4.6 Deloppsummering
5.3.2 Dokumentasjon på rusfrihet
Observaremos agora mais detidamente a questão das calças bufantes – os knickerbockers. Laver, em seu livro publicado em 1968, comenta que “Mrs. Bloomer teve de esperar quase cinquenta anos para se vingar com a adoção das bloomers para a prática do ciclismo”625. Embora não possamos atribuir a esta sentença a ligação das calças bufantes à
ativista americana, o fato é que a nomenclatura bloomer para se referir às calças de ciclismo foi amplamente adotada na literatura de moda. Em certa medida, com essa denominação é como se fosse atribuída a “autoria” dessa peça de roupa à ativista americana – assim como acontece quando vemos Poiret ser apontado como “o libertador das mulheres do terrível espartilho”, enquanto, na verdade, já havia esforços nesse sentido décadas antes do aparecimento do costureiro. Esse tipo de noção nos inquieta, pois elege uma única pessoa como responsável por uma mudança que se articulava antes mesmo de sua adesão. Quanto ao controverso traje exibido nos anos 1850, vimos que Bloomer e suas amigas inspiraram-se nos trajes de algumas comunidades religiosas americanas.
Também não nos foi possível localizar quem teria sido, e se seria um costureiro, um médico ou um inventor, quem propôs os knickerbockers para o traje de ciclismo pela primeira
vez – temos a ocorrência do retrato de D'Antigny (1869, figura 25) em um traje semelhante e, posteriormente, a menção à loja de departamentos que comercializava as calças, em 1893. A revista Harper’s Bazar, em abril de 1894, descrevia o traje visto na Figura 33 como “calças turcas”. Esse tipo de divulgação talvez tivesse o intuito de conferir uma proposta de exotismo aos trajes, pois esse interesse pelo Oriente e pelo “primitivo” foi recorrente durante o século XIX.
Talvez não houvesse a intenção de abrir o questionamento das identidades de gênero por meio dessa indumentária, embora tenha cumprido justamente este papel diante de feministas e detratores da “mulher moderna”. Seria plausível, inclusive, que esses detratores tenham associado o modelo a Bloomer, justamente com a intenção de ridicularizá-lo e desencorajar seu uso – de acordo com Sennett, “cada estágio da revolta [contra determinados padrões de vestuário] 'interessa' àqueles que não estão na revolta, dando-lhes uma imagem concreta daquilo que não devem aparentar, caso não queiram ser rejeitados626”. Reiteramos que não
necessariamente o traje de ciclismo foi concebido como um protesto, mas dialogava tão bem com os objetivos das feministas e reformistas do vestuário, que pôde ter representado uma ameaça, ainda que não fosse numerosamente adotado.
A partir dos retratos das ciclistas porto-alegrenses com knickerbockers, faremos o exercício de buscar os antecedentes das calças bufantes, inclusive para refletir sobre outros simbolismos possíveis vinculados à sua aparição no contexto esportivo. Compreendemos que as mulheres de Porto Alegre, assim como as estadunidenses, tivessem como referência para a aquisição dos calções as diversas menções sobre o que estava em voga para o ciclismo na Europa por meio da difusão desses modelos na imprensa, fosse local ou estrangeira. Assim sendo, nosso desafio está em tentar identificar suas aparições no passado, que pudessem ter contribuído de alguma maneira com a constituição dessa solução para o ciclismo.
Nos anos 1850, apesar de todo o burburinho causado por Amelia Bloomer, conforme vimos nas figuras 22 e 23, divulgava-se trajes esportivos muito semelhantes ao da ativista – em ambas as situações remetendo à indumentária oriental. Havia ainda uma outra figura feminina vestindo calças nessa época – as cantinières, mulheres da infantaria francesa, que forneciam alimentos para os soldados. Essas figuras estavam presentes na Guerra da Crimeia, um dos primeiros conflitos a ter uma cobertura fotográfica mostrando inclusive as mulheres em questão (Figura 42)627. Segundo o historiador Thomas Cardoza, essas mulheres faziam parte da
626 SENNETT, 1988, p.238.
627 Foram produzidas imagens dos mais variados tipos sobre essa guerra, desde fotos a ilustrações, quadros e outros.
infantaria desde o século XVIII. O autor inclui em seu estudo diversas imagens onde essas cantinières são representadas, contendo desde pinturas de Horace Vernet, a outras ilustrações da época, nas quais elas são vistas em trajes semelhantes ao que Bloomer propôs em 1851628 629.
