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2.4 The stewardess, or the flight attendant – a heavenly creature?

2.4.2 The School-leaver (1973)

A busca pelo significado do esporte do ponto de vista da sociedade tem apontado para várias direções. DaMatta (2006) o apresenta como algo que reafirma valores capitalistas como o individualismo (cada um escolhe sua equipe) e o igualitarismo (uma competição que envolve igualdade de oportunidade, mas não igualdade de resultados). No caso brasileiro, o futebol – jogo com regras e “direitos” iguais entre os competidores – é visto pelo antropólogo como nosso primeiro “professor de democracia”:

Não foi, então, através da escola, do jornal, da literatura ou do Parlamento e de algum partido político que o povo começou a aprender a praticar a igualdade e a respeitar as leis, mas assistindo os jogos de futebol. Esses eventos onde o vitorioso não tem o direito de ser um déspota, e o perdedor, vale repetir, não pode ser humilhado (DAMATTA, 2006: pp. 142-3).

Para DaMatta, o futebol proporciona ao povo, sobretudo às camadas mais pobres da sociedade, a experiência da vitória. Um time de futebol e sua torcida unem brancos, negros, mestiços, pobres e ricos39. Eles podem lutar lado a lado para vencer uma partida.

Contudo, o autor também lembra que, se por um lado o esporte afirma valores ditos modernos, por outro, a adesão a um clube e a participação em uma torcida permite que o indivíduo retome os “elos que recriam num nível moderno da escolha individual a ideia de uma coletividade imperativa e coercitiva” (DAMATTA, 2006: p.161).

Franco Júnior (2007) aborda o tema e busca analogias entre o mundo do futebol e a noção de clã. De acordo com ele, “a consciência de pertencer a determinada comunidade camponesa, ou família tradicional e poderosa, ou confraria, ou cidade, ficou esmagada pelo conceito de cidadania que homogeneiza todos os indivíduos” (FRANCO JÚNIOR, 2007: p. 213). Nessa perspectiva, a lealdade a um clube ultrapassa a simples simpatia e acompanharia o indivíduo para além de sua vida, como no caso de torcedores que são sepultados com a bandeira de sua equipe. As cores de um time, portanto, simbolizariam esse sentimento de pertencimento que parecia perdido e o mascote serviria como o animal-totem desse “clã esportivo” (FRANCO JÚNIOR, 2007: 220).

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Em O negro no futebol brasileiro, o jornalista Mario Filho (2003), demonstra como essa “aula de democracia” foi (tem sido) difícil para ser “apreendida”, uma vez que o futebol foi privilégio de uma elite branca em seus primórdios. O cronista esportivo João Saldanha (1997) também relata momentos em que os valores igualitários trazidos pelo futebol entram em conflito com uma sociedade ainda não preparada para eles. Infelizmente não tivemos tempo de entrar na discussão sobre o que as divisões entre gerais, arquibancadas e tribunas de honra nos reservam.

55 No artigo A construção social da paixão no futebol, Sílvio Ricardo da Silva, também aborda a importância da adesão a uma equipe de futebol na vida do torcedor: “escolhe-se um time para a vida toda. Nessa escolha não entra a lógica do descartável, marco do mundo moderno (...) manter-se fiel a um time pela vida toda é manter seu caráter, suas idiossincrasias, é ter um rosto definido” (SILVA, 2005: p 48).

Ainda que Silva (2005) considere que a individualidade seja fundamental para a construção do sujeito, ele não despreza a necessidade humana de pertencer a um grupo, no caso a torcida de um clube. “Em determinados momentos é ele [o time] que dá identidade, é ele que faz ser parte de um grupo, é ele que dá rosto. É ele que faz estar junto das pessoas que comungam da mesma visão, dos mesmos sentimentos” (SILVA, 2005: p 50)40. Para Silva (2005) o clube seria um lugar entre o que DaMatta chama de casa (espaço privado) e rua (espaço público).

Um outro aspecto ressaltado nesses trabalhos é o fato de o esporte incorporar em si elementos das antigas disputas tribais, codificando-os numa leal e higiênica disputa, onde, a princípio, não haveria derramamento de sangue. De acordo com DaMatta (2006), o esporte carrega em si paixões e elementos da natureza humana que em sociedades tradicionais levavam à morte e à vingança. Franco Júnior ilustra essa guerra simbólica:

O cântico da torcida do Arsenal ainda chama o time de “exército vermelho e branco”. Em 2005 a imprensa espanhola apelidou o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho de “alegre máquina de guerra”. Durante os preparativos para ela [a Copa do Mundo], o técnico Carlos Alberto Parreira afirmou que “Copa é guerra” (Placar,

fevereiro/2006) (FRANCO JÚNIOR, 2007: p. 236).

Em Sociologia do Esporte, Georges Magnane (1969), analisa esportes de equipe (alguns deles bastante violentos como o rúgbi e o futebol americano) e conclui que a atividade esportiva pode ser uma eficiente válvula de escape para o que ele chama de “necessidades profundas próximas do impulso instintivo” que também estariam ligadas à guerra:

a conciliação do instinto agonístico e da necessidade de fraternidade aparece na maior parte das narrativas de guerra. Mas trata-se então de uma situação imposta ao soldado. O esporte de equipe foi, pelo contrário, livremente escolhido pelo jogador.

40 Silva chega a tais conclusões a partir da análise de entrevistas com vários torcedores. O trecho a seguir,

retirado de uma dessas conversas, ilustra a potência desse sentimento de pertencimento: “Eu tenho o privilégio de, aos 40 anos, conviver com a minha avó de 92. Se eu pergunto para ela ou para minha mãe fatos importantes da nossa vida familiar, como por exemplo, como ela conheceu meu avô, a resposta começa assim: eu estava no Vasco... E a festa das bodas de ouro dos meus bisavós como foi: o salão do Vasco estava decorado com... e a festa de casamento dos meus pais: um almoço na sede náutica do Vasco...” (SILVA, 2001 apud SILVA, 2005: p. 50).

56 De um lado, permite-lhe lutar contra o adversário por todos os meios que a vida em sociedade lhe proíbe: a violência e, ocasionalmente, a brutalidade; a estratégia e, dado o caso, o ardil; a intimidação e, nos extremos métodos humilhantes. E, de outro lado, o jogador de equipe sente-se justificado pelo pensamento de que trava um combate não egoísta, o bom combate: é pelos seus, pelo seu clube e pelas suas cores que ele leva a agressividade até aos últimos limites levados pelas regras do jogo (MAGNANE, 1969: pp. 22-23)41.

A violência latente dos esportes às vezes acaba por extrapolar os limites das regras do jogo e se manifesta nas torcidas com enfrentamentos que chegam a ser mortais, transformando o que deveria ser uma atividade higiênica em pretexto para brigas generalizadas. As brigas de torcida no futebol – com os Hooligans na Inglaterra, a Barra

Brava na argentina, os Ultras italianos – são alvo de estudos sociológicos de variadas

vertentes. Giulianotti (2002) faz um panorama de pesquisas que ligam o fenômeno a questões como desigualdade social, neonazismo ou mesmo uma agressividade inerente ao homem, que estaria recalcada no mundo atual.