4.3 Tidsaspektet
4.3.1 Tiden som har gått
Conforme vimos, a Porto Alegre dos anos 1850 não tinha muitas opções de sociabilidade coletiva. Eram frequentados o entrudo, prática que antecedeu o carnaval, e as festas religiosas. Aos poucos, essa situação foi alterada. Saballa propõe que:
O grande impulso na vida social parece ter ocorrido mesmo no transcorrer da segunda metade do século XIX e início do XX: aumentaram as formas de distrações, a figura do estrangeiro se tornava mais presente, inclusive influenciando os costumes e hábitos do porto-alegrense. Se antes as atividades sociais se circunscreviam ao ambiente privado, agora a rua é o atrativo208.
207 ROCHE, J., 1969, p.636.
A expressão destacada na citação acima é nosso fio condutor para pensar a respeito do diálogo entre o público e o privado, o sentido desses termos e das formas de sociabilidade que se desenvolveram em Porto Alegre entre o século XIX e o XX. Apresentar essas interações, ainda que brevemente, é importante para finalizar o panorama social no qual o interesse pelas bicicletas emergiu e se difundiu.
O termo “esfera pública” (Öffenlichkeit) surgiu em 1962, quando Habermas o definiu como uma arena burguesa onde aconteciam debates dos quais, inicialmente, todos poderiam participar. Em outro caminho, Sennett considera a história das palavras “público” e “privado” fundamental para a compreensão da transformação da cultura ocidental e remonta ao século XVI. Naquela época, em inglês, “havia-se acrescentado ao sentido de público aquilo que é manifesto e está aberto à observação geral”. O autor indica que no século seguinte a oposição entre “público” e “privado” ficou mais parecida com o uso atual – “'Público' significava aberto à observação de qualquer pessoa, enquanto 'privado' significava uma região protegida da vida, definida pela família e pelos amigos”209. O uso do termo em francês era semelhante:
Na época em que a palavra “público” já havia adquirido seu significado moderno, portanto, ela significava não apenas uma região da vida social localizada em separado do âmbito da família e dos amigos íntimos, mas também que esse domínio público dos conhecidos e dos estranhos incluía uma diversidade relativamente grande de pessoas.
Há um termo logicamente associado a um público urbano diverso: “cosmopolita”210.
O termo “cosmopolita” em francês data de 1738, e define o homem público perfeito, que se movimenta despreocupadamente no mundo de estranhos constituído pela “cidade cosmopolita”, que se sente à vontade nesse ambiente e em situações desvinculadas ao que lhe é familiar, permeado por “boas maneiras e intercâmbios rituais com estranhos”211.
Perrot comenta que, sob o aspecto da divisão racional de papéis, tarefas e espaços, a Revolução Francesa fundou o espaço público contemporâneo. Nesse espaço, que equivaleria amplamente à cidade, homens e mulheres são colocados em duas extremidades em uma escala de valores – segundo a autora, “o lugar das mulheres no espaço público sempre foi problemático”212. O espaço público feminino se constituiria de lavanderias, magazines e salões
de chá, enquanto os espaços políticos, judiciário, intelectual e esportivo seriam domínios
209 BRIGGS; BURKE, 2006; SENNETT, 1988, p.30. 210 SENNETT, 1988, p.31.
211 SENNETT, 1988, p.16.
212 PERROT, Michelle. Mulheres públicas. Tradução Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998, p.8.
masculinos praticamente proibidos, mas Perrot afirma ainda que as fronteiras entre os sexos vão aos poucos se deslocando. Em Porto Alegre esse padrão de segregação do “belo sexo” foi seguido em grande medida – com a emergência das associações, se por um lado as mulheres começam a tomar parte da convivência pública, por outro permaneceram em desigualdade com os homens, conforme vemos a seguir:
[…] É lida depois a proposta da modificação em vários pontos dos estatutos [da União Velocipedica de Amadores]. […] foram estas aceitas pela quasi unanimidade dos sócios presentes.
Em virtude dessa deliberação, ficou resolvido, entre outras disposições, que […] que sejam concedidos os títulos de sócias honorárias ás exmas. Esposa do sócio Hercules Limeira e joven d. Josephina Barth; a primeira pelos serviços valiosos que prestou à sociedade, encarregando-se de preparar as flôres, galhardetes e bandeiras para a ornamentação do velódromo, por ocasião das festas de inauguração; à segunda por ter confeccionado a luxuosa bandeira oferecida pelo sócio [José] Leite de Almeida213.
O trecho nos indica que a admissão dessas sócias honorárias era uma novidade. Retomando a divisão dos papéis por gênero, notamos aqui que as moças em questão receberam a consideração da União por contribuírem com a ornamentação da festa, e não por serem, de fato, ciclistas.
Sennett comenta o surgimento de clubes no século XVIII, que prenunciariam o fenômeno difundido no século XIX214. Esses grupos raramente possuíam sede própria,
organizando as reuniões em torno de uma refeição comum. Nesse momento, seriam mais populares em Londres do que em Paris e dentro de um círculo pequeno.
