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Le sacré dans Tombeau pour cinq cent mille soldats

6. Le sacré

6.2. Le sacré dans Tombeau pour cinq cent mille soldats

Como vimos, as relações entre os arquivos, bibliotecas e museus são antigas e muito ligadas ao papel desses espaços na salvaguarda da memória por meio da preservação de documentos.

Os contornos e as normas da profissão do arquivista começam a se fixar no século XX, entre uma visão funcionalista (voltada para as demandas administrativas) e uma científica, que valoriza os arquivos históricos (ARLETTAZ, 2003-2004). Mais precisamente durante a Segunda Guerra Mundial, a Arquivologia passa a ser concebida como descritiva, quando entra em crise de identidade com a História, passando a abrigar uma vertente tecnicista ao longo do século.

170 Informações disponíveis em: <http://www.memoria.cnpq.br/areas/cee/proposta.htm>. Acesso em 4

maio/2008.

171 Memória da 2ª reunião da comissão especial de estudos das áreas do conhecimento realizada no Rio de

Nesse processo evolutivo há uma nítida sobreposição da teoria relativamente à prática: os diversos constructo sócio-culturais – Arquivo, Biblioteca e Museu – foram tendo uma correlação com disciplinas científico-técnicas legitimadoras de profissões emergentes e exercidas nesses constructo, ou seja, nesses „lugares de memória‟ institucionalizados. (SILVA, 2002, p. 576).

Nesse sentido, a Arquivologia, a Biblioteconomia e a Museologia “surgiram e têm girado na órbita do desenvolvimento positivista da História, adquirindo, de início, a condição subsidiária de „ciências auxiliares‟”, relacionada ao paradigma “historicista, empírico- tecnicista, documentalista, empírico-patrimonialista, etc.”. Esse paradigma enfatiza a “experiência sensorial (empirismo) dos artefactos e bens culturais (património) que substancializam o Arquivo, a Biblioteca e o Museu” e “que, mais tarde, foi posta em causa e substituída por uma infrene [...] estratégia autonomista” (SILVA, 2002, p. 56-57).

Mais recentes são as relações dessas áreas com a Documentação e a CI, não apenas no âmbito da memória172, mas também, da gênese, organização, comunicação e recuperação da informação, sobretudo sob demandas sociais. Nesse sentido, a proposta da CI, parece abrigar as preocupações das disciplinas aplicadas, como pontua Oliveira (1998) na mesma perspectiva do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (1978b):

A Ciência da Informação é vista como uma grande área onde estão abrigadas subáreas como a biblioteconomia e arquivologia, disciplinas voltadas para a aplicação de técnicas, o que não quer dizer, como afirma o documento, que no âmbito dessas disciplinas não se realizem pesquisas ou se produzam novos conhecimentos. (OLIVEIRA, 1998, p. 25).

Essa perspectiva subjetiva da CI parece ter como eixo o seu estatuto social, cuja singularidade seria a centralidade da informação, realçada pela maioria dos estudiosos da área. Freire lembra que já num documento da FID de 1969, “a dimensão social é apontada como fundamental para a questão informacional” (FREIRE, 2006, p. 11).

No contexto soviético, o que hoje, por aproximação, denominamos “Ciência da Informação”, era chamado de “Informática”, contemplando somente a informação científica, como uma informação lógica obtida durante o processo de conhecimento, no âmbito de uma “atividade multifacetada num contexto social mais significativo” (FOSKETT173 apud FREIRE, 2006, p. 11), ou seja, superando uma concepção puramente tecnológica. É apoiado nessas origens da CI que Freire justificasua perspectiva social atual, diante da enumeração de algumas condições básicas para a sua existência: ambiente social,

172 Embora Oliveira (2010) tenha constatado, em sua pesquisa, que a apropriação do conceito de memória na CI

é pouco expressiva, relacionando-se à informação como componente da memória social, verificada em contribuições pontuais de alguns autores.

