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4. Analyse de Tombeau pour cinq cent mille soldats

4.5. Une histoire éclatée

A origem das bibliotecas, semelhantemente àquela dos arquivos, associa-se à produção e registro do conhecimento desde a Antiguidade, quando cabia a esses e a outros espaços (principalmente arquivos e museus), o papel de preservação (ARAÚJO; OLIVEIRA, 2005). Desse tempo são conhecidas as grandes bibliotecas, como a de Nipur (Babilônia), Assurbanipal (Assíria) e a de Alexandria (Egito). As tabuinhas de argila em escrita cuneiforme eram, assim, materiais abrigados tanto em bibliotecas como em arquivo133.

Silva et al (1999) detectam que, na passagem da Antiguidade para a Idade Média, o conceito de arquivo cristaliza-se, mas, também, se vulgariza devido à confusão entre essa instituição e a biblioteca. É de responsabilidade das igrejas e mosteiros a guarda dos acervos dessas instituições (ARAÚJO; OLIVEIRA, 2005).

129 UNIRIO (1932), Universidade Federal da Bahia – UFBA (1970), Centro Universitário Barriga Verde –

UNIBAVE (2004), Universidade Federal do Recôncavo Baiano – UFRB (2006), Universidade Federal de Pelotas – UFPEL (2006), Universidade Federal de Sergipe – UFS (2007), Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP (2007), Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRS (2008), Universidade Federal de Pernambuco – UFPE (2009), UnB (2009), Universidade Federal do Pará – UFPA (2010), Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (2010) e Universidade Federal de Goiás – UFG (2010).

130 Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

131 Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Universidade Federal do

Rio Grande do Norte (UFRN) e Universidade de São Paulo (USP).

132 Informações disponíveis em: <http://www.museus.gov.br/>. Acesso em 03 nov. 2010.

Ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII, verifica-se um interesse em colecionar peças originais e cópias de documentos. É quando muitos oficiais se dedicam à constituição das coleções reais, mantidas em bibliotecas e arquivos (FAVIER, 2001).

A Bibliotenomia, por sua vez, advem da Bibliografia, como um conjunto de processos voltados para a produção de livros, sua história, descrição e utilização. Esta foi institucionalizada na França (1792) e a primeira escola para a formação de bibliotecários é criada em 1886, nos Estados Unidos, onde havia uma abundância de livros e bibliotecas. Alguns anos mais tarde, a British Library Association seria criada, em 1893, quando a França começa a formar bibliotecários (UNESCO, 1951).

No Brasil, as primeiras bibliotecas são criadas a partir de ordens religiosas. Com a Companhia de Jesus (1549), voltada para a catequização de índios e colonos, são implantadas escolas e bibliotecas, que se difundem em todo o País, a exemplo das bibliotecas franciscanas, beneditinas e carmelitas (ARAÚJO; OLIVEIRA, 2005).

Com a vinda da Corte Portuguesa, são trazidos para o Brasil arquivos das repartições públicas e da Coroa, além da Biblioteca Real da Ajuda, que passa a receber doações, além do depósito legal de tudo o que era publicado no território nacional.

O acervo trazido para o Brasil, de sessenta mil peças, entre livros, manuscritos, mapas, estampas, moedas e medalhas, foi inicialmente acomodado numa das salas do Hospital do Convento da Ordem Terceira do Carmo, na Rua Direita, hoje Rua Primeiro de Março. A 29 de outubro de 1810, decreto do Príncipe Regente determina que no lugar que serviu de catacumba aos religiosos do Carmo se erija e acomode a Real Biblioteca e instrumentos de física e matemática, fazendo-se à custa da Fazenda Real toda a despesa conducente ao arranjo e manutenção do referido estabelecimento. A data de 29 de outubro de 1810 é considerada oficialmente como a da fundação da Real Biblioteca que, no entanto, só foi franqueada ao público em 1814. Quando, em 1821, a Família Real regressou a Portugal, D. João VI levou de volta grande parte dos manuscritos do acervo. Depois da proclamação da independência, a aquisição da Biblioteca Real pelo Brasil foi regulada mediante a Convenção Adicional ao Tratado de Paz e Amizade celebrado entre o Brasil e Portugal, em 29 de agosto de 1825134.

Até a República, a divulgação da cultura não se restringia às bibliotecas e conventos: vários institutos de estudos superiores criados pelo governo deveriam, segundo seus estatutos, criar bibliotecas para esse fim. Essas instituições então se multiplicam com o desenvolvimento do sistema educacional, a criação de agências de fomento e de cursos nas universidades.

