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5. Findings and discussions; the role of INGOs in relation to citizen rights

5.1 INGOs role as providers, enablers and channels for citizen rights

5.1.3 The role as channel of political rights

Como destacamos anteriormente, a mídia contribui para a criação de consensos sobre a vida social. Colabora na construção de formas de ver, pensar e estar no mundo, atribui significados e sentidos aos diversos processos sociais, dentre os quais se encontra a violência. Contudo, a maneira fragmentada e desconectada da realidade como a violência tem sido historicamente veiculada pelo noticiário (impresso ou televisionado) não permite a apreensão das relações contraditórias que permeiam a categoria mascarando as determinações sociais, culturais e econômicas que a fundamenta e legitima.

Como afirma Koroll (2008), na sociabilidade capitalista, os grandes meios de comunicação cumprem função central na construção de uma subjetividade cada vez mais alienada e individualista. A criminalização da classe trabalhadora, sempre presente no noticiário televisivo, constitui aspecto orgânico da política de controle do capitalismo para garantir sua reprodução ampliada. Estamos em uma época em que o “Estado Social cede lugar para o Estado Penal e a burguesia, em vez de como antes, administrar as contradições sociais mediante concessões pontuais, mas reais” (TRINDADE, 2008, p. 5037), “[...] passa a fazê-lo mediante a combinação de

um duplo movimento: anestesiamento da miséria (assistencialismo) e repressão ao que restar de manifestações daquelas contradições” (op. cit., 52).

A mídia burguesa assume papel de cúmplice, sendo bem consciente disso. Por essa razão, as tensões, contradições e antagonismos que conformam a realidade social são invisibilizados nas produções, ou como salienta Sales (2007), são mostrados ocultando suas determinações mais profundas.

No contexto de crescente criminalização e punição dos movimentos sociais e da questão social, discutimos a participação da mídia, em particular das transmissões telejornalísticas, na elaboração de narrativas repressivas e na formação de dimensões do senso comum, que contraditoriamente, naturaliza e

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Entrevista com José Damião de Lima Trindade, ex-presidente da Associação dos Procuradores do Estado de São Paulo. In: Revista Classe, 2008.

criminaliza as expressões mais gritantes da questão social: desigualdade, pauperismo e violência. Com relação às questões particulares da reflexão sobre gênero, ou à condição da mulher e às relações desiguais de gênero em nossa sociedade, com destaque para uma de seus componentes mais atroz – a violência contra mulheres – a mídia e em especial a televisão e os telejornais assumem a linha de frente na reprodução de visões estereotipadas, culpabilizantes, que findam por reforçar padrões machistas, sexistas e preconceituosos.

Nesses tempos de mundialização do capital, “[...] mas do que nunca o poder se concentra em pequenos grupos econômicos”; os países periféricos continuam seguindo as regras estabelecidas pelos países de capitalismo central (BOSCHETTI, 2010, p. 64-65). Os impactos destrutivos orquestrados pelo capitalismo nos tempos contemporâneos se refletem na desproteção social, destruição de postos de emprego, exploração do trabalho e redução dos salários, e na concentração de renda. Segundo Iamamoto (2008,p. 118), “[...] a mundialização do capital tem profundas repercussões na órbita das políticas públicas, com suas conhecidas diretrizes de focalização, descentralização, desfinanciamento e regressão do legado dos direitos do trabalho”.

Esse processo tem provocado consequências perversas nas condições de vida de trabalhadores e trabalhadoras por todo o mundo, mais particularmente, nas periferias do capitalismo, ou seja, nos países “pobres”. Consequentemente, em face do crescente aprofundamento de desigualdades e injustiças, reproduzem-se as expressões da violência em todos os espaços de sociabilidade.

O suporte oferecido pela mídia à burguesia favorece a disseminação de uma “cultura do medo”. Nunca se viu tanto crime, tanta violência na televisão. No Brasil, afirma Malagutti (2003) apud Oliveira (2003), a difusão do medo e da desordem tem historicamente servido para deflagrar estratégias de controle e disciplinamento das classes subalternas. O medo se constitui porta de entrada para políticas de segurança cada vez mais punitivas e segregadoras.

