Water Soluble Squaramide Dihydrates: N- N-Methylation Modulates the Occurrence of
4.4.3. Results And Discussion
Fontes particulares são, essencialmente, os documentos escritos que resultam da necessidade de registrar várias atividades humanas e que, originalmente,
97 HORTON, J. A. B. 1863; Letters on the Political Conditions of lhe Gold Coast ..., Londres, 1870. 98 Paris, 1833.
130 Metodologia e pré -história da África
não eram destinados ao público, mas apenas a um pequeno grupo de pessoas interessadas. Compreendem, assim, principalmente, a correspondência oficial e particular, relatórios confidenciais de várias transações, registros comerciais, estatísticas, documentos particulares de diversos tipos, tratados e acordos, diários de bordo, etc. Esse material é a matéria -prima do historiador, já que oferece – ao contrário das fontes narrativas, feitas com um propósito bem definido – um testemunho objetivo, isento, em princípio, de quaisquer segundas intenções visando um vasto público ou a posterioridade. Esse material é encontrado principalmente em arquivos e bibliotecas estatais ou particulares.
A antiga ideia de que não há fontes escritas particulares suficientes para a história da África já não tem fundamento. Existem não apenas coleções extremamente ricas de documentos nas antigas metrópoles assim como extenso material na própria África, produzidos nos períodos pré -colonial e colonial, por instituições particulares ou ligadas aos Estados europeus, mas também coleções de material particular originárias dos próprios africanos, escritas em línguas europeias ou em árabe. Enquanto, anteriormente, esses documentos eram considerados raridades, encontradas somente em alguns lugares muito especiais, está claro agora que existe uma grande quantidade de fontes escritas de origem africana em várias partes do continente e também nos arquivos europeus e asiáticos.
Observemos, primeiramente, o material escrito em árabe. Para o período anterior ao século XIX, foram descobertos até agora somente exemplares isolados de correspondência, local e internacional, provenientes, sobretudo, da África ocidental. Há cartas do sultão o otomano ao Mai Idris do Bornu (em 1578), descobertas em arquivos turcos, e alguma correspondência do sultão do Marrocos ao Askiya de Songhai e ao Kanta de Kebbi, também do fim do século XVI. O árabe era utilizado como língua diplomática não apenas pelas cortes islamizadas do Sudão, mas também por governantes não -muçulmanos. O caso mais conhecido é o dos Asantehenes, que utilizaram os serviços de escribas muçulmanos, que escreviam em árabe, para redigir sua correspondência com seus vizinhos do norte, assim como com os europeus da região costeira. Algumas dessas cartas foram encontradas na Biblioteca Real em Copenhague. A chancelaria árabe de Kumasi funcionou durante grande parte da segunda metade do século XIX, e o árabe também era utilizado para manter registros de decisões administrativas e judiciais, transações financeiras, etc. No outro lado da África tem -se como exemplo o tratado, escrito em árabe, entre o comerciante de escravos francês, Morice, e o sultão de Kilwa, no ano de 1776.
O século XIX presenciou um aumento considerável da correspondência em árabe em todo o continente. Com o estabelecimento de Estados centralizados no Sudão houve um desenvolvimento das atividades administrativas e diplomáticas, tendo
131
As fontes escritas a partir do século XV
sido descoberto um abundante material desse tipo, principalmente no sultanato de Socotoe em seus emirados dependentes, de Guandu a Adamaua, no Estado de Macina ou no Estado de Liptako e no Império de Bornu. Todos os governantes muçulmanos de grandes ou pequenos Estados mantinham correspondência intensa entre si e com as potências coloniais em desenvolvimento. Em muitos arquivos dos países da África ocidental (e em alguns da Europa), encontram -se milhares de documentos em árabe de personalidades como al -Hadjdj’Umar, Ahmadu Seku, Ma -Ba, Lat Dyor, Mahmadu Lamine, Samory, al -Bakka’i, Rabih e muitos outros líderes e chefes de menor envergadura. As administrações coloniais em Serra Leoa, Guiné, Nigéria e Costa do Ouro também mantinham sua correspondência com eles em árabe. Existem cartas trocadas entre o paxá otomano de Trípoli e os xeques bornu, entre o sultão do Darfur e o Egito, entre Tombuctu e o Marrocos. O mesmo ocorreu com a África oriental; parece, entretanto, que os arquivos de Zanzibar não são tão ricos em documentos árabes, como poderia se esperar de uma cidade com tão grandes interesses comerciais e políticos. Deve haver, evidentemente, um vasto número de documentos, com diversidade de conteúdo, em coleções particulares; a reunião e catalogação de todos eles não será uma tarefa fácil, mas é indispensável no futuro próximo.