Ao prefaciar a obra de Castro (2000), Antônio Miranda enumera alguns elementos mínimos para a consolidação de uma profissão, no caso a de bibliotecário:

 um espaço na sociedade para desenvolver as suas atividades e exercer a sua função social;

 um programa de pesquisa para ampliar os horizontes teóricos e técnicos que garantam o aperfeiçoamento profissional contínuo;

 uma literatura própria, orientadora de sua base teórica e prática;

 um sistema de ensino capaz de transmitir os conhecimentos necessários ao exercício profissional, em diferentes níveis de capacitação;

 uma legislação que garanta os direitos dos usuários e preserve as conquistas profissionais da área.

Ao considerando esses aspectos, Castro analisa a trajetória da Biblioteconomia no Brasil, destacando, nos anos 1950 e 60, os movimentos fundadores do ensino da área. Nesse sentido, retoma o histórico desse ensino, marcado, segundo ele, por três períodos: 1) liderança da Biblioteca Nacional (BN), de influência francesa (1879-1879)135; 2) transferência da influência francesa (humanista) para a americana (pragmática), iniciada em São Paulo (1929- 1962); 3) e uniformidade dos conteúdos pedagógicos com a instalação do currículo mínimo (1962-1969) (FONSECA136 apud CASTRO, 2000, p. 22). Da década de 1970 para cá, o estudioso constata a “busca da maturidade teórica da área a partir de novas abordagens tomadas de empréstimo de outros campos de saber” (CASTRO, 2000, p. 29).

A demarcação desses períodos varia de autor para autor, mas o que se percebe nas obras analisadas por Castro é, em síntese, uma passagem da influência europeia (conservadora, enciclopedista e humanista francesa, cujo ícone é a École des Chartes) para a americana (essencialmente técnica, representada pela Columbia University)137, a partir da qual se configura a Biblioteconomia brasileira. Tradicionalmente, a primeira corrente é assumida pela BN – isso acontece quando os bibliotecários franceses já começavam a se interessar pela proposta americana – e a segunda, pelo Instituto Mackenzie de São Paulo, criado em 1929 (cujas preocupações voltam-se para as bibliotecas escolares) e pelo curso da Biblioteca Municipal de São Paulo (1937). Desse modo, “Uns defendiam a biblioteca guardiã, e outros, a

135 Exemplo dessa influência é o relatório “Bibliotecas Públicas na Europa”, fruto da viagem (1875) de Benjamin

Franklin Ramiz Galvão – diretor da BN por doze anos (1870 a 1872) –, no qual descreve a organização dessas bibliotecas e como o deveria ser no Brasil (CASTRO, 2000, p. 48).

136 FONSECA, Edson Nery da. Reformulação do Currículo de Biblioteconomia no Brasil. Brasília: Faculdade de

Biblioteconomia e Documentação da UnB. [196?]. mimeo

137 A comunicação e disseminação do pensamento norteamericano dão-se por algumas obras que chegam ao

Brasil ou mesmo por brasileiros que sintetizam esse pensamento, como modelo a ser seguido pelos bibliotecários do País. Exemplos dessas obras são: Las bibliotecas en los Estados Unidos, de Ernesto Nelson(1927); A lição

das bibliotecas americanas, de Rubens Borba de Moraes (1942); Documentation, de Bradford (1953) e

de livre acesso e democrática” (CASTRO, 2000, p. 200). De toda forma, o autor pontua que as pretensões eram restritas e não tinham como prioridade o estabelecimento de uma base teórica, nem o atendimento de necessidades sociais mais amplas.

Posteriormente, em 1944, a BN substitui a vertente humanista pela preparação técnica, o que reflete o novo movimento dos bibliotecários (MONTELLO138 apud CASTRO, 2000). Esse movimento é acentuado pelas contribuições trazidas por brasileiros que fizeram cursos de especialização nos Estados Unidos. É nesse sentido que “o ensino centraliza-se em discursos ideais, geralmente tomando como parâmetro a literatura e as experiências norte- americanas” (CASTRO, 2000, p. 128), as quais, vale ressaltar, são as bases teóricas dos profissionais da área no Brasil, que os sustentariam juntamente da literatura inglesa, mesmo que não uniformemente.