173 FOSKETT, D. J. Informática. In: GOMES, H. E. (Org.). Ciência da Informação ou Informática? Rio de

agentes e canais. Na conjugação desses elementos, estaria a dinâmica da recuperação da informação e a responsabilidade social da área, como seu fundamento.

É importante lembrar que, no Brasil, no final dos anos 1960 e início da década de 1970, há uma indefinição teórica da área, que transita entre os conceitos de CI e Informática, nas vertentes russa e francesa. No entanto, com a criação do primeiro mestrado pelo IBBD, passa a predominar o primeiro termo, conforme a abordagem anglo-saxônica, mais relacionada à recuperação da informação (SANTOS JÚNIOR, 2010).

Araújo (2003) lembra a inspiração da CI nas Ciências Exatas, que dá lugar a uma transição dessa disciplina para as Ciências Humanas e Sociais, nos anos 1970, quando o foco é o usuário. Nessa perspectiva, busca-se a superação de modelos metodológicos simplificadores, com a apreensão do pensamento complexo.

Rayward (1996) também reconhece, na trajetória histórica da área, sua abrangência para além dos instrumentos tecnológicos e estuda sua dimensão social, a qual, segundo ele, consolida-se gradualmente:

A raison d’être de uma história da ciência da informação [...] torna-se não somente a

iluminação a partir de um ponto de vista histórico de desenvolvimentos disciplinares importantes, mas a nova luz que ela pode lançar sobre aspectos fundamentais da sociedade humana. (RAYWARD, 1996, p. 15, tradução nossa).

Capurro (2003), por sua vez, apresenta, dentre os paradigmas da CI, o paradigma social como uma “evolução” dos paradigmas físico e cognitivo, ponderando que:

[...] o trabalho informativo é um trabalho de contextualizar ou recontextualizar praticamente o conhecimento. O valor da informação, sua mais-valia com respeito ao mero conhecimento, consiste precisamente da possibilidade prática de aplicar um conhecimento a uma demanda concreta. (CAPURRO, 2003).

No Brasil, a classificação das áreas do conhecimento pelo CNPq, embora seja pautada muito mais em questões políticas e práticas que epistemológicas, aponta para uma vertente social da CI, como o fazem os estudos mais recentes da área.

Quanto à Arquivologia, as suas relações com a CI podem ser verificadas a partir das contribuições dos teóricos das duas disciplinas no que concerne às suas fronteiras (interdisciplinaridade e conceitos afins), objeto (a informação) e funções sociais (geralmente abarcadas pelas preocupações em torno da recuperação da informação).

Pinheiro (1999), ao delimitar o campo interdisciplinar da CI, apresenta um diagrama, no qual a Arquivologia aparece, juntamente da Biblioteconomia, Museologia, Filosofia e Linguística. Ela argumenta que:

Três áreas surgem como mais fortes nas suas relações de interdisciplinaridade com a Ciência da Informação: Biblioteconomia, Arquivologia e Museologia. Excetuando a primeira, com a qual a interdisciplinaridade é reconhecida pela quase totalidade dos estudiosos, as outras duas têm sua presença acentuada provavelmente por um equívoco entre interdisciplinaridade e aplicações. (PINHEIRO, 1999, p. 174-175). Mais tarde, a autora propõe as disciplinas que fariam parte da CI, além das áreas interdisciplinares que lhe são próximas, incluindo a Arquivologia como uma dessas áreas, em duas temáticas: nas necessidades e usos da informação e na representação da informação (PINHEIRO, 2006).

Já os estudiosos portugueses procuram definir a Arquivologia numa abordagem transdisciplinar, na qual aquela faz parte da(s) Ciência(s) da Informação.