Muitos textos foram escritos na escrita vai, que foi inventada em 1833, aproximadamente, por Momolu Duwela Bukele, e expandiu -se muito rápidamente entre o povo Vai, de modo que, no fim do século, quase todos a conheciam e empregavam correntemente, na correspondência particular e oficial, na manutenção das contas e também na redação de leis costumeiras, provérbios, contos e fábulas. Muitos povos vizinhos, como os Mende, os Toma (Loma), os Gerze (Kpele) e os Basa, adotaram e adaptaram a escrita vai, empregando -a com propósitos semelhantes99.
No início do século XX o Sultão Njoya de Bamum (Camarões) inventou para a língua bamum uma escrita especial, que ele reformou quatro vezes durante sua vida; mas, contrariamente à escrita vai, utilizada geralmente pela maioria do povo, o conhecimento da escrita bamum permanecia restrito a um pequeno grupo da corte do sultão. Todavia, Njoya compôs um grande volume sobre a história e costumes de seu povo nessa escrita, um livro no qual ele continuou a trabalhar durante muitos anos e que constitui um verdadeiro manancial de informações valiosas sobre o passado100.
99 Cf. DALBY, D. A. 1967, p. 1-51.
100 Histoire et coutumes des Bamum, rédigés sous la direction du Sultan Njoya. Trad. por P. Henri MARTIN, Paris, 1952. O original é mantido no palácio do sultão em Fumbam.
132 Metodologia e pré -história da África
Devemos acrescentar os textos em nsibidi101 do Cross River Valley (sudeste
da Nigéria), que consistem em inscrições em santuários e formas especiais de linguagem, utilizadas entre os membros de algumas sociedades secretas.
O material nas línguas europeias abrange o período do século XVI até hoje. Escrito numa dúzia de línguas, é imensamente abundante e está disperso pelo mundo inteiro em centenas de lugares diferentes, arquivos, bibliotecas e coleções particulares. Essa situação torna sua utilização pelos historiadores bastante difícil, especialmente em casos onde não há guias nem catálogos à disposição. Foi por essa razão que o Conselho Internacional de Arquivos, sob os auspícios e com o apoio moral e financeiro da UNESCO, começou a preparar uma série de guias para as fontes da história da África. O principal objetivo era satisfazer as necessidades dos estudantes de história da África facilitando o acesso a todo o corpo de fontes existentes. Como a pesquisa histórica havia estado por muito tempo concentrada num número limitado de bibliotecas de arquivos que mantêm registros do período colonial, era importante chamar a atenção também para a existência de um extenso e muito disperso conjunto de fontes, até agora não exploradas. Os guias são dedicados inicialmente aos arquivos públicos e particulares, mas levam igualmente em consideração o material de interesse histórico conservado em bibliotecas e museus. A série deve compreender doze volumes, com informações sobre fontes arquivísticas que tratam da África ao sul do Saara e mantidas nos países da Europa ocidental e nos Estados Unidos. Até agora os seguintes volumes já foram publicados:
Volume I – República Federal da Alemanha (1970); Volume 2 – Espanha (1971); Volume 3 – França – I (1971); Volume 4 – França – II (1976); Volume 5 – Itália (1973); Volume 6 – Itália (1974); Volume 8 – Escandinávia (1971); e Volume 9 – Holanda (1978). O Volume 7 (Vaticano) é esperado para um futuro próximo. Os volumes abrangendo a Bélgica, o Reino Unido e os Estados Unidos aparecerão separadamente, mas seguirão o mesmo método de apresentação102.
