3. METODE
3.2 V ALG AV METODE
Giorgio Agamben, pensador italiano, autor de Homo Sacer: O poder soberano e a Vida Nua (2004) e Estado de Exceção (2004), sugere que o Estado de Exceção não estaria mais relacionando-se a momentos de emergência, mas sim, sendo utilizado como um mecanismo que as autoridades passam a adotar para gerir, gerenciar, manipular e administrar a sociedade. Agamben aborda que medidas que inicialmente seriam provisórias, ou seja,
“reservadas a situações limitadas no tempo e no espaço, tornam-se regra” (AGAMBEN, 2004, p.76). Seriam medidas excepcionais, emergenciais, especiais que, a principio, teriam seu tempo de vida muito bem marcado. Porém, as autoridades ampliam seu tempo a seu bel prazer. O Estado tem o poder no Estado de Exceção, de direcionar idas e vindas, controlar comunicações, ou seja, limitar direitos de reunião, manifestações, podendo, inclusive, efetuar prisões sem motivos aparentes.
Todo Contrato Social tem como objetivo manter a ordem social; seria um acordo entre os membros da sociedade, pelo qual reconhecem a autoridade igualmente sobre todos, de um conjunto de regras, de um regime político ou de um governante. Origem legítima dos governos, das obrigações políticas dos governados ou súditos. Os nomes de Rousseau e sua obra O
contrato social (1762) estão intimamente relacionados ao que se está abordando. No contrato social, os bens são protegidos e a pessoa, unindo-se às outras, obedece a si mesma, conservando a liberdade.
Entendemos que Estado de Exceção é uma situação oposto ao Estado de Direito, decretada pelas autoridades em situações de emergência nacional, como agressão efetiva por forças estrangeiras, grave ameaça à ordem constitucional democrática ou calamidade pública. Caracteriza-se pela suspensão temporária de direitos e garantias constitucionais. Seria uma situação temporária de restrição de direitos e concentração de poderes que, durante sua vigência, aproxima um Estado sob regime democrático do totalitarismo. Em situações de exceção, o Poder executivo pode, desde que dentro dos limites constitucionais, tomar atitudes que limitem a liberdade dos cidadãos, como a obrigação de residência em localidade determinada, a busca e apreensão em domicílio, suspensão de liberdade de reunião e associação e a censura de correspondência. São medidas excepcionais que se tornam normais. Algo que deveria ser provisório passa a permanente; de exceção, à regra. O Estado passa a controlar não somente o prisioneiro, os criminosos, mas o cidadão comum. Estado de exceção sugere situações extraordinárias surgidas num momento de emergência. O governo passa a apropriar- se desse parâmetro para, com suas garras, usufruir de direitos que não lhe seriam possíveis. Os cidadãos são submetidos a todo tipo de degradação, ao abuso decorrente da situação de exceção. O Estado passa de protetor a terrorista, rompendo o contrato social que havia sido estabelecido. A ascensão de sistemas totalitários na Europa encaminha grandiosa civilização a atitudes de barbárie impensáveis. Vidas são desmontadas e arrastadas após ruptura radical do
contrato social. Os Estados de Exceção fazem surgir a desordem do mundo. São alterações radicais da vida cotidiana, instaurando o horror.
O que é terrível é que as fronteiras passam a inexistir. O que deveria ser considerado grandiosidade, organização, desenvolvimento, avanço, assume a faceta de devastador, presença de mal, opressão. O contrato social “preconizado” por Rousseau se rompe. No contexto peruano, mais precisamente, o resultado desta pseudo-modernização é a transformação de um balneário na década de 1950 em um charco, um pântano de águas negras
e céu de igual cor, gente violenta, assustada, hostil. Chimbote, de oásis, local aprazível, se torna um ambiente de odores fortes e ar pesado. Constrói-se uma forma lógica da organização de massacres.
A obra apresenta a relação entre cultura e regressão bárbara, violência extrema e uma aparência de normalidade e rotina na vida da cidade. Há forte ruptura radical do contrato social, especialmente no trecho em que revira-se o cemitério com seus habitantes, para, de forma completamente insensível, desumana, caótica mesmo, retirá-los de sua residência e transportá-los para um novo local, sem o respeito que se deveria ter pelos mesmos. Consideramos que, de certa forma, em Los Zorros, ocorre algo semelhante ao descompasso presente em um Estado de Exceção.
A temática da “exceção” foi tratada, sob diferentes enfoques e em variados contextos, no decorrer do século XX. Walter Benjamin, em Teses sobre o conceito de História, pensa em um Estado de Exceção Permanente quando se trata dos oprimidos e vencidos da História. O progresso transforma-se em sinônimo de catástrofe, que vai deixando ruínas em sua trajetória; os cidadãos são submetidos a todo tipo de degradação, ao abuso decorrente da situação de exceção e o Estado passa de protetor a terrorista.