A mídia (impressa e televisiva) contribui para o processo de criminalização da população pobre e ainda influencia a criação de “redutos” da violência. Como consequência reivindicam-se melhorias generalizadas que incluem o reaparelhamento policial, maiores níveis de repressão e de controle sobre os

espaços da cidade.

Nesse novo/velho quadro se reeditam políticas cada vez mais focalizadas na extrema pobreza. Segundo Soares (2010, p. 271),

[...] O acesso às políticas sociais passa a ser precarizado, mercantilizado e reatualizado na mediação do favor, via voluntariado. Consequentemente a questão social é levada ao entendimento externo à ordem social e, além disso, há uma grande ofensiva para eliminar a condição de direito das políticas sociais.

O desmonte das conquistas dos/as trabalhadores/as, aliado ao viés ideológico do autoemprego e da autonomia consistem em estratégias político-ideológicas que mistificam a realidade e objetivam “[...] exacerbar a extração do excedente e desmobilizar a organização da classe trabalhadora” (SOARES, op. cit., p. 272)

Os ajustes do capitalismo aprofundam as desigualdades e obscurecem o “[...] universo dos trabalhadores que produzem a riqueza e vivenciam a alienação como destituição, sofrimento e rebeldia” (IAMAMOTO, 2008, p. 118). Mas, ao mesmo tempo, essa mesma sociedade apresenta um terreno de lutas e enfrentamentos cotidianos numa conjuntura adversa às demandas das classes oprimidas.

Ainda, as lutas organizadas pelas classes trabalhadoras têm sofrido golpes severos da mídia burguesa. A criminalização dos movimentos sociais pelos grandes veículos de comunicação do nosso país não constitui nenhuma novidade. Não raras vezes, representantes do Movimento dos Sem Terra têm sido tratados e colocados no mesmo nível de traficantes de drogas. Categorias profissionais em greve são tratadas como arruaceiros e desordeiros. Em outras ocasiões, quando as reivindicações são legitimadas pela mídia (manifestações nos países africanos e árabes, por exemplo), não identificamos nas reportagens argumentos ou exposição dos determinantes desses conflitos, tampouco o sentido político dos mesmos no contexto em que ocorrem38.

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As manifestações que se alastraram por diversos países árabes e africanos – denominado Primavera Árabe – têm sido constantemente veiculadas pela mídia como manifestações de populações insatisfeitas com longos anos de regimes ditatoriais. Embora verdadeira a informação, as manifestações também expressam as desigualdades sociais aprofundadas pela crise estrutural do capitalismo do capital: a juventude sem emprego e sem expectativas, populações inteiras sem acesso a bens e serviços socialmente produzidos, agudização da pobreza e violência, elementos raramente contemplados nos discursos televisivos.

Assim, os grandes meios de comunicação procuram sedimentar consensos no sentido de minimizar as contradições e antagonismos, em uma espécie de tentativa de ocultamento das contradições inerentes às sociedades de classes. Espetaculariza as expressões da questão social e ocultam seus reais determinantes.

Segundo Volanin (2008), no Brasil, a criminalização dos movimentos de enfrentamento a questão social é histórica. Manchetes como “Pernambuco e Rio

Grande do Norte agitados por um movimento subversivo de caráter extremista

(Folha da Manhã, 1935); “Férias ameaçadas – a supergreve nas escolas altera

calendário” (Veja, 1985); A Tática da Baderna – MST usa o pretexto da reforma agrária para pregar a revolução socialista (Veja39, 17.05.2000); Bombeiros invadem

Quartel Central da corporação no Rio (Veja online, 2011). Essas matérias indicam os

conflitos políticos e ideológicos travados entre os grupos sociais oprimidos e os sistemas dominantes detentores dos meios de comunicação.

Certamente, os meios de comunicação no formato em que são estruturados dificilmente, oferecerão espaço para a expressão ou a constituição de interesses que questionem as estruturas básicas das relações capitalistas de produção. Com isso, a situação tem se mostrado delicada para os segmentos oprimidos cada vez mais silenciados e criminalizados pelo pensamento único das grandes empresas midiáticas. Contudo, como salienta Sales (2007), as manifestações das desigualdades sociais são tão gritantes que tem sido impossível ocultá-las completamente. Por essa razão, podemos identificar nos noticiários denúncias que dão visibilidade às problemáticas cotidianas de homens e mulheres.

