5. ANALYSIS
5.2 ANALYSIS OF THE INTERVIEWS
5.2.2 Selecting the Market
Segundo Assumpção (2003), as atividades artísticas e culturais estão ligadas histórica e socialmente às configurações da organização social no meio em que foram produzidas. Assim, sendo a dança um meio de expressão, representa um respeitável elemento para a visualização e o aprimoramento das potencialidades individuais. Para cada realidade, ela se constitui de um modo e a cada movimento ela se realiza como uma cultura capaz de contribuir para a emancipação humana.
Segundo Nanni (2005) como uma das mais antigas formas de arte da história humana, a dança pode se configurar como um dos meios mais imediatos de expressão, visto que depende do corpo e da vitalidade humana, segundo uma relação entre tempo e espaço estabelecida por meio de uma seqüência de gestos e passos definidos por um ritmo e pela composição coreográfica. De acordo com esta autora, a expressão corporal representa uma necessidade universal e manifesta-se por meio da integração social de acordo com cada cultura.
Medina et al. (2008) salienta que as inúmeras ações corporais dos indivíduos apresentam características adquiridas, representando a cultura e traduzindo as necessidades e os anseios da vida em comunidade. Para Dabul (2007), indivíduo e sociedade estão intrinsecamente ligados e as interações sociais constituem atributo definidor das dimensões significativas da vida humana.
O ser humano, organizado em grupos, forma a sociedade, a qual se depara com representações também de um contexto histórico, bem como, de fatores de interdependência existentes, que formam suas redes de significação em suas atividades cotidianas. Para tanto, se faz necessária a compreensão do ser humano como um ser social, capaz de expressar-se criativamente, o que implica em reflexões acerca das relações existentes entre os indivíduos e os ambientes aos quais pertencem.
Isto evidencia, não só a influência do meio ambiente como uma estrutura que permeia e direciona muitas formas de expressão individuais, mas também, da cultura existente. Deste modo, torna-se imperativo que também a expressão da criatividade seja levada em consideração nas práticas que permeiam todo o processo socioeducativo de vivências em dança, foco deste estudo.
Diversos autores e pesquisadores prestam contribuições importantes, no sentido de se compreender novas configurações acerca do elemento dança, especialmente no que se refere ao seu potencial socializador. Entre eles, encontra-se Norbert Elias. Esse autor, conquanto não tenha pesquisado efetivamente a dança, promove inúmeras reflexões, com as quais são feitas associações entre os elementos dança e sociedade, a partir de seus estudos.
Assim como as figurações formadas nas sociedades, também na dança podem- se observar transformações, seja de forma mais repentina e efêmera, ou mesmo, de forma mais gradual e possivelmente mais duradoura. Porém, o poder que as
estruturas sociais operam sobre os indivíduos que as formam é extremamente significativo, visto que estas pessoas se percebem sujeitas às forças dos conceitos, valores e costumes que emergem do grupo no qual estão inseridas ou desejam se estabelecer (ELIAS, 1994).
A análise das situações ocorridas entre os sujeitos, ou mesmo entre outros grupos, possibilita o acesso às configurações formadas e, assim, adentram na teia das diversas formas de interações sociais. Para tanto, é necessário considerar que a sociedade é composta por indivíduos que são interligados uns aos outros das mais diversas maneiras, de acordo com as estruturas sociais vigentes, que acabam por exercer influências significativas em suas formas de expressão, comunicação, linguagem, entre outros, também em dança.
O conjunto das relações que se estabelecem e que fundamentam os intergrupos e intragrupos constituídos, bem como, as tensões que se apresentam, seja no plano individual ou coletivo, compreende os aspectos sociais. Estes são instituídos pelos acontecimentos que tornam os seres humanos interdependentes em meio a configurações específicas que as pessoas formam umas com as outras, dentro de um caráter processual e dinâmico (CARNEIRO, 2005). Tais ocorrências, segundo Norbert Elias, podem ser exemplificadas pelas diversas formas de expressão em dança (ELIAS, 1994).
Para Carneiro (2005) as relações existentes estão sempre em um processo, podendo ser ou não reconstruídas ou rearticuladas. Ainda para o autor, a compreensão das atitudes e das condutas dos grupos sociais, além do processo por meio do qual os atores sociais interagem sobre os sistemas que são formados, constitui um leque de conhecimentos muito significativos para o entendimento da vida em sociedade. Isto fundamenta a relevância das reflexões geradas por Norbert Elias, as quais podem contribuir, também, para reflexões acerca do processo criativo em dança, interesse deste estudo.
Landini (2005) traz inferências a apontamentos, no sentido de que as figurações formadas pelas pessoas estão continuamente em fluxo e os desenvolvimentos em longo prazo podem não ser planejados ou previsíveis, ainda que o desenvolvimento do saber se dê dentro das figurações, sendo este um dos aspectos mais importantes dos desenvolvimentos cultural e social. Segundo a autora, o termo figuração ou configuração, cunhado por Elias, visa expressar a idéia de que os seres humanos
são interdependentes e suas relações, estão sujeitas a mudanças de ordens diversas e os processos decorrentes possuem dinâmicas próprias, com propósitos que não podem ser reduzidos às razões e expressões individuais.