Pensar em Chimbote e em sua organização precária, insuficiente, faz-nos recordar, ainda, o escritor alemão W. G. Sebald, com sua obra Austerlitz78 (2008). O autor nessa obra, como em Os imigrantes (2009), nos conduz a magníficas construções e esplendorosas bibliotecas (centro de todo o conhecimento humano). Todavia, a partir de Adorno, com a obra
Dialética do Iluminismo, nos colocamos a refletir como todo um engrandecimento pode levar ao nada, ao vazio, ao abismo. Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido disseca como a
78 Obra que tem como principal personagem um professor que explora uma estação ferroviária, coletando
material para pesquisas, quando é tomado por uma onda retrospectiva, que o faz relembrar a arquitetura da era capitalista. De posse de sua máquina fotográfica, percorre o continente europeu, numa imersão em memórias individuais e coletivas.
educação, faceta desta cidade letrada, pode oprimir, se não se favorece que cada um possa expressar-se, e, desta forma, conduzir ao silêncio.
Pierre Bourdieu (1930-2002), 79 prestou serviço militar na Argélia e ministrou aulas nesse país, o que lhe possibilitou aproximar-se de uma realidade que desconhecia. Desenvolve, assim, uma trajetória voltada para explicação sociológica da dominação social e cultural. A partir de análise de tribos africanas, em sua obra O poder simbólico, num grande trabalho etnológico,80 Bourdieu observa as que vivem à margem da sociedade moderna, num grande processo de aculturação (vide capítulo II) e investiga dentre outras questões, o conceito de região.
Quem estabelece a fronteira, o limite? Quem o legitima? Quem consagra o que é sagrado? Observamos na obra em questão que o poder legitimado é aquele que possui nome estrangeiro, que manipula o capital. Afirma o teórico que a “confusão dos debates em torno da noção de região e, mais geralmente, de “etnia” ou de “etnicidade.” resulta em para, de que a preocupação de submeter à crítica lógica, os categoremas do senso comum, emblemas ou estigmas” (BOURDIEU, 1992, p.112). Há um jogo de imposição, de uma visão de mundo social. Manipula-se o que se deseja que seja visto e se faz acreditar ao outro nessa construção. Impõe-se a definição legítima das divisões, afirma Pierre Bourdieu, que são as manifestações sociais destinadas a manipular as imagens mentais. De acordo com Bourdieu, a fronteira, esse produto de um ato jurídico de delimitação, produz a diferença cultural do mesmo modo como é produto desta.
Concebeu ainda o conceito de violência simbólica, onde a produção simbólica irá legitimar as forças, dominando, refletindo gostos de classe e estilos de vida, gerando uma
79 Importante sociólogo francês, que contribuiu para o pensamento sociológico do século XX, desenvolvendo
inúmeros trabalhos sobre a temática da dominação, influenciando, com seu legado, várias áreas do conhecimento, tais como História, Literatura, Educação, Antropologia, Sociologia.
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Tal como José María Arguedas, que seguiu sua vida como etnólogo e antropólogo por haver vivido uma realidade próxima à cultura quéchua, Bourdieu, a partir de sua experiência argelina, faz-se sociólogo e etnólogo.
distinção social. A violência simbólica ocorre através da coerção, da intimidação, de palavras ofensivas. Ultrapassar limites, para Pierre Bourdieu, significava sair da “cidade dos sábios” e entrar no mundo que gira incessantemente ao redor, a serviço de questões sociais.
De acordo com Maria Drosila Vasconcelos,81 Pierre Bourdieu tenta “desvendar o mecanismo que faz com que os indivíduos vejam como “naturais” as representações ou as idéias sociais dominantes. A dominação, segundo a crítica literária, ocorre pela “aceitação das regras, das nações, da incapacidade de conhecer as regras de direito ou morais, as práticas linguísticas.” (VASCONCELOS, p.4).
O Poder Simbólico é o conhecimento firmado no reconhecimento, interferindo no poder concreto, real, físico, sendo o poder que “consegue impor significações e impô-las como legítimas”, afirma o professor José Carlos Correia82.
Pierre Bourdieu, ao analisar a idéia de região, reflete sobre o reconhecimento de uma autoridade, considerando que “ao dizer as coisas com autoridade, quer dizer, à vista de todos e em nome de todos, publicamente e oficialmente, ele subtrai-as ao arbitrátrio, sanciona-as, santifica-as, consagra-as, fazendo-as existir como dignas de existir, como conformes à natureza das coisas “naturais”. (BOURDIEU, 1992, p. 114)
Na obra que está no centro de nossa investigação, Los Zorros, há uma delimitação/separação evidente entre o patrão e os pescadores: “ - Yo soy hijo de puta, patrón. Tú sabes” (ZZ, p.25). Inúmeros vocábulos se referem a alguém que domina o capital; é o poder legitimado: “cuando ordenan de New York a Lima y de Lima a Chimbote.” “Poquitos mandan en todo el universo, cielo y tierra, agua y mar”. A exploração trabalhista é evidenciada nas relações entre os trabalhadores relacionados ao sindicato. É o estrangeiro que detém o poder: "El polaco capetán de mina ha querido hacer imposición de fuerza" (ZZ,
81 Da Université Lille 3, França.
p.149). A opressão é um tênue fio que perpassa toda a narrativa e envolve a todos os personagens de alguma forma.
