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2.2 Airplane disaster films, Soviet- and post-Soviet style

2.2.1 The Flight Crew (1979)

É consenso entre os comentadores de Meierhold que O Inspetor Geral é um acontecimento na história das relações entre teatro e música. O espetáculo influenciará inclusive Shostakóvitch, que escreverá O Nariz (1930) adotando técnicas de vocalidade e de composição elaboradas por Meierhold, técnicas que ele pôde analisar à vontade, visto que, durante alguns meses, fez parte da orquestra de O Inspetor Geral.

Abordamos, no item anterior, a música inaudível de O Inspetor Geral destacada por Assafiev em sua crítica, contudo também a música audível do espetáculo é abundante e digna da atenção de seus comentadores.

Picon-Vallin (1989) conta-nos que para O Inspetor Geral, Meierhold exige de Arnstam (pianista do seu teatro) que toque a cada ensaio novas romanças26, sublinhando que é somente em uma abundância de material musical que a trupe conseguirá executar as complexas tarefas impostas pela peça. Ainda segundo a autora:

Sublinhemos de passagem que O Inspetor Geral é um espetáculo da abundância, no qual o próprio processo do trabalho criador, do nascimento de múltiplas variantes, da escolha dentre a riqueza dessas eventualidades se reflete na encenação, na medida em que deixa traços perceptíveis, analisáveis à luz das complexidades, e mesmo das contradições do longo trabalho de ensaio. (PICON-VALLIN, 1989, p.)

26 Romance romanza (esp.) 1. Como a romanza italiana do final do período medieval, durante certo

tempo ainda esteve associada à balada (acp.1). [...] era executado por poucas vozes e um ou dois instrumentos de corda como o alaúde. Evoluiu até o início do barroco, quando principalmente nas formas alemãs e francesas tornaram-se exacerbadamente sentimentais. Apesar de suas características de música vocal, o gênero passou a ser utilizado por Mozart e Beethoven, entre outros, ou exercer influência sobre suas composições instrumentais (DOURADO, 2004, p.285).

106 Se por um lado cabe destacar a abundância do material musical utilizado para a montagem de O Inspetor Geral, por outro lado, um dos principais objetivos da música no espetáculo seria conferir a economia necessária, segundo Meierhold, à construção das cenas e da gestualidade dos atores. Cavaliere expõe a questão da economia e introduz o conceito de “realismo musical” proferido por Meierhold da seguinte forma:

O elemento musical significava para a economia do espetáculo muito mais do que uma base de atmosfera para o desenvolvimento da ação dramática. Este

foi definido como uma “sinfonia cênica sobre temas gogolianos”. As

declarações do encenador sobre o espetáculo demonstram também que essa estruturação vinculava-se ao seu conceito de “realismo musical”. A questão

do realismo “à base da convenção”, tal como Meyerhold propugnava, muitas vezes sob a denominação de “realismo autêntico”, acha-se em estreita relação com este “realismo musical”, preocupação constante do encenador, orientada

para uma linguagem teatral, apoiada na abstração da estrutura da música, propiciando concentrar em cada detalhe concreto do conjunto cênico força poética e expressiva, e ainda, utilizando a música como sintaxe do discurso

cênico, lograva-o radicalmente diferente, “estranhado”, por assim dizer, em relação ao discurso cotidiano (CAVALIERE, 1996, p.119-120, grifo

nosso).

São muitas as questões relevantes para a compreensão do papel da música em O

Inspetor Geral nesta afirmação de Arlete Cavaliere, no entanto, daremos ênfase à

“música como sintaxe do discurso cênico”, pois remete justamente ao aspecto formal que diz respeito ao conteúdo deste tópico. Podemos avaliar que a forma musical “sinfonia”, conhecida como “grande forma instrumental”, constrói a sintaxe do discurso cênico em O Inspetor Geral.

Se pensarmos na “abundância musical” destacada por Picon-Vallin em contraponto à “economia” (necessária, no mesmo sentido que na concepção de Meierhold, à construção de toda forma musical) ressaltada por Cavaliere, ou mesmo no fato de que com O Inspetor, Meierhold efetuava como que um balanço de suas pesquisas, também dirigidas para o aspecto técnico da forma teatral, o termo “sinfonia” parece mesmo o mais apropriado para designar essa grande obra do encenador. É importante ressaltar que mesmo compositores modernos (contemporâneos de Meierhold) usavam a forma sinfônica clássica em suas obras, o que podemos verificar na definição elaborada por Dourado, a seguir:

Sinfonia (it.; gr. sinfonia: agrupamento de vozes, sons) [...] Como composição orquestral maior, a sinfonia tal como se conhece hoje veio

consolidar-se na Mannheim de Stamistz e na Viena clássica, onde os gênios de Mozart e Haydn a consagraram como grande forma instrumental [...]. A sinfonia clássica, que praticamente definiu a forma depois universalmente

adotada, surgiu da chamada “abertura italiana” barroca (rápido-lento-rápido),

e era composta geralmente de quatro movimentos, sendo o terceiro deles evocativo de uma dança, o minuetto (posteriormente trocado pelo scherzo por

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Beethoven), que vinha ligado a um trio. O maior sinfonista foi, talvez, Beethoven [...]. Mais adiante, compositores modernos também se mostraram apegados à tradição sinfônica clássica, mesmo que suas obras representassem novos conceitos estéticos: Prokófiev, Ives, Honneger, Sessions e outros [...] (DOURADO, 2004, p.305-306, grifo nosso).

De fato, como “composição orquestral maior” de Meierhold, O Inspetor Geral apresenta uma rede complexa de procedimentos musicais e um papel fundamental dentro da carreira artística do diretor, que afirma: “Antes de O Inspetor Geral, montei vinte espetáculos que nada mais eram do que experimentos para O Inspetor Geral” (MEIERHOLD, trad. HORMIGÓN, 1998, p.485, tradução nossa).

E retomando o conceito de “realismo musical” para o qual a forma sinfônica opera na construção de O Inspetor Geral, Cavaliere afirma que “o produto é um teatro baseado na realidade, mas convencionalizado na direção da abstração musical” (CAVALIERE, 1996, p.120).

Outra referência de Meierhold ao termo “sinfonia” pode ser encontrada em seus escritos sobre a montagem de Os Banhos, peça de Maiakóvski montada em 1930, quatro anos depois de O Inspetor Geral. Sobre a peça designada pelo autor como “Drama em seis atos com circo e fogos de artifício”, Meierhold que neste caso não faz nenhuma alteração dramatúrgica para o espetáculo, comenta: “Aqui não há nada para corrigir. Os

Banhos não poderia ter quatro ou cinco atos, é precisamente uma sinfonia em seis

partes, na qual não há nada que mudar” (MEIERHOLD, trad. HORMIGÓN, 1998, p.541, tradução nossa). Porém, não encontramos nas fontes pesquisadas outras informações que nos permitam analisar o modo como Meierhold manipula a forma sinfônica na construção da encenação de Os Banhos.