No momento de escolher o local onde instalar a sede do seu poder, Nobunaga decidiu construir uma nova cidade, a partir de nada, para aí edificar a sua residência oficial, “…a mais soberba e lustroza couza que nunca athé seo tempo dizem se fez em Japão…”297, numa serra
chamada “Anzuchiyama”. A grandeza desta obra, a sua beleza e extravagância, excedeu, segundo o narrador, os edifícios anteriormente feitos para o xogum e para o Imperador, tendo o Senhor da Tenca guardado o melhor para construir a sua própria residência, a sua obra-prima. As paredes eram “…mui altas e largas…”, feitas de “…pedra emsossa…”298, mas elaboradas tão magnificamente que
pareciam de “pedra e cal”, comparadas à excelência das “obras de cantaria” portuguesas e da
295 HJ, vol. II, p. 246. 296 Ibidem.
297 HJ, vol. II, p. 255. 298 Ibidem.
Europa, sendo que o artifício dos japoneses conseguia tornar a “pedra emsossa” em beleza de “pedra e cal.” 299.
O narrador descreve, fascinado, a grandeza desta obra, do material e da quantidade de mão- de-obra. As pedras utilizadas na construção da fortaleza eram, alegadamente, de tais proporções que eram necessários “4 e 5 mil homens” para as carregarem por caminhos íngremes e inclinados, um número que não podemos deixar de suspeitar ser exagerado, havendo uma pedra específica que precisou de “6 ou sete mil” homens para ser transportada, a qual “affirmão que” foi causa de um acidente trágico ao resvalar por uma encosta e esmagando mais de 150 pessoas300. Este episódio relembra outro semelhante relatado no Memorial do Convento, em que para se edificar o Convento de Mafra foi necessário transportar, igualmente, uma gigantesca laje, “…de comprimento trinta e cinco palmos, de largura quinze, e a espessura é de quatro palmos…”301, que também foi causa de
derramamento de sangue e da morte de um trabalhador, Francisco Marques, esmagado pelo carro que a transportava, uma “…espécie de nau da Índia com rodas…”302que pesava “…mais de duas
mil arrobas…”303 só pela pedra. Deste modo vemos dois episódios que retratam duas construções de
duas magníficas obras marcadas pelo sangue e pela morte, tudo para satisfazer a soberba dos governantes, porém, o narrador da História limita-se a revelar a grandeza da situação, não revelando qualquer comentário ou transparecendo qualquer lamentação pela perda de vidas humanas. A descrição da majestade da obra denota um narrador deslumbrado, os adjectivos são abundantes, a linguagem ilustrativa, visual, repleta de cores e formas, que nos transmite uma sensação sinestésica, predominando uma impressão de opulência, de brilho, de tranquilidade. É debuxada a “…riqueza dos paços e camaras, a fermozura das janelas, o ouro que (…) reluzia, (…) [as] colunas de (…) acharão vermelho e outras todas douradas, a grandeza dos gudões (…), [a] frescura dos jardins com grande diversidade de arvores pequeninas, pedras toscas (...) tanques, huns de pexes e outros de aves, as portas cubertas de ferro acharoadas de preto, as telhas de toda esta maquina e a cazaria douradas pelas bordas, (...) grande numero de pinturas douradas pelas camaras, a frescura e longissimos espaços por onde a vista se estendia, de huma parte sobre aquella grande alagoa que lhe ficava ao pé, continuamente navegada de diversas embarcações, e da outra campos e varzeas a perder de vista entressachados com fortalezas e muitos logares e povoações, e sobre tudo a limpeza estranha em todo aquelle circuito.”304.
299 HJ, vol. II, p. 255.
300 “…retrocedeo por huma costa abaxo levou debaxo de sy passante de 150 homens, os quaes logo esmagou e fez em
posta.”, ibidem.
301 SARAMAGO, 1998: p. 247. 302 SARAMAGO, 1998: p. 243. 303 SARAMAGO, 1998: p. 261. 304 HJ, vol. II, pp. 255-56.
De maravilhar era a velocidade com que a obra foi concluída, em menos de três anos, a extraordinária limpeza e primor desta construção, em que até as cavalariças, com os cavalos dentro, estavam “…tão limpas que seguramente podião servir de camaras de recreação.”, as “…ruas mui compridas, espaçozas e largas, varridas duas e tres vezes cada dia” 305, e mesmo os seus criados
tinham bom aspecto. Esta ânsia pelo asseio esmerado é uma característica importante e recorrente da personalidade de Nobunaga, que ordenava a perfeição de todas as suas obras, quer fortalezas, quer os caminhos que ligavam as cidades. O narrador descreve estes paços como uma utopia tornada realidade, como se Nobunaga tivesse concretizado a edificação de uma cidade ideal na terra, livre de qualquer imperfeição ou sujidade, em que o saneamento é levado ao limite, varrendo-se as ruas várias vezes por dia e, se mesmo as cavalariças eram tão imaculadas que os fidalgos podiam ali conviver, uma imagem que pode conter, talvez, alguma hipérbole da parte do narrador, imagine-se a perfeição paradisíaca das câmaras dentro da fortaleza.
Azuchi era uma cidade mutável, em constante crescimento, a sua fama e a dos paços de Nobunaga chegava a todos os pontos do país, estimulando a curiosidade de muitos que caminhavam vários quilómetros de propósito só para a visitarem306. Para “…ter os reinos que tinha conquistados mais seguros…”307, todos os senhores principais ao seu serviço foram convidados a residir com as
respectivas famílias nesta cidade, no entanto, a maioria fê-lo não por vontade própria, mas por agradar ao Senhor da Tenca308, pois, se quisessem permanecer na sua graça, não tinham outra escolha senão aceder ao seu pedido de construir ali as suas casas, se o não fizessem, podiam cair no desagrado do seu Amo, que desejava, além de vigiar os seus principais senhores tendo-os perto de si, aumentar o crédito da sua cidade com as residências opulentas e magníficas da nobreza do país, que procurava, cada fidalgo, construir os melhores edifícios, dignos da cidade de Nobunaga.