• No results found

4. Metodekapittel

4.10 Reliabilitet og validitet

Chegou o momento de refletir sobre as experiências adquiridas ao longo dos sete primeiros encontros, compartilhar os portfólios e avaliar as práticas socioducativas desenvolvidas no “Ateliê biográfico de formação profissional”, como espaço-tempo de formação continuada na Escola Judicial. Como questiona Josso (2004, p. 52), “Bom, agora já sei o que foi vivido, conheço a experiência que tive, ela vai me servir para quê?”

A análise da experiência vivida no Ateliê mostra que, aos poucos, cada participante narrou sua experiência, falou de seus aprendizados, das transformações no seu modo de pensar, sentir e do seu fazer profissional. É possível afirmar que o Ateliê biográfico possibilitou contribuições ainda impensadas para os oficiais de justiça envolvidos no processo biografização, como prática de formação de si. Para Dominicé (2000),

A formação para o adulto pode ser considerada como um processo marcado pela dialética entre dois movimentos, um de desprendimento das relações com o mundo de sua educação e outro de afirmação social de sua eaxistência pessoal. O processo de formação se aproxima assim da dinâmica construtiva da identidade adulta (DOMINICÈ, 2000, p. 110).

Se o processo de formacão do adulto pode ser entendido como afirmação de sua identidade, o Ateliê biográfico, ao colocar cada participante em interação consigo mesmo, com os outros e com o mundo do trabalho, no seu fazer cotidiano, possiblitou a cada um pensar a sua identidade como Oficial de justiça e seu papel na instituição sob a forma de diferentes registros. Mobilizados pela abordagem biográfica, que lhes permitiu uma reflexão crítica sobre o percurso na vida e o seu trabalho na atividade jurisdicional, as interações no grupo e consigo mesmo ajudou a compreender melhor suas escolhas e tomar consciência do seu modo de fazer, conhecer, conviver e ser.

Assim, no primeiro momento do último encontro, a proposta consistiu em retomar o portfólio, elaborado durante o Ateliê biográfico, com o intuito de socializar as produções por meio da exposição dos trabalhos no coletivo. No segundo momento, avaliamos os resultados obtidos e desenhamos juntos as possibilidades de projetos de formação continuada para o futuro.

No registro fotográfico, a seguir, observa-se como estava organizada a sala e como foram disponibilizados os portfólios a permitir uma melhor interação entre eles na dinâmica de apresentação do trabalho no coletivo. A cada narrativa compartilhada, se obeserva a descoberta de um sujeito singular-plural com suas experiências, pertenças, sensibilidades, descobertas e projetos. Os oficiais de justiça organizaram seus portfólios de maneira dinâmica e criativa, neles guardaram fotos, rascunhos, poemas e as produções que realizaram no Ateliê e que consideraram significativas. A elaboração do portfólio ainda lhes propiciou a autoavaliação das experiências adquiridas ao longo dos oito encontros realizados no “Ateliê biográfico de formação profissional”.

Figura 13 - Exposição dos Portfólios, durante o último encontro do “Ateliê biográfico de

formação profissional”, nov.2009 ( Acervo da pesquisadora).

Os depoimentos dos participantes acerca da experiência vivida no “Ateliê biográfico de formação profissional” apresentam muitas possibilidades de compreensão desse espaço-tempo de formação, em torno do qual se organiza este estudo, e apontam favoravelmente para as práticas socioeducativas das narrativas e dos grupos reflexivos desenvolvidas no Ateliê:

Este trabalho de auto-reflexão leva-me a ressignificar minha existência, iluminando meu trajeto, libertando-me de dicotomias ideológicas, entraves culturais que procuram normalizar, homogeneizar nossa subjetividade, deixando-a cativa do mundo para reproduzir o “óbvio” (DREYFYS, 2009). A oportunidade de lançar luz sobre o que foi vivio e poder regatar fatos que ficaram guardados no baú de nossas vidas ou arquivados nas prateleiras empoeiradas da nossa história e partir daí reescrever os capítulos da nossa autobiografia como um livro (MATEUS, 2009).

Para mim, estes momentos, significam muita coisa. Primeiro, representa a coroação de um sonho; resultado de um grande esforço, não somente meu, mas de todos aqueles que participaram direta ou indiretamente da concretização do meu sonho – ser um Servidor Público Federal, numa área privativa de Bacharel em Direito. Significa também muita responsabilidade, pois quanto mais alto o cargo, mais alta a cobrança. Não devo fazer o meu trabalho de “qualquer” jeito, pois a sua boa ou má execução sempre trará consequencias para as partes envolvidas, para o TRT 21, para mim mesma ou para a categoria de oficiais de justiça (ALEGRIA, 2009).

Que bom participar destes momentos, que satisfação ouvir os relatos dos colegas; que riqueza de detalhes; que maravilha o lado mostrado: na escrita, verdadeiros escritores; e, na oralidade, quantos oradores, que se tivessem

outras oportunidades seriam „famosos‟ pelas histórias narradas para o grupo

(NANI, 2009).