Concebida a informação como objecto impreciso, as disciplinas científicas correlativas, de que ressaltam, numa primeira linha, a Biblioteconomia e a Arquivística, são obrigadas a convocar um intercâmbio metodológico com outras ciências sociais, especialmente com a Sociologia e a História. Gera-se, desta forma, uma multi e interdisciplinaridade que se estende e supera num sentido claramente transdisciplinar, confinado ao campo específico da informação social e fundado, sobretudo, na interacção das práticas e das teorias biblioteconômicas e arquivísticas, agregando-se-lhe contributos procedentes da Informática, das disciplinas ligadas à Comunicação Social e às Ciências Sociais. (SILVA et al, 1999, p. 36).

Considerando as necessidades de uso da informação do mundo contemporâneo, numa visão sistêmica e analisando esses autores, Masson propõe:

o deslocamento de um cenário de interdisciplinaridade para outro, mais profundo e radical, de transdisciplinaridade, no qual a Arquivística é convocada para construir uma Ciência da Informação unitária, envolvendo-se e misturando-se e até fundindo- se com a Biblioteconomia, a Documentação e os Sistemas Tecnológicos de Informação, de forma que a Ciência da Informação, sem perder sua interessante vocação interdisciplinar no campo das Ciências Sociais, consiga afirmar-se teórica e, academicamente, como uma ciência com identidade própria, dentro do paradigma das ciências pós-modernas. (MASSON, 2006, p. 88-89)174.

As concepções dos estudiosos portugueses, ratificadas por Masson, parecem confundir o campo da informação com as disciplinas que o constituem, especialmente com a CI. No nosso entendimento, esse campo não se restringe a essas disciplinas (que possuem trajetórias, objetos e métodos particulares em torno da gênese, organização, comunicação e recuperação da informação) e contempla práticas, políticas, discursos e demandas sociais que o definem singularmente, para além dessas áreas.

A fim de ilustrar os vínculos entre essas disciplinas, Gagnon-Arguin (1992) recorre à concepção da UNESCO, quanto às relações entre as Ciências da Informação, a

174 Sílvia Mendes Masson (2006) discorre sobre A Arquivística sob o prisma de uma Ciência da Informação,

Biblioteconomia e a Arquivologia, segundo a qual, os três domínios possuem o mesmo objeto, isto é, a informação registrada num suporte, embora de forma distinta.

Por outro lado, são encontrados na literatura, sobretudo da CI, exemplos de autores que não veem relação sólida entre essa disciplina e a Arquivologia, sobretudo no seu aspecto epistemológico, conforme identificamos na dissertação (MARQUES, 2007). Nesse mapeamento, o estudioso mais radical parece ser Le Coadic, quem afirma que a Arquivologia é uma:

disciplina auxiliar da história, [que] preocupa-se com a preservação dos documentos que resultam da atividade de uma instituição ou de uma pessoa física ou jurídica. Os

arquivos não passam de documentos conservados, enquanto as bibliotecas são

constituídas de documentos por elas reunidos. (LE COADIC, 1996, p. 14, grifos nossos).

Para ele, as "primeiras disciplinas" que se envolveram com o estudo da informação foram a Biblioteconomia, a Museoconomia, a Documentação e o Jornalismo. Dessa forma, o autor exclui categoricamente a Arquivologia do âmbito da Ciência da Informação. Saracevic (1996) ratifica essa exclusão, ao considerar o diálogo dessa disciplina apenas com a Biblioteconomia, Ciência da Computação, Ciência Cognitiva e a Comunicação.

Para Jardim e Fonseca, pesquisadores brasileiros da Arquivologia, a informação registrada constitui-se no ponto comum entre essa área e a CI. No entanto, considerando seus objetos, tipos de informação, categorias de usuários e métodos, eles assinalam uma “débil interação entre ambas as disciplinas” (JARDIM; FONSECA, 1995, p. 47).

