Mas, se o Eu consiste numa multiplicidade interna de diferentes Eus, o problema agora é determinar: como se encontra organizada essa multiplicidade? Como diz Neville: «I do not know myself sometimes, or how to measure and name and count out the grains that make me what I am» (W, 61). O que importa, pois, perceber é se existe ou não um Eu que «resuma» todos os Eus que o compõem, i.e., se existe, por assim dizer, um Eu que, tal como Rhoda diz, «possa perceber tudo a partir de uma altura suficientemente elevada»126. Em Evening Over Sussex, após ter sido referido o modo
como o Eu se desmultiplica internamente em vários Eus, V. Woolf procura dar conta de um movimento inverso de, se assim se pode dizer, convocação das diferenças à presença de um Eu: «I summoned them together. “Now,” I said, “comes the season of making up our accounts. Now we have got to collect ourselves; we have got to be one self» (DM, Evening Over Sussex, 13)127. O problema é: pode esse Eu ser encontrado?
Note-se que a pergunta «quem sou Eu?», apesar de se manter a mesma desde o início, foi sofrendo modificações quanto à forma de compreensão do «lugar onde» a sua
126 Cf. W, 177 «'If we could mount together, if we could perceive from a sufficient height,' said Rhoda, 'if we could remain untouched without any support – but you, disturbed by faint clapping sounds of praise and laughter, and I, resenting compromise and right and wrong on human lips, trust only in solitude and the violence of death and thus are divided.» O que está aqui em causa, mais uma vez, é, precisamente, a referência a um ponto de vista cimeiro a partir do qual se possa assistir à batalha sem estar a participar nela. A este respeito cf. Supra §6.3, p.68. Ora, o que acontece, segundo Rhoda, é que, pelo facto que marca a nossa não-indiferença às coisas, encontramo-nos sempre já atravessados no meio da «batalha» e, por isso, sujeitos a estas forças agonísticas internas que nos impedem de alcançar uma posição «cimeira» ou «neutra» do Eu. Como nota Mark Hussey em The Singing of the Real World: The Philosophy of
Virginia Woolf's Fiction, Ohio State University Press, 1986, p.22 «If there is a unique self to be
identified – a 'summing-up' of the person – it must be separated from its intervolvement with the world. However, such an operation may well lead to nothing».
127 A este respeito, cf. também, por exemplo, DM, Street Haunting: A London Adventure, 24 «Is the true self this which stands on the pavement in January, or that which bends over the balcony in June? Am I here, or am I there? Or is the true self neither this nor that, neither here nor there, but something so varied and wandering that it is only when we give the rein to its wishes and let it take its way unimpeded that we are indeed ourselves? Circumstances compel unity; for convenience sake a man must be a whole. The good citizen when he opens his door in the evening must be banker, golfer, husband, father; not a nomad wandering the desert, a mystic staring at the sky, a debauchee in the slums of San Francisco, a soldier heading a revolution, a pariah howling with scepticism and solitude».
resposta pode ser procurada. Neste momento, aquilo que sabemos é que o Eu é composto por uma multiplicidade interna de Eus que correspondem, todos eles, a possibilidades expressivas de si mesmo. Assim, sabemos que é «em si» que o Eu se pode procurar, porém não nos podemos esquecer de que este «em si» consiste, precisamente, em diferentes fragmentos de significado que resultam da forma como ele se atravessa nos Outros. Tendo isto em consideração, que é que acontece quando o Eu se procura a si mesmo «dentro» si?
But a second of introspection had the alarming result of showing him that his mind, when looked at from within, was no longer familiar ground. He felt, that is to say, what he had never consciously felt before; he was revealed to himself as other than he was wont to think him; he was afloat upon a sea of unknown and tumultuous possibilities. (ND, 303)
O que acontece é precisamente o contacto com a indeterminação que resulta da «multiplicidade tumultuosa e desconhecida de possibilidades» de si. O que conduz, consequentemente, tal como é exposto em Orlando, ao facto de o Eu se ver a «chamar por si» no «meio de si»:
So Orlando, at the turn by the barn, called ‘Orlando?’ with a note of interrogation in her voice and waited. Orlando did not come.
‘All right then,’ Orlando said, with the good humour people practise on these occasions; and tried another. For she had a great variety of selves to call upon, far more than we have been able to find room for, since a biography is considered complete if it merely accounts for six or seven selves, whereas a person may well have as many thousand. Choosing then, only those selves we have found room for, Orlando may now have called on the boy who cut the nigger’s head down; the boy who strung it up again; the boy who sat on the hill; the boy who saw the poet; the boy who handed the Queen the bowl of rose water; or she may have called upon the young man who fell in love with Sasha; or upon the Courtier; or upon the Ambassador; or upon the Soldier; or upon the Traveller; or she may have wanted the woman to come to her; the Gipsy; the Fine Lady; the Hermit; the girl in love with life; the Patroness of Letters; the woman who called Mar (meaning hot baths and evening fires) or Shelmerdine (meaning crocuses in autumn woods) or Bonthrop (meaning the death we die daily) or all three together—which meant more things than we have space to write out—all were different and she may have called upon any one of them. (O, 294-295)128
128 A mesma ideia encontra-se presente num passo de Bernard em The Waves: «But now let me ask the final question, as I sit over this grey fire, with its naked promontories of black coal, which of these people am I? It depends so much upon the room. When I say to myself, “Bernard”, who comes?» (W, 60).