Conceder esse espaço de pesquisa-formação na Escola Judicial foi acima de tudo um recurso para assegurar aos Oficiais de justiça a escuta sensível do que sentiam e pensavam sobre suas experiências profissionais e existenciais, propiciar-lhe o aprofundamento do companheirismo entre pares e favorecer a construção conjunta de novos modos de atuarem no exercício da execução de mandados e atos processuais.

A avaliação conjunto do Ateliê nos permitiu chegar ao entendimento de que podíamos continuar a tarefa de refletir, dialogar e contar o vivido, pois muito ainda tínhamos para narrar uns para os outros.

Assumir o grupo reflexivo e as narrativas biográfias como práticas socioeducativas na Escola Judicial é compreender que somos presença no mundo, com o mundo e com os outros. Ao explicar o que considera uma prática educativa, Paulo Freire (1986) afirma que é imperativo que o processo de formação promova a autonomia, a partir da consciência crítica da presença no mundo com os outros, por meio da práxis, da intervenção no mundo para transformá-lo qualitativamente na direção da invenção da existência humana, conforme destacado a seguir:

É preciso que, ao contrário, desde os começos do processo, vá ficando cada vez mais claro que, embora diferentes entre si, quem forma se forma e re- forma e quem é formado forma-se e forma ao ser formado. É neste sentido que ensinar não é transferir conhecimento, conteúdos, nem formar é ação pela qual um sujeito criador dá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado (FREIRE, 1986, p. 20).

É inegável que o envolvimento de cada participante nas diferentes atividades propostas encontra-se na base do ato de transformação das representações de si e do trabalho, essa tomada de consciência de si tornou-se cada vez mais evidentes durante os últimos encontros do Ateliê. As discussões no Ateliê mobilizaram os participantes da pesquisa a dar início ao planejamento do “Encontro dos oficiais de justiça”, com o tema Saúde e Trabalho:

Oficiais de justiça. Motivados pelos resultados da pesquisa-formação, trabalharam juntos no planejamento, organização e realização do evento ao longo do ano de 2010. Em 2011, realizaram o evento com apoio da Associação dos Oficiais de Justiça Avaliadores Federais do RN – ASSOJAF-RN. O Encontro reuniu aproximadamente 300 (trezentos) Oficiais de justiça do Poder Judiciário, com representantes de todos os estados brasileiros. As temáticas discutidas centraram-se nas perspectivas de solução dos problemas atinentes à profissão, no campo social, político, econômico e da saúde, propiciando conhecimentos e novas perspectivas. Naquela ocasião, elaborou-se um documento intitulado a „Carta de Natal‟ (Anexo II), com encaminhamentos aos órgãos do Judiciário, a fim de implementar projetos, pesquisas e intervenção específica para assegurar qualidade de vida a esse grupo de servidores.

Face às condições de trabalho existentes, as entidades de classe ressaltaram, por meio da „Carta de Natal‟, a importância de realização de um programa de formação continuada que deve ir além das orientações técnicas, mas que, acima de tudo, contribua para o reconhecimento das experiências vividas no trabalho e possibilite ressignificar os conhecimentos tácitos e transformá-los em saberes legitimados pelas práticas profissionais, objetivando a eficiência dos atos processuais.

Outro resultado importante do Ateliê foi o fortalecimento da imagem profissional de si enquanto oficial de justiça, sujeito e autor de sua própria história, sempre aberta a novas possibilidade de viverem juntos outras aprendizagens continuadas. Nesse sentido, é importante destacar o fato de que os oficiais de justiça aprenderam a se situar como sujeito histórico e social, a ressignificar o sentido do trabalho judicante, a escrever o projeto de si profissional, a partir do compartilhar o vivido com os seus colegas e dos novos sentidos atribuídos às experiências existenciais e profissionais.

Apesar de os membros do grupo trabalharem juntos há mais de 10 (dez) anos, aproximadamente, eles foram se descobrindo por meio das histórias de vida narradas no grupo, o que os levou a demonstrar que sua disponibilidade de escuta era reduzida no ambiente do trabalho, pela emergência das atividades no cumprimento da execução de mandados, bem como da dinâmica das atividades laborais que reduz a possibilidade de diálogos e de encontros entre os oficiais de justiça, como afirmou a oficiala de justiça Alegria (2009).

Importantíssimo quando se interage com os colegas nestes encontros, pois

possibilita resgatar conhecimentos que, na força da atividade, você se „isola‟.

A formação nesta modalidade é uma oportunidade de enriquecer cada um com os valores de outrem. Socialmente, quando se cumpre a ordem, o oficial tem que ter, além do conhecimento jurídico, o saber do mundo, é de suma importancia (ALEGRIA, idem).

Neste percurso, para compreender a composição e tessitura do “Ateliê biográfico de formação profissional”, das práticas socioeducativas das narrativas autobiográficas e do grupo reflexivo permite afirmar que a proposta de uma abordagem (auto)biográfica vivenciada no ambiente de trabalho, permitiu depreender a confluência de 06 (seis) propriedades intrísecas da dinâmica do grupo reflexivo, como discutirei no próximo capítulo.

Capítulo 5

„Operários‟, Tarsila do Amaral (1933)

“Cada dia traz sua alegria e sua pena, e também sua lição proveitosa.”

6. GRUPOS REFLEXIVOS: UMA PRÁTICA SOCIOEDUCATIVA NA FORMAÇÃO