Estes direcionamentos se refletem nas mudanças de atitudes e condutas que podem direcionar ou não, padrões de comportamento e estilos, ou mesmo, repercutir diretamente no uso do potencial criativo humano, bem como, nos conteúdos culturais e nas suas formas de expressão. Carneiro (2005) salienta que as dimensões das configurações sociais são variáveis e, neste contexto, as ações individuais são limitadas às cadeias de interdependência, de maneira que o social se torna dependente das ações interpessoais decorrentes das exigências próprias de cada figuração social.
Na concepção de Elias (1994), nas configurações em dança, existe uma pluralidade de indivíduos reciprocamente orientados e dependentes. Para o autor, cada bailarino está orientado pela configuração das interdependências, o que se correlaciona com o modo como diferenciam e integram as suas posições e as variações acontecem conforme as estratégias, recursos ou desejos de ação. Isto implica em indicações de como as estruturas de personalidade dos seres humanos mudam em conjunto com as transformações sociais, o que pode trazer implicações para a expressão da criatividade.
Para Carneiro (2005), as considerações do que se entende por configurações, são essenciais para se evitar a dicotomia entre indivíduo e sociedade, até mesmo, por estarem intrinsecamente relacionadas às redes de interdependência. Desta forma, as vivências em dança, para que não se perca sua essência como formas de expressão, não podem ser pautadas em uma visão fragmentada, permeada pelo mecanicismo baseado na cópia ou imitação de movimentos estereotipados ou determinados, mas, nas possibilidades de se integrar elementos sentidos, experimentados e aprendidos pelo ser humano, também pelo desenvolvimento e exercício do seu potencial criativo.
Os movimentos corporais, por meio da dança, como formas de linguagens artística, criativa e expressiva, trazem possibilidades de integrar fatores históricos, culturais e sociais sentidos, vivenciados e aprendidos pelo ser humano e, também, de fornecer elementos que podem trazer representações de uma determinada sociedade. Tais pressupostos superam as perspectivas de vivências direcionadas
apenas à aquisição de conhecimentos técnicos e práticos em dança, apontando as exigências da ampliação de intervenções e reflexões, já que a contribuição que pode oferecer por suas características, pode penetrar profundamente em outras esferas dos valores humanos, principalmente aquelas decorrentes dos aspectos sociais e culturais.
Os conceitos propostos por Elias (1994) giram em torno das configurações e teias de interdependência formadas pelos indivíduos, em consequências das relações existentes na vida em sociedade. Neste sentido, pode-se considerar que os processos criados também por meio das configurações sociais formadas na dança, permitem ponderações sobre o porquê de os indivíduos estarem ligados entre si e estão, além da execução e da imitação de passos, gestos, movimentos corporais e conteúdos culturais, apreendidos pelas formas de amar, pensar, agir, sentir e de se relacionar com o outro, com o espaço e com o tempo.
Assim, para a natureza humana, tempo e espaço não são dissociáveis e devem ser estudados conjuntamente. A proposta é compreender o tempo no contexto social onde esse é produzido, considerando o espaço como relevante nas configurações formadas também pelas diversas formas de expressão e criações nas vivências em dança.
Para Elias (1994), a aquisição de uma compreensão acerca das forças que as estruturas sociais exercem sobre as atividades que envolvem a vida em sociedade, bem como, de conhecimentos seguros por meio de campos especializados de investigação, é fundamental para orientar e dar significado às suas implicações. Neste sentido, o exame, a interpretação dos discursos e pensamentos relativos às forças exercidas sobre as diversas formas de expressão e criação das atividades inseridas na cultura corporal do movimento, entre elas a dança, transcorrem por longo prazo, mas, ainda carecem de reorientações e reflexões acerca dos seus propósitos.
Entender como o processo de significação se transforma, constitui a essência desse desenvolvimento, o qual se estabelece por meio das relações de poder e acena para a incerteza e imprevisibilidade. Desta forma, torna-se possível o desenrolar de modos mais autônomos e mais adequados às representações sociais e culturais.
Concebendo a dança no âmbito educativo, nas perspectivas culturais e político- sociais, Sborquia e Gallardo (2006) defendem que, assim como todo o conhecimento, dançar é uma construção cultural que se expressa no modo como esse conhecimento é compreendido, selecionado, transmitido e criado. Sendo assim, a dança deve ser permeada por propostas que possibilitem a expressão de processos criativos e não reprodutores.
Para tanto, torna-se premente a compreensão dos contextos e objetivos concernentes às ações em dança. Isto se deve ao sentido de fomentar o estímulo à apreensão das capacidades expressivas e criativas, para que o ser humano possa, também por meio da dança, ser um agente das mudanças sociais, ao se utilizar de suas ações educativas. Esta intenção visa minimizar a influência dos meios manipuladores de controle social e promover ações mais espontâneas, com base na sensibilidade, de forma dinâmica e articulada dialeticamente com a realidade histórica.
Tais direcionamentos representam um grande desafio dentro da multiplicidade de possibilidades para a vivência destas práticas. Portanto, a análise dos modos como estes processos são envolvidos pelos profissionais atuantes, visando explorar a criatividade dos participantes em dança, torna-se imprescindível para a compreensão destas iniciativas. Neste sentido, a dança é um assunto que merece discussões e reflexões, também no que concerne ao processo ensino-aprendizagem e as diversas formas de ensino promovidas em seus cursos de formação, espaços propícios para a criação, mas que representam, ainda, uma lacuna nesta área de estudo.