Figura 42 – Cantinière francesa durante a Guerra da Crimeia
Fonte: FENTON, Roger, 1855. National Army Museum, UK630. Figura 43 – Cantinière e soldado da infantaria ligeira
Fonte: LEROUX, Pierre Albert, 1859631.
628 CARDOZA, Thomas. Intrepid Women: Cantinières and Vivandières of the French Army. Bloomington: Indiana University Press, 2010.
629 Horace Vernet (1789-1863): pintor francês, conhecido por quadros de batalhas. Cardoza apresenta as pinturas
Siège d'Anvers (Cerco à Antuérpia, 1840) e o Retrato de Madame Bru, cantinière do sétimo regimento hussardo
(atribuído, 1837) como exemplos (2010, p.95-96); Sobre este último, CF: <http://www.musee-
armee.fr/collections/base-de-donnees-des-collections/objet/portrait-de-mme-bru-cantiniere-au-7e-regiment-de- hussards.html>. Acesso: 02 nov. 2016.
630 Disponível em: <http://www.nam.ac.uk/exhibitions/online-exhibitions/wives-sweethearts/women- regiment/fenton-photography>. Acesso em: 03 nov. 2016.
Crane menciona que os espaços isolados, marginais e liminares oportunizavam às mulheres fazer experimentações com roupas que seriam consideradas inaceitáveis de outro modo, como trajes de banho e de ginástica que incluíam calças632, e seguiram aparecendo nas revistas de moda durante os anos 1860 e 1870, conforme as ilustrações abaixo:
Figura 44 – Trajes de banho
Fonte: LA MODE ILLUSTRÉE: Journal de la famille, n.29, 20 jul. 1863, p.229. Figura 45 – Trajes de banho de mulheres e crianças
Fonte: HARPER'S BAZAR, 15 jul. 1876 apud BLUM, 2012, p.461.
Antes disso, por toda a Europa, as peças bifurcadas, com diferentes nomes e mais ou menos bufantes conforme a época e o lugar, permaneceram em uso pelos homens até pelo menos o fim do século XVIII, quando a influência dos dândis promoveu a voga das calças ajustadas, como as de equitação.
Cardoza.
Retomando as fotografias de nossas ciclistas, notamos que seus trajes lembram muito o uniforme dos zuavos e das cantinières na Guerra da Crimeia. A partir dessa perspectiva, acreditamos que houvesse nas roupas esportivas, no final do século XIX e início do XX, ecos, ou memórias, das cultura afro-oriental. Com a percepção de que os processos de difusão de modas são bem mais complexos do que a mera imitação das classes superiores, temos aqui a possibilidade de uma referência oriunda do exótico, uma vez que poderia dialogar com a percepção de formal/informal por meio da relação entre o eu e o outro.
Por último, observamos o papel dessas calças de ciclista do fim do século XIX – que, conforme visto na fotografia das ginastas da SOGIPA (Figura 29), estavam presentes também em outras atividades físicas. Qual seria de fato o alcance da “ruptura” apontada por Crane e por outros autores? Acreditamos que tenha sido um precedente extremamente importante, ainda que no sentido de negação da ordem anterior tenha sido apenas parcial – por um lado, foi a primeira vez em séculos que se permitiu às mulheres elegantes o uso de peças bifurcadas em público633,
por outro é visível que o traje feminino era tão mais complexo que o masculino quanto os que eram utilizados em outras ocasiões, e claramente não poderia se confundir o gênero dos ciclistas634. Além disso, durante algumas décadas no século XX, as calças femininas e suas
variações – como os shorts – seriam utilizadas apenas no âmbito lúdico635.