Traçando um histórico da renovação da vida social em Porto Alegre, além das pioneiras Gesellschaft Germânia (Sociedade Germânia, 1855) e Deutscher Hilfsverein (Associação Beneficente Alemã, 1858), houve na década seguinte e fundação da Sociedade de Ginástica (1867), que permanece ativa hoje como SOGIPA, e da Gesellschaft Leopoldina (1863), voltada para convivência e manutenção das tradições germânicas.
Constantino comenta que na década de 1870 “apareceram as confeitarias que começaram a atrair prendadas senhoras e senhoritas, finos ornamentos da melhor sociedade” local215. Além disso, com a instalação da iluminação pública, serenatas e outras formas de
diversão noturna despontam – a historiadora menciona que algumas sociedades alemãs organizavam kerbs216, que se estendiam pelo final de semana incluindo as noites.
213 A FEDERAÇÃO, a.16, n.288, 18 dez. 1899, p.2. 214 SENNETT, 1988.
215 CONSTANTINO, 1997b, p.53.
216 De acordo com Jean Roche (1969), Kerb é a abreviatura de Kircheweihfest. Inicialmente era a festa votiva da paróquia, mas foi perdendo seu caráter religioso e se tornou uma festa popular, com quermesse, dança e refeições.
Em 1873 surgiram as sociedades carnavalescas Esmeralda e Venezianos, que introduziram um novo modelo de carnaval, visando substituir o entrudo. De acordo com Leal, “a mudança para as sociedades carnavalescas e a intenção de extinção do entrudo era também uma forma de moralização do carnaval”217. A prática antecedente tinha origem ibérica, e incluía
brincadeiras como molhar e sujar o adversário, enquanto a festa nos padrões de Veneza contava com préstitos, bailes e desfiles – estes últimos realizados pelos rapazes, enquanto as moças atiravam flores. Esses festejos enfraqueceriam na década seguinte, possivelmente por falta de contribuição financeira dos sócios, mas ressurgiriam em 1906218.
Outra atividade que despertou o interesse dos jovens foi a patinação. Um skating rink teria existido entre 1878 e 1883 na Praça da Harmonia, o antigo Largo da Forca, tido como um lugar elegante da alta sociedade219.
Ainda na década de 1870 começaram a acontecer as já mencionadas touradas, que tiveram um “circo” próprio na Várzea até o início do século XX220. A popularidade das corridas
de cavalo se materializou nas quatro pistas dos arrabaldes – o prado Boa Vista (1877) ocupava um amplo terreno entre as ruas Santana e São Luís, perto da Estrada do Mato Grosso (atual Bento Gonçalves); o Rio Grandense (1881), também conhecido como Menino Deus, ficava na rua 13 de Maio (atual Getúlio Vargas), perto da capela homônima ao arrabalde; o Navegantes (1891), depois da Avenida Sertório e da estrada de ferro; e o Independência (1894), construído perto da avenida homônima (onde atualmente fica o Parque Moinhos de Vento)221.
Outra prática que conquistou adeptos suficientes para que várias associações se formassem foi o remo – o pioneiro, Ruder Club Porto Alegre, foi criado em 1888. Em seguida surgiria, também na comunidade teuto-brasileira, o Ruder Verein Germania (1892) – do qual, alguns anos depois, se originaria a Blitz222. Antes de 1910 outros quatro clubes náuticos foram
217 LEAL, Caroline Pereira. Festas carnavalescas da elite de Porto Alegre: Evas e Marias nas redes do poder (1906-1914). 2013. 245 f. Tese (Doutorado em História) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2013. Disponível em:
<http://hdl.handle.net/10923/3790>. Acesso em: 19 out.2016, p.15. 218 LEAL, 2013.
219 SABALLA, 2010; PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE. Praça Brigadeiro Sampaio. Viva o Centro. Disponível em: <http://www2.portoalegre.rs.gov.br/vivaocentro/default.php?reg=14&p_secao=118>. Acesso em: 11 mai. 2016.
220 Também designado como Praça de Touros; a descrição da localização e da data de fechamento variam conforme o texto consultado, mas observando imagens da Exposição de 1901, acreditamos que estivesse localizado defronte à esquina da atual Rua da República.
221 Os quatro prados aparecem na planta de 1896, porém há fontes que informam que o Boa Vista fechou em 1880. Entre os diversos autores que consultamos há uma imprecisão não rara nas datas de origem e encerramento das entidades de Porto Alegre. Durante a pesquisa notamos essa ocorrência não só quanto aos clubes que estudamos, mas também outras instituições, como a Casa de Ópera, o Teatro Pedro II e os próprios hipódromos, que optamos aqui por informar apenas as datas de inauguração, sobre as quais parece haver um consenso.
222 Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os clubes foram pressionados a abandonar os nomes em alemão e utilizar nomes em português. As duas primeiras sociedades de remo da capital foram convertidas,
fundados – Almirante Tamandaré (1903); Almirante Barroso (1905); Ruder Verein Freundschaft (1906), atual Grêmio Náutico União; Canottieri Ducca degli Abruzzi (1908)223.