Como foi muito apropriadamente dito por Joseph Ki -Zerbo em sua Introdução para a série, “na batalha para a redescoberta do passado africano, o guia das fontes
da história da África constitui uma nova arma estratégica e tática”103.
101 Cf. DAYRELL, 1910 -1911 ; MAC-GREGOR, 1909, p. 215, 217, 219.
102 Os volumes dos Estados Unidos e do Reino Unido apresentam listas de documentos relativos a todo o continente.
103 Quellen zur Geschichte Afrikas südlich der Sahara in den Archiven der Bundesrepublik Deutschland (Guio das
133
As fontes escritas a partir do século XV
Além desse importante projeto, já há alguns outros guias de fontes, preparados principalmente por regiões ou de acordo com critérios especiais. Entre os mais completos, constam os cinco guias da história da África ocidental, publicados em 1962 -1973, que cobrem os arquivos de Portugal, Itália, Bélgica, Holanda, França e Reino Unido104.
Mais ambiciosas e de certa forma mais vantajosas são as edições de documentos arquivísticos in extenso ou como catálogos. Até agora esse tipo de apresentação tem sido usado principalmente para o material em arquivos portugueses. Sem considerar o trabalho de Paiva Manso no fim do século XIX105, há agora duas importantes coleções de documentos de missionários,
provenientes de arquivos portugueses e alguns outros, um de A. da Silva Rego106,
e outro de A. Brasio107. Alguns anos atrás, foi iniciada uma coleta monumental,
preparada pelos esforços combinados dos arquivos portugueses e do Zimbabwe, na qual todos os documentos portugueses relativos ao sudeste da África serão publicados no original com uma tradução inglesa108.
Há também coleções restritas no que se refere ao tempo, alcance e objeto. Essa categoria é representada, por um lado, pelos British Parliamentary Papers e vários Livros Azuis e Brancos, principalmente do período colonial, e, por outro lado, por seleções recentes mais científicas109, como o trabalho de J. Cuvelier e
L. Jadin sobre os documentos do Vaticano para a história do antigo Congo110,
ou a seleção de C. W. Newbury sobre a política britânica na África ocidental e o estudo documentário de G. E. Metcalfe sobre as relações entre a Grã- -Bretanha e Gana111. À mesma categoria pertence a grande coleção de material
arquivístico sobre a política italiana em relação à Etiópia e países vizinhos, em vias de publicação por C. Giglio112. Muitas outras coleções desse tipo em
vários arquivos europeus tornaram acessíveis documentos para alguns aspectos da história colonial. Mas seu ponto fraco reside precisamente em seu caráter
104 CARSON, P. 1962; RYDER, A. F. C. 1965; GRAY, R. e CHAMBERS, D. 1965; CARSON, P. 1968. 105 MANSO, P. 1877.
106 SILVA REGO, A. da. 1949 -1958. 107 BRASIO, A. 1952.
108 The Historical Documents of East and Central Africa, Lisboa -Salisbury, a partir de 1965. Compreenderá aproximadamente 20 volumes.
109 Guides to Materials for West African History in European Archives, publicados pela Universidade de Londres na Athlone Press, a partir de 1962. Cf. nota 104.
110 CUVELIER, J. e JADIN, L. 1954.
111 NEWBURY, C. W. 1965; METCALFE, G. E. 1964. 112 GIGLIO, C. L’Italia in Africa, Serie Storica, v. I, 1958.
134 Metodologia e pré -história da África
figura 6.2 Fac-símile do manuscrito vai intitulado “An Early Vai Manuscript” (por Svende E. Holsoe, publicado pelo International African Institute).
135
As fontes escritas a partir do século XV
seletivo, porque cada compilador segue, ao escolher o material, regras próprias, subjetivas, enquanto o pesquisador que examina uma questão necessita de todas as informações e de uma documentação completa.