Ainda é importante salientar que o Curso de Biblioteconomia da Biblioteca Nacional (1911) é o segundo da América Latina – depois do curso de Buenos Aires, de 1903 – e o primeiro de 34 cursos de graduação que se espalhariam pelo País (OLIVEIRA, 2005)139. Ele veio para “sanar as dificuldades existentes na biblioteca, há gerações, quanto à qualificação de pessoal” (CASTRO, 2000, p. 53). Embora seja interrompido em 1922, volta a funcionar em 1931 e conquista estatuto universitário na década de 1960, quando a profissão de bibliotecário é reconhecida como de nível superior140.

138 MONTELLO, Josué. Explicação. In: DIAS, Antonio Caetano. Formação profissional: análise da conjuntura.

Guanabara: ABB, 1967.

139 Segundo a autora, esses cursos estão distribuídos nas seguintes instituições: Universidade Federal de Alagoas

(UFAL), UFAM, UFBA, Universidade Federal do Ceará (UFC), UnB, UFES, UFG, Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Faculdades Integradas Cândido Rondon (UNIRONDON), Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Instituto de Ensino Superior da Funlec (IESF), Fundação Educacional Comunitária Formiguense (FUOM), UFMG, Universidade Presidente Antônio Carlos (UNIPAC), Universidade Vale do Rio Verde de Três Corações (UNINCOR), UFPA, UFPB, Universidade Estadual de Londerina (UEL), UFPE, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Fundação Universidade do Rio Grande do Sul (FURG), UFRS, Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUI), Universidade Federal Fluminense (UFF), UNIRIO, Universidade Santa Úrsula (USU), Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), UFSC, Faculdades Integradas Coração de Jesus (FAINC), Faculdades Integradas Teresa D‟Ávilla (FATEA/Lorena), Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP), Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e USP. Além desses cursos específicos, ainda existem outros de denominações semelhantes, como o de Gestão da Informação, da UFPR e do Centro de Educação Superior (UNICA/Florianópolis); de Administração da Informação, das Faculdades Tereza Martin (FATEMA/São Paulo); Ciência da Informação, com habilitação em Biblioteconomia, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC/Campinas) e da USP (Campus Ribeirão Preto).

140Resolução de 16 de novembro 1962, do CFE, fixa o currículo mínimo e determina a duração dos cursos de

A trajetória das bibliotecas e da Biblioteconomia no Brasil, com destaque para a profissão de bibliotecário, é descrita por Caberlon (apud CASTRO, 2000)141, que resume os seus marcos:

 1550: implantação das bibliotecas por meio dos colégios jesuítas;  1810: criação da Biblioteca Nacional na cidade do Rio de Janeiro;

 1900-1930: concentração das bibliotecas brasileiras no Distrito Federal e em outros Estados (RS, SP, MG, BA, PE);

 1938: criação da Associação Paulista de Bibliotecários (APB), primeira associação profissional da área no Brasil;

 1940: o Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) cria dois níveis de carreira na Biblioteconomia: o de Bibliotecário auxiliar e o de Bibliotecário;

 1948: filiação da APB à FID e à Association of Special Librarie and Information Bureaux (ASLIB);

 1958: definição da Biblioteconomia como profissão liberal de nível superior (Portaria n. 162/58);

 1961: criação da Federação de Associações de Bibliotecários (FEBAB);

 1962: regulação da profissão de bibliotecário e seu exercício (Lei 4.084/62)142, além da instituição do Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB);

 1965: regulamentação da Lei 4.084/62 pelo Decreto n. 56.725/65, que ratifica a profissão de bibliotecário como liberal, de nível superior;

 1986: aprovação do Código de Ética (Resolução 327/86 do CFB).

Nessa trajetória, é importante realçar o papel do DASP, que no final dos anos 1930 participa da cooperação e intercâmbio bibliográfico por meio da sua biblioteca. Nessa instituição destaca-se a atuação de Lydia de Queiroz Sambaquy, que, como diretora dessa biblioteca, foi porta-voz do desenvolvimento que se projetava (CORRÊA, 2008). Como veremos no próximo capítulo, o DASP, além de oferecer cursos na área de arquivos, promovia concurso para bolsas de estudos para várias áreas da Administração143.

141 CABERLON, Vera Isabel. O processo de produção de racionalidades e suas mediações: o curso de

Biblioteconomia da URG em questão. Dissertação (Mestrado em Educação). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1995, 215 p.

142 Essa lei passa a ser objeto de estudos para sua reformulação no final dos anos 1970, quando arquivistas e

bibliotecários reunem-se para estudar projeto de lei para a regulamentação das suas profissões e daquelas de técnico de arquivo e de biblioteca (ASSOCIAÇÃO DOS ARQUIVISTAS BRASILEIROS, 1977c).