No entanto, em outro artigo, esses mesmos autores recorrem a Deschatelet, que reconhece a CI “como uma área em gestação constituída por várias ciências da informação como, por exemplo, a Arquivística, a Biblioteconomia, a Informática, o Jornalismo e a Comunicação, as quais têm como objeto de pesquisa imediato a transferência da informação” (DESCHATELET175 apud JARDIM; FONSECA, 2000, grifos do autor).

Silva (1996), a partir de Saracevic e de Jardim e Fonseca, enumera critérios de comparação entre as duas áreas: definição, princípios, áreas de concentração e de interesse e objeto de estudo. Baseada nesses critérios e em parâmetros de interação e de relação interdisciplinar (modalidade de interação e tipo de relação disciplinar), a autora não constata “evidências fortes de uma relação significativa entre as duas disciplinas, exceto pelo papel social dos arquivos e pela função também social da informação” (SILVA, 1996, p. 8).

175 DESCHATELET, Gilles. L‟Archivistique et la Bibliotheconomie: deux disciplines soeurs dans l‟arbre

genealogique des sciences de l‟information. In: GIRA. La place de l’archivistique dans la gestion de l’informations: perspectives de recherches. Montreal: Ministaire des Affaires Culturelles/Archives Nationales du Québec, 1990.

Embora não exista consenso quanto à interdisciplinaridade entre a Arquivologia e a CI, a recuperação da informação nos parece ser um objetivo em comum para as disciplinas que têm por objeto a informação, que acaba por delinear seus paradigmas no campo da informação.

Diante dos diversos posicionamentos descritos, Belkin (1978) considera a necessidade de um autoconhecimento da CI, na busca de um conceito de informação útil para os seus propósitos, que supere a visão reducionista de adequar essa disciplina aos modelos tradicionais da Ciência. Nesse sentido, propõe alguns atributos, pautados na relevância e na operacionalidade, direta ou indiretamente relacionados à recuperação da informação quanto a três aspectos: metodológicos, comportamentais e conceituais.

Saracevic (1996) reconhece a recuperação da informação como núcleo da CI, ao entender que, para solucionar o problema da explosão informacional, essa área impulsionou o desenvolvimento da disciplina. Com base no conceito de recuperação da informação fundado por Mooers, o estudioso lembra que esta “engloba os aspectos intelectuais da descrição de informações e suas especificidades para a busca, além de quaisquer sistemas, técnicas ou máquinas empregados para o desempenho da operação” (MOOERS176 apud SARACEVIC, 1996, p. 44). Para Saracevic, os problemas da CI estão centrados no humano e não no tecnológico, independente do nome que se dê às suas atividades: “Sob qualquer nome ou patrocínio, as atividades profissionais e científicas desempenhadas pela CI são necessárias” (SARACEVIC, 1996, p. 60).

Essa perspectiva é ratificada pela pesquisa de Corrêa, a qual constata que as relações da CI brasileira com a tecnologia dão-se pelo papel instrumental desempenhado pelo computador, que não lhe atribui usos novos e exclusivos. “Portanto, o computador não pode ser considerado ator construtivo na constituição da CI brasileira enquanto ciência autônoma e nem instrumento de delimitação deste campo diante da Biblioteconomia” (CORRÊA, 2008, p. 235).

No seu papel social de analisar, organizar, recuperar e disponibilizar informações, parece se localizar o campo comum da Arquivologia, Biblioteconomia, Museologia e mais, recentemente, da CI. Essa perspectiva retoma a tradicional proposta de Paul Otlet (documentação universal) e Shera (epistemologia social) e hoje aproxima essas disciplinas nas suas preocupações com a criação de memórias e de recuperação da informação num sentido mais amplo (SILVA et al, 1999).

