• No results found

Self-Immolative Models Releasing Aliphatic Amines

Leaving Group

5.1. SELF-IMMOLATIVE SYSTEMS: DESIGN PRINCIPLES

5.3.2. Self-Immolative Models Releasing Aliphatic Amines

São Tomé, que segundo as narrações, seria um homem de grande estatura, branco, barbado e de olhos azuis, com características físicas correspondentes ao biótipo europeu, além de distribuidor de dons teria sempre pregado a palavra divina entre os índios. Essa pregação, ao que parece, não estava concentrada no caráter salvacionista da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. As fontes demonstram que a pregação do santo estaria mais relacionada aos aspectos civilizadores do que propriamente espirituais. Isso leva a crer que a estratégia de pregação atribuída ao santo pode ter sido nada mais do que a própria estratégia empregada pelos jesuítas, que acreditavam que só poderiam tornar os índios cristãos depois que esses fossem civilizados (MONTOYA, 1985, p. 20; SALVADOR,

1982, p.112).

O projeto jesuítico de levar a fé cristã aos índios incluía necessariamente a atitude de civilizá-los, como foi destacado por Cristina Pompa, o trabalho missionário pretendia antes de qualquer coisa tornar os índios homens, isto é civis (POMPA, 2003, p.70).

Acredito que não seja exagero utilizar o conceito de civilização, embora tal conceito tenha surgido somente no século XVIII os termos que o precederam parecem comportar, ao menos de maneira similar, o sentido a ele atribuído. Refiro-me aqui ao conceito francês de Civilisation descrito na obra de Norbert Elias. Tal conceito descreveria a auto-imagem da sociedade propositora. Sob a ótica desse conceito, a sociedade que o assumia acreditava ser superior a todas as demais. A idéia de civilização abrangia fatos políticos, econômicos, religiosos, técnicos, morais e sociais, refere-se a realizações, mas também a atitudes e comportamentos das pessoas (ELIAS, 1994, p. 53-54).

Como se vê o conceito de civilization é posterior ao período ora analisado, porém, Elias afirma que o processo civilizador é anterior, termos como civilisé, poli, policé ou civilité eram utilizados quase como sinônimos. Esses termos para quem os utilizava eram como a expressão dos seus padrões comportamentais, considerados superiores aos dos demais.

... politesse ou civilité tinham, antes de formado e firmado o conceito de civilisation, praticamente a mesma função deste ultimo: expressar a auto- imagem da classe alta européia em comparação com outros, que seus membros mais simples ou mais primitivos, e ao mesmo tempo caracterizar o tipo específico de comportamento através do qual essa classe se sentia diferente de todos aqueles que julgava mais simples e mais primitivo. As palavras de Mirabeau deixam muito clara a extensão em que o conceito de civilização foi inicialmente uma continuação direta de outras encarnações da autoconsciência da corte: “Se eu perguntar o que é civilização, a maioria das pessoas responderia: suavização de maneiras, polidez, e coisas assim”... (ELIAS, 1994, p. 54).

35 Portanto, civilizar é impor ao outro aquilo que eu tenho como elemento de valor, seja no campo social ou cultural. Diante disso, acredito que o conceito de civilização corresponde ao processo empreendido pelos jesuítas e europeus em geral que buscavam impor os padrões cristãos europeus aos nativos. A idéia civilizacional fica evidente no trecho em que Montoya diz

Vivi todo o tempo indicado na Província do Paraguai e por assim dizer no deserto, em busca de feras, de índios bárbaros, atravessando campos e transpondo selvas ou montes em sua busca, para agregá-los ao aprisco da Santa Igreja e ao serviço de Sua Majestade. E de tais esforços, unidos aos de meus companheiros, consegui o surgimento de treze “reduções” ou povoações. Foi, em suma, com tal afã, fome, desnudez e perigos freqüentes de vida, que a imaginação mal consegue alcançar. Certo é que nossa ocupação exercida parecia-me estar no deserto. Porque, ainda que aqueles índios que viviam de acordo com os seus costumes antigos em serras, campos e selvas e povoados, dos quais cada um contava de cinco a seis casas, já foram reduzidos por nosso

esforço ou indústria a povoações grandes e transformados de gente rústica em cristãos civilizados com a contínua pregação do Evangelho. Porque,

digo, com tudo isso, ou seja por carecer durante tantos anos do trato com espanhóis e sua linguagem, e estar obrigado por força das circunstâncias a sempre lidar com o idioma índio, veio a formar-se em mim um homem quase rústico e alheio à cortesia da linguagem... (MONTOYA, 1985, p. 20) (Destaque

meu).

No texto acima fica claro o desprezo do jesuíta pela organização social dos indígenas destaca-se também o resultado supostamente alcançado pela missão: a transformação de gente rústica em cristãos civilizados. Percebe-se que os conceitos de cristão e civilizado estão atrelados e principalmente que não há cristão que não seja necessariamente civilizado. Nessa ótica a religião cristã apresentada aos índios antes de ser mística foi comportamental e moralista.

A pregação jesuítica atacava principalmente a aspectos moralmente inaceitáveis do ponto de vista da civilização cristã, aspectos como a poligamia, a nudez e a antropofagia, eram vistos como abomináveis obras demoníacas. A conversão de comportamentos exteriores era perseguida pelos missionários, tanto que o abandono desses comportamentos muitas vezes era considerado como prova de conversão (MONTOYA,

1985, p. 67-68, 226-227; LEITE, 1954a, 111-113).

A pregação atribuída ao santo apóstolo é praticamente a mesma que faziam os jesuítas, frei Vicente Salvador, referindo-se a São Tomé, exclamou ... em paga deste benefício e de lhes ensinar que adorassem e servissem a Deus e não ao demônio, que não tivessem mais de uma mulher nem comessem carne humana, o quiseram matar e comer...

(SALVADOR, 1982, p. 112). O mito de São Tomé americano, após ser apropriado pelos jesuítas, adquiriu uma série de características que servem para exemplificar a circularidade cultural, presente na colonização. Pode-se dizer que o mito é indígena, quando se caracteriza como distribuidor de dons, que é jesuítico, quando combate a incivilidade e que é propriamente apostólico, quando cumpre as Sagradas Escrituras levando o evangelho a todas as criaturas. O fato da pregação atribuída ao santo corresponder àquela que era praticada pelos jesuítas, como se verá nos capítulos seguintes, revela um elemento de auto- identificação específico, que permitiria aos jesuítas invocar a condição de sucessores de São Tomé.