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4.1 Handlinger

4.1.5 Andre kritikkverdige handlinger

Março de 1895. Após um primeiro encontro, no qual se estabeleceu a diretoria provisória, e um segundo, no qual a sociedade foi instalada, no dia 17, às cinco horas da manhã, um passeio partindo do chafariz do Campo da Redenção ao Belém Velho seria o ato fundador da União Velocipedica de Amadores. Nos jornais do Commercio, Mercantil e A Federação, algumas notas e convites marcaram os primeiros passos – ou pedaladas – da nova associação. Na KDZ, poucas palavras: “Os velocipedistas da cidade uniram-se em um clube”398. A

comunidade teuto-brasileira até essa época já havia se reunido em associações de ginástica e remo, entre outras, e talvez nesse momento não houvesse um interesse generalizado pela velocipedia, o que justificaria tão pouca atenção dada por esse periódico à iniciativa de cultivar o modernissimo genero de sport399. A Federação, por outro lado, já em 11 de março reproduziu

na primeira página uma notícia do Scientific American intitulada “O ciclysmo como meio de hygiene”. No dia seguinte, mais uma vez na capa, divulgou:

União Velocipedica

Está definitivamente organisada a sociedade cyclista sob o titulo acima.

Em sessão de assembléia geral ficou ante-hontem constituida a seguinte directoria semestral:

Presidente - Tenente Jonathas do Rego Monteiro Vice-presidente - Alberto Fahlauer

Secretario - Alberto Ludwig Thesoureiro - Edgar Porto Zelador - João Alves

Directores - Jorge Kaiser*, Rodolpho Schoeller, Ricardo Heckmann, Victor Rosa,

396 CRANE, 2006, p.57.

397 CICLISMO. In: MICHAELIS Online. Dicionário brasileiro da língua portuguesa. São Paulo: Editora Melhoramentos/UOL, 2015. Recurso eletrônico. Disponível em:

<http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=ciclismo>. Acesso: 19 out. 2016; SCHETINO, 2007.

398 KDZ, Porto Alegre, 08 mar. 1895. Tradução nossa.

399 LICHT (Jornal do Commercio, 06 mar. 1895), 2002. Verificamos nos periódicos da época diversas ocorrências de adjetivos que vinculam o ciclismo à modernidade.

João Rosa e Carlos Alves

É possivel que a União se inaugure domingo proximo, com uma digressão em velocipedes a Belém Novo.

No mês de abril do mesmo ano, este mesmo jornal publicou um agradecimento por ter recebido um exemplar do estatuto do clube. No anúncio seguinte feito pela União n'A Federação, somos informados “que o passeio correspondente ao mez corrente” será para a Tristeza, “sendo o ponto da reunião o de costume”, e que o “director do mez” é “Ric. Scoeller*”. Poucas linhas que nos dão muitas pistas, reiteradas nas publicações dos meses seguintes, sobre como a União se estruturou nesse primeiro momento – promovendo passeios mensais e revezando diretores. Notamos também uma recorrente incorreção na grafia dos nomes dos membros400.

Em julho, após a eleição semestral – novamente realizada no Restaurante da Estação – somos informados que “[...] A União Velocipedica vae adquirir uma propriedade que servirá de local para as suas reuniões. Para esse fim trata de comprar um terreno situado em suburbio”401.

Um anúncio em dezembro informava aos sócios que a União havia entrado em acordo com o Prado Rio-Grandense, para que a partir do dia 15 daquele mesmo mês pudessem utilizar suas dependências. Lá realizariam reuniões, corridas e exercícios nas tardes de domingo e feriados, exceto nos dias de corridas de cavalo402. O Correio do Povo, que a essa altura já havia

surgido, reforça a ocorrência dessas reuniões no Prado Rio-Grandense, embora conste como Prado Boa Vista na notícia do dia 31 de dezembro403.

Durante 1896, a União permaneceu realizando seus passeios aos arraiais. De acordo com Macedo:

[...] Não havia, por certo, nenhuma intenção de competir, de emparelhar-se, de apostar corrida. Eram tranquilos e juvenis passeios dominicais que refrescavam o corpo e pacificavam o espírito do alegre porto-alegrense. Não competiam nem pretendiam se tornar grande sociedade, tanto que dois anos depois, apenas alcançavam cinquenta sócios404.

