PART 2: INDIVIDUAL CASE REPORTS
3. Joint Inspections of corruption cases by PCCB and DPP
O Papa Pio XII destaca-se neste momento da história da Igreja e da liturgia com a encíclica Mediator Dei, publicada no dia 20 de novembro de 1947. “A encíclica, a primeira da história completamente dedicada ao tema litúrgico, é o documento do magistério mais importante - no âmbito litúrgico - de todo o período pós-tridentino.” 91
Dada a importância da encíclica Mediator Dei, para a liturgia e para história da Igreja, ela é considerada um marco histórico. O movimento litúrgico e a própria liturgia católica em suas reflexões e estudos devem ser vistos, antes e depois da Mediator Dei.
7.1. Contexto histórico-político e características da encíclica Mediator Dei
Após as crises decorrentes do período da segunda guerra mundial, a liturgia não podia negar o impulso sem volta, dado pelo movimento litúrgico, que já vinha desde muitos
89 Id. p. 249.
90 A interrogação neste subitem quer chamar a atenção do leitor para a realidade das intenções do lançamento da Mediator Dei. Ao mesmo tempo que consagra os avanços do movimento litúrgico, é clara a intenção de controlar também estes avanços.
anos. A Mediator Dei é, por assim dizer, uma mescla de louvor ao movimento litúrgico e seus estudos teológico-litúrgicos, mas também uma solene e oficial chamada de atenção para os avanços que o mesmo movimento produziu no sentido de dizer a todos que a autoridade eclesiástica estava atenta a tudo que acontecia. 92 Segundo Constantino Koser, através da encíclica, o papa, em matéria de liturgia não diz nada de novo.
Pela leitura da encíclica, repetida e atenta, há de se perceber que Pio XII em toda parte se empenha em não dizer ou prescrever coisas novas, mas fazer ver simplesmente o que já foi proposto como doutrina e prescrito como preceito em toda esta matéria que é liturgia ou com liturgia interfere. 93 O Papa Pio XII é de uma grande vivacidade quando no texto da encíclica exalta as novidades dos estudos litúrgicos, aprova-as, sem esquecer em nenhum momento de que a Igreja e seu magistério estão atentos aos desvios e aos exageros. E com uma linguagem polidamente política escreve:
Todavia, enquanto pelos salutares frutos que dele derivam, o apostolado litúrgico nos é de não pequeno conforto, o nosso dever nos impõe seguir com atenção esta “renovação” na maneira pela qual é concebida por alguns, e cuidar diligentemente para que as iniciativas não se tornem excessivas nem insuficientes. 94
Em meio às mudanças suscitadas pelo movimento litúrgico, o papa Pio XII enfrentava outras mudanças no âmbito da Igreja, quer em questões teológico-litúrgicas, quer em outras áreas, também no que concerne aos métodos utilizados. Portanto, certo temor de novidades poderia ser explicado pela conjuntura de então, o que leva o grande teólogo dominicano Yves Congar a afirmar:
92 KOSER, Frei Constantino. A Encíclica “Mediator Dei” de Pio XII. In: Revista Eclesiástica Brasileira, Vol. 10, Fasc. 3, p. 553-595. Petrópolis: Vozes, 1950. O documento mais completo e bem escrito encontrado nesta pesquisa sobre o tema, na época. O artigo foi publicado como suporte para o segundo Congresso Brasileiro de Teologia realizado naquele ano, em São Paulo. O autor faz um detalhado estudo do documento pontifício, analisando cada item de forma séria, crítica, com acurado rigor científico quando ainda sequer havia sido feita a tradução do documento para a língua portuguesa.
