PART 2: INDIVIDUAL CASE REPORTS
1.4 Results
A história do movimento litúrgico mostra que ele não existiria sem os mosteiros beneditinos, centros de estudo e irradiação da liturgia e da sua teologia. Dom Guéranger, iniciou esta caminhada com a renovação monástica, principalmente beneditina, no mosteiro de Solesme. Depois de a França ter passado pelo movimento chamado galicanismo, que quis elaborar uma liturgia própria, francesa, Guéranger se opôs a esta tentativa com todas as suas forças e lutou para que a liturgia romana fosse resgatada. Como diz Flores: “para ele a „hierarquia‟ queria dizer a Cúria romana.” 71
Guéranger era um inimigo declarado de toda forma de galicanismo e, vendo na unidade litúrgica com Roma a premissa indispensável para qualquer verdadeira vida eclesial, combateu não somente as chamadas liturgias neogalicanas, mas também qualquer resquício proveniente da antiga e venerável tradição galicana. 72
Sua vasta obra teológico-litúrgica fez com que nascesse um movimento litúrgico que continha, ao mesmo tempo, idéias conservadoras e revolucionárias. Estas contribuíram em muito para se chegar ao grande movimento litúrgico na Igreja.
6.2. Lambert Beauduin (1873-1960)
A partir da abadia beneditina de Mont-César na Bélgica, da qual era monge, Lambert Beauduin é o primeiro a se preocupar seriamente com a crise pela qual a liturgia passava no final do século XIX e início do século XX. Juan Xavier Flores afirma: “O
70 Os números que aparecem entre parêntesis após o nome de cada autor deste subitem, e dos subseqüentes correspondem aos anos de nascimento e de morte respectivamente, do referido teólogo.
71 FLORES, Juan J. Op. cit. p. 75. 72 Id. p. 75.
iniciador e animador desse movimento foi Lambert Beauduin, que fez a liturgia dar um salto para diante no plano teológico.” 73
Teólogo empenhado em estreitar a relação entre teologia e liturgia, Beauduin “organizou sessões de liturgia para sacerdotes, para sacristães, para cantores e também para leigos”. 74 Concomitantemente à teologia litúrgica, Beauduin enfatizou a pastoral litúrgica no
que diz respeito à formação, com inúmeras publicações. Pode-se dizer que os escritos de Beauduin são a base para as reflexões que culminaram no Concílio Vaticano II.
6.3. Emanuele Caronti (1882-1966)
Caronti foi o responsável pela entrada do movimento litúrgico na Itália75 através de artigos na Rivista Litúrgica, influenciado principalmente pelas idéias e espiritualidade de Beaduin. Tendo como tema principal a participação e a espiritualidade, Caronti acrescentou às reflexões que já vinham sendo feitas temas mais eclesiológicos, sempre insistindo também no tema da participação dos fiéis na liturgia e no conteúdo do missal romano como sendo a oração oficial e da tradição da Igreja, combatendo assim o pietismo dos manuais populares.
É de se ressaltar a influência de Beauduin nas reflexões da obra de Caronti. O tema da participação cada vez mais ia tomando corpo, “especialmente pela influência do moto próprio de Pio X. Ela irá se manifestar em atos mais concretos e externos de participação cerimonial e musical mais do que em atitudes internas e plenas.” 76
73 Ib. p. 100.
74 Ib. p. 98.
75 Cf. Ib. p. 129. “O movimento litúrgico entrou na Itália com um conteúdo teológico e pastoral muito purificado, foi reflexo fiel das correntes centro-européias e soube adquirir uma índole própria que produziu uma simbiose original.”
6.4. Romano Guardini (1885-1968)
De romano Guardini se diz: “Não é nem arqueólogo, nem historiador, tampouco rubricista, mas teólogo-filósofo da liturgia e, ao mesmo tempo mestre de vida spiritual.” 77
Desenvolveu suas reflexões a partir do Mosteiro de Maria Laach na Alemanha. Suas reflexões em favor da liturgia são mais de cunho filosófico-antropológico.
