PART 2: INDIVIDUAL CASE REPORTS
4. FIU awareness raising workshops
No capítulo III da SC, sobre a tradução dos textos da liturgia, o principal objetivo a ser levado em conta é sempre a participação consciente e ativa, um dos principais itens da novidade do concílio, já que antes a liturgia era para ser assistida e havia pouquíssima participação da assembléia litúrgica. “A principal razão para traduzir os textos litúrgicos é fomentar a participação inteligente e ativa. Até que ponto os textos traduzidos conseguem realizar isto?” 123
121 Id. p. 124.
122 Ib. p. 124.
123 CHUPUNGCO, Anscar J. Liturgias do futuro. Processos e métodos de inculturação. São Paulo: Ed. Paulinas, 1992. p. 55. Este autor, que é filipino, da Ordem de São Bento, trabalha de forma brilhante o tema da inculturação litúrgica.
Para tratar o assunto da adaptação dos textos eucológicos, necessariamente entraremos na matéria sobre inculturação que é um passo mais profundo do que a adaptação propriamente dita, embora no caso específico desta dissertação, parece ser melhor usar a palavra adaptação, talvez pela forma como a usamos no Brasil, e também porque a adaptação é o primeiro passo rumo à inculturação. 124
A liturgia, historicamente já passou por muitos processos de adaptação e inculturação, desde os inícios, quando o cristianismo surge como um movimento dentro do judaísmo, passando pelas várias fases da história do cristianismo e como ele teve que se adaptar às várias culturas. Estas adaptações incluem aspectos políticos, sociais e culturais.125 “A adaptação litúrgica é problema complexo. Ela envolve a teologia, as fontes cristãs, a história, as legislações litúrgicas, e a cultura”. 126
A aculturação é um passo importante no processo de inculturação. Trata-se de um respeito que deve haver entre as partes.
Nunca é questão de adotar um método com a exclusão dos outros. Até mesmo hoje o método de aculturação, que é encarado às vezes como nada mais do que uma justaposição externa de duas ou mais culturas, pode demonstrar ser útil no estabelecimento do contato preliminar entre a liturgia cristã e a cultura. A aculturação opera de acordo com a dinâmica da interação cultural. Trata-se de um encontro inicial, uma espécie de encontro de „apresentação‟ entre duas pessoas estranhas, cada uma das quais tem interesses para proteger. Esta fase é exemplificada pelo contato inicial entre a forma cristã primitiva do culto e a cultura greco-romana.127
124 Cf. SOUZA, Joaquim Fonseca de. Música litúrgica e inculturação: análise teológico-litúrgica da música
litúrgica inculturada no nordeste brasileiro através de constâncias modais, verificadas no repertório litúrgico do tríduo pascal do compositor Geraldo Leite Bastos. Dissertação (Mestrado em Teologia) Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção. São Paulo: 2008. Em sua dissertação no capítulo II, o autor se dedica a este tema, com muita propriedade e nos ajuda bastante a entender esse assunto tão relevante.
125 CHUPUNGCO, Anscar J. Adaptação. In: SARTORE, D. e TRIACCA, A. (org.) Op. cit. p.1-12. O citado verbete nos dá um panorama histórico da adaptação na Igreja, de forma concisa e completa.
126 Id. p. 11.
127 CHUPUNGCO, Anscar J. Op. cit. p. 34. O autor traz também exemplos de processos em que a aculturação aconteceu na liturgia romana.
Como a nossa matéria é voltada para os textos litúrgicos e sua adaptação pelo Concílio Vaticano II, abordaremos o que a Sacrosanctum Concilium discorre sobre o assunto, analisando este material. É claro que o documento fala de adaptação no sentido geral da liturgia. A palavra adaptação, que é bastante usada no documento conciliar parece ser mais interessante em nossa matéria.
No contexto dos povos do terceiro mundo, surge com muita força a palavra “inculturação”, que é considerada uma palavra nova, como que um prolongamento da palavra adaptação, que nos é mais familiar. Na SC podemos chamar inculturação ao que o documento chama “adaptações mais profundas,” no número 40. “Enquanto SC 38 e 39 prevê que seja o rito a adaptar-se aos grupos particulares, SC 40 considera a possibilidade de admitir elementos culturais no rito romano.” 128
Não podemos esquecer o estilo próprio da liturgia romana oficializada nos séculos IV ao VII, quando foram elaborados os textos clássicos. Tem uma característica sóbria, direta; acena mais para o lado intelectual da pessoa sem muitos rodeios e sem apelações ao emocional. Isso era cultural. Estava visceralmente colocado na cultura daqueles povos que foram dominados pela cultura romana.
