A sua residência na província de Mino não é descrita com menos entusiasmo do que as restantes, abundando os elogios e os adjectivos no grau superlativo. Encontrava-se cercada de “…pedras toscas de estranha grandeza…”323, logo no primeiro pátio estava um “…theatro feito de
excellentissima madeira para se reprezentarem nelle autos e festas publicas…”, ladeado por 317 HJ, vol. III, p. 257. 318 HJ, vol. III, pp. 257-58. 319 HJ, vol. III, p. 258. 320 Ibidem. 321 Ibidem. 322 HJ, vol. III, p. 259. 323 HJ, vol. II, p. 307.
“…duas arvores grandes de frutta para fazerem sombra.”324, e a primeira sala que surgia após se
subir “huma larga” escadaria é comparada, superlativamente, ao “Sabayo de Goa”325, e continha
miradouros com vista para a cidade. Todas as salas, passagens, balcões da residência “…erão feitos por tal artificio que, aonde parecia não haver nada e que aquelle era o termo, alli se descobria huma camara fresquissima e (…) outras muito curiozas.”326, havendo sempre uma luz ao fundo de um
corredor escuro. Ouro puro e pinturas adornavam as câmaras dos paços (“…20 camaras todas ornadas de pinturas e beobus d’ouro, e dizião que a cravação de alguns delles (…) era de ouro puro sem mistura de outro metal.”), as varandas eram feitas de “madeira excellentissima”, as tábuas dos seus pavimentos “…reluzião de maneira que parecião espelhos…”, graças, certamente, ao asseio esmerado que tanto importava a Nobunaga, e nas suas paredes estava representada as “…historias da China e Japão pintadas sobre campo d’ouro.”327, parecendo um exagero esta extravagância de
cobrir tudo de ouro, algo que apenas causa deslumbre ao narrador, ofuscado pelo brilho e pela cor dourada. Também são descritos os aposentos das damas, que eram “…muito mais aventajados no primor e feitio…”, resguardados por “…cortinas feitas de borcado da China…”328. No exterior
encontravam-se “…4 ou sinco jardins fresquíssimos…”, onde havia “…agua de hum palmo de altura (…) seixos limpissimos pequeninos e muito escolhidos e area muito branca, e muitos pexes fermozos de diversas especies…”, e tudo isto a juntar à “…muita diversidade de flores e hervas que nascem no meio d’agua em pedras.”, às “lindas fontes”, a “…toda a muzica de passarinhos e fermozura de aves em outros tanques de agua fresquissimos.”, e aos “…logares de propozito mui quietos e sem nenhum ruido nem perturbação de gente, solitarios e muito amenos.”329, afiguram um
verdadeiro espectáculo paradisíaco, repleto de extrema beleza e tranquilidade, assemelhando-se, ou mesmo excedendo, os Jardins do Éden. Para servirem em sua casa, Nobunaga tinha ao seu dispor uma vasta quantidade de criados, todos eles “…fidalgos, filhos dos principaes senhores de diversos reinos, de idade de 12 athé 17 annos…”330, que apenas trabalhavam nas primeiras salas, pois, dentro
da residência, apenas serviam mulheres e os seus filhos.
Apesar de toda esta beleza e sumptuosidade, aquilo que mais assombrou o narrador sobre estes paços foi “…o estranho modo e maravilhoza promptidão com que este rey hé servido e venerado dos seos, porque somente fazendo sinal com a mão que se vão, de tal maneira desaparecem e vão huns por riba dos outros como se fossem fugindo de hum leão bravíssimo…”, quando chamava por um criado, “…respondem de fora cento…”, e quando levavam um recado seu,
324 HJ, vol. II, p. 307.
325 “…se entra em huma sala maior que a do Sabayo de Goa…”, ibidem. 326 HJ, vol. II, p. 308.
327 Ibidem. 328 Ibidem. 329 Ibidem.
iam “…voando ou ferindo fogos.”331, querendo todos agradar ao seu Senhor sem divergir nem um
pouco da sua vontade, temendo incorrer na sua fúria, comparada à de um “leão bravíssimo”. Os grandes fidalgos, que “…no Miaco valem muito…”, ao tratarem com Nobunaga, humilhavam-se a seus pés, “…com o rosto prostrado em terra e não há quem lhe alevante os olhos…”, e aqueles que queriam negociar com ele, não podiam ir ao seu encontro, “…porque subir alguem à fortaleza hé preceito rigurozo e prohibição inviolavel e a mui poucas pessoas o concede.”332, era necessário
aguardar que Nobunaga descesse, por mais tempo que a espera levasse.
