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A música começou a fazer parte de minhas aulas de Arte quando, lecionando em uma instituição filantrópica na cidade de Uberlândia (Ameduca), que tinha inclusão de portadores de deficiências nas salas de aula, introduzi as canções de minha autoria para conquistar a atenção de uma aluna, portadora de deficiência visual.

Nas aulas, usava o recurso do Projetor de Slides e propunha momentos de apreciação das imagens da História da Arte. Anaelise, era a aluna que não via as imagens, então, falava sobre outros assuntos, reclamava que a aula estava “chata” e “sem graça” e tentava atrapalhar a concentração dos colegas, cantando canções diversas com uma bela voz. A partir dessas situações, observei que deveria envolvê-la na aula de outro modo. Comecei a compor canções sobre os temas estudados e pedia que Anaelise me ajudasse a cantar para os amigos e, com o violão acompanhando, cantávamos as canções sobre as imagens e os artistas. Dessa maneira, a aluna não mais se sentia excluída das aulas de Arte, integrando-se ao desenvolvimento das atividades pedagógicas.

Para dar continuidade, comecei a compor compulsivamente para ensinar nas outras classes e observei que o resultado das canções inseridas nas aulas era significativo e o retorno dos pais positivo. Crianças bem pequenas, depois de visualizarem as imagens, cantavam as canções que eu compunha e ainda se expressavam plasticamente. Foram muitas vezes nas quais fui elogiada no portão da escola pelos pais que comentavam surpreender-se pelo filho tão pequeno já sabendo e informando fatos relacionados a um artista ou tema da História da Arte.

O sucesso das aulas fez com que fossem noticiadas em um jornal de circulação regional (FIGURA 1). O artigo descreve como as aulas eram ministradas na Ameduca Complexo Educacional e também na rede estadual de Minas Gerais.

FIGURA 1 – Matéria do Jornal Cultural de Uberlândia

Na prática, fui percebendo que cada pessoa tem seu modo de apreender determinado assunto. Algumas pessoas conseguem reter um determinado assunto por meio visual, outras por meio auditivo, outras, ainda ao somar as duas fontes, a sonora e a visual.

Desde 2000, trabalhando com o ensino de Arte, passei a procurar a qualidade como diferencial para minhas aulas. Um pouco mais tarde, em 2008, desenvolvi esse projeto na rede privada de ensino de São Paulo, no Colégio Franciscano Pio XII, para que as crianças pudessem realmente aprender o conteúdo de História da Arte e que o mesmo não caísse em esquecimento. Fiz um registro em CD para que outras pessoas também pudessem ter a oportunidade de ouvir a História da Arte, e especialmente para as crianças que estudaram no Colégio com esse projeto (FIGURA 2).

FIGURA 2 – Capa e contracapa do CD “O Canto do Pio” (2008)

Cada série trabalhou um tema da História da Arte como mostra a Figura 2. Tentamos adaptar os períodos da História, fazendo um paralelo com os conteúdos estudados em cada série e buscando uma proposta interdisciplinar com as outras matérias do currículo escolar. Além das canções, o CD apresenta uma narração da História da Arte produzida pela arte educadora e também pesquisadora Ana Maria Simões de Araújo, que atua conosco na equipe de Arte e Educação do Colégio. Ademais, os assuntos foram escolhidos baseados nos interesses de cada turma, pois em cada idade as curiosidades diferem; por isso, busquei adaptar a proposta com aos ensejos das crianças.

Iniciamos o projeto, apresentando aos alunos uma linha do tempo, desde a Pré- História, perpassando pelo Mundo Antigo, Idade Média, Renascimento até a Modernidade, com diferentes artistas brasileiros e estrangeiros. Nesse princípio, apresentei as imagens e os respectivos artistas, contextualizando-os. Houve espaço para leitura e questionamentos das mesmas. Além disso, exercitamos o fazer plástico com diferentes materiais e recursos pictóricos. E, no meio das atividades visuais, propusemos o fazer musical com as canções relacionadas aos temas estudados. As Figuras 3, 4 e 5 são alguns dos exemplos de resultados plásticos que realizamos no projeto.

Tais Figuras exemplificam que o fazer musical é um dos fazeres da aula de Arte que perpassa pela experimentação plástica com intensidade. Nessas circunstâncias, as canções são

inseridas nas aulas com a intenção de um fazer musical que acompanhe o conhecimento sobre a Arte. É uma maneira de começar ou finalizar um assunto da História da Arte de modo bastante interativo, haja vista que a maioria das crianças interessa-se por cantar.

FIGURA 3 – Entrada para a Exposição Diferentes olhares: sobre a Arte no Brasil

FIGURA 5 – Outro ângulo da exposição: projeções e caleidoscópios

A exposição e o registro das músicas no CD foram muito importantes, para que meu olhar de arte educadora também entrasse em ação. Apesar de muitos elogios e dos retornos positivos das crianças e seus familiares, eu sabia que faltava algo para que a educação ocorresse de maneira mais apropriada. No caso, compus as canções de História da Arte; que levei prontas à sala de aula. Isso gerou um grande questionamento, pois não me conformava como educadora e pesquisadora. E o olhar da criança? Levar a canção pronta para a sala de aula é pular uma etapa. É impedir que ela tenha suas próprias fruições. Com as canções, estou afirmando coisas em relação à obra de Arte e impedindo que ela tenha sua própria experiência estética. Além disso, o conhecimento fica restrito, centrado apenas no conteúdo abordado por aquela canção.

Isso despertou o desejo de aprofundar-me cientificamente no estudo dessa questão, para averiguar as possibilidades de trabalhar com diferentes linguagens na sala de aula de Arte, sendo esta pesquisa parte desse processo. Espero participar da melhoria do ensino independentemente se público ou privado, ofertado à educação brasileira. Essa base move meu caminhar pela Arte Educação, pois acredito em uma sociedade que atue com mais

dignidade e originalidade em suas decisões, creio que se cada professor atuante tiver o ânimo de investigar suas práticas educacionais, alterará os índices de aprendizagem, levando mais qualidade ao ensino. Em um País que adota a democracia como base governamental, deve-se respeitar e valorizar os professores que estão dispostos a aprofundar seus conhecimentos atrelados à prática pedagógica, melhorando assim os meios da educação.

Observo que a experiência apresentada leva-me a procurar uma perspectiva teórica que seja capaz de refleti-la e propiciar um desenvolvimento à pesquisa. É o que procurarei fazer em seguida, com base no texto seminal de Gardner, já citado.