Apesar de V. Woolf não ser clara quanto à possibilidade de encontro de um Eu que resuma todos os outros Eus (um Eu que «integre»), há algo que parece claro: a sua existência. De tal modo que o que acontece é o Eu lidar consigo mesmo na segunda pessoa, como um Tu que, apesar de desconhecido (pois o Outro é sempre um desconhecido), se encontra de cada vez presente e que não deixa de aparecer quando é chamado:
But you understand, YOU, my self, who always comes at a call (that would be a harrowing experience to call and for no one to come; that would make the midnight hollow, and explains the expression of old men in clubs – they have given up calling for a self who does not come), you understand that I am only superficially represented by what I was saying tonight. Underneath, and, at the moment when I am most disparate, I am also integrated. (W, 57)
§9 Identidade atravessada no tempo
A tentativa de circunscrição (e consequente definição) do «território» da identidade conduz-nos, agora, à consideração de uma outra determinação ou propriedade que é constitutiva e, por isso, fundamental – a temporalidade. Assim, para podermos traçar os limites ou as «fronteiras temporais» do «território» da identidade, é necessário compreender, por um lado, o modo como a identidade se encontra presente no tempo e, por outro lado, o modo como o tempo se encontra presente na identidade. Quer dizer, o fenómeno da temporalidade da identidade não diz respeito apenas ao facto de a identidade estar no tempo (i.e., encontrar-se, como tudo o mais, no tempo), mas também ao facto de, como veremos, a própria identidade ser tempo. Para além deste aspecto estrutural da identidade – estar no tempo e ser tempo –, caracteriza-a ainda o facto de se relacionar com o tempo. Ou, mais precisamente, existe uma relação de não-indiferença da identidade relativamente àquilo em que ela é/está. Neste sentido, o que se procurará em seguida analisar são as diferentes formas em que se constitui, por assim dizer, o fenómeno de atravessamento da identidade no tempo.
Este é um problema que está longe de ser simples. Desde logo, porque o que está em causa na consideração do tempo é também um problema de identidade e diferença. E isto percebe-se a partir do seguinte: em abstracto, a noção de tempo remete para uma
ideia de movimento em que o que está em causa é uma mudança ou passagem, i.e., aquilo que estava ou era deixa de estar ou deixa de ser para dar lugar a algo de outro. Como tal, o tempo implica uma alteração. Essa alteração é susceptível de se manifestar de diferentes modos – pode ser visível, exterior, espacial ou, pelo contrário, não ser visível, ser interior e não implicar necessariamente qualquer tipo de deslocação espacial. Mas, independentemente do modo como se expressa a alteração, aquilo que parece ser evidente é que não conseguimos pensar o tempo sem ter implícita uma qualquer forma de referência a ela (à alteração). E é na base desta noção que surge o problema de
identidade e diferença. Pois, para que seja possível falar em alteração, o nosso ponto de
vista tem necessidade de fazer uso da representação de «algo» que se constitua como o «suporte» dessa mesma alteração (e que se reconheça, portanto, como sendo «aquilo» ou «aquele» que sofreu essa alteração). Por outras palavras, só existe alteração, se se reconhecer que há «algo» que permanece como «sujeito» disso onde a alteração se dá – que permanece, de certa forma, o mesmo, apesar de ser o mesmo de forma diferente (em virtude da alteração sofrida).
Ao considerarmos o «território» da identidade, a partir da apresentação que naturalmente temos da sua estrutura temporal, aquilo que de imediato verificamos é, por assim dizer, a sua natureza ambígua. Por um lado, a identidade «prolonga-se» no tempo, mas, por outro lado, ela «modifica-se» nele. Ou seja, o «território» temporal da identidade possui a peculiar característica de permanente alteração de si. A peculiaridade desta característica encontra-se no facto de, paradoxalmente, sermos forçados a reconhecer que a alteração de si consiste, em certa medida, numa
permanência de si. Por outras palavras, isto corresponde ao seguinte: em diferentes
momentos do tempo a mesma identidade é diferente (sendo que, e isto é determinante, é
diferente, sem deixar de ser a mesma).
