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Esta seção tem como objetivo identificar as perspectivas teórico-metodológicas que matizam o currículo enquanto objeto da produção científica dos líderes dos grupos de pesquisa. Para Lopes e Macedo (2007, p. 14), “[...] analisar a produção do campo do currículo inclui tomar como objeto o conhecimento produzido por sujeitos investidos da legitimidade de falar sobre currículo”.

Considero que os líderes de grupos de pesquisa são as pessoas que hegemonizam a produção do conhecimento sobre currículo no Brasil, influenciando a formação de novos pesquisadores, por isso, conquistaram legitimidade para falar sobre esse disputado campo. Todavia, analisar a produção científica do campo significar compreendê-lo como um espaço permeado por relações de poder e de interesses em torno da autoridade científica (GARCIA, 1996).

De acordo com Garcia (1996), as lutas travadas no campo científico têm como propósito a propriedade de uma natureza específica de capital, qual seja, a da autoridade científica, que reveste o sujeito de poder para impor os critérios que definem o que é e o que não é científico no interior de um determinado campo de conhecimento.

Nesse sentido, são as relações de poder dominantes no campo que influenciarão a prevalência de determinados aportes teórico-metodológicos (LOPES, MACEDO, 2007). Ou seja, os pesquisadores que ocupam posições de prestígio no campo têm autoridade científica para falar em nome do campo, para legitimar determinadas abordagens sobre o currículo.

Na concepção da escrita deste capítulo perguntei: Quais as perspectivas teórico- metodológicas que matizam o currículo enquanto objeto da produção científica dos líderes dos grupos de pesquisa?

A produção científica dos líderes dos grupos de pesquisa tem sido publicizada em vários canais de comunicação e divulgação do conhecimento científico, a saber: livros, capítulos de livros, artigos científicos, comunicação oral interativa.

Neste relatório, focalizei a produção veiculada nos artigos científicos, por considerá- los importantes veículos de divulgação da pesquisa. Os periódicos científicos dispõem de um corpo de avaliadores respeitados que conferem aos artigos autoridade e confiabilidade. A aceitação e aprovação por parte dos avaliadores dos artigos representa o consentimento da comunidade científica relativamente aos mesmos (MUELLER, 2000).

A análise realizada está dividida em seis subseções: na primeira, abordei a produção científica dos líderes dos grupos de pesquisa sobre currículo; na segunda, o periódico científico como meio de circulação dessa produção; na terceira, as temáticas abordadas nos artigos dos líderes dos grupos de pesquisa; na quarta, os aportes teóricos privilegiados pelos líderes dos grupos de pesquisa; na quinta, os aportes metodológicos e, na sexta, as considerações iniciais da seção

3.1.APRODUÇÃO CIENTÍFICA SOBRE CURRÍCULO

A pesquisa realizada por Souza (1993) – concernente à produção intelectual brasileira sobre currículo no período de 1980 a 1992 – teve como fonte livros e artigos publicados em periódicos no país. Os artigos arrolados para análise foram selecionados nos principais periódicos de circulação nacional na área de Educação, excetuando-se os artigos voltados exclusivamente para conteúdos curriculares (disciplinas específicas). A autora classificou os artigos em duas grandes categorias, de acordo com o conteúdo e as temáticas abordadas: (1ª)

reflexões de natureza teórica sobre currículo e (2ª) debate em torno de questões atinentes ao currículo.

Nas conclusões, a autora destaca que:

[...] a produção sobre currículo, a partir dos anos [19]80, é quantitativa e qualitativamente diferente da produção das décadas anteriores. Em se tratando dos interlocutores, percebe-se que essa é uma produção acadêmica, uma vez que a maioria dos autores são professores universitários. Acresce, ainda, que parte dessa produção está vinculada a Programas de Pós-Graduação [...] (SOUZA, 1993, p. 125).

Ela destaca que há uma ruptura, principalmente, nas abordagens utilizadas no tratamento do tema, assim como uma multiplicidade de discursos produzidos acerca do currículo o que pode ser verificado tanto nos artigos quanto nos livros.

Ocorre um deslocamento expressivo de temas e abordagens. Os manuais de currículo, contendo modelos e sugestões voltados para a elaboração e planejamento do currículo – dirigido, portanto, a informar uma prática – são substituídos por uma literatura crítica problematizadora. [...] Nisto reside, pois, a significativa diferença do olhar dirigido ao campo do currículo. A contribuição das teorias críticas enraizadas no marxismo e neomarxismo de certa forma ‘revolucionaram’ os estudos nesta área, colocando o currículo em um novo patamar epistemológico. (SOUZA, 1993, p. 125).

Na produção veiculada por meio dos periódicos, Souza destaca o que chamou de “diversidade e fragmentação teórica e discursiva”; do mesmo modo, percebeu o que Silva

(1990) já apontava, isto é, a diluição do currículo nas discussões e debates acerca das questões políticas e sociais sobre a Educação, vejamos:

São poucos os artigos que tratam do tema de forma sistemática; a maioria, ao contrário, situa-se no âmbito do debate. Contudo, o volume dessa produção denota que a perda do status da área, sucumbida pelos debates e analises políticos-sociais sobre a educação, não foi acompanhada pela diminuição da produção. Ao contrário, a questão do currículo passou a ser mencionada mais e mais nos diversos discursos educacionais mesmo que de forma superficial e tangencial (SOUZA, 1993, p. 126).

A autora evidencia a existência de um deslocamento nas produções sobre o currículo, secundarizam-se as preocupações com o aspecto técnico-metodológico em detrimento das questões de natureza política, econômica e sociocultural, o que contribuiu para ampliar de forma significativa as perspectivas de análise do currículo.

A pesquisa realizada por Souza (1993) parte das produções veiculadas nos periódicos de circulação nacional, diferentemente desta tese, que se propôs a inspecionar a produção dos líderes de grupos de pesquisa no campo do currículo, tendo como fonte o Currículo Lattes desses pesquisadores. Portanto, há uma inversão, na estratégia de acesso aos artigos, daí a diferença no quantitativo de textos selecionados28.

No mês de maio de 2014, examinei os Currículos Lattes dos pesquisadores para identificar o quantitativo de artigos científicos publicados em periódicos e quais abordavam a temática Currículo. Ao todo, foram publicados 1.258 (um mil duzentos e cinquenta e oito) artigos. Destes, porém, apenas em 437 (35%) seus autores discorreram sobre currículo os demais focalizaram outras temáticas.

A seleção dos artigos pertencentes ao campo do currículo teve como critério a utilização da palavra currículo no título do artigo, embora reconheça que, em alguns casos, somente o título não era suficiente para estabelecer a relação entre os artigos científicos e o campo do currículo.

No quadro 24, apresento o quantitativo de artigos científicos por grupos de pesquisa, discriminando essa produção por líderes, indicando o total de artigos publicados e destes quantos abordam temas relacionados ao currículo.

Quadro 27: Distribuição dos artigos científicos por grupos de pesquisa

GRUPO DE PESQUISA LÍDERES E VICE-LÍDERES ARTIGOS (TOTAL) CURRÍCULO ARTIGOS