A frase lapidar “Macau é mais do que um lugar, é uma constelação de sentidos expressos ao longo de séculos, em diferentes línguas, na escrita de autores que ali nasceram, viveram ou passaram”64, também elucida bem a experiência de Maria
Ondina Braga. Aliás, é opinião de Lourdes Câncio Martins65bem como de Ana Paula
Laborinho66que quem esteve em Macau não esquece Macau quando regressa, o que
podemos verificar também com a nossa escritora bracarense.
Num colóquio, Michela Graziani, investigadora de Florença que na sua Tese de Doutoramento se debruçou sobre a obra de Maria Ondina Braga, salientou que «o escritor que está de passagem pode oferecer: um olhar profundo e um conhecimento diferente da literatura desse local. Um olhar profundo com uma visão ocidental a refletir a imagem da China, e de Macau”. 67A imagem também é um
espelho, através do qual, reflete o próprio ocidental e um novo oriental já filtrado pelo ocidental.
A relativamente curta estadia de Maria Ondina Braga em Macau permitiu-lhe, através da escrita, falar da miscigenação das gentes do território, algo que permanece até aos dias de hoje, e dá à sua obra uma pungente intemporalidade. Macau é um espaço de encontro de muitas e desvairadas gentes, desde o dia em que os portugueses e os chineses, por força de circunstâncias mais adivinhadas do que provadas, tiveram de comunicar. A cultura de Macau para os europeus é, com certeza, uma cultura oriental, entretanto para o povo chinês, é apenas uma cultura oriental misturada com outras ocidentais, é um lugar de mistura e coexistência de várias culturas.
MOB foi uma escritora e viajante inquieta e inquietamente em trânsito pela escrita e pelos espaços da portugalidade, falando-nos com uma subtileza única dessa atração pelo enigma de Macau.
A cidade foi-se alterando aceleradamente. Por isso, enquanto a fugacidade e o provisório se revelavam como conceitos simbolizadores da rutura iminente, emergiram diversos textos, entre os quais os de Maria Ondina Braga, em que era visível uma procura de rememorações que procuravam resistir à voracidade do tempo. Neste fluxo de sucessivas rememorações, Macau surge nos textos como um local privilegiado de diferentes identidades culturais. Este fenómeno aconteceu em Macau e Hong Kong.
A cultura do interior da China é muito característica, e evoluiu também com o feudalismo e posteriormente com o comunismo. Macau também teve influências desta China interior. Com a colonização de Portugal, chegou a cultura ocidental, mas esta não teve poder suficiente para conseguir transformar Macau numa cidade de cultura ocidental.
O que apareceu foi apenas o fenómeno da coexistência. Os descobrimentos e colonização dos portugueses foram no sentido de aprender a conviver com os nativos, e até a casar com eles, e nunca teve por objetivo a sua coação.
Em conclusão, os portugueses em Macau descreveram a imagem da China um pouco diferente da imagem da China do interior. A autora Maria Ondina Braga foi um pouco diferente, porque ela não esteve apenas em Macau.
A escritora que viveu outros deslocamentos sucessivos (Angola, Goa, Hong Kong, Beijing, além de Macau) enunciou a viagem como uma forma possível de obter diferentes consciências do universo. Diferentes consciências incluindo a do povo chinês, do povo indiano, do povo goês etc. Nos seus percursos, escritores e poetas como MOB foram produzindo um inventário de referências a Macau, sobrepondo vivências de cidades e tornando-se cúmplices de outras culturas.
A sua experiência aponta, pois, para a diversidade cultural que a literatura em língua portuguesa pode abranger, motivando um questionamento permanente acerca da sua função na interação comunicativa multicultural. É também por isso que retomo a afirmação inicial de que Macau excede em significado o nome de um lugar e a sua história para se converter " em constelação de sentidos expressos ao longo dos séculos, em diferentes línguas, na escrita de autores que ali nasceram, viveram ou passaram como MOB.
Nesse sentido, a Literatura de Macau evidencia algumas diferenças da Literatura Portuguesa, especialmente quanto à temática, à qual não é alheia a influência da cultura ocidental que se faz sentir, a partir de meados do século XVI, com a chegada dos portugueses.
