O xogum, provavelmente pela inveja que sentia do poder de Nobunaga, maior do que o seu embora a sua posição fosse mais elevada, e, segundo o narrador, “…pela pouca experiencia que inda tinha do governo e ruim persuações de mancebos que o servião…”238, declarou guerra contra o
Senhor da Tenca apesar do grande favor que aquele lhe fizera ao colocá-lo no posto de que gozava naquele momento. Não havia dúvida de que esta rebelião era uma loucura, uma batalha que o
Cubosama não poderia vencer, um desrespeito pelo único homem que foi capaz de o auxiliar a
conseguir o cargo que desejava, e Nobunaga, depois de ainda tentar impedir o conflito ao dissuadir o xogum do seu intento e de Ashikaga perseverar na inimizade, “…cheio de ira e furor, determinou 234 HJ, vol. III, p. 335. 235 HJ, vol. II, 259. 236 Ibidem. 237 HJ, vol. II, p. 260. 238 HJ, vol. II, p. 397.
de vir sobre o Miaco com exercito formado para (…) pelejar com elle.”239, juntando, somente num
dia, um exército impressionante “…com dez ou doze [mil] de cavalo”240, que ainda se foi alargando,
algo “…fora de toda espectação…”241. Entretanto, o xogum preparava-se para ripostar “…na
fortaleza do Miaco, que ainda não havia dous annos Nobunaga lhe tinha feita de novo…”242,
frisando o narrador, com este comentário, a sua opinião de que o xogum agia sem juízo e de forma desrespeitosa contra quem o auxiliou, e o povo, que sabia “…quão assomado e iracundo era Nobunaga…”243, ficou com receio que este destruísse toda a cidade na sua fúria, portanto, num
instante, a cidade ficou deserta, sendo surpreendente o terror que Nobunaga suscitava nas pessoas, tal como acontecera quando suspeitavam que assolava o Sacai. O narrador descreve o caos que se abateu na cidade pela notícia do ataque como sendo uma “…couza temeroza ver a perturbação e revolta da cidade, porque de noite e de dia se não via nella mais que confuzão, acaretar fato; e as mulheres, meninos e velhos huns fugirem para os logares confins do Miaco, outras andarem pela cidade com os meninos no colo e pela mão chorando sem saberem onde se acolher.”244. O padre
Luís Fróis encontrava-se na capital no momento em que os soldados de Nobunaga atacaram e também ele sofreu pessoalmente a agitação de todos, fugindo da igreja e escondendo-se onde aos cristãos parecia mais seguro, carregando os objectos que podia, correndo sempre o risco de ser assaltado (“…os soldados (…) pelos verem andar vestidos com roupetas e barretes pretos, que erão differentes trajos dos japões e já fazião querena de os roubar.”), num ambiente de extrema confusão (“…os christãos como areados fora da cidade não sabião aonde podessem pôr o Padre: huns acenavão com a mão e dizião «venha para cá», outros «para colá», outros «espere aqui»; huns que corresse depressa, outros que me1hor era hir devagar.”)245. Quando, por fim, se conseguiram
esconder na casa de um homem honrado que teve compaixão do padre, uns soldados souberam-no e foram lá para os roubar, mas o dono da casa dissuadiu-os de tal intento ao invocar o nome de Nobunaga, afirmando que “…bem mal houvereis de passar todos se lhe fizereis alguma descortezia, porque como elle hé estrangeiro e Nobunaga e os fidalgos de sua Corte o favorecerem, não somente houvereis todos de ser por isso mui bem castigados, mas pelo mesmo cazo Nobunaga houvera logo de mandar queimar este logar, porque os moradores daqui o não deffendião».”246, e, com estas
razões, partiram logo os soldados, demonstrando este pequeno episódio como o nome de Nobunaga era temido e podia tornar-se numa eficaz arma de persuasão.
239 HJ, vol. II, p. 397. 240 HJ, vol. II, p. 399. 241 HJ, vol. II, p. 398. 242 HJ, vol. II, p. 397. 243 Ibidem. 244 HJ, vol. II, p. 398. 245 HJ, vol. II, p. 399. 246 HJ, vol. II, p. 401.