A partir desta aporia, desenvolve-se todo um complexo de problemas relativos à apresentação temporal da identidade. Esses problemas complicam-se pelo facto de se reconhecer que o tecido temporal da identidade é, na verdade, composto por uma multiplicidade de «fios temporais» (de naturezas diferentes) que, como veremos, se «entretecem» confusamente entre si. Deste confuso enleamento de diferentes tempos resulta uma dificuldade de marcação dos limites temporais que fazem parte do
«território» da identidade129. Neste sentido, o que nos importa agora, tendo em conta a
clarificação daquilo que se acha implicado na temporalidade humana, é tentar «desfiar» (de modo a compreender) esta complexa «teia» de «fios temporais» que se encontram presentes na constituição do «território» da identidade.
I feel myself woven in and out of the long summers and winters that have made the corn flow and have frozen the streams. I am not a single and passing being. My life is not a moment’s bright spark like that on the surface of a diamond. I go beneath ground tortuously, as if a warder carried a lamp from cell to cell. My destiny has been that I remember and must weave together, must plait into one cable the many threads, the thin, the thick, the broken, the enduring of our long history, of our tumultuous and varied day. (W, 155)
Importa ainda referir que o problema do tempo, na sua relação ao problema da identidade, é transversal ao corpus woolfiano. É um problema que se encontra presente nas suas obras, quer de modo explícito quer de modo implícito, tanto no que diz respeito ao conteúdo quanto no que diz respeito à forma (que se manifesta no modo como se acha construída a própria narrativa)130. No entanto, embora a consideração do tempo
129 Assinale-se, de passagem, um aspecto que terá de ser considerado um pouco mais detidamente na continuação: a forma como a temporalidade significa como que uma extensão e multiplicação de tudo aquilo que vimos nas análises precedentes. Todos os aspectos anteriormente considerados poderiam ter lugar num único instante ou numa duração muito breve. Por outras palavras, toda a multiplicidade de cruzamentos não-territoriais que percorremos (e toda a amplitude de que se revestem) caberia num mesmo tempo ou num tempo breve. Mas a extensão temporal significa como que uma multiplicação dessa amplitude – de certo modo análoga ao trânsito de uma multiplicidade bidimensional para uma multiplicidade tridimensional. Como se no instante coubesse toda a multiplicidade bidimensional do «mundo» e esta sofresse uma extraordinária ampliação, se assim se pode dizer, no mundo de mundos a que a sucessão temporal corresponde.
130 De modo consensual, Jacob’s Room é considerada, pelos críticos, a obra a partir da qual o problema do «tempo» assume a forma de uma preocupação central na composição estrutural da narrativa. Quer dizer, em Jacob’s Room, há uma preocupação, por parte de V. Woolf, quanto ao modo como a narrativa reflecte, na sua estrutura (e não apenas na sua forma), uma peculiar forma de relação do ponto de vista ao tempo. Nesta obra, V. Woolf começa por «romper» com os padrões tradicionais que se fixam numa apresentação linear do tempo. De tal modo que se torna visível o contraste entre, por um lado, a apresentação do tempo enquanto «sucessão linear» que marca os acontecimentos (que os encadeia uns nos outros) e, por outro lado, a apresentação fragmentada e confusa do tempo que as personagens têm na relação que estabelecem com ele. Ou seja, em Jacob’s Room V. Woolf começa a pôr em evidência (ao nível da organização da própria narrativa) o contraste entre o modo como o tempo (objectiva e linearmente) se «desenrola» fora de nós (ou como nós representamos que o tempo se «desenrola» fora de nós) e o modo como a nossa apresentação do tempo (subjectiva e fragmentada) o faz «desenrolar-se» em nós. Todas as obras seguintes, apesar de variarem entre si quanto ao modo como expressam este problema, não deixam de manifestar a preocupação de V. Woolf em encontrar, de cada vez, uma forma que melhor se adeque a exercer esta função.
Em traços muito gerais, podemos desde já identificar o modo como se reflecte, pelo menos superficialmente, a importância da presença do tempo nas obras de V. Woolf. Encontramos, por exemplo,
The Hours como título provisório para Mrs Dalloway; Time Passes como título do capítulo intermédio de To the Lighthouse; The Years (que acompanha diferentes gerações de uma mesma família); Between the
seja uma preocupação estrutural e essencial na narrativa woolfiana, não podemos dizer que V. Woolf tenha, por assim dizer, uma única visão ou concepção do tempo. Na verdade, mais do que excluir possibilidades, aquilo a que assistimos é a uma permanente exploração de diferentes «vias» que se adequem a expressar as diferentes formas a partir das quais a identidade se relaciona ao fenómeno do tempo. E, como se verá, isto não significa apenas uma idiossincrasia do modo de escrever (da técnica narrativa, etc.) de Woolf, mas algo de decisivo para a compreensão do próprio fenómeno da temporalidade (e da constelação de fenómenos que constitui a temporalidade).