93 Id. p. 558.
94 Mediator Dei 6. In: Documentos da Igreja - Documentos de Pio XII (1939-1958). São Paulo: Paulus, 1999. p. 291.
O grande papa Pio XII não era certamente contrário às mudanças mas queria conservar um controle estrito delas e deter a iniciativa. Além disso, se ele realizava, no âmbito interno das realidades católicas, certas aberturas reformistas (exegese, liturgia), mantinha uma atitude extremamente prudente nos setores nos quais os católicos pudessem se encontrar com os outros. Finalmente, no plano teológico, não somente se mostrava atento em manter um controle rigoroso, mas também sensível à inquietude suscitada por alguns métodos de pesquisa. 95
O movimento litúrgico fez surgir, principalmente na Europa, reflexões, experiências novas, estudos teológico-litúrgicos que de certa forma necessitavam de acompanhamento por parte da autoridade eclesiástica. Portanto assim escreve o papa:
Ora, se de uma parte verificamos com pesar que em algumas regiões o sentido, o conhecimento e o estudo da liturgia são às vezes escassos ou quase nulos; de outra, notamos, com muita apreensão, que há algumas pessoas muito ávidas de novidades e que se afastam do caminho da sã doutrina e da prudência. Na intenção e desejo de um renovamento litúrgico esses inserem muitas vezes princípios que, em teoria ou na prática, comprometem esta santíssima causa e freqüentemente até a contaminam de erros que atingem a fé católica e a doutrina ascética. 96
Mas numa encíclica de tão grande porte, tanto no volume escrito, como no conteúdo e também tendo em vista o contexto em que foi escrita, há de se exaltar a coragem e as disposições de mudança do pontífice, dando continuidade a uma reflexão que iniciara no início do século XX com Pio X e o movimento litúrgico. A aparente ausência de mudança na encíclica está permeada do resultado do trabalho incansável de tantos que se dedicaram ao movimento litúrgico, fato que o papa jamais poderia esquecer ou negar.
Nenhuma doutrina, assim nos parece adquire nova qualificação teológica por meio deste pronunciamento do Magistério, e nenhum preceito adquire obrigatoriedade nova, maior ou menor do que já tinha antes. Nenhuma controvérsia doutrinal fica resolvida que não estivesse já resolvida antes da encíclica. Apenas Pio XII, com mão de mestre e com esta delicadeza tradicional do Magistério de não impedir evoluções e não antecipar
95 CONGAR, Y. C. In: FLORES Juan J. Op. cit. p. 285. 96 Mediator Dei 7. Op. cit. p. 291.
descobertas, ajunta em toda a parte os pontos realmente assentes e as posições razoavelmente sustentáveis. 97
7.2. Divisão da encíclica
Considerado um documento longo, a encíclica se desenvolve da seguinte forma: uma introdução, uma primeira parte: “Natureza, origem, desenvolvimento da liturgia”; Uma segunda parte: “O culto eucarístico”; uma terceira parte: “O ofício divino e o ano litúrgico”; uma quarta parte: “Normas práticas pastorais” e um “Epílogo”.
7.3. Conteúdos principais da encíclica e ausências
Na obra “A Celebração na Igreja”, organizada por Dionísio Borobio, os autores Basurko e Goenaga apresentam os temas mais aperfeiçoados da encíclica e que segundo eles mostram os conteúdos principais do documento papal. São eles:
a) A teologia da liturgia como culto público integral do corpo místico de Cristo, da cabeça e dos membros, e como presença privilegiada da mediação sacerdotal de Cristo-cabeça. b) A espiritualidade da liturgia, a dimensão interior e profunda do culto da Igreja: “Estão inteiramente equivocados aqueles que consideram a liturgia como o mero lado exterior e sensível do culto divino ou como cerimonial decorativo; e não o estão menos aqueles que pensam ser a liturgia o conjunto de leis e preceitos com que a hierarquia eclesiástica configura e ordena os ritos”. c) O equilíbrio teológico, não oportunista entre: panliturgismo e subestimação do culto; piedade objetiva e subjetiva; comunitarismo e individualismo; celebração e culto da eucaristia; progressismo e conservadorismo. 98
Da mesma forma, na obra acima citada, os mesmos autores levantam pontos ausentes e ou passiveis de serem aperfeiçoados.
A ausência do desdobramento adequado da doutrina sobre o sacerdócio dos fiéis, fundamento da participação litúrgica. Uma teologia por vezes inacabada, de tendência extrínseca, dos signos simbólicos com que a liturgia é celebrada. A compreensão parcial do adágio lex orandi, lex credendi, visto apenas como reflexo da fé da Igreja e não como, ao mesmo tempo,
97 KOSER, Frei Constantino. Op. cit. p. 559.
amadurecimento desta, já que oramos de acordo com a maneira como cremos e também cremos segundo o modo pelo qual oramos. A apresentação talvez ambígua do ano litúrgico, no tocante ao seu sentido mistérico e ao seu sentido moralizador. 99
As ausências sentidas na encíclica mostram antes de tudo, que nada é perfeito, e também deve se levar em conta o contexto político-eclesial do momento. Mas também se deve reconhecer o que há de positivo detectando os avanços.