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5. Le corps

5.1. Le corps de l’auteur

O aparecimento da Documentação é bem anterior ao século XX. Segundo Shera e Egan (1961), as raízes dessa área estão na Biblioteconomia do século XV, quando foram detectadas preocupações com a constituição de bibliografias universais. A partir desse período proliferam bibliografias, tornando a Biblioteconomia sinônimo delas. A sua diferenciação somente dar-se-ia no século XVIII, com a Revolução Industrial: com o deslocamento dos trabalhadores para as cidades, a necessidade de sua capacitação e o papel das bibliotecas em relação à leitura pública e à educação de adultos nesse processo (CASTRO, 2000).

Ao considerar as outras disciplinas que trabalham com documentos e informação no cenário seguinte, Ortega nos lembra que o desenvolvimento “em grande parte inseparável” da Biblioteconomia e da Documentação. A autora aponta seus conflitos, afirmando que:

Havia, no entanto, uma tentativa dos documentalistas em evitar os instrumentos e até mesmo os termos adotados pela Biblioteconomia, o que levou, muitas vezes, a que aqueles seguissem os caminhos já trilhados e até descartados por esta. A diferença da Documentação era que pretendia fazer uma análise de conteúdo mais profunda. Da mesma forma, os arquivos apresentavam problemas semelhantes de organização. A Biblioteconomia, a Documentação e a custódia dos arquivos [...] eram tratadas de forma única: no entanto, interesses particulares começaram a dividir estas atividades em grupos separados, os quais passaram a adotar atitudes de intolerância entre si. (ORTEGA, 2004).

De fato, até fins do século XIX, a Arquivologia e a Biblioteconomia eram áreas complementares, embora sempre específicas. Exemplo disso são os arquivos impressos que, no século XVIII, ultrapassam os espaços dos arquivos para serem conservados nas bibliotecas (FAVIER, 2001). Entretanto, em 1892 surge, formalmente, uma nova disciplina, com preocupações acadêmicas e científicas: a Documentação, que, apesar de interdisciplinar, era diferente da Biblioteconomia.

Os juristas belgas Paul Otlet e Henri La Fontaine são os responsáveis pelas iniciativas de estruturação e conceitualização da nova área. Fundam o Escritório Internacional de Bibliografia (Bruxelas), onde começam a organizar um catálogo mundial em fichas (FONSECA, 1988) e o Institut International de Bibliographie (IIB), em 1895, com o objetivo de “[...] estudar as questões concernentes ao livro e à organização sistemática da documentação em bases internacionais e universais” (MATTELART, 2002, p. 233).

Em 1931, o IIB transforma-se no Instituto Internacional de Documentação e, posteriormente, em 1938, na Fédération Internationale d'Information et de Documentation (FID), tornando-se determinante no desenvolvimento de técnicas de tratamento e análise do conteúdo dos documentos. Nesse cenário, a “documentação”, num sentido amplo, passa a se relacionar à “reunião ou coleção de documentos de qualquer natureza, devidamente conservados e organizados para fins de consulta, estudo ou prova”. Mais especificamente, consiste nas “operações de análise do conteúdo dos documentos escritos ou textuais – livros, artigos, relatórios, teses, etc. – com o objetivo de preparar resumos e índices temáticos” (FONSECA, 1988, p. 87). É assim que os estudiosos portugueses reconhecem a especificidade da área, centrada na organização e tratamento de documentos voltados para a investigação científica e tecnológica (SILVA et al, 1999).

Há que se destacar que não somente os documentalistas se ocupavam dessas tarefas. A falta de padronização terminológica da área acabava abrigando profissionais diversos que trabalhavam com documentos:

Arquivista, arquivologista, bibliotecário, biblioteconômo, bibliógrafo, documentarista, documentalista, criptólo, documentador, técnico em documentação, especialista em documentação, coordenador de informação, especialista da informação, bibliotecário pesquisador, bibliotecário especial, bibliotecário técnico, analista da literatura, cientista da literatura, encarregado de comunicação científica. (SILVA147 apud CASTRO, 2000, p. 145, grifos nossos).

No contexto de crescimento e disseminação de informações da Revolução Industrial (fim do século XIX), os juristas belgas também desenvolveram a CDU a partir da CDD. Todavia, o sonho do catálogo universal que Otlet e La Fontaine sustentavam é interrompido pela Primeira Guerra Mundial e a FID assume a coordenação das atividades internacionais de documentação, com a ajuda de outros institutos nacionais (FONSECA, 1988).

147 SILVA, Benedicto. Problemas de documentação moderna. IBBD: Boletim Informativo, Rio de Janeiro, v. 2,

Em 1934, Paul Otlet publica o Traité de Documentation, apresentando noções gerais sobre o livro e a documentação148 e os desafios da sua organização:

Para disponibilizar a quantidade de informações e artigos doados a cada dia nos jornais, nas revistas, para manter brochuras, relatórios, folhetos, documentos oficiais, para recuperar o material solto nos livros, para fazer homogênea uma massa incoerente, são necessários novos processos, muito diferentes daqueles da antiga biblioteca, tais como são aplicados. (OTLET, 1934, p. 6, tradução nossa).