A posição de Guardini com relação ao movimento litúrgico faz com que o coloquemos no centro do mesmo movimento, do ponto de vista ideológico, ressaltando sua importância. Suas reflexões foram muito importantes, pois naquela época os temas por ele desenvolvidos, como antropologia, questão simbólica, corpo, sentidos, eram vistos como tabu. Ele se posicionou claramente naquilo que chamou “perigos”, no movimento litúrgico: “o liturgismo (hoje conhecido com o termo “panliturgismo”), o praticismo e o diletantismo litúrgico. A esses perigos acrescentou a análise da atitude contrária ao movimento litúrgico: o conservadorismo.” 78 Na sua tentativa de tornar científica a liturgia, dedicou-se ao movimento
litúrgico de forma mais sistemática. 79
6.5. Maurice Festugière (1870-1950)
Este autor foi como que um solitário na caminhada do movimento litúrgico. Isso não significa que seu pensamento não tenha sido útil, pelo contrário o movimento ainda não tinha se deparado com uma reflexão de cunho filosófico da qual ele foi mentor e o fez com
77 Ib. p. 131.
78 Ib. p. 132.
79 Segundo Flores, Guardini apresentou três tarefas que seriam do movimento litúrgico. São elas: 1- “A formação, uma tarefa do tipo escatológico, isto é, favorecer no ser humano o crescimento da capacidade de imagem e de visão.” 2- “Tarefa propriamente litúrgica, isto é restituir aos atos litúrgicos sua singularidade, que é a de ser “forma contemplável” e “ação desinteressada”, na qual se entra atuando.” 3- “Considerar a necessidade de fazer e de esclarecer ainda mais, segundo o caráter da ciência que estuda a liturgia, ou seja, a situação de um modelo epistemológico para a mesma liturgia.” Cf. FLORES, Juan J. Op. cit. p. 135. É interessante ver que as teses de Guardini são típicas de um homem aberto, que viveu no limiar de um tempo de grandes mudanças para a liturgia e para a Igreja.
muita categoria. Seu pensamento não teve continuadores e tampouco precursores, o que fez com que a liturgia ficasse por muito tempo carente de reflexão filosófica da qual foi mentor.
Certamente, Festugière deve ser considerado mais um filósofo que tentou reformular o fundamento da liturgia para a fé cristã e que por isso prestou, embora indiretamente, um serviço precioso à teologia. Nisso, é tão original e precursor que não teve nem apenas seguidores, nem sequer simples interlocutores. 80
Mas talvez na biografia de Festugière, uma das passagens mais importantes foi o embate entre ele o jesuíta Jean Joseph Navatel. Este debate ficou também conhecido como, controvérsia entre jesuítas e beneditinos. Festugière afirmava que a proposta de Santo Inácio de Loyola ao fundar a Companhia de Jesus era de um despertar intimista, individualista e piedoso, fora da liturgia. Isso influenciou a liturgia da Igreja levando a um distanciamento da sua tradição. Também a liturgia ficou relegada a algo de pouca importância, e pouca prática comunitária.
O Jesuíta Jean Navatel, por sua vez, tentou responder a Festugière e criticou o movimento litúrgico dizendo que “os apóstolos do movimento litúrgico tinham a pretensão de ver na participação no culto litúrgico o grande e único meio com o qual se poderia suscitar uma renovação católica e religiosa.” 81
Não se pode negar a grande importância de Festugière para o movimento litúrgico e para a teologia litúrgica e sacramental. Seus escritos, sua reflexão, seu posicionamento foram de grande importância para os desdobramentos da liturgia no Concílio Vaticano II.
80 Ib. p. 140.
6.6. Odo Casel (1886-1948)
A Abadia de Maria Laach foi uma escola de liturgia em que se destacou o grande teólogo alemão, Odo Casel.
Dom Casel desenvolveu seu conhecimento litúrgico sempre buscando interpretar fielmente a doutrina cristã. Casel se ocupou incansavelmente a estudar a liturgia como algo que está além do culto. Ele se perguntava sobre a natureza do culto no cristianismo e como o culto se realiza na Igreja. Ao estudar as línguas antigas, consciente de que a linguagem não pode ser estudada fora do contexto cultural, ele voltou-se para o estudo do mistério.
Partindo do fato de que a “Liturgia” cristã é denominada constantemente mistério, Casel descobre que os componentes essenciais deste termo técnico- cultual são: 1) A existência de um evento primordial de salvação; 2) que este evento tornou-se presente num rito; 3) que o homem de todos os tempos, através do rito realiza a sua universal história da salvação. (...) Por isso Casel define a liturgia como “a ação ritual da obra salvífica de Cristo, ou seja, presença, sob o véu de símbolos, da obra divina da redenção.” 82
O culto cristão foi antes de tudo, a atualização real da obra da redenção sob os véus dos ritos e dos símbolos da liturgia. Os monges de Maria Laach batizaram esta presença da obra redentora nos atos de culto como nome de mistério, uma expressão de conteúdo rico e de história gloriosa na tradição da igreja. Com efeito, quer dizer ação concreta que torna presente uma ação passada.. 83
Este estudo do mistério e seus desdobramentos foram o eixo da obra de Casel sendo ele considerado o filólogo da liturgia e de sua teologia. “Para Casel, o mistério de Cristo alimenta o mistério do culto, para que nós, mediante ele, possamos chegar à realidade do mistério de Cristo.” 84
