207 Teles, P., A cidade das (i)mobilidades: Manual Técnico de Acessibilidade e Mobilidade para Todos,
operários ou bairros empobrecidos208 e b) acelerou a degradação dos espaços
públicos orientando-os exclusivamente para o automóvel.209
Figura 18: Edifício entre as ruas 900 Macomb e 1234 Hastings St. (à esquerda) e moradores no
passeio (à direita) entre 1479 e 1481, no bairro Black Bottom, Detroit. Consultado a 3 de Outubro de 2017: < http://www.freep.com/story/news/local/michigan/detroit/2017/02/26/black-bottom- detroit-photos/98421140/ >
Figura 19: Um rapaz no passeio perto da rua 973 E. Lafayette St. (à esquerda) e mulher na rua 963
E. Lafayette St. (à direita), em 1949, no bairro Black Bottom, Detroit. Consultado a 3 de Outubro de 2017: < http://www.freep.com/story/news/local/michigan/detroit/2017/02/26/black-bottom-detroit- photos/98421140/ >
Na cidade de Detroit, nos Estados Unidos da América, durante o processo de renovação urbana de 1954, a construção da autoestrada I-375 e do bairro residencial Park Lafayette, de Mies van der Rohe (Fig. 20), arrasou o bairro de Black Bottom (Figs. 18 e 19) e, por conseguinte, dispersou, isolando e deslocando, a comunidade negra que então aí residia. Tal procedimento foi justificado, evidentemente, pelo facto de que a apropriação, por parte do Estado, de
208 Schindler, S., op. cit., p.1966. 209 Teles, P., op. cit., p.18.
propriedade privada com a finalidade de “desenvolvimento económico” era absolutamente legal.210
Nestas condições, o lugar da comunidade é destruído, dispersando-se por “territórios fracturados, locais de circulação de capital, trabalho e comunicação”.211 Neste processo de periferização, ou de mimetização da lógica económica global, as grandes cidades convertem-se em centros e nelas coexistem outros centros, onde a fixação de pessoas é incompatível com as exigências do capital.
Figura 20: Bairro residencial Park Lafayette, de Mies van der Rohe, 1959. Consultado a 15 de
Setembro de 2017: < http://rudygodinez.tumblr.com/post/81491011686/mies-van-der-rohe- lafayette-park-housing-project-1959 >
Medidas como aquelas que foram gradualmente descaracterizando a cidade de Detroit e dispersando as suas comunidades nativas resultam, como foi já mencionado no curso desta investigação, de saberes adquiridos previamente no contexto colonial – saberes que haviam sido consumados e executados nesse mesmo contexto, servindo agora as forças políticas das ex-potências coloniais sobre os seus próprios habitantes. A sua ativação era reveladora, segundo Eaton (2002), de uma corrente de pensamento que pretendia desenvolver possibilidades
210 Cohen, C. E., Eminent Domain After Kelo v. City of New London: An Argument for Banning
Economic Development Takings, pp.547-48.
utópicas das cidades, uma vez que a motivação central de cada nova proposta de arquitetura era a realização de visões idealistas de modos de viver e de organização das sociedades, do progresso económico e da supressão daquilo ou daqueles que, no contexto da proposta, se considerava serem acessórios.
A ordenação da vida das populações domésticas citadinas no contexto Europeu, com especial enfoque nas periferias das cidades, é denunciadora também da mentalidade de confinamento, vigilância, segregação, militarização e sectarização, indissociável de todos os dispositivos, modelos, técnicas e instituições protótipo: a) facilitação da monitorização através do espaço; b) planificação; c) categorização e d) edificado.212
Esta sucessão de processos, ao qual Graham dá o nome de “novo urbanismo militar”, conecta a segurança e a doutrina militar das cidades ocidentais com aquelas pertencentes às periferias coloniais e alimenta-se, sugere também Graham, das desigualdades que se foram acentuando com o processo de globalização – e, também elas, ciclicamente, motor de pobreza. Exemplos concretos de técnicas utilizadas em periferias coloniais e transportadas para os espaços urbanos ocidentais são as políticas shot to kill, desenvolvidas para conter os riscos de atentados suicidas em Tel Aviv e Haifa, e que têm sido postas em prática pelas forças policiais das cidades ditas Ocidentais, por vezes com consequências controversas.213
A difusão de tais táticas – facilmente observáveis nos espaços urbanos que nos rodeiam, cujos estilos e modelos sabemos serem importados de umas cidades para as outras, de uns países para os outros, numa ordem descendente que se conduz através dos níveis de desenvolvimento e poder económico – pode ser vista como progresso, na medida em que revela flexibilidade e capacidade de adaptação de soluções encontradas num determinado espaço-tempo a circunstâncias distintas e distantes, espacial, semântica e temporalmente. Adversamente, a execução destas medidas é invariavelmente delegada a entidades cujos propósitos – mesmo quando os meios disponíveis para os alcançar não se coadunem com os valores de justiça
212Graham, S., op. cit.