Embora não seja possível afirmarmos de fato quais eram as intenções dos sócios da

400[*] Verificamos diversas ocorrências de nomes grafados incorretamente nos jornais. Devido a isso, desconfiamos que a gestão de abril de 1895 estava sob responsabilidade de Rodolpho Schoeller. Em outros momentos vemos Jorge Keine, Kaise e Kaine, possivelmente se referindo ao mesmo ciclista.

401 A Federação, Porto Alegre, 05 jul. 1895; 08 jul. 1895, p.2. 402 A Federação, Porto Alegre, 10 dez. 95.

403 O Correio do Povo foi fundado em outubro de 1895. A primeira notícia desse novo jornal que aparece na coletânea de Licht é de 15 dez. 1895, e se torna sua fonte predominante daí para frente.

União, talvez inicialmente só desejassem realizar excursões e, eventualmente, alguma corrida recreativa – em quase dois anos, entre o material que pudemos explorar, não localizamos nenhuma formalização de disputas, nem mesmo internas. Porém, em outubro daquele ano, a KDZ, que desde a fundação da União nada havia manifestado sobre o ciclismo, além de alguns anúncios esparsos de velocípedes, publicou uma notícia e um convite, ambos informando que no dia 11 haveria uma reunião no Restaurante Schröder, no bairro Navegantes, com a finalidade de estabelecer uma associação de ciclismo. Conforme a KDZ, uma das questões mais importantes para este novo clube era conseguir uma boa pista, e havia uma expectativa que, por já existir a União, fosse possível organizar competições – um espetáculo inédito em Porto Alegre405.

Naquele domingo de outubro surgiu, então, o segundo clube de ciclismo de Porto Alegre – a Radfahrer Verein Blitz406. O primeiro passeio organizado pela Blitz, para Belém Velho, reuniu no mês seguinte sete sócios, e mais seis ciclistas da União, de passagem para Belém Novo407. Para Moraes e Silva, a Blitz possivelmente foi idealizada como uma forma de

manutenção da identidade cultural alemã e, conforme Macedo, para desafiar a União Velocipedica408409.

Conforme referimos, talvez em um primeiro momento a União não tivesse em seu horizonte a realização de competições. Entretanto, no fim de 1896 se noticia um “desejo ardente” dos sócios e de “diversas pessoas altamente collocadas no nosso meio social” pela construção de um velódromo e pela vulgarização deste “util e interessante genero da mais innocente distracção, tão festejada pelas famílias da culta Europa”410. Esta notícia, como outras

no mesmo tom, nos sugerem a relação estabelecida entre a percepção da Europa como um modelo a ser replicado. Na mesma ocasião foi divulgado o convite – ou desafio – feito à União pela “congenere allemã”, a Blitz, para uma corrida no início de janeiro seguinte411. Assim, o

ano de 1897 iniciou com a promessa de realização da disputa que ficou conhecida como “a

405 KDZ, Porto Alegre, 06 out. 1896.

406 “Sociedade Ciclística Relâmpago” seria uma tradução possível. O nome da Blitz é referido incorretamente em diversos lugares, desde a imprensa até mesmo livros que consultamos. Talvez o desconhecimento do idioma alemão tenha permitido que escapasse a falta de sentido de algumas dessas nomenclaturas, eventualmente baseadas em transcrições de entrevistas ou incorreções publicadas na imprensa da época e reproduzidas sem uma investigação mais profunda.

407KDZ, Porto Alegre, 10 nov. 1896.

408 MACEDO, 1982; MORAES, 2012; SILVA, 2013.

409 Aprofundaremos as considerações quanto às identidades no próximo capítulo, dialogando também com o gênero e os elementos simbólicos dos clubes.

410 LICHT (20 dez. 1896), 2002, p.13. 411 Ibid.; KDZ, Porto Alegre, 22 dez. 1896.

primeira corrida de bicicletas da história de Porto Alegre”412 413.