Roland Barthes83 afirma que “el poder no es sólo lo que oprime, lo que es opresor, sino lo que es oprimido: donde quiera que yo me sienta oprimido se hace presente una parte cualquiera del poder”. Em relação à atuação do intelectual na sociedade, o Estado o considera inútil mas perigoso: “todo régimen fuerte quiere controlar sus huelgas. Su peligro es de orden simbólico; es tratado como una enfermedad vigiada, un “apéndice” que incomoda, mas que es conservado para fijar en un espacio controlado, las fantasías y las exuberancias del lenguaje.”
Em Los Zorros, há uma crítica clara à modernização, como se pode ver no fragmento seguinte: “pero el tipo de ambiciones, anhelos, y empuje del hombre precipitadamente modernizado…” (ZZ, p.174). O barro, dos médanos, contrapõe-se ao casco urbano (centro urbano), aos hotéis, por exemplo.
Jean Jacques Rousseau, em sua obra Discurso sobre a origem e os fundamentos da
desigualdade entre os homens, diz como concebe “duas espécies de desigualdade: a natural ou física, e a moral ou política, porque esta depende “de convenção, e que é estabelecida, ou pelo menos, autorizada pelo consentimento dos homens.” A desigualdade natural, segundo sua visão, seria aquela “estabelecida pela natureza, e que consiste na diferença das idades, da saúde, das forças do corpo e das qualidades do espírito, ou da alma” (ROUSSEAU, 2004, p.29).
Pensando a Modernização, poderíamos levantar uma série de pontos positivos. Porém, na obra analisada, a cidade de Chimbote é levada à decadência física, moral, cultural, política por essa mesma modernização, que não foi bem conduzida com suas doenças, venda de corpos, violência simbólica, exclusão, deslocamento de migrantes. A figura da prostituta, como aquela que se vende, que põe o seu corpo à disposição de quem tenha bens materiais
e/ou favores a oferecer-lhe, exibe bem esse mecanismo: “casi todas permanecían con las piernas abiertas, mostrando el sexo, la “zorra” 84 afeitada o no” (ZZ, p.40). Ao evidenciar que não seriam todas, Arguedas lança uma luz tênue e pequena, mas firme possibilidade de caminhos, de picaduras 85.
Chimbote, cidade-personagem, aparece como alguém que é sugado, explorado, devastado, possuído. A violência desponta no tratamento entre os pescadores, no prostíbulo, nas diversas relações: “...el aire lleno de la fuerza, de la podredumbre que llegaba del humo, de los basurales, de la bocaza agonizante de los alcatraces chimbotanos.” (ZZ, p.33). A figura de um alcatraz, ave de rapina, desponta como grande devorador de vidas.
Arguedas desfia inúmeros personagens, os quais, de distintas formas, estão relacionados ao mundo do dinheiro, da coerção. A cidade de Chimbote gira em torno do dinheiro, do consumo, da troca, do desenvolvimento desenfreado, da decadência, da enfermidade individual e local. As ruas estão doentes, com chagas expostas, com indivíduos depreciados por outros e/ou si próprios, como vermes ambulantes. A figura de animais rastejantes relacionados à morte, à devastação (vermes) e a animais carnívoros, os quais destroçam suas presas (abutres) estão presentes, de forma alegórica ou não, por toda a obra. A violência de forma velada ou evidenciada, em diversos níveis de leitura, grita, sussura, oprime, toca, cala.
J.M.A. descreve a degradação de Chimbote, com riqueza de detalhes:
El olor de los desperdicios, de la sangre, de las pequeñas pisoteadas en la bolichera y lanzadas sobre el mar a mnguerazos y el olor del agua que borbotaba de las fábricas a la playa hacía brotar de la arena gusanos gelatinosos; esa fetidez avanzaba a ras del suelo y elevándose. (ZZ, p.40)
As relações são de forte conflito, ora entre quem manda e quem tem de obedecer, ora por diferenças étnicas. Há uma clara linha divisória neste mundo chimbotano: de um lado
84 Órgão sexual feminino.
85 Lembrando o termo usado pelo professor Rômulo na abertura do Colóquio “A herança de Arguedas aos 40
anos de sua ausência”, ocorrido na UFMG, em 2010. O termo poderia ser lido como caminhos na superfície ou uma abertura que atravessa algo.
“negros, zambos, injertos, borrachos, cholos insolentes o asustados, chinos flacos, viejos” e de outro “pequeñas tropas de jóvenes españoles e italianos curiosos, caminaban en el “corral.” (ZZ, p.40).