Templos, casas de chá, farmácias, moradias, jardins, constituem marcas do universo cultural chinês. Aliás, neste território chinês, na altura sob administração portuguesa, outras culturas provenientes de comunidades da Ásia, da Europa e de África passaram a integrar o seu universo. Por isso, a sedução de Macau está nessa mistura de pessoas, povos, hábitos e construções. Exemplificamos melhor este aspeto: um templo chinês, um pagode, um convento, uma mesquita, uma simples casa chinesa ou um palácio português formam um conjunto híbrido onde se interligam as mais
variadas culturas e formas, que, cristalizando ao longo de quatro séculos, transformaram aquele organismo urbano num acontecimento único.
Notas de Rodapé de 4.2
64. 周宁,中国作家,比较文学,写于 1999 年,北京,34 页
(Tradução:Zhou Ning, Autor Chinese, literatura comparada , 1999,beijing, p34)
65. http://www.comparatistas.edu.pt/investigadores/membros-integrados/maria-de-lourdes-cancio- martins.html
66https://idi.mne.pt/pt/39-curriculos/282-ana-paula-laborinho.html
67 Michela Graziani, tese de Doutoramento analisa a obra Maria Ondina Braga, 2003
4.3 O tipo das personagens da sua obra
Quatro séculos depois de Fernão Mendes Pinto, uma escritora de voz singular descobriu a China milenária - a sua sabedoria, as suas tradições e os seus mitos. Encontrou-a num lugar de convergência, Macau, onde se debatiam e se ajustavam duas almas coletivas, dramatizando uma extensa galeria humana: velhas de pés atados, médicos de práticas escusas, vendedores de produtos exóticos, adivinhos, refugiados, mulheres sem rumo - figuras entre o real e o sonho, inquietas, trágicas, inesquecíveis.
O presente capítulo vai analisar o tipo das personagens desta obra. Através do tipo das personagens chinesas descritas para conhecer a imagem da China, como foi descrita pela autora Maria Ondina Braga.
Através da descrição das personagens chinesas, transparece o modo como o povo chinês trata das coisas, e forma-se uma imagem que se reflete nos próprios ocidentais. As descrições das personagens chinesas são como um espelho, um lado reflete a imagem da China, o outro lado reflete os próprios ocidentais. Isso já foi mencionado atrás, faz muito sentido para conhecer a imagem do outro, conhecer-se a si próprio. Cultura comparada, literatura comparada, tudo faz parte deste espelho. Somos um espelho, mas também somos uma imagem no espelho. O poeta “Molana Jalaluddin Rumi disse que o espelho de mim está a refletir-te a ti, naquele momento, eu também sou tu. Há muitos filósofos a repetirem esta opinião. Tu existes por isso eu também existo68
A análise do tipo de personagens deste livro, conto a conto, vai mostrar um novo panorama.
O quadro esquema é um resumo do tipo de personagens deste livro.