Ainda assim, prevalece o discurso da manutenção da ordem social e a ideologia dominante. Com seu aparato ideológico, estes veículos tendem a escamotear as injustiças sociais, a concentração de renda, as desigualdades de classe, raça/etnia, gênero e orientação sexual, as formas e os mecanismos de manutenção do poder, os antagonismos do modo capitalista de produção.

Não é nossa intenção discutir e analisar as controvérsias e os conflitos entre a mídia e a interpretação dada aos movimentos sociais em nosso país. Entretanto, entendemos que tais reflexões ainda que preliminares, revestem-se de importância

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para a apreensão da dimensão dos meios de comunicação na formação de consensos sobre os diversos complexos sociais.

Historicamente, as organizações de trabalhadores e os movimentos sociais têm constituído estratégias importantes das classes oprimidas na perspectiva de dar visibilidade às desigualdades sociais e às expressões da questão social, de enfrentar as precárias condições de vida e de sobrevivência das classes trabalhadoras. Assim, entendemos que ao penalizar os movimentos sociais ou as manifestações das classes populares, a mídia também o faz com as demais expressões da questão social.

A questão social é aqui entendida como resultado do conjunto de desigualdades sociais engendradas pela sociedade capitalista madura, indissociáveis das configurações assumidas pelo trabalho. Expressa uma “[...] arena

de disputas entre projetos societários, informados por distintos interesses de classe,

acerca de concepções e propostas para a condução das políticas econômicas e sociais” (IAMAMOTO, 2001, p. 10, grifo da autora). É, portanto, expressão das desigualdades sociais produzidas e reproduzidas na dinâmica contraditória das relações sociais, no conflito capital/trabalho.

Trata-se, portanto, de um complexo social que tem origem arraigada na natureza das relações sociais capitalistas, cujos determinantes traduzem-se pela coletivização da produção, contraposta à apropriação privada dos frutos da atividade humana e das condições para sua realização. Conforme afirma Marx (1996, p. 237, grifo do autor) é próprio da natureza do modo de produção capitalista, à medida que desenvolve as forças produtivas, multiplicar a massa de “pobres laboriosos”; ou seja, à acumulação capitalista corresponde a acumulação da miséria das classes trabalhadoras. Nesse sentido, cotidianamente, a própria sociabilidade produz e aumenta o fosso entre as classes sociais.

Conforme Oliveira (2010), a questão social emerge na segunda metade do século XIX, mediante a aparição da classe operária no cenário político da Europa Ocidental. De acordo com Netto (2001, p. 42), a expressão questão social surge,

[...] para dar conta do fenômeno mais evidente da história da Europa Ocidental que experimentava os impactos da primeira onda industrializante, iniciada na Inglaterra no último quartel do século XVIII: trata-se do fenômeno do pauperismo.

Nesse sentido, a pauperização constitui uma das expressões da questão social que acompanha concomitantemente o desenvolvimento e a consolidação da sociedade capitalista. Com efeito, afirma Netto (op. cit., grifo do autor), “[...] a pobreza crescia na razão direta em que acumulava a capacidade social de produzir riquezas”. Que dizer, a consolidação da formação capitalista cria progressivamente bens e serviços, mas contraditoriamente, produz um contingente populacional despossuído das condições materiais de sobrevivência e sem acesso a tais bens e serviços (idem).

É nesse terreno tensionado pelo conjunto da classe trabalhadora que, pela primeira vez, a naturalização da miséria é politicamente contestada e o processo de urbanização, somado com a industrialização, resultará na combinação de três elementos indissociáveis, sendo estes: o empobrecimento extremo da classe trabalhadora; a consciência desta classe de sua condição de exploração e, as lutas desencadeadas por esta classe contra os seus opressores. Segundo Heidrich (2006, p. 2) podemos, assim,

[...] vincular o surgimento da questão social com o surgimento da classe trabalhadora e identificá-la no momento em que a contradição fundamental do capitalismo, como modo de produção social, se desenvolve e se revela, ou seja, quando se evidencia que, no capitalismo, quem produz a riqueza não a possui e ainda, que não há espaço para todos no mercado.