176 MOOERS, C. N. Zatocoding applied to mechanical organization of knowledge. American Documentation, v.

Se o objeto da CI é “a informação como um fenômeno inscrito na realidade humana e social” (SILVA et al, 1999, p. 31), esse objeto coincide com o da Arquivologia, o qual se refere ao conjunto dos documentos produzidos e acumulados ao longo das atividades organizacionais ou individuais (e/ou de famílias), isto é, das atividades do homem em sociedade. Nesse sentido, os sistemas (semi-) fechados de informação social são objeto de estudo dessa disciplina, que, nessa abordagem é concebida como uma ciência da informação social: “[...] o dispositivo metodológico da Arquivística, em última instância, tem de visar de forma problematizante as leis ou princípios intrínsecos à dinâmica da informação social, estruturada em sistemas (semi-) fechados” (SILVA et al, 1999, p. 211).

Desse modo, os posicionamentos acerca dos diálogos entre as duas disciplinas se assentam no deslocamento da noção estática de “documento”, como conceito operatório e como objeto de estudo, para o enfoque na “informação”, que marca “a entrada dos arquivos e da Arquivologia na chamada era pós-custodial e científica” (MASSON, 2006, p. 99). Essa inserção da Arquivologia na CI (ou no campo da informação, na nossa perspectiva) é decorrente da percepção de que o quadro conceitual daquela, vigente desde a Revolução Francesa (1789), vem apresentando sinais de crise na nova era, denominada “pós-custodial” ou “informacional”. Esses movimentos resultam, sobretudo, da emergência das tecnologias de informação e de comunicação e da consequente geração dos documentos eletrônicos, além das redes internacionais de comunicação. Vale lembrar que essas são preocupações que originaram e fundamentaram a CI na sua perspectiva social.

Os conflitos, ameaças, incertezas, lutas, crises, rupturas, concorrências, controvérsias, negociações e parcerias subjacentes às disciplinas da informação emergem, justamente, da sua disputa por jurisdição, reconhecimento, legitimação, socialização, credibilidade, crédito e autonomia em torno de um mesmo objeto, que, dependendo do contexto, pode ser tratado sob um ou outro enfoque. Como afirma Corrêa,

As argumentações apresentadas pelos profissionais empenhados em fortalecer o campo da CI traduzem, na verdade, o esforço de uma comunidade científica que procura estabelecer um novo paradigma e autonomizar-se, mas que encontra resistências óbvias por parte de outra comunidade de profissionais da mesma área, os quais procuram proteger sua disciplina, mantendo assim seu status dentro da comunidade científica como um todo. (CORRÊA, 2008, p. 50).

Retomando nossos referenciais teóricos, esses movimentos relacionam-se à dinâmica da comunidade que contorna a disciplina.

Podemos compreender a ascensão ou o declínio de uma disciplina levando em conta sua história intelectual e sua história social, a partir das características sociais do

líder e do seu meio inicial até as propriedades coletivas do grupo, como sua atração social e sua capacidade de ter seguidores. (BOURDIEU, 2001, p. 136, tradução nossa).

Portanto, a lógica das lutas científicas não pode ser compreendida ignorando a dualidade dos princípios de dominação, como os recursos propriamente científicos e os recursos financeiros (BOURDIEU, 2001). Exemplo das convergências e divergências entre as disciplina da informação são, como vimos, as diferentes classificações das áreas do conhecimento pelo CNPq, bases para o fomento à pesquisa no Brasil.

A regulamentação das profissões de bibliotecário, arquivista e museólogo e o seu reconhecimento no âmbito dos cursos superiores ratificam essa disputa, que mesmo não sendo apresentada de forma explícita na literatura analisada, perpassa as trajetórias e a configuração dessas disciplinas no campo da informação. Mais uma vez, como ressalta Bourdieu,

A institucionalização progressiva na universidade desses universos relativamente autônomos é o produto de lutas pela independência, visando a impor a existência de novas entidades e fronteiras destinadas a lhes delimitar e proteger (as lutas de fronteira são, frequentemente, pelo jogo de monopólio de um nome, com todo tipo de consequência, de linhas de investimento, de postos, de créditos etc.). (BOURDIEU, 2001, p. 100, tradução nossa).

