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Antes de relatar a visita do padre Visitador Valignano a Nobunaga na sua fortaleza principal, no ano de 1581, o narrador descreve uma segunda vez a cidade e os magníficos paços do Senhor da Tenca. Nesta cidade, que foi mandada edificar de raiz309, construiu-se a fortaleza de Nobunaga, que é descrita pelo narrador como “…a couza mais nobre e principal de todo Japão…”, pois, pela sua situação, beleza, opulência dos edifícios e os membros da corte e da nobreza japonesa que ali

305 HJ, vol. II, p. 256.

306 “…o estrepito e rumor da gente, o concurso dos fidalgos (…), a frequencia dos homens e mulheres disfraçados que

pela fama e nobreza destes edificios vinhão de muito longe a vê-los…”, HJ, vol. II, p. 256.

307 HJ, vol. III, p. 330.

308“…toda a gente da corte fabricava mais por contentar a Nobunanga que por vontade que tivessem de rezidir em

Anzuchi…”, HJ, vol. III, p. 197.

residiam, “…excedia muito a todas as mais cidades de Japão.”310. Esta segunda delineação de

Azuchi amplifica um pouco mais a anterior, descrevendo mais detalhadamente a cidade, a sua situação e a fortaleza, não deixando de transparecer elogio e fascínio.

Azuchi aparece na História como uma cidade paradisíaca, amena e fértil, bela, onde Nobunaga quis “…mostrar toda sua gloria…”311. Estava situada num solo plano, onde havia

terrenos de cultivo de arroz e por onde passava uma grande lagoa, que atingia nalguns lugares tais dimensões que parecia “…hum grande mar que entra por muitas partes na mesma cidade…”, em cujo topo se elevavam três montes, sendo o do meio “…mais alto e superior aos outros.”, todos “…mui frescos pelas arvores e agua que tem, as quaes estão continuamente cubertas de verdura…”312. No sopé dos montes, ficava a cidade onde vivia a populaça, que somava,

“…conforme ao que se dizia, seis mil vizinhos.”, sendo as suas ruas “…mui largas e direitas…”, tão compridas e tão bem edificadas que “…erão mui fermozas e aprazivel a vista.”, e limpíssimas apesar de muito transitadas, pois “…cada dia se varrião duas vezes, huma pela menhã e outra à tarde…”313. Noutro lado, “…por hum braço da alagoa afastado da cidade, começando do pé do

monte…” e subindo ao redor deste, foram edificadas as casas dos fidalgos dos reinos conquistados por Nobunaga, todas “…mui ricas e nobres…”, com as cercas muito altas e feitas de pedra, extremamente dispendiosas, mas que fizeram o monte parecer “…ainda mais fresco, aprazivel e graciozo…”314. Os paços e fortaleza de Nobunaga, cuja “…arquitectura, fortaleza, riqueza e

apparato se pode comparar com mui grandiozas fabricas de Europa…”315, foram construídos no

monte mais alto, o do meio, para mais destaque e ostentação daquela “…mui arrogante, aprimorada e lustroza obra…”, que, estando num sítio tão alto, “…parece que se vai às nuvens e de muitas legoas se vê de longe…”316, qual Torre de Babel, obra tão soberba e magnífica que pretendia atingir

o plano divino ao tocar o Céu, recebendo o castigo de Deus por aquela insolência, parecendo estar aqui patente um pequeno indício do destino trágico de Nobunaga.

A fortaleza é debuxada com o auxílio de vocábulos indicadores de extrema grandeza, beleza e luxo; a cerca que a rodeia era feita “...de pedra mui forte (…) de mais de secenta palmos d’altura…”, as casas no interior, em grande número, eram “…mui fermozas e ricas, porque estão todas cozidas em ouro, tão limpas (…) que parece não pode chegar mais adiante a humana limpeza.”, sendo a parte mais impressionante da obra a torre situada no meio, “…muito mais nobre e soberba que as nossas torres…”, extremamente alta com os seus sete andares, por dentro 310 HJ, vol. III, p. 256. 311 Ibidem. 312 HJ, vol. III, p. 256. 313 HJ, vol. III, p. 257. 314 Ibidem. 315 Ibidem. 316 HJ, vol. III, p. 258.

ostentando “… figuras de ouro e de diversas cores que estão pelas paredes mui ricamente pintadas…”317e por fora cada andar “…pintado de varias cores, huns de branco com suas janelas de

acharão ou verniz preto (…) em extremo fermozas, outros de vermelho, outros de azul…”318, sendo

o do topo da cor do ouro, oferecendo um misto variado e maravilhoso de cores, estando tudo coberto de telha, “…as mais fortes e fermozas de quantas sabemos em Europa, que parecem de cor azul…”, apresentando, por fim, os telhados umas “…soberbas carrancas com mui nobre e artificioza figura.”319. Ao lado da fortaleza foram feitos outros paços “…de muito mais primor e

excellencia…” pela “…riqueza das camaras, a policia e primor da obra…”, a beleza da madeira, o asseio e esmero, pelos seus “…mui frescos e grandeozos jardins…”, tão diferentes dos europeus, que causavam “…particular admiração.”320. Por fim, fala o narrador, mais uma vez, das cavalariças,

onde apenas havia meia dúzia de cavalos e a qual era “…tão limpa e bem consertada…” que não “…tinha mais que o nome de estrebaria…”, parecendo antes uma “…camara rica para recreação de fidalgos que logar para agazalhar cavalos…”, o que demonstra bem o grau a que chegava a obsessão pela perfeição e pureza de Nobunaga, “…porque a couza em que se mais revia e que sempre trazia diante dos olhos era esta exacta limpeza exterior.”, e tinha empregues trinta e cinco homens que não tinham outra função senão varrer “…todas estas cazas e alimpando-as com tanta perfeição e cuidado, como se cada dia fosse huma festa solemne…”321, evidenciando, deste modo,

mais uma vez o narrador como a limpeza era levada até ao limite.

Quando concluíram as obras do Senhor da Tenca, este abriu as portas dos seus paços por alguns dias para quem quisesse ir visitá-los e admirar a sua riqueza, e foi “…tanta a infinidade da gente que concorreo de diversos reinos que punha a todos admiração…”322, o que alegrou

certamente Nobunaga, sempre desejoso de exibir as suas magníficas obras para que todos tomassem consciência do seu poderio e da sua posição enquanto o mais opulento e o mais soberbo.