143 Nilza Teixeira, bibliotecária que contribuiu de forma relevante para a criação e manutenção do Núcleo da

AAB de Brasília, afirma ter sido selecionada para um curso nos Estados Unidos, quando eram oferecidos cursos na American University, sobre arquivos correntes e permanentes, além de estágios na Biblioteca do Congresso e no Arquivo Nacional (ASSOCIAÇÃO DOS ARQUIVISTAS BRASILEIROS, 1993).

Essas iniciativas convergem para a disposição dos bibliotecários em defender seu espaço no mercado profissional, até mais perceptível que nos outros profissionais da informação: “Enquanto a CI brasileira trabalha para definir sua teoria e sua prática, a Biblioteconomia utiliza as armas que possui para garantir seu lugar de honra na hierarquia das ciências que lidam com a informação” (CORRÊA, 2008).

Nessa perspectiva, o objetivo maior é de “resguardar o campo de possíveis intrusos”144 (CASTRO, 2000, p. 268) e como ressalta o mesmo autor, todas essas conquistas profissionais são frutos das “lutas para legitimar o campo, dando-lhe respaldo legal, maneiras pelas quais os bibliotecários garantiriam o seu espaço profissional” (CASTRO, 2000, p. 42). Ele ainda reflete sobre as dificuldades teóricas da área, lembrando “O motivo da desproporção entre o saber e o fazer biblioteconômico, [que] estaria no modo como a profissão é concebida: uma atividade de apoio, uma técnica e não um campo de saber” (CASTRO, 2000, p. 119), como também acontece com a Arquivologia.

Outro aspecto considerado por Castro e que muito nos interessa são as contribuições de estudiosos estrangeiros. Nessa trajetória, ele lembra as visitas de:

 Henry Koster, português que vem ao Brasil no início do século XIX e constata o contrabando de livros nos portos brasileiros;

 Dorothy Murriel Gropp, norteamericana que vem no final dos anos 1930 e início da década de 1940 para reorganizar acervos, introduzir processos novos nos catálogos e na localização de livros nas estantes, além de ministrar um Curso Elementar de Biblioteconomia para funcionários da biblioteca, professores e bibliotecários de instituições públicas145;

 Herbert Coblans, bibliotecário sul-africano que visita o Brasil em 1954, em missão da UNESCO, participando dos estudos de criação do Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD) (COBLANS, 1990) e escreve o livro Introdução ao Estudo da Documentação e o primeiro artigo sobre documentação publicado em revista científica brasileira – Técnica de documentação na organização da literatura brasileira. Além disso, o engenheiro profere dez conferências na BN, que constituem o primeiro curso sobre Documentação promovido no País;

144 Castro (2000) lembra a atuação de físicos, químicos e engenheiros que criam estratégias de organização e

recuperação de informações nos seus acervos, diante do seu descontentamento com o trabalho dos bibliotecários.

145 O Decreto-lei n. 6.440, de 27 de abril de 1944 aponta a necessidade de “difundir conhecimentos dos

progressos realizados no país e no estrangeiro, no campo da Biblioteconomia” (NEVES apud CASTRO, 2000, p. 86).

 Zeferino Paulo, documentalista português, que facilita a entrada do Brasil na FID e a sua participação na Comissão Internacional da CDU, bem como as edições brasileiras desse sistema. Profere palestras e ainda ministra cursos em várias cidades brasileiras;  Jesse Shera, que também vem ao Brasil (1957), como professor convidado, trazendo

as ideias da Documentação e, inclusive, ministrando aulas para a primeira turma do mestrado do IBBD;

 Hipólito Escobar, também em missão da UNESCO, vem ao Brasil em 1968 e detecta alguns atrasos na Biblioteconomia brasileira.

Além desses, o autor menciona a vinda de outros professores ingleses e norteamericanos que ministram cursos e orientam os primeiros mestres em Biblioteconomia/Ciência da Informação no Brasil (CASTRO 2000; FONSECA, 1988).

Em sua análise, Castro (2000) destaca a presença da Documentação nos estudos da Biblioteconomia no Brasil: inicialmente trazida por Coblans, Zeferino Paulo e Shera, a Documentação é difundida no Brasil nos anos 1950, passando inclusive a compor os títulos de alguns cursos, juntamente da Biblioteconomia. Suas obras são leitura obrigatória e a Documentação chega a aparecer no currículo do curso da BN na década de 1960.