A descrição destes novos paços na província de Mino, a de todos os edifícios por ele mandados construir e a das suas acções, é comparada à própria personalidade de Nobunaga, que tinha “…por averiguado (…) que não há outra vida nem couza alguma fora do vizivel, sendo como hé riquissimo, procura que não haja couza em que algum outro rey o sobrepuje, antes elle pertende exceder a todos para mostrar sua magnificencia, e assim determinou, para recreação sua e deleite, fazer estes paços em que tem gastado muito dinheiro…”333. Esta passagem demonstra uma
importante parte da filosofia de vida de Nobunaga, que acreditava não existir nada para além da morte e, por conseguinte, procurava fazer em vida tudo ao seu alcance para elevar o seu estatuto ao grau máximo da ostentação e da magnificência, querendo sobrepor-se a todos os reis não apenas do seu país, mas de todo o mundo.
IV.3.4.ARIQUEZA
Nobunaga foi “...segundo affirmão, o mais prospero, rico e poderozo principe de todos os que lhe precederão em Japão…”334. Proprietário de uma extraordinária fortuna (“...ouro e prata que
tinha em muita quantidade...”), com a qual construía paços e fortalezas sumptuosos, tinha um gosto especial em coleccionar objectos raros e valiosos que “...lhe hião a cahir na mão...”, indicando como tinha facilidade em reunir estes artefactos, e recebia frequentemente uma quantidade assaz elevada de presentes preciosos, vindos de toda a parte do Japão, ou mesmo do exterior, tais como “…falcões e asores que lhe mandavão dos reinos de Saicocu, que são os da parte do sul, e os cavalos excellentes que lhe trazião do Bandou…”335. Possuía, na sua colecção, inúmeros objectos
inestimáveis da Índia, China, Corai, “...e de outras partes remotas...”336, espadas, no Japão de
grande estimação337, diversas raças de cavalos, e ainda “...peças lindas e curiozas, de que os homens 331 HJ, vol. II, p. 309. 332 Ibidem. 333 HJ, vol. II, p. 307. 334 HJ, vol. II, p. 256. 335 Ibidem. 336 Ibidem.
se agradavão e podião nellas deleitar-se...”338. De todos os artefactos que tinha, nutria um gosto
especial pelas suas peças de chanoyu339, que quanto mais antigas, mais valor continham, e em sua posse teve grande parte das “melhores e mais afamadas”340, ora porque lhas ofereciam ora porque as
comprava por muito dinheiro. Nobunaga gostava especialmente de objectos estrangeiros, vestuário e artefactos vindos de Portugal e da Índia, ou, pelo menos, isto era o que os rumores apregoavam341, e as pessoas que queriam fazer-lhe mercês ofereciam-lhe este tipo de presentes, em quantidades e variedades surpreendentes, sem se compreender “…donde a estas partes tão remotas podia vir tanta multidão de peças…”, mostrando quanto o comércio dos japoneses com os portugueses se havia desenvolvido, e davam a Nobunaga “…vestidos de Europa, capas de grã, gorras e sombreiros de veludo com suas plumas, e medalhas d’ouro com a imagem de N. Senhora, peças de cordovão, relogios, pelicas requissimas, vidros de Veneza cristalinos mui ricos, damascos, setins e outras diversas pessas da India, de que enchião muitos e grandes caxões.”342, com os quais se deleitava.
Este prazer que Nobunaga tinha em coleccionar objectos exóticos, novos aos seus olhos e aos dos seus compatriotas, demonstrava como era um homem maior do que o seu recatado e periférico país, como se interessava pelo mundo em seu redor que se lhe ia afigurando aos poucos e que era, na sua nação, representado pelos padres e por estas peças que o comércio com o exterior trazia, exibindo deste modo o seu carácter único e especial, ao usar e coleccionar objectos raros no seu país e que não eram utilizados por quase mais ninguém, o que lhe conferia um aspecto exótico e diferente.