Sua proposta objetiva, assim, oferecer a maior quantidade possível de conhecimento e informação registrada, atendendo aos requisitos de universalidade, segurança, confiabilidade, completude, rapidez, atualização, facilidade de obtenção, prontidão para comunicação e disponibilidade.

Como métodos próprios da Documentação, o jurista propõe: a coleção sistemática dos documentos; a sua classificação; a preparação de fichas e o seu arquivamento; o sistemático arquivamento de dossiês formando conjuntos organizados; a utilização de fichas catalográficas que referenciem os documentos nas diversas séries fundamentais, segundo a sua classificação; e a utilização de processos químicos para reproduzir documentos.

Todavia, mesmo reconhecendo as peculiaridades da Arquivologia (numa acepção ligada à História), não distingue o tratamento dispensado aos documentos de arquivo (antigos) daqueles de biblioteca (OTLET, 1934, p. 348).

Dentre as orientações da sua proposta de organização universal estão contempladas as responsabilidades das instituições nacionais (públicas e privadas) e internacionais (associações, representantes oficiais dos governos) quanto à organização dos documentos.

No Brasil, a Documentação institucionaliza-se com o Serviço de Bibliografia e Documentação, criado pelo jurista e diretor da BN (1900-1921), Manuel Cícero Peregrino da Silva, em consonância com o IIB. Embora seus propósitos fossem grandiosos, de forma a contemplar praticamente todas as peças dos centros de documentação da época, seus sucessores não dão continuidade ao Serviço e demora a existir uma instituição que retome as suas ideias. Verificam-se iniciativas isoladas, voltadas para a análise de publicações periódicas com o fim de extrair informações divulgadas em resumos e índices (FONSECA, 1988).

148 Otlet (1934) considerava que a Documentação se constituía de sete partes complementares: os documentos

particulares, a biblioteca, a bibliografia, os arquivos documentais (dossiês e materiais da documentação), os arquivos administrativos (todas as cartas, relatórios, estatísticas, etc. de uma instituição), os arquivos antigos (os títulos jurídicos das instituições públicas e os papéis privados das famílias e estabelecimentos comerciais), outros documentos bibliográficos e gráficos, as coleções museográficas e a enciclopédia.

A criação do IBBD nos anos 1950 alinha-se à proposta da UNESCO quanto à criação de centros de bibliografia e documentação nos países-membros e acaba retomando a ideia de Manuel Cícero, além de estimular essas iniciativas individuais. Enquanto bibliotecárias brasileiras visitavam os principais serviços de bibliografia e documentação da Europa e Estados Unidos, vinha ao Brasil, enviado pela UNESCO, Herbert Coblans.

A partir dos cursos de aperfeiçoamento que traziam ao Brasil estudiosos estrangeiros, o Instituto ganha repercussão nacional e internacional, chegando a dar alguns frutos, como a publicação de artigos sobre Documentação, a realização de eventos e disseminação dos cursos especializados. A relevância do IBBD para a área é constatada por Carneiro:

O papel que desempenhou o IBBD no quadro do nosso desenvolvimento foi altamente benéfico. Devemos-lhe tanto a remodelação dos nossos métodos de documentação e bibliografia, como a formação de pessoal qualificado para os serviços das nossas bibliotecas e dos nossos arquivos. (CARNEIRO, 1977, p. 4). O seu sucessor, o IBICT, herda não somente o seu acervo, como também a responsabilidade de “promover convênios e acordos com entidades que utilizam esse tipo de informações, e garantir um efetivo processo de transferência de conhecimento, em escala nacional e internacional” (CARNEIRO, 1977, p. 4). O próprio Instituto reconhece esse seu papel, ao divulgar em seu sítio eletrônico as seguintes informações:

A transformação do IBBD em Ibict, em 1976, teve como objetivo preencher uma lacuna do Sistema Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico quanto à necessidade de fornecimento de informações em ciência e tecnologia. A ênfase era desenvolver uma rede de informação no País, envolvendo entidades atuantes em C&T, adotando-se para tanto um modelo de sistema de informação descentralizado.149

Com um olhar direcionado para o conceito de “informação científica”, o IBBD abre as portas para a Ciência da Informação no Brasil, a partir do seu mestrado na área (em convênio com a UFRJ), a partir da década de 1970 (CORRÊA, 2008). A partir desse curso, são criados mais onze cursos de pós-graduação stricto sensu150, antes mesmo dos cursos de graduação na área, que são bem mais recentes.

149 Informações disponíveis em: <http://www.ibict.br/secao.php?cat=O%20IBICT>. Acesso em 02 nov. 2009. 150 Esse número representa os cursos de pós-graduação atualmente reconhecidos pela CAPES: UFBA, UFPB,

UFPE, UFF, UFSC, USP, UNESP/Marília, UFRJ, UnB, UFMG e UEL. Atualmente existem, distribuídos nessas universidades, dez mestrados acadêmicos, seis doutorados e um mestrado profissionalizante. Sua variação decorre dos conceitos recebidos pelas instituições, que podem ser descredenciadas caso não alcancem a nota recomendada por aquela Coordenação. Informações disponíveis em: <http://conteudoweb.capes.gov.br >. Acesso em 03 nov. 2009.