O movimento litúrgico, que é tema do capítulo II desta dissertação, e que prepara a reforma litúrgica do Vaticano II, trabalhou para que estas características fossem preservadas. A grande prova da manutenção dessas características está na SC 34 quando diz: “As cerimônias resplandeçam de nobre simplicidade, sejam claras na brevidade e evitem as repetições inúteis; devem adaptar-se à capacidade de compreensão dos fiéis e não precisar, em geral, de muitas explicações.”
De certa forma pode-se dizer que os textos da liturgia na maioria dos países foram traduzidos com o rigor das leis da Igreja para tal, mas as adaptações foram poucas.
6.1. Sobre a língua latina e o vernáculo na liturgia - SC 36
Quando nos tempos atuais vemos alguns fiéis e pastores da Igreja, com gosto para celebrar em língua latina, ficamos atônitos. Embora seja difícil aceitar iniciativas desse tipo, muitas vezes não atinamos que o latim nunca deixou de ser a língua oficial da Igreja. Parece assustar, e as perguntas naturalmente vêm. Mas, o grande avanço do Concílio não foi a mudança para o vernáculo? Sim, e isso está clara e sucintamente expresso na SC 36, parágrafo 1: “Salvo o direito particular, seja conservado o uso da língua latina nos ritos latinos.” Graças a este “direito particular” garantido, e com todas as normas que o Concílio exige para se traduzir os textos litúrgicos, é que podemos celebrar em nossa língua mãe. Celebrar em língua vernácula foi, inegavelmente, uma das grandes novidades do Concílio. Neste ponto importante das mudanças acontecidas na liturgia, constatamos que foi a partir de detalhes pequenos do texto conciliar que surgiram as grandes mudanças.
A tradução de textos na liturgia, a adaptação de textos, que deve ser algo que mostre o que cada palavra quer dizer à cultura que a lê ou ouve, tem sua primeira razão de ser no âmbito da participação plena, consciente, ativa, frutuosa e piedosa, que o concílio faz questão de destacar. 129
O que não é difícil detectar é que todos os resultados da SC foram conseguidos através de muitas lutas, de muitas negociações, porque os ventos contrários também eram muito fortes. Então o que parece ser um pequeno detalhe do texto foi o que trouxe grandes
129 Cf. COSTA, Valeriano dos Santos. Op. cit. p. 35-42. Nesta obra o autor desenvolve uma boa reflexão sobre estes cinco adjetivos mencionados na SC, no capítulo que ele intitula: “Qualificações da participação litúrgica na Sacrosanctum Concilium”.
mudanças e que também nos possibilita ainda hoje, baseados no que a lei abre para a flexibilizar, adaptar e inculturar cada vez mais a nossa liturgia.
6.2. Adaptar a liturgia às culturas - SC 37-40
Quando se fala de adaptação da liturgia, com tudo o que o termo „adaptação‟ carrega de complexidade, necessidade de diálogo e abertura, na SC está resumido nos números de 37 a 40. Ao desenvolver um panegírico sobre esse trecho da constituição conciliar, Chupungco escreve:
SC 37-40 é a carta magna da flexibilidade e do pluralismo litúrgicos na igreja ocidental. Com sucesso ela combinou a tradição litúrgica com a abertura ao progresso litúrgico. Podemos dizer que ela resume a reforma litúrgica do Vaticano II. Ela é a carta magna cuja amplitude de visão alarga os horizontes da Igreja como comunidade universal e defende com firmeza o direito das liturgias locais de existirem. SC 37-40 expressa o reconhecimento da Igreja de sua própria estrutura pluralista, de seu ser romana em tradição e internacional em expressão, de sua unidade doutrinal na diversidade cultural.
130
A simplicidade e a sobriedade da liturgia romana, segundo Chupungco, não podem ser valor para todos os povos. Algumas culturas podem não concordar que essas características da liturgia romana sejam adequadas à sua forma de exaltar a Deus, e achar que seria uma pobreza ou miséria ritual.
De qualquer maneira, quando uma igreja local afirma possuir identidade cultural suficientemente distinta da identidade da liturgia romana clássica, a questão da adaptação precisa ser abordada. A recusa em adaptar-se poderia representar rejeição do progresso legítimo. 131
Isso mostra o quanto a questão da adaptação é complexa e merece ser tratada com carinho, levando em conta as culturas locais e a forma como cada cultura se coloca diante do que é supremo. Este tema da simplicidade e sobriedade que caracterizam a liturgia romana,
130 CHUPUNGCO, Anscar J. Op. cit. p. 16. 131 Id. p. 17
mostra que essas características podem denotar fragilidade quando o assunto é adaptação e inculturação, justamente por não contemplar com a força que mereceria, a visão que algumas culturas têm de um Deus .
