o Acessibilidade: códigos e legislação sobre limitações de acesso no contexto de ambientes construído (v.g. rampas, plataformas elevatórias, informação e sinaléticas em múltiplos formatos, et cetera);
o Design Universal: soluções de desenho esteticamente consistentes e economicamente acessíveis para ambientes construídos e equipamentos que possam vir a servir uma definição mais alargada de utilizador (v.g. maçanetas, sensores, cabos e botões adaptados a todos os tipos preensão e de controle motor, esquerdo ou direito, et cetera);
Embora distintos no que toca à sua definição e modos de operar, estes três conceitos acabam muitas vezes por se misturarem. Em múltiplas ocasiões, aquilo que é apresentado como um instrumento, ou tecnologia, de apoio, devido ao contexto e frequência de utilização, acaba por se converter num bem de consumo. Em suma, o factor determinante para a sua transmutação é a sua taxa de disseminação aliada à aparência da normalidade. Se a sua utilização representar a norma, investir-se-á no aspecto comercializável da sua aparência e na sua acessibilidade em termos financeiros,302 até que a integridade entre o sujeito
(corpo) e a ferramenta (tecnologia) seja inquestionável.303 Caso contrário, o corpo e a tecnologia permanecerão, no alfabeto social, desarticulados.
No que toca a tecnologias de apoio, em particular a integração ou aplicação de componentes artificiais em seres humanos – devido à sua natureza híbrida descritos, no meio científico, como cyborgs304 – as possibilidades recaem sobre dois tipos essenciais de ferramentas:
o Aumento ou aperfeiçoamento (enhancement);
o Restabelecimento (restoration), como é o caso de qualquer tipo de mecanismo que recrie funções, movimentos e sensações que, por algum motivo, se tenham perdido ou estejam cronicamente ausentes;305
302Idem.
303 Hendren, S., op. cit., p.57.
304Abreviatura para a expressão “organismos cibernéticos”. Um cyborg é um ser composto tanto por
matéria orgânica como por matéria biomecatrónica. O termo foi utilizado pela primeira vez por Manfred Clynes e Nathan S. Kline na década de 1960.
Porém, em parte, estas abordagens salientam a crença de que a identidade ou condição específica do indivíduo se deve alterar por forma a satisfizer as exigências do ambiente, retirando assim o ónus da parte do designer, do arquiteto ou da entidade política que concebe e gere o espaço.
“A disponibilidade de conforto para alguns corpos pode depender do trabalho de outros, e do fardo da dissimulação.”306
No seguimento do que se acabou de referir, seria irresponsável não mencionar algumas correntes de pensamento que, aliadas aos campos da ética, da filosofia e da biologia, se têm vindo a desenvolver na análise e compreensão da interdependência – e possível inevitabilidade – entre a tecnologia e o ser humano.
4.3.2.O“
MAIS(
OU MENOS)
QUE HUMANO”
A abordagem transformativa em relação à condição humana que se acaba de referir pode ser personificada pelo transhumanismo. Quando articulada a esta base ideológica, a medicina perde o seu cariz terapêutico e converte-se na prática do aperfeiçoamento ou da hibridação. Autorizado pelas vastas potencialidades da engenharia genética – implantes nanotecnológicos, biotecnologias ou inteligência artificial – o transhumanismo idealiza um futuro próximo em que, em jeito de um
Admirável Mundo Novo, o acaso da evolução biológica se extingue: todos os
constrangimentos genéticos e biológicos, físicos e intelectuais – intrínsecos ao ser humano – passam a ser (tecnologicamente) suprimíveis.307 Por outras palavras, a forma de pensar o futuro que vigora entre os transhumanistas assenta na premissa de que a espécie humana, na sua forma atual, não representa uma configuração – forma e limites – selada e sujeita a um perímetro inalterável; retrata apenas uma fase de um processo contínuo de transformação, cuja possibilidade de aceleração se presenteia hoje através de ferramentas como a ciência e a tecnologia.
A realidade sugerida pelo transhumanismo é uma realidade que é incompatível com a natureza humana do presente e por isso é descrita como uma realidade pós- humana, intersectando-se desta forma com o ramo do pós-humanismo. Como
306 Tradução livre. Citação original: “The availability of comfort for some bodies may depend on the
labor of others, and the burden of concealment.”Ahmed, S., Living a Feminist Life, p.123.
ramo filosófico e social, o pós-humanismo, na sua génese, desafia noções históricas como as de “humano” e “natureza humana”. A sua pretensão centra-se no desenvolvimento de conceitos que se adeqúem aos ritmos do conhecimento contemporâneo, que é não estático: a realidade tecno-científica.308
Independentemente do posicionamento ético, amíude controverso309, das soluções propostas pela visão transhumanista em relação à evolução e ao progresso, da aplicabilidade incerta das conjeturas em que recai e mesmo da impossibilidade de difusão acelerada, à escala global, do acesso a novas tecnologias de erradicação de doenças ou prolongamento da vida humana, ambos os movimentos acabam por indirectamente suscitar uma polivalência de reflexões sociais e culturais cuja pertinência excede, em grande medida, a especificidade do seu campo fenomenológico. A título de exemplo, a desconstrução crítica da condição humana em que o pós-humanismo incorre levanta questões de uma pertinência visionária. Noções arcaicas do que significa, na sua acessão mais visceral, ser-se humano – observáveis desde os primórdios da humanidade como resultado da tendência do ser humano para a instintiva categorização e compartimentação de tudo aquilo que o rodeia e cuja existência lhe é externa – têm servido, em matéria histórica, para oprimir e marginalizar todo aquele que, por algum motivo, não se conforma com os limites do normal, humanamente falando.
Epistemologicamente relevante para as dinâmicas (ou operações) de poder, este sistema de categorização subjetiva da realidade – em parte Aristotélico, em parte evolutivo –, enfim ultimado no processo de linguagem, manifesta-se sempre através de binómios, ou em relações essencialmente dualistas: homem/mulher, natureza/cultura, público/privado, cidade/campo, humano/besta (transumano, animal ou divino). Platão, na sua obra República, ilustra esta propensão do intelecto ao sugerir que pessoas com deficiências, numa república ideal, “deveriam ser abandonadas num local em que mais ninguém se lembrasse delas”;310 Platão entende a condição destes sujeitos como algo menos que humano e, desta forma, insinua que as suas identidades são incompatíveis com a sua utopia do espaço social.