As noções de destruição e violência sobre as quais este subcapítulo se tem vindo a debruçar servem, seguramente, um dos múltiplos propósitos desta investigação: explorar as feições, formas e valores que os espaços arquitectónicos assumem quando derivam de processos criativos carentes de uma reflexão inaugural sobre a aplicação da inclusividade. Além disso, tal análise auxiliar-nos-á a comprovar que o itinerário a percorrer por forma a que se alcance a libertação metodológica dos constrangimentos e da influência impostos pela exclusão arquitectónica deve incluir a desativação, e nalguns casos destruição, tanto dos processos como da linguagem que a sustentam e à qual dão corpo.
Convém também relembrar que a inclusividade, no contexto desta investigação, é mais do que a democratização da arquitetura ou da complacência para com a diversidade; é a criação de uma nova forma de governo, uma ainda não inteiramente contemplada. Parafraseando Meir Berliner226, “quando os opressores
me dão duas opções, eu escolho sempre a terceira”. A reforma dos antigos modelos, em paralelismo com a reforma governamental proposta por Machiavelli
226Prisioneiro argentino em Treblinka que se insurgiu contra as forças da SS, durante a Segunda Guerra
(1996) em Discourses on Livy, deve, todavia, reter o semblante das formas antigas – se se pretende que seja aceite e capaz de satisfazer todos os usuários – mesmo que a sua génese seja completamente distinta dos processos anteriores. Quando e como deverá acontecer esta reforma? Seguramente a par da configuração desta nova arquitetura, mais ou totalmente inclusiva, mediante a qual uma nova concepção de cidade e de forma de fazer política surgirá, interdependente do novo paradigma construtivo.
Este prognóstico depende inteiramente da convicção de que a exclusão é um sistema de domínio militar, jurídico, administrativo, cultural, social e político – como todos os exemplos mencionados até este ponto podem ilustrar – e, portanto, face a tal constatação, é-nos permitido inferir que a Arquitetura – uma vez que, por natureza, organiza, estrutura e hierarquiza o espaço e os comportamentos dos corpos e mentes no espaço – compactua com o sistema de exclusão do qual ela própria é proveniente. A vontade de ruptura perfilada pelo “carácter destrutivo” emanado pelas nossas construções talvez traduza não só o reconhecimento colectivo de que o presente carece de algo como também a necessidade estrutural de transição: entre um estado de frustração, decepção e desconforto – ou seja, de exclusão – e um outro, de plena inclusão.
Uma hipótese de reforma ética e técnica, sugere Benjamin, é a simples cedência de espaço – e por isso, também, de poder de ação – para que algo inesperado possa acontecer. Esta proposta é de certa forma coincidente com a noção de “inoperatividade” elaborada por Giorgio Agamben.227 O que Agamben propõe é que se capacite a Arquitetura de “potencialidade”; de um dinamismo contemplativo apenas paralelo à essência humana, que, ao contrário da “ausência de ser”, significa a flexibilidade e generosidade para “ser” em potencial.228
Segundo o preceito da inoperatividade, aquilo que é desativado na Arquitetura são as metodologias, objetivos e linguagem através dos quais a sua prática se revela exclusiva e excludente. Por isso, como prática contextual libertadora, a Arquitetura
inoperativa entende a desativação dos dispositivos que representam a exclusão e a
exclusividade mas não a sua destruição.
227 Boano, C., A radically inclusive architecture? A whatever architecture, pp.200-213. 228 Idem.
Esta anulação do programa operativo do espaço na qual a sua autodestruição não é admitida coincide também com o que Gayatri Chakravorty Spivak229 descreve como o processo de desconstrução. A desconstrução é, a par da correspondente dissolução, também uma ação de construção que só é possível através de uma intimidade crítica com o espaço, oposta à análise (indiferente, desinteressada e distante).230 Nesse sentido, a inoperatividade é, mais do que um exercício crítico, um procedimento projetivo.
A criação de um novo uso é apenas possível mediante a desativação do uso anterior; ao se tornar inoperativo, a sua universalidade original e potencialidade vaga são restabelecidas. Ao aplicar o termo da profanação à esfera do design e da arquitetura, Agamben propõe que a prática de projeto seja devolvida aos utilizadores – tanto dos objetos como dos espaços – e que o uso comum das coisas seja restaurado, recusando dessa forma a lógica capitalista, excludente, imperial e neoliberal responsável pelos ambientes construídos do presente.231
O campo de concentração de Fossoli, em Carpi, na Itália, é um dos exemplos nos quais a subversão do uso de uma estrutura se sobrepôs à possibilidade da sua destruição. Dois anos após o fim da Segunda Grande Guerra, o padre Zeno Saltini instaurou, sobre a sombra do uso perverso para o qual o campo tinha sido inicialmente concebido, um orfanato. O quartel militar foi transformado em múltiplas residências e numa escola. Da torre de vigia fez-se uma igreja e no terreno em torno da estrutura foram plantadas árvores, hortas e jardins.232
Ao invés das “desolações e danos ambientais”233 que a destruição poderia ter gerado, a Arquitetura foi re-apropriada, a sua matéria reutilizada e o seu uso reconvertido. O caso de Fossoli é justificável, principalmente, porque retrata a solicitação inevitável de sobrevivência no contexto precário do pós-Guerra. A profanação da sua intenção inicial neutralizou, de certo modo, o seu poder, sem que se incorresse no perigo do esquecimento que a destruição compreenderia.
229 Crítica e teórica indiana nascida em Calcutá em 1942.
230 Paulson, S., Critical Intimacy: An Interview with Gayatri Chakravorty Spivak. 231 Boano, C., op. cit., pp.200-213.
232 Petti, A. et al., op. cit., p.22. 233 Idem, p.20.
Para além da destruição e da re-apropriação, existe ainda a preservação do objeto e a sua absoluta inoperatividade, em que os lugares de violência ficam suspensos no tempo, entre aquilo que foram, ou simbolizaram, – a destruição – e aquilo a que nunca se prestaram – a inclusão; uma espécie de museus de interpretação do
inexplicável. Quando a memória de um evento é apagada, ou quando, como nos
casos derivados da destruição, os artefactos operativos se extinguem, a sua presença na nossa história (ou consciência) colectiva anula-se.