O padre Fróis, receoso do que lhe pudesse acontecer a si e à cristandade no meio daquela desavença, desejava ir visitar Nobunaga ao seu arraial para procurar, de novo, o seu apoio, mas tal era impossível porque ninguém tinha coragem de lá ir, com medo que a fúria do Senhor da Tenca pelo xogum se alastrasse aos cidadãos da cidade, por isso, enviou por um cristão um presente da parte do padre Francisco Cabral e uma carta, dos quais se alegrou muito Nobunaga por ser rara a oferenda e, também, por não ser comum receber visitas no arraial247, agradecendo de imediato a Fróis e respondendo à missiva de Cabral, apesar de se encontrar ocupado com um grave problema. Quando o padre enviou outro presente a Nobunaga, este, alegadamente, “…não festejou com menos alegria que dantes…”, quis saber pela segurança de Fróis e escreveu-lhe uma carta “…muito cortez e bem ensinada…”248, onde lhe explicou o motivo pelo qual declarara guerra à capital,
confidenciando, deste modo, ao jesuíta um problema seu político e confirmando o seu favor. Nobunaga esperou quatro dias por um acordo com o xogum, mostrando-se paciente e contido, refreando-se de atiçar o seu exército contra a capital, porém, como aquele não desistiu do seu intento, não aguardou mais e decidiu desencadear finalmente a sua autoridade e fúria perante o inimigo, “…e assim foi logo posto fogo na cidade, couza horrenda e mui temeroza ver.”249. Haviam
sido oferecidas mil e quinhentas barras de prata a Nobunaga para este poupar a cidade, mas o impiedoso Senhor da Tenca recusou o dinheiro, preferindo antes castigar o Cubosama pela sua ousadia e desrespeito ao fazer arder uma cidade quase inteira, a capital e centro do país, que “…ardeo desd’a meia noite athé o dia seguinte com todas as varelas, mosteiros, camis e fotoques, riquezas e cazaria que havia”, reduzindo tudo a cinzas, algo tão terrível e monstruoso que o narrador afirma “…que parecia hum espetaculo ou representação do dia do juizo.”250 e que prova como o
Senhor da Tenca não olhava a meios para atingir os seus fins, não poupando casas e vidas humanas apenas para atingir um único homem. Somente este acto atroz levou o xogum a negociar imediatamente as pazes com Nobunaga, perdendo a sua causa de forma humilhante, não lhe havendo servido de nada voltar-se contra o homem que o colocara no poder, que apenas demonstrou a sua clara superioridade, e rapidamente fugiu para outra fortaleza com medo de Nobunaga, que nunca o perdoaria e podia castigá-lo cruelmente, como costumava fazer a quem lhe provocava tais afrontas. O Senhor da Tenca seguiu imediatamente o seu inimigo à fortaleza onde se tinha refugiado, não querendo deixar passar a ofensa tão levemente, e depois de atravessar destemidamente obstáculos com êxito, como o narrador descreve251, não deixando que caminhos dificultosos se
247“Foi estranho o contentamento e gosto que disto levou Nobunaga (…) especialmente pela grande oportunidade e boa
ocazião com que lhe offereceo, porque de nenhuma pessoa em particular era então vizitado.”, HJ, vol. II, p. 402.
248 HJ, vol. II, p. 403. 249 Ibidem.
250 Ibidem.
251 “…fez passar a sua gente a cavalo por aquellas cavas, que era hum rapidissimo rio profundo e temerozo a nado…”,
interpusessem entre si e a sua presa, facilmente conquistou aquela fortificação por haver pouca resistência, consentindo, num desacostumado acto de piedade, que o antigo xogum partisse sem lhe fazer mal, ficando, deste modo, “…por senhor absoluto da monarquia de Japão, e prosperou com grandes victorias, poder e magestade 14 annos.”252.
Este episódio é demonstrativo da suprema autoridade de Nobunaga e, também, do seu espírito implacável e impiedoso nas batalhas. O xogum, descontente com a sua posição, na prática, inferior, e consciente de que Nobunaga tinha mais poder e autoridade, revoltou-se contra o seu patrono, esquecido do seu domínio militar, e aquele demonstrou claramente que, se havia conseguido colocar o homem de seu escolha no lugar de xogum, facilmente podia depô-lo se este não lhe servisse mais ou se, como sucedeu, deixasse de lhe ser fiel, destruindo implacavelmente metade do Miaco para consolidar a sua soberania, e o terror que o seu nome provocava, para que se soubesse o que aconteceria se a sua ira fosse suscitada pela deslealdade, lamentando o autor desta crónica “…as cruezas que [os soldados e ladrões] fazião nos homens, mulheres e meninos que achavão para lhes roubar o fato.”253, mas não parecendo incriminar Nobunaga por estes efeitos
secundários da guerra, e consolando-se por terem ardido os principais mosteiros budistas da capital mas por se terem poupado a igreja e as casas dos cristãos, terminando o narrador com uma nota de bem-aventurança em favor do Senhor da Tenca, que aniquilou o inimigo ingrato e elevou-se como o, de facto, supremo soberano do país, próspero e vitorioso.