Acreditamos que essa movimentação estivesse surgindo predominantemente da nova burguesia urbana que almejando a afamada modernidade empenhou-se em adotar novos hábitos, condizentes com esse desejo. Assim, importavam-se as modas europeias originadas na França, na Inglaterra ou mesmo na Alemanha – entre elas, o vestuário e as práticas esportivas. De acordo com Pesavento, entre a elite intelectual havia os que refutavam com veemência o mito do progresso alardeado pelos positivistas224. Porém, como estes últimos eram detentores dos canais oficiais, seu “sonho de modernidade” foi a tônica predominante na virada do século. A elite letrada – não necessariamente opositora ao PRR e sua visão de mundo – circulava por redações de jornais, cafés e livrarias, como a Universal e a Americana. O Chalé da Praça XV, bares, restaurantes, confeitarias, entre tantos outros espaços, faziam parte da agitada vida cultural da virada do século225.
As diversões em ambientes fechados incluíam saraus e atividades teatrais no São Pedro e no Polytheama. A projeção cinematográfica foi vista pela primeira vez em 1896, e já em 1910 o cinema se consolidaria na cidade226.
Apesar de haver uma marcada distinção entre espaços femininos e masculinos, as mulheres participavam de associações e do footing, prestigiado entre 1890 e 1920227, fugindo
um pouco do “ambiente privado” que seria seu lugar, na visão comtista.
Com a evolução da noção de vilegiatura e férias durante a segunda metade do século XIX, o tempo novamente foi reestruturado – se antes pela padronização das horas, medidas pelos relógios, dividiu-se entre o “tempo do trabalho” e o “tempo das férias”228.
Os arrabaldes de Porto Alegre oportunizavam lazer, entretenimento e veraneio – fosse pelas corridas de cavalo, pelos banhos no Guaíba, ou ainda pela “moda dos piqueniques” trazida pelos alemães. O contato com a natureza era valorizado – a inauguração da linha Férrea do Riacho até a Tristeza aumentou a frequência desse arrabalde; a introdução das bicicletas entre
respectivamente, a Club de Regatas Porto Alegre e Club de Regatas Guahyba. Em 1936 se combinaram e formaram o Clube de Regatas Guaíba-Porto Alegre. O GPA manteve 1888 como data de fundação e permanece ativo até hoje, como o clube de remo mais antigo do Brasil. – GPA: Clube de Regatas Guaíba-Porto Alegre. Disponível em: <http://www.gpa1888.com.br/>. Acesso em: 11 mai. 2016; MAZO, 2003.
223 LICHT, 2002; MAZO, 2003. 224 PESAVENTO, 2002.
225 PESAVENTO, 2002; SABALLA, 2010. 226 SABALLA, 2010.
227 SABALLA, 2010.
228 MARTIN-FUGIER, Anne. Os ritos da vida privada burguesa. In: PERROT, Michelle (Org.). História da vida
privada: da Revolução Francesa à Primeira Guerra. v.4. Tradução Denise Bottmann (partes 1 e 2); Bernardo Joffily (partes 3 e 4). São Paulo: Companhia das Letras. 1991. p.176-245.
os jovens deu início a excursões aos subúrbios que, mesmo durante os anos áureos e após o declínio das competições de pista, não deixaram de acontecer229.
As práticas corporais e o lazer ao ar livre, assim como a vida noturna, continuaram a conquistar adeptos, independente dos esforços de moralização230. Talvez com a impossibilidade
de controlar alguns aspectos, eles fossem ressignificados ou, simplesmente, silenciados – tendo ainda a presença feminina na esfera pública como exemplo, especificamente no caso dos clubes que analisamos, enfatizava-se na imprensa o aspecto familiar dessas associações, talvez diante da impossibilidade de confrontar o interesse das moças por uma atividade moderna, que necessitava das ruas ou dos velódromos. Outro ponto é que, pelo tipo de material localizado e pelo discurso veiculado na imprensa, não parecia haver muita intenção de legitimar sua presença autônoma nesses ambientes. Temos retratos de mulheres em trajes de ciclismo, várias delas podem ser vistas pedalando em um registro da inauguração do velódromo da União, e até foram mencionadas eventualmente nos jornais – contudo, não encontramos imagens em que fossem fotografadas em grupo, por exemplo. Há apenas raros anúncios dirigidos especificamente a elas – encontramos, por exemplo, um convite publicado repetidamente pela Radfahrer Verein Blitz na Koseritz' Deutsche Zeitung, em 1899, incentivando as “mulheres com fôlego” a comparecer à sociedade para aprender a andar de bicicleta. Na mesma época, Madame Jacometti oferecia espartilhos para as ciclistas – talvez fosse o caso de equipará-las com as modernas europeias, ao invés de privá-las da vida comunitária.
2 A MODA DO CICLISMO
Mover-se, você deve! Esse é o desejo de hoje Lei e moda atual. - Samuel Taylor Coleridge,“The Delinquent Travellers”