213Um dos casos mais chocantes foi o de Jean Charles De Menezes, cidadão brasileiro de 27 anos, morto
a tiro no metro de Londres, em 2005, pela Polícia Metropolitana de Londres. A Polícia estava em busca dos terroristas que teriam tentado bombardear Londres no dia anterior, duas semanas após o ataque de 7 de Julho ter vitimizado mortalmente 52 pessoas, estando por isso legalmente autorizada a proceder à metodologia shot to kill.
social, sustentabilidade e dignidade humana – são os do progresso neoliberal, do crescimento económico e da globalização.
O poder de subversão e perversão dos valores que sustentam as práticas urbanas está, na maior parte das vezes, à disposição de processos pouco democráticos e pouco transparentes: os seus circuitos não estão sujeitos a um informado e integral escrutínio democrático.214 É deste atrito, desta discrepância entre a ética e a moral e os conteúdos ideológicos manifestados pela mão da arquitetura que surge a violência, que não é mais do que uma desobediência subversiva e voluntariamente destrutiva face aos paradigmas políticos convencionalmente perpetuados pelos desígnios construtivos.
O destino das cidades quando a coesão social se desintegra – muitas vezes por conjunturas naturais como o “fluxo da existência humana, e o seu impacto político e tecnológico no espaço”215 – tem como culminar a incoerência, a desarticulação
e, nas suas mais extremas circunstâncias, a violência. Todos os outros níveis de exclusão de indivíduos ou grupos, devido a características que definam as suas identidades, são também violentos e motores de violência, lacunas linguísticas e semânticas dos espaços que obstruem uma comunicação sincera.
Se a maneira como uma comunidade ocupa um espaço representa claramente as suas políticas, as políticas, por sua parte, podem ter o mesmo efeito na maneira como um espaço é ocupado, e, consequentemente, evidenciar quais as relações de poder favorecidas. Na opinião de al-Sabouni, a arquitetura como reflexo da fixação humana pode facilmente converter-se no seu inverso, em que a fixação humana pode ser o reflexo da própria arquitetura, cujo poder de civilizar ou de destruir depende inteiramente das nossas escolhas colectivas e da vontade de compreensão da realidade das cidades e periferias contemporâneas.
214Harvey, D., op. cit., p.37.
3.3.
O
“C
ARÁCTERD
ESTRUTIVO”
Para Vitrúvio, assim como para Alberti, a arte de construir identificava-se não só pela competência e o conhecimento técnicos que exigia do projetista mas também por valores éticos e morais – inconciliáveis com a ausência de valores que a destruição da matéria compreende. Todavia, no campo filosófico, e relembrando ainda a premissa de al-Sabouni, tem-se constatado que a Arquitetura tem vindo a assumir um papel central entre as múltiplas forças destrutivas e aniquiladoras a que se refere Walter Benjamin em 1931. Na opinião de Benjamin, a integridade da arquitetura está comprometida: os valores por ela transmitidos conduzem à vontade da sua destruição e não à eliminação dessa vontade. No entanto, com algum optimismo, Benjamin crê também que esta destruição é não só iminente como também necessária.216
Walter Benjamin apercebeu-se da iminência do “carácter destrutivo” por ocasião de uma restruturação urbana encomendada a Martin Wagner, na década de 1920. Ao passo que em Berlim o filósofo vislumbrava uma vibrante emancipação cultural, encimada pelos projetos urbanos experimentais desenvolvidos por Wagner, nela reconhecia também condições sociais regressivas, traduzidas pelo estado de degeneração em que se encontravam as casas de Mietskaserne e todas aquelas onde, por norma, se fixava o proletariado, ou os indivíduos pertencentes a estratos económica e socialmente mais desfavorecidos.
Face à coexistência de tais experiências urbanas contraditórias, Benjamin foi confrontado com a possibilidade de que estas circunstâncias, viabilizadas pelo desenvolvimento capitalista, estivessem na iminência de colidir de uma forma destrutiva, acabando por, no tumulto da sua própria ruína, demolir as forças que as teriam, originalmente, facilitado. Este processo de ruptura com a ordem estabelecida proposto por Benjamin – e oferecido pelo conceito da inclusão face a um paradigma de exclusão – não é, todavia, inédito no transcorrer da história da arquitetura (não podendo ser, certamente, o último).