É assim que acreditamos que as relações de parceria, cooperação e conflito vivenciadas por essas áreas decorrem do compartilhamento de um objeto comum – a informação –, perpassado por paradigmas comuns, diferenciados ao longo do tempo (conforme quadro 17) e que acabam por se desdobrar em relações (muitas vezes explicitadas em discursos) de hierarquização ou submissão, denunciadoras da sua luta por sobrevivência num campo tão competitivo.

Quadro 17: Paradigmas da Arquivologia, Museologia, Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação no campo da informação

Disciplina Paradigmas

Arquivologia

Foco inicial na organização e preservação física de documentos, tendo em vista a manutenção da memória;

preocupação com o arquivo como instituição de guarda de documentos;

preocupação com o aperfeiçoamento e compartilhamento de técnicas voltadas para a organização e disponibilização de documentos;

preocupações recentes com seu desenvolvimento como disciplina científica e seus desdobramentos: formação profissional, produção de pesquisas, criação de cursos de graduação e pós-graduação, etc.

Museologia

Foco inicial no museu, como lugar de contemplação, estudo e pesquisa; foco nas coleções, como agrupamentos de relíquias ou peças exóticas; foco no museu como lugar de culto à memória;

preocupações mais recentes relativas à multiplicidade dos tipos de museus derivados da diversidade étnica, cultural e social;

Disciplina Paradigmas

Biblioteconomia

Foco inicial na biblioteca como espaço de estudo, contemplação e preservação da memória; preocupação em propiciar acesso aos documentos bibliográficos;

proliferação de cursos para a formação de profissionais habilitados na organização e recuperação de documentos;

desenvolvimento de pesquisas. Documentação

Preocupações com o controle e classificação universal do conhecimento registrado;

criação de instituições que propiciassem a transferência de informações entre cientistas e pesquisadores;

compartilhamento de interesses e propostas com a CI.

Ciência da Informação

Volta-se para os processos que abarcam os movimentos da informação em um sistema de comunicação humana, abrigando os interesses da Documentação e indo ao encontro daqueles das demais disciplinas do campo da informação;

preocupações com a recuperação da informação conforme as demandas dos usuários;

busca da compreensão da informação em si mesma, inicialmente numa aproximação matemática e, mais recentemente, de acordo com o contexto social;

produção de pesquisas, contemplando, inclusive, temáticas de outras disciplinas que lhe são próximas.

Fonte: elaboração própria.

Podemos observar, nesse quadro, que os paradigmas comuns dessas disciplinas voltavam-se para a preservação da memória, centrados no papel desempenhado por instituições legimadas para tal: os arquivos, as bibliotecas e os museus. Ainda centrados nas práticas, esses paradigmas convergiram para a gestão de documentos, ou seja, o papel dessas instituições quanto à sua organização e disponibilização. E é somente a partir do século XIX que se constata um movimento mais sistematizado em torno da organização de disciplinas para formar profissionais que atendam às crescentes demandas de informações sociais, interligando, então, o mundo do trabalho e o acadêmico. Esses movimentos parecem alinhar- se àqueles da Arquivologia, apresentados no quadro 13.

Evidentemente, essas adesões geram encontros e desencontros de interesses no âmbito do sistema de profissões, como nos lembra Abbot (1988), e da própria ciência, como pontua Bordieu.

Essa estrutura é, grosso modo, determinada pela distribuição do capital científico num dado momento. Em outras palavras, os agentes (indivíduos ou instituições) caracterizados pelo volume de seu capital determinam a estrutura do campo em proporção ao seu peso, que depende do peso de todos os outros agentes, isto é, de todo o espaço. Mas, contrariamente, cada agente age sob a pressão da estrutura do espaço que se impõe a ele tanto mais brutalmente quanto seu peso relativo seja mais frágil. (BOURDIEU, 2004, p. 24).

A partir dos objetivos gerais de recuperação e disponibilização de informações,