6.3. Criatividade textual e unidade substancial
Todo o tema da criatividade litúrgica, que é também criatividade textual, passa pelo que no documento conciliar se concentra na preocupação com a preservação da integridade substancial do rito romano, como está expresso na SC 38. As normas estabelecidas pela Igreja para que as publicações sejam realizadas sempre devem ser fiéis à edição típica dos livros litúrgicos. Embora pareça ser algo muito fechado, Chupungco nos ajuda a ver neste processo de adaptação dos textos, possibilidades de flexibilização:
A Santa Sé propõe às conferências episcopais que façam em tais livros as mudanças que elas estão livres para introduzir nos rituais particulares. As mudanças adotadas pelas conferências são confirmadas pela santa Sé e depois inseridas nos rituais locais como traços especiais. Mudanças desse tipo não alteram a unidade substancial do rito romano. Elas simplesmente mostram que no esquema dessa unidade há espaço para a flexibilidade. 132 Os textos eucológicos romanos passaram da liberdade para a formalização. Mas isso não significa que a criatividade textual não exista mais. Essa criatividade que muitas vezes brota de uma espontaneidade, não significa uma improvisação irresponsável, mas sim uma abertura para o novo e sua riqueza.
A criatividade textual significa que novos modelos de formulários são elaborados de acordo com o padrão linguístico e os traços retóricos do povo. O conteúdo teológico não será fornecido exclusivamente pelo formulário romano, mas pode ser extraído de outras tradições eucológicas ou inspirar-se nas conclusões da teologia litúrgica contemporânea. 133
132 Ib. p. 15. O grifo é nosso. 133 Ib. p. 44.
O texto acima nos ajuda a ver no processo de criação de textos, um olhar para o novo de cada grupo cultural, e que eles têm algo a oferecer sempre à liturgia e à teologia.
6.4. Os perigos da não criatividade litúrgica
Muitas vezes o que se constata atualmente na Igreja, são liturgias pouco participativas, frias, e sem criatividade. Esta realidade que envolve a participação da assembléia, envolve também a participação do ministro. Há certa apatia ou pouco interesse dos ministros no que se refere à criatividade e adaptação. Parece ser mais cômodo não adaptar, mesmo porque não ferir a unidade substancial exige estudo e atualização teológica e litúrgica, e isso se torna pesado para alguns.
A dinamicidade da vida, do mundo e da natureza exige que tudo seja dinâmico. Se a criatividade litúrgica não acontece, corre-se o risco de entrarmos num ostracismo, e a consequência disso seria um isolamento, ameaçador de qualquer vivacidade.
Chupungco nos lembra que, usando o bom senso, mesmo a Igreja proibindo qualquer pessoa de mudar o que está estabelecido ( SC 22, § 3), isso não exclui mas incentiva a criatividade do ministro. Essas adaptações já estão previstas nos livros litúrgicos com as chamadas “adaptações feitas pelo ministro”. O Vaticano II retoma certa liberdade. 134
A reforma do Vaticano II reintroduziu boa dose de liberdade na liturgia, mas compete ao ministro fazer bom uso dela. A regra de ouro é a de que o ministro deveria ter aguçada percepção do que as normas litúrgicas permitem e profunda compreensão da situação pastoral ou, em outras palavras, sólido juízo prático. 135
Cabe a todos: ministros ordenados, ministros não ordenados, agentes de pastoral e todos os batizados e batizadas que são a Igreja, contribuir para que a criatividade aconteça.
134 Cf. Ib. p. 29-30.
7. Exemplos de inculturação litúrgica
Tomando os exemplos de inculturação na liturgia, constata-se que os grupos culturais de países que propuseram e propõem inculturação da liturgia romana em suas culturas, são grupos marcados por forte identidade cultural.
Anscar Chupungco apresenta três exemplos de proposta de inculturação. O rito indiano, o rito zairense e o rito filipino. Os dois primeiros, aprovados, o terceiro ainda não aprovado. 136
A partir desses exemplos fica claro o quanto é difícil processos como esses, pela força que o rito romano adquiriu e como ele se impõe. Mesmo em países onde o rito foi aprovado pela Igreja, muitas vezes o rito romano suplanta o rito alternativo, já que mesmo sendo aprovado um novo rito, o rito romano não é extinto naquele ambiente.