Essa primeira repercussão da Documentação junto à Biblioteconomia brasileira causa impactos e repulsa em alguns bibliotecários, inseguros com a incorporação de novos saberes. Além disso, verifica-se uma falta de integração entre esses profissionais e pouca divulgação da própria área. O campo não se definia, o que se estendia para os seus profissionais e se agravava pela falta de clareza quanto às disciplinas que deveriam compor os currículos escolares.

Além da lacuna teórica (muito relacionada ao viés técnico predominante na área), na Biblioteconomia ainda existiriam questões polêmicas quanto à sua identidade, sobretudo aquelas relacionadas à Documentação: enquanto alguns não reconheciam esse campo, que não teria em nada inovado quando comparado à Biblioteconomia, outros não enxergavam diferenças entre as duas áreas e outros, ainda, os consideravam completamente distintos. Assim as interpretações se dividiam, sobretudo, segundo as duas últimas ideias.

Todavia, a Biblioteconomia não deixa de traçar a sua história no País: amplia suas escolas e associações de classe146, promove eventos científicos e se consolida como profissão de nível superior.

146 Quanto às associações de bibliotecários, identificamos dezessete, espalhadas pelo Brasil. Informações

Isso se dá até mais aceleradamente que no caso da Arquivologia no Brasil. Podemos perceber os avanços da Biblioteconomia numa Portaria do CFE (n. 326 de 21 de novembro de 1962) que aponta a “necessidade de os bibliotecários atuarem em arquivos por não haver cursos de Arquivologia na mesma proporção que Biblioteconomia” (CASTRO, 2000, p. 232). De fato, como veremos detalhadamente no próximo capítulo, nessa década existia apenas um curso de Arquivologia no Brasil, que funcionava no AN. Nesse sentido, Souza lembra que “A ausência de uma formação formal e da regulamentação das funções do arquivista permitiu a inserção de outros profissionais no exercício laboral” (2010a, p. 85, tradução nossa).

É também nessa década que os bibliotecários propõem a inclusão da Arquivologia nos cursos de Biblioteconomia. Mas há que se destacar que essa proposta se insere numa perspectiva ainda próxima da Paleografia, embora no currículo mínimo da área, aprovado em 1962, a Arquivologia apareça vinculada à organização e administração de bibliotecas e organismos de documentação (CASTRO, 2000), ou seja, numa vertente mais voltada para a gestão.

Gomes observa mais a cisão que a união entre os profissionais dessas áreas, na sua formação, nas suas associações e instituições. No entanto, afirma que “A inclusão de uma disciplina sobre Arquivo em alguns currículos de Biblioteconomia demonstra, ainda que de maneira tênue, o interesse por uma integração” (GOMES, 1973, p. 21).

Os cursos de pós-graduação (mestrados em Biblioteconomia, que mais tarde seriam os mestrados em Ciência da Informação), somente apareceriam na década de 1970, com a implantação do primeiro deles no IBBD em convênio com a UFRJ. Esse curso, segundo Barreto, refletia as preocupações européias e americanas quanto à formação de pessoal para organizar as informações científicas e tecnológicas. “Foi o início da conscientização, no Brasil, para a necessidade de organizar e controlar a informação como uma ferramenta para o próprio desenvolvimento da ciência e tecnologia” (BARRETO, 1995, p. 8).

Para Corrêa, o curso tinha o propósito de disseminar as novas ideias e práticas encontradas por bibliotecárias brasileiras que estiveram no exterior, ou seja, “criar uma nova formação e uma nova mentalidade” (CORRÊA, 2008, p. 97). O curso foi, inclusive, oferecido em inglês, já que ministrado por professores estrangeiros, como Tefko Saracevic, Jesse Shera e Jack Mills, que chegaram a orientar pesquisas. Sua importância é reconhecida com o convênio firmado entre o IBBD (hoje IBICT) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o que oficializou o estabelecimento da CI no Brasil. Esse Instituto passa, então, a promover Cursos de Documentação Científica para suprir as demandas por documentalistas

no Brasil. Considerando a importância do IBBD para a formação e configuração da área no País, retomaremos a sua trajetória na próxima seção.

Percebemos, portanto, o compartilhamento de espaços entre as bibliotecas e arquivos, desde a Antiguidade, com o desempenho de papéis comuns pelos seus profissionais. Contemporaneamente, essa relação se desenrola em torno da luta por jurisdição entre esses profissionais e as próprias disciplinas no campo da informação.