82 MARSILI, S. In: NEUNHEUSER, Burkhard. et al. Op. cit. p. 94. 83 FLORES, Juan J. Op. cit. p. 160.
Através de Casel a Igreja chega à teologia litúrgica. “Inserindo esta como „mistério cultual‟ no próprio „mistério de Cristo‟, que constitui o ponto de chegada e a realidade mesma de toda a revelação.” 85
Odo Casel foi um teólogo combativo, um pesquisador da teologia no verdadeiro sentido da palavra. Sua teologia é ampla e até chegar ao seu objetivo pesquisou muitos temas. Enfrentou a muitos que combateram sua teologia, mas ele como um pesquisador incansável mostrava sempre o resultado de suas pesquisas, galgando sempre mais um degrau rumo à teologia litúrgica.
6.7. Cipriano Vagaggini (1909-1999)
Grande estudioso da teologia litúrgica, Cipriano Vagaggini foi um teólogo preocupado com a sistematização e metodologia da teologia. Não participou diretamente do movimento litúrgico, como lembra Flores: “Vagaggini não provém do movimento litúrgico nem o apoiou. Longe dos interesses e dos temas mais apreciados por esse movimento, diante do qual se mostrava crítico, foi um típico autor autônomo na liturgia, no âmbito de uma tradição escolástica e de uma reflexão litúrgica.” 86
No entanto não se pode falar ou trabalhar a ciência litúrgica e o movimento litúrgico sem a contribuição deste autor. Sua primeira e grande obra: “O sentido teológico da liturgia” lançada antes do Concílio Vaticano II, foi atualizada por ele próprio após o Concílio. É nesta obra que aparece, segundo Vagaggini, a fórmula principal da liturgia, que afirma: “...todo bem vem a nós do Pai, por meio do Filho encarnado, Jesus Cristo, na presença do
85 MARSILI, S. In: NEUNHEUSER, Burkhard. et al. Op. cit. p. 94. 86 FLORES, Juan J. Op. cit. p. 216.
Espírito santo em nós. E na presença do Espírito Santo, por meio do Filho encarnado, Jesus Cristo, tudo retorna ao Pai.” 87
A luta de Vagaggini para unir liturgia e teologia perpassa sua obra. É de se colocar em ênfase a importância e o método do pensamento de Vagaggini para o estudo da liturgia, não somente no período do movimento litúrgico, mas também hoje, já que continuamos no intento de tornar a liturgia sempre mais, fruto de uma elaboração teológica.
6.8. Salvatore Marsili (1910-1983)
Monge beneditino, este italiano é um dos grandes estudiosos da liturgia. Foi um dos fundadores do Pontifício Instituto de Liturgia de Roma. Como tantos outros autores, Marsili coloca-se como teólogo entre outros dos quais ele usa as suas reflexões. Neste sentido Vagaggini e Odo Casel são seus preferidos. Isso não significa que ele concorde com todas as afirmações desses teólogos. “Foi o único na Itália, antes da Mediator Dei, que apresentou a liturgia em sua dimensão teológica e um dos primeiros a introduzir, depois do Concílio Vaticano II, o discurso sobre a relação liturgia-teologia.” 88
Marsili lutou sempre para que a liturgia tivesse uma identidade própria garantida pela teologia litúrgica. Para ele, segundo Flores,
a liturgia cristã é essencial e existencialmente teologia, porque é sempre Palavra de Deus, atualizada celebrada e constituída na realidade que o rito simbólico adquire. A celebração litúrgica revela-se assim um momento teológico por excelência, enquanto é revelação concretamente recebida e vivida, partindo da idéia de que a teologia consiste no conhecimento da Palavra de Deus e que esta se apresenta nos dois momentos de anúncio e de realização/atualização do mistério de Cristo. Nesse sentido, Marsili considera que a teologia propriamente dita tem de ser explicada como
87 Cf. VAGAGGINI, Cipriano. Op. cit. p. 191. Esta síntese de Vagaggini está classicamente formulada em língua latina, que em sua obra é chamada, “A fórmula resumidora a, per, in, ad no Novo Testamento.”
conhecimento desses dois momentos assumidos historicamente pela Palavra. 89
Sem nenhuma dúvida, Marsili é um dos teólogos mais completos desta fase da liturgia. Sua obra é ampla, detalhada. Mas como nem tudo é perfeito Marsili tem seus limites apontados por vários autores. Um deles, talvez o mais destacado, é de que ele não trabalhou por uma reflexão que dentro da liturgia viesse a ser encarada como objeto de uma ciência litúrgica. Mas nada pode dissolver o consenso de que este grande autor foi um mestre, e que sua obra é um marco na caminhada da teologia litúrgica.