Em cada Estado independente da África existe agora arquivos governamentais que também mantêm material herdado da administração colonial anterior. Apesar de alguns países terem publicado guias ou catálogos, a maioria dos arquivos na África ainda está em processo de classificação sistemática e descrição113. A
publicação de uma série de guias de todos os arquivos africanos públicos e particulares, como os que estão sendo publicados para os arquivos da Europa, é, no momento atual, uma necessidade urgente.
Os arquivos governamentais da África, comparados aos das antigas metrópoles, têm suas vantagens e também seus inconvenientes. Com algumas exceções, a manutenção de registros detalhados só teve início na África, na década de 1880, e há muitas lacunas nesse material, que devem ser compensadas por outras fontes, sendo as mais importantes os registros dos missionários e comerciantes e os documentos particulares, e, evidentemente, os arquivos em capitais europeias.
Por outro lado, as vantagens dos arquivos criados na África sobre os das antigas capitais metropolitanas são numerosas: a diferença marcante reside no fato de guardarem materiais e registros que têm relação mais direta com a situação local, enquanto os arquivos coloniais da Europa contêm, principalmente, documentos sobre a política do colonizador. Os arquivos africanos geralmente conservam registros do período pré -colonial, como relatórios dos primeiros exploradores, informações colhidas por comerciantes, funcionários públicos e missionários no interior, relatórios que não eram considerados dignos de ser enviados para a Europa, mas que são de extrema importância para a história local. Conservam, ainda, um número muito maior de documentos produzidos por africanos que os arquivos da Europa. Em geral, apesar da quantidade de material duplicado em arquivos da Europa e da África, qualquer pesquisador que trabalhe somente com fontes de antigos arquivos metropolitanos tenderá a escrever uma história dos interesses europeus na África e não a história dos africanos. Por outro lado, a utilização exclusiva dos arquivos mantidos na África não pode fornecer um quadro completo, já que muitos registros e documentos estão faltando ou são incompletos.
136 Metodologia e pré -história da África
Para concluir, devemos mencionar alguns outros tipos de documentos, da mesma categoria. Inicialmente trataremos dos mapas e outros materiais cartográficos. Embora, a partir do século XVI, o número de mapas impressos da África tenha aumentado a cada ano, muitos ainda se mantêm em forma de manuscritos, em vários arquivos e bibliotecas da Europa, alguns magnificamente decorados e coloridos. Nesses mapas, podemos encontrar frequentemente nomes de localidades que hoje não existem mais ou que são conhecidas por outras denominações, mas que são mencionados em outras fontes, orais ou escritas. Por exemplo, muitos povos Bantu orientais têm tradições que falam da migração de uma área chamada Shungwaya; atualmente não se conhece nenhuma localidade com esse nome, mas em alguns dos mapas antigos, por exemplo, o de van Linschotten (1596) ou o de William H. J. Blaeu ( 1662) e outros mais, Shungwaya aparece com várias grafias, primeiro como cidade, mais tarde como região não distante da costa. Os mapas antigos fornecem também dados sobre a distribuição de grupos étnicos, sobre as fronteiras dos Estados e províncias, sobre os vários nomes dos rios, montanhas e outros aspectos topográficos. Em resumo, oferecem um material toponímico muito útil, que por sua vez fornecem valiosas informações históricas. Um exemplo prático de como utilizar o material cartográfico com propósitos históricos foi demonstrado por W. G. L. Randles em sua South ‑East Africa in the Sixteenth Century114. A importância
desse material já foi reconhecida, e o historiador tem à sua disposição a grande obra de Yusuf Kamel, Monumenta Cartographica Africae et Aegypti, que contém também muitos textos narrativos no original e em tradução, mas interrompe -se, cronologicamente, precisamente no século XVI115. Devemos, portanto, endossar
o apelo de Joseph Ki -Zerbo de publicação de uma coletânea de todos os mapas antigos da África em um atlas .com textos comentados116. Um primeiro passo
nesse sentido foi dado com a recente publicação, em Leipzig, de quase cem mapas, mas sem comentários suficientes e reproduzindo apenas material já impresso117.