Conto Designação da
personagem
Descrição Que Imagem
Reflete A imagem é positiva ou negativa A China Fica ao Lado Doutor Yu Avó Neto de avó Doutor Yu moderno, elegante, Avó era chinês exilado, Uma imagem Doutor Yu apresenta uma nova imagem da China, outra imagem da avó apresenta uma imagem da China tradicional. A imagem do Doutor Yu é positiva. A outra imagem da avó é negativa. A neta da avó foi fazer um aborto que ocasionou estas duas
imagens. Os Espelhos Miss Carol uma mulher
sensível e frágil, triste, solitária, pobre, misteriosa Ela era de mestiça de pai inglesa e mãe chinês. A imagem refletida é uma mescla entre o novo e o tradicional. Uma imagem um pouco negativa ódio de Raça Tai-ku Tai-ku Inocência e fidelidade de mulher chinesa tradicional, feudal e religiosa. Uma imagem de mulher chinesa tradicional Negativa O Homem de Meia Vida O homem Homem viciado em ópio Uma imagem de um homem doente Negativa
Fong-Song Sam-Ku Mulher
tradicional chinesa Uma imagem de uma mulher tradicional chinesa Negativa
O filho do sol Francisco O filho mestiço de uma chinesa e de um português Uma imagem de uma sociedade feudal que não aceita o Negativa
filho mestiço
Lázaros A-Mou Mulher
chinesa, dorida e angustiada Uma imagem de mulher triste Negativa O homem do sam-lun-chê Chenong um homem tradicional chinês, com um filho adotado, de feições mistas de chinês e europeu, e de pele clara Uma imagem de convivência cultural com o Ocidente Negativa A magia Menina Vong kei Menina que recorreu à magia para ter um filho em vez de uma filha Uma imagem feudal Negativa
Morte A avó Mei-Lai Uma mulher chinesa indigente, muito trabalhadora Uma imagem da mulher tradicional chinesa Negativa
Doida Uma mulher Uma mulher
em desgraça Uma imagem da mulher tradicional chinesa Negativa
4.4. Analisar os vários tipos das personagens
O primeiro conto é “A China Fica ao Lado”, que dá o título ao livro. Este conto mostra duas imagens da China, uma imagem da China antiga, outra da China nova, deixando uma pergunta ao protagonista - poderia voltar à China ou ficar ao lado da China? Uma nova imagem da China é representada pelo doutor Yu, as seguintes descrições são do doutor Yu:
"Bem que os chineses educados eram discretos. O doutor Yu !... Então muito jovem o
doutor Yu, mas já a caminho da fama. O doutor Yu entrou. Homem de mais de sessenta anos, algo curvado, rosto sério. Por momentos ela pensou que se tinha enganado. Outro doutor Yu? Onde estava a elegância, a riqueza de que a avó falava? O doutor Yu não queria saber coisa alguma. Era chinês e exilado. Aceitava tudo, até o que a outros poderia parecer inaceitável."69
O Dr. Yu, homem marcado pelo tempo e pela mudança do sistema político chinês foi um homem elegante, rico e atencioso, dono de uma maternidade de luxo, onde os instrumentos clínicos eram moderníssimos para a época.
Por outro lado, numa imagem da China antiga, é descrito o seguinte sobre a avó e a recordação dela:
"Era a primeira vez que chorava desde que deixara a casa de seus maiores, desde
aquela noite de infância em que os soldados haviam podido ouvir os gritos de dor da avó por entre as gargalhadas dos militares. Pobres de pés estropiados ! Tinha chorado justamente por isso. Um orgulho, essa avó de sapatinhos de cetim no pezinho de fada. Última coluna da mítica, venerável ancestralidade, despedaçada sem dó num ímpeto de mãos brutais. Sim, fora pelos pés da avó que então chorara. Aquilo era como profanar o templo, como desonrar os mortos. Com o desligar dos
pés da anciã, instintivamente ela sentira não apenas o ruir do seu belo mundo de menina, mas o aviltamento de toda uma tradição....nessa noite a avó morrera pateticamente e, com a avó, a China de antanho....A avó agarrada a antigos preconceitos, constantemente a falar de nomes que já não existiam....Algumas avós vendiam as netas a chineses ricos, a marinheiros bêbados, a barracas de feira.."70
Na imagem descrita da avó, o termo fulcral é: pés estropiados! Agora, é pobre, curvada, com rosto sério, indiferente ao meio que o circundava, apesar de simpático e atencioso, o que é visível na observação da protagonista quando rememora para si. Assim surge uma forte comparação entre a China tradicional e a nova China. No século XX, em 1945 foi estabelecida a República na China. No final do século XX, perdurava a geração que nasceu no início do século XX em convívio com as novas gerações nascidas, entretanto. A China estava a mudar, e na narrativa deste conto, a mudança pode ver-se quando a neta vai fazer um aborto. É como se esta personagem simbolizasse a transição da Velha China para a China moderna.