A disputa foi realizada no dia dez de janeiro, às cinco horas da manhã. Cada um dos clubes contou com três velocistas – João Alves, Luiz Rist e Antonio Mariante pela União, Oscar Schaitza, Theodoro Schaitza e Theodoro Weinheber pela Blitz. Deveriam partir do Hotel Europa, seguir pelo Caminho Novo até a casa de Angelo Ignacio de Barcellos, no bairro Navegantes, e voltar ao ponto de partida, percorrendo cerca de sete quilômetros no total. Perto da chegada, após a desistência de Weinheber e um tombo envolvendo Mariante, Alves e Theodoro Schaitza, Rist e Oscar Schaitza disputavam a vitória. Porém, diante de outros ciclistas e um grande número de curiosos que, segundo o Correio do Povo, prestigiavam o evento, João Alves causou surpresa a todos retomando a corrida, ultrapassando os que tinham permanecido e vencendo o páreo. Oscar Schaitza foi o segundo e Rist o terceiro. Os prêmios foram distribuídos pela senhora Luiza Schaitza, esposa de Oscar, e o jornal destacou que “[…] O interessante torneio correu na melhor ordem e com extraordinaria animação, de modo a fazer crer que agora mais a miudo se reproduzirão as agradaveis diversões desse genero”414. Luiza

Schaitza foi a primeira mulher a ser mencionada no contexto destes clubes, sendo depois chamada pela KDZ de “primeira dama do ciclismo”. Reservaremos outro ponto para detalhar a posição feminina neste contexto, sem perder de vista que neste primeiro momento se reproduziu a mesma lógica de outros esportes, nos quais o envolvimento da mulher não se dava pela prática em si, mas como uma colaboradora do evento.

No mês seguinte, divulgou-se que a União tinha 47 novos membros, e já trabalhava no nivelamento do terreno no qual faria sua pista, com o custo de quatro contos de réis415. Os

números da Blitz, não muito tempo depois, chegavam a 13 membros “ativos” e 31 “passivos”, o que entendemos por 13 ciclistas e 31 membros sem bicicleta. O clube ainda anunciava a importação de uma tandem da Alemanha416 417. Além dos passeios e das corridas, em 1897

também se noticiou a festa do primeiro aniversário da Blitz – a KDZ informou detalhes de um baile no Turnhalle (ginásio), que contou com performances ciclísticas, musicais e humorísticas,

412 FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: Guia Histórico, 3ª edição revista e ampliada. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1998, p.110.

413 Como vimos, há menção a outras corridas, em 1892. Contudo, sem informações mais amplas, o que ficou marcado nas memórias do ciclismo porto-alegrense foi mesmo a primeira disputa entre a Blitz e a União. 414 LICHT, 2002, p.15-16.

415 KDZ, Porto Alegre, 12 fev. 1897; LICHT (09 fev. 1897), 2002.

416 KDZ, Porto Alegre, 05 mar. 1897. Foi nessa mesma notícia que atribuíram o título de “primeira dama” a Luiza Schaitza.

417 Tandem: Tipo de bicicleta com dois ou mais assentos, permitindo assim que vários ciclistas pedalem simultaneamente (CF Figura 14). Pelo que pudemos notar, as utilizadas nas corridas em Porto Alegre tinham apenas dois assentos.

e durou até o amanhecer418.

No final de 1897, conforme já citamos, o Correio do Povo reproduziu em três partes o texto A bicycleta, originalmente publicado em O Paiz, escrito pelo médico Carlos Seidl. Foram comentados aspectos quanto à modernidade da prática, seu poder terapêutico e, embora Seidl incentivasse do uso da bicicleta tanto para homens quanto para mulheres, fazia ressalvas quanto às especificidades destas últimas, destacando a época da puberdade. Como já abordamos, a vigilância quanto à sexualidade das moças conferia à bicicleta um papel delicado diante da moralidade. Seidl prescrevia o uso regulado do ciclismo como um “excellente exercicio hygienico”, que deveria ser iniciado por séries curtas, aumentando lenta e gradualmente sua duração, não excedendo os 15 ou 18 quilômetros por hora e o percurso máximo de 50 quilômetros por dia.

Nos três primeiros anos de velocipedia institucionalizada em Porto Alegre, percebemos o diálogo iniciado com o lazer, o esporte – por meio das primeiras competições – com a novidade e a saúde. Em pouco tempo, haveria o incremento na vida social ao redor da União e da Blitz, fomentado pelo estabelecimento de suas sedes.