Outra categoria de material encontrado nas fontes escritas são os dados linguísticas. Já que se reservou um capítulo especial neste volume para o estudo da linguística como ciência histórica associada, deixaremos de lado as questões metodológicas e restringiremos nossa discussão a indicações sobre o tipo de fontes
114 RANDLES, W. G. L. 1958. 115 Cairo, 1926 -1951. 116 Cf. nota 103 acima.
137
As fontes escritas a partir do século XV
em que se podem encontrar dados linguísticos. A partir dos primeiros contatos com a África, os viajantes europeus passaram a acrescentar, como atitude de bom -tom, às suas narrativas de viagens e outros relatórios, listas mais ou menos longas de palavras nas línguas locais. Os mais antigos vocabulários datam do século XV, e, até o século XIX, raramente encontramos um livro sobre a África sem esse suplemento, às vezes até acompanhado por uma breve gramática. Embora a ortografia quase nunca seja sistemática, não é difícil identificar as palavras e línguas. A publicação mais notável desse tipo é a grande coletânea publicada por Koelle, de vocabulários de 160 línguas aproximadamente118. Curtin, Vansina e Hair119 demonstraram que
o valor da obra é mais que linguístico. Especialmente favorecido nesse aspecto é o antigo Reino do Congo: trabalhos que tratam do Kicongo têm sido publicados desde o século XVII – uma gramática de Brusciotto (1659) e um dicionário de de Gheel (morto em 1652)120. Além dessas obras impressas, existem outras em
várias bibliotecas e arquivos (Vaticano, British Museum, Besançon, etc.). Seu valor documental para os historiadores é maior que o das listas de palavras, pois são mais completas, permitindo um estudo diacrônico da nomenclatura social e cultural121.
Fontes escritas, narrativas e arquivísticas, nas línguas africanas, orientais ou européias, representam um conjunto imensamente rico de material para a história da África. Embora abundantes, os documentos de todo tipo, registros, livros e relatórios conhecidos constituem, muito provavelmente, apenas um fragmento do material existente. Dentro e fora da África devem existir inúmeros lugares que ainda não foram explorados do ponto de vista de fontes possíveis da história daquele continente. Essas regiões inexploradas constituem verdadeiros “espaços em branco” no mapa do nosso conhecimento das fontes da história africana. Quanto mais cedo eles desaparecerem, mais rico será o quadro que podemos traçar do passado africano.
118 KOELLE, S. W. 1854, reed. GRAZ, 1963.
119 CURTIN, P. D. e VANSINA, J.1964; HAIR, P. E. H. 1965.
120 Regulae quaedam pro difficillimi Congenius idiomatis faciliori captu ad Grammatica normam, redactae A. F.
Hyacintho Brusciotto, Roma, 1659; WING, J. van, e PENDERS, C. Le plus ancien dictionnaire Bantu. Vocabularium P. Georgii Gelensis, Louvain, 1928.
121 A gramática de Brusciotto foi estudada com esses objetivos por D. A. OLDEROGGE, no seu instrutivo artigo “Sistema rodstva Bakongo v. XVII” (Sistema de parentesco Bakongo no século XVII), in:
C A P Í T U L O 7
139
A tradição oral e sua metodologia
As civilizações africanas, no Saara e ao sul do deserto, eram em grande parte civilizações da palavra falada, mesmo onde existia a escrita; como na África ocidental a partir do século XVI, pois muito poucas pessoas sabiam escrever, ficando a escrita muitas vezes relegada a um plano secundário em relação às preocupações essenciais da sociedade. Seria um erro reduzir a civilização da palavra falada simplesmente a uma negativa, “ausência do escrever”, e perpetuar o desdém inato dos letrados pelos iletrados, que encontramos em tantos ditados, como no provérbio chinês: “A tinta mais fraca é preferível à mais forte palavra”. Isso demonstraria uma total ignorância da natureza dessas civilizações orais. Como disse um estudante iniciado em uma tradição esotérica: “O poder da palavra é terrível. Ela nos une, e a revelação do segredo nos destrói” (através da destruição da identidade da sociedade, pois a palavra destrói o segredo comum).