Na obra, a personagem feminina que procura o doutor Yu para efetuar o aborto do " filho que enjeitara", encontra-se muito mais dilacerada pela perda da avó do que pela situação em si, rememorando essa fatídica noite, porque ela exprime esse sentir coletivo da população macaense. Veja-se a seguinte passagem:
"… E sem saber explicar, sem sequer entender, sabia que continuava a chorar pelos da avó. Tudo se resumia nessa noite. Toda a dor refletia essa dor. Mas não simbolizavam, afinal, os pés atados da avó ao longo e destino forçado da mulher? O mesmo destino que a tolhia, a angústia que nesse instante lhe subia à garganta?"71
O destino da mulher na sociedade é muito dependente dos homens. Uma mulher que praticou um aborto, como é que vai conseguir casar-se com um outro homem? Por isso, através desta descrição, percebe se que a autora já tinha observado que naquela altura da sociedade chinesa, a mulher tinha uma posição inferior na sociedade.
Aos olhos dos ocidentais, na China a mulher não tem liberdade nenhuma. A autora descreveu uma personagem feminina assim no texto, de certa maneira, parece que está apenas a descrever a imagem da sociedade chinesas, mas está também a protestar por a mulher não ter um tratamento justo.
Ao mesmo tempo, Portugal também foi uma sociedade que não teve a revolução industrial e onde o estatuto da mulher portuguesa na sociedade também era muito baixo. A autora, como autora feminina portuguesa, descreveu este tipo de personagem feminina no livro, também para chamar a atenção das mulheres portuguesas. Trata-se de uma descrição de outra cultura para evocar e manifestar insatisfação contra o seu próprio país.
Esta ação do aborto revela duas imagens da China. Poderia voltar à China ou ficar ao lado da China. No final do conto as duas imagens aparecem mais uma vez juntas, para salientar esta diferença:
"E via-se a caminhar por uma estrada sem bermas, os braços alongados até ao
infinito, levando consigo, triunfal, sem esforço, como se fossem penas de ave, toda a legião ancestral das ofendidas, de pés atados deslizando à flor da terra"72
Maria Ondina Braga, como autora, e também como soldado, estava a lutar contra o feudalismo que limitava os direitos das mulheres. A ficção de Maria Ondina Braga assume-se assim como a projeção literária de um universo muito pessoal, cheio de secretas intimidades e de sombras, que ela soube projetar através de uma prosa marcadamente poetizada, como no conto “Os Espelhos”:
"No entanto, toda a gente sabia que o quarto de Miss Carol era forrado de espelhos.
Não que ela alguma vez nos convidasse a entrar. Além do espelho do toucador, havia uma série de espelhos quadrados na parede, com iniciais ou com um nome em caracteres sínicos. A mim aquilo intrigava-me. Seria que todos os anos Miss Carol recebia de algum admirador um espelho de presente?"73
"(…) E nunca uma chamada telefónica para a professora de literatura inglesa. Nunca para ela anúncio malicioso da porteira "É a voz de cavalheiro". Nem correio na bandeja do bengaleiro, afora os avisos da congregação da Praia Grande com o seu carimbo em cruz. Nem visitas tão-pouco. E todos os anos mais um espelho na parede do quarto."74
Por aqui se vê que perpassa na obra essa dimensão poetizada e cativante da sua escrita, esse sentido oculto das coisas, dos lugares e das pessoas que mergulham no meio de simples intrigas, ou povoam o quotidiano com gestos simples e sinais de outros sonhos ou meras congeminações como as que efetua a narradora do conto, a propósito de Miss Carol:
"As vezes imaginava Miss Carol refletida até ao infinito nos espelhos paralelos - nua?
De casaco acolchoado? E chegava a crer que ele própria os comprava, os encomendava ao vidraceiro da Praça. Para nós julgarmos tratar-se de um presente do professor budista? para ela própria gozar a ilusão de dormir num quarto grande."75
Esta passagem é também um exemplo do psicologismo que acompanha a obra, na análise dos vários tipos humanos, preconizada na viagem interior que tanto narradores como personagens empreendem, nessa recolha silenciosa e solitária de familiaridades que reenviam sempre para a dimensão afetiva.
Assim, a imagética de Maria Ondina Braga constrói-se através da forma como a figura feminina da mulher é tratada e modelada, mas também através da sua postura cronista, abordando temas centrais e incontornáveis da literatura contemporânea como o amor, a solidão e o humanismo.
