
estrangeiras.
O movimento de ocupação da cidade emergente ocorre, diz Don Ángel, primeiramente com migrantes longíquas, como espanhóis e iuguslavos, com Chaucato e Hilario Caullama, surgindo nesse momento, após essa leva, “criollos” de toda a costa. Por último apareceram os indígenas com sua experiência pesqueira, como também comercial e forte agressividade, portanto punhais e “chavetas”. A partir da perspectiva de Don Ángel, tal contribuição era concebida com bons olhos, de maneira positiva. No entanto, lastima o personagem, migram também indígenas, como uma “lloqlla”. Através do vocábulo pero, faz-se uma verdadeira depreciação dessa fase migratória, como se nada contribuíssem na construção dessa cidade que surgia: “ese gran huaco llegó hecho ya aquí.” (ZZ, p.93).
Don Hilario Caullama, de origem indígena, aymara, oriundo da serra (das montanhas), foi introduzido no mundo da leitura, da língua espanhola, já quando adulto. Don Ángel lança luz sobre a adequação desses migrantes, em particular a Caullama, que, ao chegar à cidade de Chimbote, já se distinguia de outros indígenas por seu poder de adequação é grande, tanto porque já se utilizava da língua espanhola, como também possuía poder no tocante à pesca. Esclarece-se que os serranos não possuíam a destreza de nadar. Ou seja: tal ação para muitos era caminho para a morte. Grande número, sem formação ou habilidades especificas especializadas, oferecia sua força de trabalho à pesca ou ao lixo (“la basura”) a lavar pratos, na limpeza ou aproveitando sua força física no carregamento de mercadorias. Sua fragilidade era tamanha:
Pero otros hambrientos bajaron directamente aquí para trabajar en lo que fuera; en la basura o en la pesca. Se dejaron amarrar por docenas, desnudos en los fierros del muelle y allí, atorándose, chapoteando, carajeándose unos a otros, aprendieron a nadar, o se mietieron a lavar platos, a barrer, a cargar bultos en los mercados que empezaron a aparecer sin regla ni orden. (ZZ, p.93)
Aqueles que possuem o poder de mandar são comparados a “zancudos”: aqueles que sugam o sangue, que se nutrem a partir da energia vital dos que atacam. Chimbote, naquele momento, é composta por pântanos, desertos, montanhas e litoral; compõe-se de casco
urbano e médanos, no primeiro o espaço das casas é reduzido.
A partir do contexto, traçado, ocorreu o surgimento de ruas e praças, de repartição de lotes, surgimento de bairros. Houve um choque entre esses que estavam invadindo no momento em que ousaram aproximar-se de terras da Corporación del Santa, pertencentes ao governo. Ocorreu um embate físico entre o poder militar, representado por guardas civis, capitães e tenentes e as mulheres.
Os pescadores ganhavam um valor bastante bom para suas atividades. Sendo assim, cantinas e bordéis foram criados para extrair-lhes dinheiro. Há um grande cálculo para propiciar que os pescadores gastem todo o valor adquirido. A prostituição e os vícios (bebida e fumo) faziam parte de um plano arquitetado com esta finalidade. A violência, então, surge como parte disso para envolver os pescadores, a partir de sua inocência e falta de conhecimento dos mecanismos pensados pelos dirigentes e poderosos. Criou-se uma categoria intitulada “provocadores” para propiciar situações de confronto e utilização de objetos cortantes e agressivos, como chaves de fenda. O corral destinou-se para captar dores dos mais desprovidos monetariamente; para os mais abastados surgiu o prostíbulo Salão Rosado.
Considera-se como um grande lobo “pendejo”, talvez por sua grande astúcia e habilidade em organizar situações para “prender” presas tidas como frágeis, sem força física, inocentes. Pescadores foram adestrados, como Don Ángel dignostica. Construiu-se um ser para compor a cidade, com malícia, vícios, enfim dependente: ganha muito, porém, ao mesmo espaço, aplica o valor do seu suor, de sua mão-de obra, em situações desnessárias, supérfluas, sem que sequer se dê conta; quanto maior o vício, a coragem por portar e utilizar objetos de confronto, como chavetas, mais se admirava a suposta macheza do pescador. Diante dos
outros, da comunidade, de seu meio social, era admirado, saudado, como um galo. A pobreza, o vício, a dependência, a violência parecem elementos fundamentais para que a cidade possa funcionar, progredir, existir.
No diálogo entre os dois personagens, a figura de Deus e de Lúcifer aparecem como uma busca de qual deles poderia haver criando a baía de Chimbote. Insistentemente se pensa num tempo anterior ao que se vive e no agora, avaliando-se as transformações decorridas. O ser humano carrega um pedaço que seria a tripa, parte do sistema digestivo, da voracidade, do desejo de comer, de tragar. O antes e o agora se alternam em análises e percepções. A cidade de Lima, em contraposição à de Chimbote, surge como uma faceta ainda mais perniciosa: “en Lima es peor.” (ZZ, p. 95). Chimbote guardava semelhança com Lima, por conta de sua efervescência, com exceção da faceta aristocrática da cidade limenha. Mas, no fragmento citado, o narrador afirma que a cidade de Lima retrataria pior quadro em relação à situação chimbotana.
Os alcatrazes voltam à interlocução, como uma grande imagem dos serranos, dos migrantes, dos andarilhos. Don Ángel e Don Diego, como os zorros, trocam reflexões acerca do ser humano que compõe Chimbote. A partir de elementos da natureza, pensam seu passado, suas origens, suas posturas. O agora deste animal é ser “cocho”, o que não era no ontem, no antes. O ser ativo de outrora que “tragaba la basura perniciosa” (ZZ, p.95), hoje suporta, num claro posicionamento passivo, sem atitudes de enfrentamento: “Los pescadores los compadecen, como a incas convertidos en mendigos sin esperanza.” (ZZ, p. 95). A grande máquina da corrupção, do capitalismo, da violência: tudo conectado, atado a outra peça, para que no final saia como se imaginou. Explico: a desvalorização da pesca, para que, desta maneira, o produto que vale tanto nesse momento saia a um ínfimo valor.
Há um exemplo claro quando Don Ángel afirma que Brash, ao receber as dezenas de quilos de atum, tocava a um ou outro peixe, com uma substância com odor fétido, para assim
contaminar com o cheiro, e conseguir que o preço que seria o ideal caísse para quase nada. Vejam o fragmento que segue:
El mismo Braschi se ponía las manos una sustancia secreta y alzaba uno o dos atunes de cada lanchada, los alzaba por las agallas, llamaba al patrón de la lancha y le decía: “Huele, putamadre, huele.” “Sí, don Eduardo - contestaba cabizbajo, ardiendo de mierda, el pescador -. Sí, patrón, está oliscado. No sé como. Es fresco.” “Fresco podrido, puta.” Tres soles por docena.” Y lo que costaba treinta lo