Nesses termos, o metabolismo da sociedade capitalista propicia terreno fértil à reprodução contínua e ampliada da questão social. Seus determinantes encontram-se na base estrutural da relação capital/trabalho, em que o fortalecimento da economia e do aparato Estatal aparece em descompasso com o desenvolvimento social (IANNI, 1989). Conforme Kameyama (1997), a gênese e as transformações das sequelas da questão social constituem manifestações concretas, mediante as quais se reproduzem as relações sociais. Tais manifestações, por conseguinte, se expressam nas práticas políticas e ideológicas cuja tendência é configurar políticas de Estado.

Assim, configuram-se em questão social, sobretudo, os processos relacionados à formação e a reprodução da força de trabalho para o capital. O Estado assume papel de organismo regulador, na medida em que, intervém nas

mazelas próprias do capital através de políticas implementadas pelas suas instituições representativas (op. cit.).

No caso brasileiro, a questão social passa a ser tomada como questão política e não mais de polícia, a partir das décadas de 1920 e 193040, quando o Estado passa a atuar frente às demandas sociais. Esta atuação reflete e decorre dos avanços da divisão social do trabalho e da emergência do trabalho assalariado em nossa sociedade (KAMEYAMA, 1997).

Segundo Iamamoto (2001, p. 17), as manifestações da questão social que atingem diversos grupos sociais – principalmente os mais pauperizados - têm se tornando alvo de políticas assistencialistas focalizadas no “combate à pobreza” ou em expressão da violência dos pobres, reeditando políticas de cunho punitivo, policialesco e segregacionista. Nesse cenário, assumem novas configurações atingindo de forma diferenciadas os diversos segmentos sociais, ao mesmo tempo em que evidenciam o imenso fosso entre “o desenvolvimento das forças produtivas do trabalho social e as relações sociais que o sustentam”.

Estes apontamentos sobre a questão social não têm por objetivo fragmentar ou isolar nossas análises sobre a violência e suas expressões. A compreensão crítica é necessária para reconstruir a categoria no âmbito da dinâmica contraditória da realidade e no movimento das relações sociais. As manifestações da questão social são múltiplas e multifacetadas e a violência contra a mulher constitui uma de suas faces, talvez uma das mais crueis.

O percurso realizado nos fornece subsídios para nossas análises sobre as interpretações da violência contra a mulher pela mídia. Ao destacar a reprodução da ideologia patriarcal e sexista que se apresenta nas matérias escolhidas no processo de pesquisa, assim como, o caráter espetacular como foram tratados casos de violência contra mulheres pelos veículos de comunicação, tomamos por base o entendimento crítico da violência e de seu tratamento, enquanto expressão da questão social, violência que compõe a totalidade social e que, em sua particularidade, revela sua lógica e sua dinâmica. E ainda as desigualdades observadas nas próprias emissoras e redações de telejornais no trato de matérias

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Até então predominavam as práticas repressivas, a violência do poder estatal e privado (IANNI, 1898, p. 46).

especificas sobre violência e particularmente sobre violência contra mulheres constituem particularidade da forma como a sociedade e a ideologia dominante que impregna o senso comum lidam com expressões da questão social.

Com efeito, a mídia (televisiva), contribui na divulgação e na criação de consensos e variadas representações sociais sobre a condição de ser mulher. Nos telejornais, novelas e programas de entretenimento são veiculados símbolos ideológicos em uma perspectiva desigual de gênero, os quais ultrapassam os limites das telas de TV e estabelecem relações concretas nas vidas cotidianas das mulheres. Esses aspectos serão aprofundados na próxima sessão, após abordarmos nossas aproximações sobre violência, suas expressões na mídia e na vida cotidiana.

3.2 EXPLORAÇÃO E OCULTAÇÃO DAS DETERMINAÇÕES DA VIOLÊNCIA NA