O bule, ao gorgolejar, vertendo o chá, poderá ser comparado aos olhos de Miss Carol que vertiam lágrimas por sentir tristeza, solidão, e até mesmo pobreza, como nos refere a narradora.
A construção do perfil psicológico foi assim acompanhada de determinados traços físicos. Após a primeira apresentação dos traços físicos da personagem, o narrador centra-se no lado psicológico, descrevendo-a como uma mulher temperamental, de estados de humor variáveis, dedicada ao seu trabalho de professora, ao estudo, e à música, tocando piano, sempre fechada em si própria, sem uma vida social e amorosa evidente. Parecia esconder um segredo:
"os ódios da professora de literatura eram longos e tortuosos como o corredor que
desembocava no pátio menor.(...) Eu perguntava a mim mesma se ela não teria família, relações, um namorado. Nunca a via sair à noite ou ir ao cinema com amigos. Sua vida passada na biblioteca, a dar aulas, a estudar piano. Deslocava-se três vezes por ano ao Conservatório de Hong Kong para exames no Conservatório. No entanto, toda a gente sabia que o quarto de Miss Carol era forrado de espelhos."76
Este último traço dá à personagem a tal característica misteriosa que lhe pode conceder a configuração de uma imprevisibilidade a confirmar, que constitui o centro do enredo, do conto. É a imaginação da narradora que nos introduz nesse clima de mistério que passa a rodear a personagem, através das várias conjeturas ou especulações sobre o significado de todos aqueles espelhos no seu quarto:
"E perguntava a mim mesma, se revestidas por completo as paredes de espelhos,
Miss Carol não começaria a espelhar o soalho e o teto, imergindo na loucura."77
É também através das suas observações que percebemos a evolução da personalidade da personagem.
"Depois de discutir com a diretora, Miss Carol ficava diferente - mais humana. Nessas
ocasiões, suspeitava de que ela seria até capaz de amar. Não seria o ódio a face oculta do amor."78
Maria Ondina Braga criou esta personagem, Miss Carol, com a imagem de uma mulher mestiça de chinesa e inglês, embora mal passasse dos trinta anos, dir-se-ia nunca ter sido nova.
Esta imagem é a de uma mulher moderna, com boa formação, que não tinha nada a ver com a mulher tradicional e que representava uma nova sociedade chinesa. Do ponto de vista de Maria Ondina Braga a China estava a desenvolver-se e as mulheres eram cada vez mais instruídas.
No entanto, as personagens descritas por Maria Ondina Braga são todas trágicas, tal como Miss Carol, cheia de mistérios e solidão e ainda a sombra de um pouco de tradição chinesa. Como se pode ver nas seguintes passagem:
"A hora do chá havia batata-doce. Descascávamos os tubérculos cozidos, quentes,
vermelho-escuros, com uma faquinha de osso, e embrulhávamo-los em açúcar. O chá, de jasmim, era amargo e aromático…"80
"Na inauguração, em vésperas de Natal, da nova sede da congregação Protestante
(salão elegante à Rua da Praia Grande) vestiu uma cabaia (Vestuário tradicional de Macau) “comprida, preta, sob um casaco de brocado. A melhor que as finalistas de há cinco anos atrás lhe haviam oferecido (cinco anos antes contavam-se entre as suas alunas as filhas dos chineses mais ricos da terra). Frisou o cabelo e estava bastante bonita."81
Como no primeiro conto estão presentes duas imagens da China, uma da China antiga e outra da China nova, pois havia o aborto a causar a rutura. Então, o segundo conto é uma mescla de imagens - China antiga versus China nova. Duas imagens nasceram da desta mulher, e da sua tristeza, pobreza, solidão, e não sei bem mais o quê - sei só que era feminina e isso incomodava.
Esta imagem seria assim não apenas da autora Maria Ondina Braga, porque ela própria era muito triste, pessimista e solitária. Também no orientalismo de Said, a imagem da China do século XX era normalmente descrita como uma imagem feminina e fraca.
imagem da China acabou por ser negativa, e com muito misticismo próprio do